segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Love and Witch Craft - As Bruxas e a Feitiçaria na obra de Lovecraft


A Nova Inglaterra essa região antiga dos tempos coloniais da America produziu três dos mais conhecidos autores do Horror: Edgar Allan Poe, Stephen King, e H.P. Lovecraft. Todos eles, grandes a seu próprio modo, são celebrados e admirados por fãs mundo afora.

Dentre eles Lovecraft talvez seja o menos famoso, contudo ele é o mais representativo para os escritores que exploram exaustivamente seu estilo, suas criações e seus conceitos. Talvez seja por conta da sua prosa, talvez seja pela mitologia particular que se desdobra em centenas de entidades e criaturas abomináveis, mas é bem possível que muito de sua obra se deva a tradição da Nova Inglaterra de ser um lugar único quando o assunto é folclore, paisagens sinistras e história doentia. Todos esses fatores, aliás, reverberam com força na obra de Lovecraft.

E claro, um passado marcado por paranoia, bruxaria e magia negra não poderia ficar de fora.

Na célebre novela "O Caso de Charles Dexter Ward" (The Case of Charles Dexter Ward), um jovem estudante de Providence investiga sua árvore genealógica e descobre a existência de um ancestral maligno que escapou da Caça às Bruxas de Salem em 1692. Mas ao contrário dos inocentes enforcados no vilarejo, o alquimista Joseph Curwen, vilão da história, é tudo, menos inocente. Curwen é um feiticeiro que comunga com as trevas e reverencia Yog-Sothoth, que lhe ensina várias magias úteis em sua busca por poder. Entre os feitiços, o "Ritual de Ressurreição através dos Sais Essenciais" é o mais tenebroso, uma vez que permite trazer outros bruxos de volta à vida. O próprio Curwen se beneficia do feitiço quando é revivido pelo seu descendente e decide tomar seu lugar. 

A multidão de camponeses que frusta os planos de Curwen no século XVII, parece muito com os colonos furiosos que exigem providência para a questão das "meninas afligidas" de Salem. Aliás, o método de lidar com o feiticeiro, enforcando-o, incendiando sua casa e salgando suas terras parece condizente com o procedimento de justiça do período.  

Em "A Casa Proibida" (The Shunned House) um homem na Providence nos tempos coloniais é suspeito de praticar bruxaria:

“O filho de Etienne, Paul, um sujeito amargo cuja conduta errática provavelmente provocou os tumultos que erradicaram toda sua família, era uma fonte de especulação; e embora Providence jamais tenha compartilhado do pânico por bruxaria de seus vizinhos puritanos, era sabido através de rumores que as orações dele não eram sussurradas no momento correto e nem voltadas para as entidades adequadas".


Na mesma história existe a suspeita de que a criatura enterrada no porão e que enseja o surgimento de uma detestável matéria fungóide, seja um vampiro. A Nova Inglaterra colonial teve seu período de temor de vampiros, tanto que por força de lei, algumas pessoas suspeitas chegaram a ser sepultadas em ataúdes lacrados, enquanto outras, no auge do pânico tiveram o coração trespassado por estacas ou a cabeça decepada. Tudo para evitar seu ressurgimento na forma de mortos vivos.

Em outro conto intitulado "O Inominável" (The Unnamable), dois amigos (sendo um deles o alter ego de Lovecraft, o intrépido Randolph Carter) exploram um antigo cemitério colonial, e entre lápides e tumbas do período encontram uma monstruosidade lendária que habita uma velha casa decrépita. O horror embora não possa ser compreendido através dos sentidos humanos - sendo portanto inominável, possui uma aparência que remete aos antigos mitos dos demônios servidos pelas bruxas - uma entidade dotada de chifre e cascos fendidos.

O mesmo Randolph Carter se vê às voltas com um horror sobrenatural em um ambiente semelhante no conto curto "O Relato de Randolph Carter" (The Statement of Randolph Carter). Dessa vez, Carter permanece na superfície enquanto um colega se aventura nas profundezas de túneis construídos na época colonial. Enquanto o colega relata os horrores que encontra nesses corredores abandonados Carter tenta manter o controle, mas este enfim é arruinado quando algo não humano responde suas perguntas.

Já em "O Horror de Dunwich" (The Dunwich Horror) existe toda uma alusão aos rituais e sinistras missas negras realizadas em homenagem a entidades das trevas que aos olhos dos caçadores de bruxas puritanos, seriam encarados como manifestações do próprio demônio. Da mesma maneira, o cabal do pequeno vilarejo de Dunwich sugere ser bastante similar aos grupos de feiticeiras tão temidas pela boa população de Salem.


E é claro, temos "Sonhos na Casa da Bruxa" (Dreams in the Witch House) que é de longe a história de Lovecraft mais influenciada pela caça às bruxas. O conto relata como o estudante de matemática Walter Gilman aluga um quarto em uma velha casa que um dia foi o lar da bruxa Keziah Mason. Mason, se evadiu dos julgamentos de Salem desenhando estranhos símbolos na parede de sua cela que abriram um portão pelo qual ela escapou da sentença de morte.

A mulher é descrita em detalhes como um clássico estereótipo das bruxas coloniais: velha, carcomida, sinistra e absurdamente maligna. Seus modos são perversos e sua alma nefasta se reflete na aparência.   

“A expressão na sua face era de horrenda maldade e exultação, e quando ele despertou conseguia lembrar daquela voz coaxante; persuasiva e ameaçadora". 

Mais do que a mera aparência, Keziah Mason possuía um rato que lhe servia como animal familiar. A crença de que bruxas possuíam animais mágicos que as auxiliavam nos malefícios é muito antiga e encontra eco nas crenças dos puritanos coloniais. Algumas mulheres no auge da Caça às bruxas foram acusadas de serem feiticeiras apenas porque eram donas de gatos pretos, ou ainda porque próximo de suas moradias foram vistos sapos cobertos de verrugas, corujas ou ratos de pelo negro. O familiar de Keziah, o rato com face humana que atende por Brown Jenkin também encontra correlato na literatura do período que atestava serem esses familiares tão próximos de suas senhoras que recebiam nomes, afagos e presentes em troca de sua lealdade.

Finalmente, temos mais dois elementos medonhos que são condizentes com as lendas de bruxaria de Salem: o Homem Negro e um suposto Livro de Assinaturas.


O Homem Negro é uma das representações favoritas dos puritanos para o demônio. A figura do homem de pele negra - não de raça negra, visto que não tinha traços negros, mas de pele tão escura quanto o piche, era aterrorizante nos tempos coloniais. Visto como um padroeiro dos sabás e dos círculos de bruxaria, o Homem Negro em alguns casos vestia um manto comprido que escondia seu corpo - e os supostos cascos fendidos no lugar dos pés. Quando ele se movia, entretanto, o som de cascos podia ser ouvido. Em outras representações surgia nu, símbolo máximo da transgressão sexual puritana, com o membro ereto, pronto para a cópula com as feiticeiras. O Homem Negro era um patrono da magia, ele surgia para oficializar os rituais, para ensinar sua doutrina e para receber os tributos pelo seu auxílio.

Já o temido livro, aludido por vários Doutores Coloniais especialistas em Feitiçaria, era um enorme tomo encadernado com capa preta e cheio de páginas carcomidas - uma alusão perversa da Santa Bíblia. Nele, as bruxas coletavam a assinatura escrita com sangue daqueles que firmavam com as trevas os tão temidos pactos. Ter o nome compilado nesse livro validava o contrato firmado com o demônio, uma confirmação da mais infame das barganhas.

Mas apesar de ser identificada como uma bruxa, Lovecraft logo traçou uma clara distinção entre Keziah Mason e as mulheres acusadas de conluio diabólico. A personagem do conto utiliza noções de hipermatemática para abrir portais e assim viajar entre planos e mesmo através do tempo. Ela não é nem de longe uma mulher ignorante que professa superstições, mas sim uma brilhante cultista das trevas.   

Além disso, ela não venera o Demônio da mitologia judaico-cristã, mas Deuses de Mundos Distantes e criaturas alienígenas de um passado remoto. O fato de uma dessas entidades ser chamada de "O Homem Negro" e ter a aparência similar ao demônio puritano, parece uma daquelas piadas cósmicas que Lovecraft gosta de citar. O tipo de zombaria que uma entidade sardônica como Nyarlathotep, o Caos Rastejante, poderia cometer. Lovecraft não vai muito além nesse tema, ele não explica exatamente quem, ou  que, é o Homem Negro, mas deixa claro que ele não é o odiado "Inimigo de Deus".

Da mesma maneira, o Tomo Negro, o vil Livro do Demônio se torna o Livro de Azathoth:

"Ele deveria encontrar o Homem Negro, e os acompanhar diante do Trono de Azathoth no Centro do Caos Primordial. Isso foi o que ela disse. Ele devia assinar com seu próprio sangue o Livro de Azathoth e assumir um novo nome secreto…"


Lovecraft compara o Mal Supremo ao Sultão Demoníaco Azathoth, sua criação mais apocalíptica que habita os recônditos do universo. Curiosamente o Caos Primordial não é maligno, sendo obtuso e totalmente acéfalo, conforme ele próprio definiu. Qual o interesse dele ter a alma de seres humanos, se é que tal conceito existe, permanece em aberto. Novamente, me parece uma simples piada, o tipo de travessura do Caos Rastejante.

Lovecraft incorporou muitas das lendas sobre Bruxaria da Nova Inglaterra aos seus contos, o que não chega a ser surpreendente. Como autor de horror, seria um desperdício ignorar o rico folclore de sua terra natal.  O que pode ser surpreendente para muitos é que Lovecraft acreditava que bruxas fossem reais - ao menos até certo ponto.

Para todos os efeitos, Lovecraft se definia como um ateu materialista. Não, ele não acreditava em céu ou inferno, em entidades sobrenaturais travando uma luta pelas almas humanas ou em magia negra. Contudo, ele acreditava que havia um fundo de verdade por trás das lendas a respeito de feitiçaria.

Em uma de suas cartas para um de seus muitos correspondentes, ele escreveu:   

"Alguma coisa, de fato, ocorria abaixo da superfície, eventualmente, pessoas podem realmente ter tropeçado em experiências concretas que confirmavam tudo o que eles haviam ouvido a respeito de bruxas. Em resumo, estudiosos reconhecem que através da história, um Culto Secreto de degenerados devotos da natureza, existiu na Europa Ocidental e recrutou furtivamente aldeões e indivíduos decadentes de origem mais seleta, para compor suas fileiras…” (H.P. Lovecraft, Selected Letters, 1929 – 1931, 1971, p. 178, edited by August Derleth and Donald Wandrei)


De acordo com Lovecraft, este culto pagão um dia constituiu a religião dominante na Europa, mas ele foi forçado a desaparecer quando grupos "mais refinados, introduziram noções de um politeísmo mais poético". Povos como os gregos, os romanos e os nórdicos introduziram seus deuses e desarticularam o que existia antes, cultos baseado na natureza e nos elementos. Finalmente, quando esses povos também cederam espaço para outro conjunto de dogmas - dessa vez o cristão, foi a vez desses deuses desapareceram. 

A fé cristã logo se tornou dominante e veio substituir todas as crenças antigas, taxando os cultos pagãos e os deuses clássicos como entidades malignas que deveriam ser evitadas. Quanto aos seus praticantes, a eles cabia a alcunha pejorativa de bruxas e feiticeiros.

Lovecraft não acreditava que esses antigos praticantes de rituais pagãos, as bruxas, vieram para a Nova Inglaterra acompanhando os colonos que se fixaram no Novo Mundo. Mas ele acreditava que certos conhecimentos pagãos transmitidos ao longo dos séculos poderiam ter feito seu caminho e viajado para a colônia e se fixado especificamente em Salem:

"Da minha parte - eu duvido da existência de uma cabala, mas com certeza penso que certas pessoas que viviam em Salem, podiam ter um conhecimento pessoal desse culto, e talvez até fossem iniciados. Suponho que alguns de seus rituais e fórmulas tenham sido discutidos em segredo, e talvez até praticados por alguns poucos degenerados envolvidos… A maioria das pessoas enforcadas provavelmente de nada sabiam, ainda assim acredito que existisse algo sórdido que não esteve presente em nenhum outro caso de bruxaria na Nova Inglaterra." (H.P. Lovecraft, Selected Letters, 1929 – 1931, 1971, p. 181, edited by August Derleth and Donald Wandrei)

Embora essa teoria possa parecer estranha hoje em dia, Lovecraft não era a única pessoa a acreditar nessas ideias. Elas eram muito debatidas no início do século XX. Lovecraft citava os trabalhos de Margaret Murray para embasar esse ponto de vista.


Murray foi uma proeminente arqueóloga e egitologista britânica com um profundo interesse em folclore e bruxaria. Seu importante livro "The Witch Cult in Western Europe", publicado em 1921 afirmava que pessoas acusadas de bruxaria na Europa Medieval e também nas Colônias do Novo Mundo, eram de fato indivíduos que guardavam conhecimento das religiões pagãs e que sobreviveram a Cristianização da Europa.

O livro de Murray recebeu diferentes avaliações quando ele foi publicado. Os críticos achavam que ela havia interpretado as narrativas de alegadas bruxas e distorcido registros históricos para encaixar suas teorias. O público em geral, no entanto, apreciou o seu ponto de vista e a própria Enciclopédia Britânica pediu que ela escrevesse um ensaio a respeito de bruxaria. Lovecraft parecia corresponder a teoria. Com certeza, um estudioso como ele, teve acesso ao livro.

Historiadores contemporâneos aceitam algumas teorias, entre as quais a existência de conhecimentos ancestrais impregnados e difundidos em várias culturas, mas a maioria dos estudiosos é contrário a noção de que realmente existissem cultos de bruxas atuando na Europa ou na Colônia de Salem.

E mesmo que um culto dessa natureza jamais tenha existido, Lovecraft achou a ideia perfeita para seus planos de relacionar o conhecimento pagão ancestral com o Mythos de Cthulhu. Isso apenas acrescentou uma dose extra de estranheza ao já estranho folclore da Nova Inglaterra.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Meta Extra #4 - Portas para a Escuridão: Cinco Cenários para Jogadores e Mestres Iniciantes


Por Lief Neema

O Financiamento Coletivo de Chamado de Cthulhu 7ª está a todo vapor no Brasil. Se você ainda não participou, não perca tempo e entre agora em https://www.catarse.me/chamado_de_cthulhu


Doors to Darkness: Five Scenarios for Beginning Keepers (Portas para a Escuridão: Cinco Cenários para Guardiões Iniciantes, em uma tradução livre) é uma antologia de cenários para a Sétima Edição de Chamado de Cthulhu que visa introduzir novos jogadores e guardiões no universo dos Mitos de Cthulhu e das obras sombrias de Lovecraft.

Apesar de sugerir cenários para iniciantes, eles são repletos de tensão, mistérios e terror. O clima é bem pesado, com cenas que incluem rituais e criaturas horrendas que podem tirar o sono de qualquer investigador de primeira viagem. Porém, ela visa pessoas com pouca ou nenhuma experiência em Chamado de Cthulhu (talvez, até mesmo, que nunca tenham jogado RPG, mas que gostem de experiências de horror e terror, seja no cinema ou literatura).

As aventuras apresentam conceitos importantes sobre a mecânica do sistema de Chamado de Cthulhu e sobre o universo dos Mitos de Cthulhu. Também, os cenários, apesar de terem um tom macabro, não são tão letais para a mente e os corpos dos investigadores, como costuma acontecer (tá, alguns deles podem ser letais, se os investigadores não tomarem as devidas precauções).

Em cada um dos cenários, o Guardião encontrará sessões destinadas a ele, sobre como criar os próprios cenários, motivar os jogadores e manter o ritmo de um jogo investigativo. Se você é um Guardião veterano, verá que não é difícil usar essas aventuras com grupos experientes. Elas me ajudaram bastante com os novos conceitos e regras da nova edição. Ter esse incrível compilado de aventura no Brasil (estamos quase batendo a meta!) será algo magnífico.

A primeira parte do livro (Pesadelos Compartilhados: Dicas de como guiar e jogar Chamado de Cthulhu, em uma tradução livre) foi escrito por nada menos que Kevin Ross, um experiente em Chamado de Cthulhu, que possui aventuras clássicas aclamadas, publicadas na década de ’90. O capítulo é curto, mas fornece conselhos sobre como criar investigadores e unir eles em um cenário, criar ganchos de aventuras, aprender regras, criar mistérios em um ambiente de investigação, interpretar e criar personagens do guardião, fala sobre a atmosfera das obras de Lovecraft e como trazer isso para o jogo, etc., que são informações imprescindíveis para Guardiões de primeira viagem (e para alguns experientes também).

Apesar de jogar Chamado de Cthulhu há algum tempo, os conselhos foram uma renovação de conceitos e uma nova visão sobre coisas que eu pensava conhecer tão bem.

Os cenários são preparados para serem jogados de forma separada, mas não é difícil encontrar elementos em comum que possam conectar as aventuras, criando uma pequena campanha — o que é uma experiência bem válida como preparação para campanhas maiores, em especial, para os Guardiões que estão chegando agora e querem sentir a emoção de uma caçada ao sobrenatural com as grandes e clássicas campanhas. 

O livro é incrivelmente ilustrado e bem escrito e não perde em nada para títulos clássicos e aclamados do Chamado de Cthulhu (com um layout e diagramações incríveis). As artes de página inteira focam em algum momento importante das aventuras e são ricas em detalhes. Algo magnifico e horripilante.

"The Darkness Beneath the Hill" (A Escuridão sob o Monte, em uma tradução livre)

Esse é o título do primeiro cenário, escrito por Christopher Smith e se passa na década de 1920 (aliás, todos eles se passam nesse período, que é o ponto alto das obras de Lovecraft, mas são facilmente adaptáveis para outras eras — eu adaptei facilmente para a era moderna). A aventura é localizada em Providence, Rhode Island e os investigadores são convocados por um amigo que, durante a forma de sua casa, descobriu alguns túneis no subsolo da residência. Ele deseja que os personagens o ajudem a explorar as cavernas para descobrir qual a sua origem e objetivo, porém o amigo desaparece misteriosamente durante o processo.

Eu me senti nas minhas primeiras mesas de Chamado de Cthulhu, quando comecei a jogar (a narrar, na verdade), pois a aventura tem uma estrutura bem básica (um amigo convoca os personagens para uma investigação, alguém desaparece, um local estranho precisa ser explorado, há coisas estranhas nesse local). Eu sinto essa aventura mais como um cenário de exploração do que uma investigação. Durante o jogo há poucas pistas a serem descobertas e eles precisarão dar os próximos passos praticamente no escuro, descobrindo na sorte (e no susto) o que realmente está acontecendo. Mas isso não tira o mérito da aventura que é repleta de suspense.

"Genius Loci"

Essa aventura se passa no Manicômio Municipal de Denver e foi escrita por Brian Courtemanche. Um escritor exótico e amigo dos investigadores se interna voluntariamente no local, para se recuperar de uma extensiva pesquisa em busca do sobrenatural. Já lá dentro, ele encontra algo fora do comum e começa a se comunicar com seus amigos, informando que algo naquele local não está certo. Apesar do alerta através de cartas, ele não detalha o que realmente ocorre por lá, mas frisa que algo medonho está acontecendo.

Esse cenário possui bastante investigação e mistério, com um tom um pouco diferente da primeira aventura — um primeiro passo para a organização e preparação de pistas, bem como para os jogadores sentirem o clima e a importância de tomarem as decisões certas.

O ponto alto do terror e tensão desse cenário é o fato de se passar em um manicômio, o clima do jogo é sempre rodeado de agouros em um ambiente sinistro.

"Servants of the Lake" (Servos do Lago, em uma tradução livre)

Está é uma investigação clássica entre os cenários Lovecraftianos, onde alguém desaparece de forma estranha e é preciso averiguar o que está acontecendo. É o cenário mais curto do livro, podendo até mesmo ser concluído em uma única sessão.

A investigação do desaparecimento segue macabra em um motel com indivíduos sinistros (uma boa oportunidade para os Guardiões treinarem a interpretação e vozes estranhas), o que fornece boas oportunidades de interação com personagens do guardião. Ou seja, é um cenário mais pé no chão, focado no suspense, com um bom desfecho e cenas intensas.

"Ties That Bind" (Laços Que Unem, numa tradução livre)

Escrita por Tom Lynch, esse é o quarto cenário da coletânea. A viúva Enid Carrington, que tinha um marido realmente rico, convoca os investigadores pois algum vândalo causou estragos em sua bela mansão. Ela quer descobrir os responsáveis, para que eles sejam punidos. Porém, durante a obra de reforma do local, os operários descobrem alguns objetos misteriosos.

É um cenário simples, mas com uma história profunda e envolvente pois o antagonista da história é realmente interessante. É o tipo de investigação onde é importante prever os próximos passos do antagonista. Um cenário perigoso e intenso que pode mexer com as emoções dos jogadores.

"None More Black" (Nada Tão Negro, em uma tradução livre)

Essa aventura se passa na famosa Arkham e se inicia com a morte de um estudante da Universidade Miskatonic. Um rapaz Jovem, Walter, tinha um futuro brilhante pois era conhecido por sua inteligência e simpatia. Porém, durante a investigação, é descoberto que, nas últimas semanas, ele vinha se comportando de forma incomum, como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Os personagens podem ter uma ligação com ele ou estarem envolvidos na investigação do caso de alguma forma.

Aparentemente há uma substância desconhecida que causou a morte do jovem (e pode levar outros ao mesmo destino) e os investigadores precisam encontrar a fonte desse mal, antes que outras vidas sejam ceifadas.

O livro possui ainda, na parte final, uma sessão repleta de personagens prontos e outra sessão dedicada aos handouts, muito bem feitos, por sinal.

A diagramação do livro é impecável, com o novo layout — aqui no Brasil, esse layout já foi aplicado ao Quick Starter do Chamado de Cthulhu 7ª Edição, distribuído pela New Order Editora, já no financiamento.

Door to Darkness é uma ótima oportunidade para novos jogadores e guardiões que acham complexas as aventuras ou cenários de Chamado de Cthulhu. Ele fornece cenários que mostram como é o clima de uma partida, quais os temas das aventuras e ajuda nos familiarizar com o estilo. Também, como já comentado, as aventuras podem facilmente ser conectadas, forma uma pequena campanha — um treinamento para os guardiões que almejam jogar grande campanhas no futuro (algumas delas, até mesmo lançadas também pela New Order Editora! Estamos na torcida).

Com Door to Darkness os novos guardiões têm tudo que precisam para iniciarem uma jornada nos Mitos de Cthulhu, no universo de Lovecraft. Dicas, aventuras simples e bem estruturadas, um livro bonito e fácil de ler. Esse é um livro que valerá muito a pena, quando alcançarmos a meta no financiamento do Chamado de Cthulhu (estamos quase lá! Vamos torcer, apoiar e compartilhar!). Abraços a todos.

Ah sim, tem uma outra resenha do livro: RESENHA DOORS TO DARKNESS


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Loucura em Salem - Explicações para a Caça às Bruxas na Nova Inglaterra


No ano de 1692 várias jovens começaram a demonstrar um comportamento bizarro no tranquilo vilarejo de Salem, Massachusetts. Elas se contorciam horrivelmente, gritavam e choravam de uma forma assustadora. Adultos rapidamente concluíram que as meninas estavam sob o ataque de magia negra e a histeria tomou conta da pequena cidade. Uma corte foi formada e 19 pessoas acusadas de estarem afligindo as meninas. Estes foram enforcados por supostamente praticar malefício, uma forma de feitiçaria. Centenas de pessoas foram presas pelo mesmo crime, algumas torturadas e outras passaram meses na cadeia. Alguns até morreram enquanto esperavam pela liberdade. 

O que despertou o repentino medo de bruxas que varreu a pequena comunidade? Ninguém sabe ao certo. Nos últimos três séculos, entretanto, algumas teorias e especulações tentaram lançar uma luz sobre esse estarrecedor incidente. Hoje, estudiosos e pesquisadores ainda buscam um sentido ou uma explicação para o que aconteceu. Estas são as teorias mais comuns: 

Existiam realmente "bruxas" em Salem


Atualmente, a maioria das pessoas ri da ideia de que poderiam realmente existir bruxas em Salem. E mesmo entre os que acreditam nessa possibilidade, a grande maioria refuta que eles poderiam ter quaisquer poderes sobrenaturais. É importante lembrar, entretanto, que em 1692 todas as pessoas, desde o mais iletrado escravo até o Presidente da Universidade de Harvard (que já existia), acreditavam que bruxaria não apenas existia de fato, mas que era praticada e trazia resultados práticos. Cotton Mather, um dos pastores puritanos mais respeitados, e que esteve presente durante os julgamentos, escreveu um relato completo dos acontecimentos ao governador de Massachusetts. Seu ensaio demonstrava claramente que ele acreditava que algumas das pessoas enforcadas no incidente em Salem eram de fato culpadas de usar magia negra para atormentar as "crianças afligidas". Memso hoje, uma parcela de pessoas ainda acredita em forças sobrenaturais que podem ser usadas para fazer o mal e para exercer poder sobre outros. 

No século XVII a crença que o demônio podia conceder poderes a seus seguidores era indiscutível. Mesmo filósofos e pensadores como Thomas Hobbes acreditavam que as bruxas eram capazes de manifestar sua força de vontade e canalizar energias negativas contra pessoas, desde que estas acreditassem na existência de tais poderes. Hobbes também acreditava que esse tipo de manipulação era passível de punição e que era função das autoridades coibir e repelir seus utilizadores.

É interessante ainda que rituais pagãos e superstições eram muito disseminados no período e praticados como uma maneira de lidar com as adversidades do mudo que os cercava. Nesse contexto, pessoas que seguiam antigas religiões e praticavam seus preceitos poderiam ser facilmente encaradas como feiticeiras. Jamais ficou provado que existisse um grupo de praticantes de religiões antigas em Salem, mas é inegável que a prática de adivinhações, sortilégios e "magia branca" estavam presentes mesmo entre os puritanos mais ortodoxos. É possível, entretanto, que existisse um pequeno enclave de devotos e que este tenha contribuído para a histeria que assolou a comunidade.     

As "Crianças Afligidas" acreditavam realmente estar encantadas


Este é um argumento que leva em conta que uma sociedade onde a crença em bruxaria é verdadeira, bruxaria tende a funcionar. A noção´e que não se trata de poderes sobrenaturais, mas de medo, paranoia e influência da própria mente de quem se acha afligido. Os sintomas, desde as crises histéricas, as convulsões, desmaios e bolhas na pele teriam origem psicossomática ao invés de orgânica.

Hoje em dia, os ramos da psicologia e psiquiatria compreendem como a mente exerce um poderoso efeito sobre o corpo. Placebos são uma parte importante dos estudos de novas drogas. O efeito psicológico de substâncias que teoricamente contribuem para uma melhoria, mas que não passam de pílulas de açúcar demonstram que a mente pode ser sugestionada a acreditar em condições inexistentes. Mais do que isso, o stress psicológico é uma causa de centenas de problemas físicos desde alergias a pressão sanguínea e doenças cardíacas. Estudos demonstram que sob hipnose, uma pessoa pode manifestar reações alérgicas sem que o agente físico esteja presente.   

Se as meninas realmente acreditavam que alguém estava lançando sobre elas maldições, isso pode ter criado suficiente stress em suas mentes que resultavam em sintomas físicos. De fato, o historiador Chadwick Hansen sugere que muitos sintomas manifestados pelas crianças se encaixam perfeitamente na definição clínica de histeria psicossomática. 

O foco da pesquisa deveria ser estudar e compreender o que as crianças afligidas acreditavam estar acontecendo à sua volta. Se elas sentiam que estavam sob o ataque de forças sobrenaturais, é bem possível que elas manifestassem condições adversas e sintomas típicos, algo que se observa em vários casos de exaltação e fervor religioso nos dias atuais.

Uma brincadeira que foi longe demais


Uma teoria muito difundida é que as "meninas afligidas" responsáveis pelas acusações estavam apenas fingindo. Algumas delas eram os membros menos importantes da comunidade de Salem, vistas com desdém ou condescendência por todos os outros membros da sua sociedade. A maioria delas eram jovens e solteiras, muitas tinham trabalhos servis para outras pessoas. Na cultura puritana, absolutamente ninguém dava a elas muita atenção e quando elas começaram a se comportar de uma maneira atípica, tendo crises elas se tornaram imediatamente impostantes. 

É possível que tudo tenha começado com um tipo de brincadeira. As meninas podem não ter tido a intenção de acusar pessoas de bruxaria ou causar mal a elas e isso acabou vindo com os desdobramentos dos acontecimentos. Os adultos preocupados ao redor das meninas queriam explicações e muitos deles forçavam as crianças a apontar quem as estava atormentando. A pressão pode ter levado a identificação de um tipo de bode expiatório. É perfeitamente possível que os próprios adultos tenham sugerido alguns candidatos. Finalmente, quando uma das garotas deu o nome de uma suposta bruxa, elas perceberam que tipo de poder isso dava a elas e como a comunidade estava disposta a acreditar no que elas diziam. Sem dúvida, isso permitiu que algumas delas se vingassem de desafetos e de pessoas que elas não gostavam. 

A fama das "meninas afligidas" foi carregada de vilarejo em vilarejo. De uma hora para outra, elas se converteram em uma espécie de celebridades em Massachusetts. Um tipo de poder que uma menina na sociedade puritana, tão fechada e severa, jamais poderia imaginar ter. Há relatos de crianças afligidas viajando para outras cidades com o intuito de desvendar a presença de bruxas. De meninas sendo reverenciadas e admiradas. Algumas delas até receberam presentes e agrados de cidadãos preocupados que tentavam protegê-las e delas cuidar.

Mas ao mesmo tempo em que elas se beneficiaram dessa condição, elas se viram capturadas. Em determinado momento, não havia mais como voltar atrás e retirar as histórias. Se elas admitissem que estavam mentindo,a punição seria dura e as autoridades poderiam até acusá-las de serem as verdadeiras bruxas. Em determinado momento, não havia outra opção a não ser seguir com a correnteza.

Em um momento, durante o início da histeria, uma das meninas chegou a ser ameaçada de enforcamento. Mary Warren, admitiu ter feito acusações indevidas e disse que as outras meninas também estavam inventando. Imediatamente as demais meninas se voltaram contra ela e a acusaram de ser uma bruxa. Warren rapidamente voltou atrás em e disse que estava com medo e por isso, mentiu sobre estar mentindo. Ela não tinha outra opção. Se ela tivesse mantido seu testemunho as outras garotas teriam direcionado contra ela todo tipo de acusação infundada e ela provavelmente seria condenada. Muitas das meninas provavelmente se sentiram como Mary Warren e pensaram em confessar, mas em face do medo e do que poderia acontecer, acabaram mantendo suas acusações até o fim.

Havia uma Conspiração baseada na política das comunidades


O vilarejo de Salem, mesmo antes de 1692, era considerado como uma das comunidades mais divididas da Nova Inglaterra. Duas famílias dominavam a política na época: Os Porter e os Putnam. Uma das questões principais durante o período era se o vilarejo de Salem deveria ou não se fundir com a próspera cidade de mesmo nome. Os Porter eram favoráveis a união, uma vez que eles possuíam vários negócios na cidade e estavam diretamente envolvidos na política portuária. Os Putnam discordavam e acreditavam que o vilarejo deveria permanecer independente e fechado. Embora fossem mais ricos, os Putnam não tinham tanto sucesso quanto seus rivais e por isso eram invejosos de sua influência.

É um fato que a rivalidade entre eles era bem conhecida e se fazia perceber na maioria das assembleias convocadas pela comunidade. Em muitas ocasiões, as discussões entre as duas famílias e seus partidários terminavam em confronto.

Uma teoria surgida recentemente sugere que os Putnam usaram as meninas afligidas como ferramenta para acusar os Porter de estarem aliados a bruxas. Existem certas evidências documentais que corroboram isso, sem falar no fato de que várias meinas envolvidas nas acusações pertenciam ao ramo dos Putman. As dua sprimeiras garotas afligidas eram Elizabeth Parris e Abigail Williams, ambas muito próximas do Reverendo Samuel Parris. Os Putman haviam insistido para que o Reverendo fosse empossado no vilarejo, enquanto os Porter eram contrários. De fato, os Porter desejavam que o clérigo fosse mandado embora e outro fosse chamado para ocupar seu lugar. 

Ann Putnan, a filha de Thomas Putman, patriarca do clã, estava entre as crianças afligidas e dentre todas, foi uma das que mais apontou nomes ligados a bruxaria. Não é de se surpreender que a maioria dos nomes estavam ligados aos Porter. Mercy Lewis, também afligida, trabalhava na casa de Putnam e também apontou nada menos do que 50 pessoas que foram interrogadas. Três quartos destes tinham alguma ligação com os Porter. Mary Walcott, outra acusadora, era filha adotiva de Deliverance Putnam, irmã de Thomas. Mary chegou a apontar dois membros direto da família Porter como feiticeiros, mas dada a importância social deles, não chegaram sequer a ser interrogados.

É possível que os Putnam tenham usado a situação a seu favor e manipulado as acusações para que estas incluíssem seus desafetos. Registros feitos dão conta de que algumas das meninas sequer conheciam as pessoas apontadas como bruxas e que as listas com nomes muitas vezes eram sugeridas por inquisidores, sob a supervisão do Reverendo Parris. Posteriormente, quando juízes isentos chegaram a Salem, o número de acusações contra membros da Família Porter reduziu sensivelmente.

As "Meninas Afligidas" sofriam de alguma doença    

   
Algumas teorias dão conta de que as meninas poderiam de fato estar doentes e sob influência de algum problema físico que a medicina do século XVII desconhecia. Doenças e venenos poderiam ser a causa da histeria manifestada.

Uma das explicações mais populares seria uma infecção por ergot, um tipo de fungo encontrado nos grãos de centeio. O ergot produz uma substância venenosa que afeta o sistema nervoso e circulatório. Os sintomas do ergotismo incluem convulsões, crises nervosas e alucinações. Em Salem existiam vários celeiros e silos de estocagem de grãos. Muitas das meninas estavam em contato direto com o centeio cru que era manipulado para fazer pão, uma atividade típica de mulheres. Além disso, crianças não tinham a mesma resistência que adultos, e por isso, podiam manifestar os efeitos enquanto mulheres se mostravam imunes.

O ergotismo é uma condição física grave em muitos casos. As vítimas experimentam alucinações vívidas nas quais vêem, ouvem e sentem coisas que não existem. Muitos dos relatos das meninas, envolvendo presenças invisíveis e manifestações sobrenaturais podem estar relacionadas a essas alucinações. Algumas meninas afirmavam ainda que sentiam cheiros e gostos incomuns que só elas podiam perceber. Os desmaios e as crises nervosas também estão incluídos entre os sintomas que são incontroláveis.   

Outra possibilidade é que as meninas teriam contraído encefalite, uma doença carregada por mosquitos. Encefalite causa febre, dores de cabeça e confusão mental. Críticos dessa explicação afirmam que apenas as meninas eram afetadas o que seria inviável em uma comunidade onde todos estariam sujeitos a ação dos insetos. 

 A combinação de várias causas

Talvez a explicação mais provável envolva uma série de fatores. A combinação de várias circunstâncias pode ser uma das causas da loucura que varreu Salem.

É possível que Elizabeth Parris, a primeira vítima, tenha ficado realmente doente com algum mal desconhecido. Não é difícil imaginar as outras meninas, buscando a mesma atenção que ela obteve, imitando seus sintomas para compartilhar de igual importância. Adultos, incapazes de obter uma explicação satisfatória no mundo natural, acreditaram que bruxaria estaria envolvida. As crianças sem dúvida foram questionadas a respeito do que estava acontecendo. Nós sabemos através de estudos recentes que crianças podem assumir um determinado comportamento para agradar adultos. Respostas que agradam aos adultos e que despertam uma reação satisfatória acabam causando um alívio. Isso as torna sugestionáveis a dar a resposta que elas interpretam como a desejada.

Sabemos através de documentos que as crianças apontaram em listas os nomes de pessoas que estariam envolvidas com bruxaria. Essas listas teriam sido preparadas por adultos e é da natureza humana, que certos nomes de desafetos fossem incluídos, ou outros, de amigos e parentes, fossem cortados. Algumas meninas, sob o stress dos interrogatórios poderiam acreditar que realmente estavam sob o efeito de malefícios e manifestavam sintomas condizentes. "Uma mentira repetida mil vezes, aos poucos passa a ser vista como verdade", ou ao menos é o que diz o ditado. Presas em suas próprias mentiras, elas podem ter começado a acreditar nelas.

É provável que jamais saibamos ao certo quais fatores determinaram os trágicos eventos no vilarejo de Salem. É triste, mas esse comportamento de Caça às Bruxas tendem a se repetir sob disfarces modernos nos quais grupos são perseguidos e acusados por multidões histéricas. A perseguição a dissidentes políticos nos anos 1950 e o abuso de histórias absurdas sobre rituais satânicos nos anos 1980, são apenas dois exemplos de caça às bruxas que mostram que esse tipo de coisa não está restrito ao passado distante.

De fato, estão mais próximos do que imaginamos e tende a se repetir onde menos se espera.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Medo Clássico - H.P. Lovecraft em uma edição incrível da Darkside


Houve um tempo em que a obra de H.P. Lovecraft era quase desconhecida no Brasil e difícil de ser encontrada.

Eu me recordo que meu primeiro contato com as histórias do Cavalheiro de Providence, foi lá pelos anos 1990, e veio através de uma edição da Francisco Alves. Para quem desconhece ou não se lembra, é um volume de capa amarela que ficou conhecida, graças à estranha ilustração frontal, como o livro das "lagostas com asas". A edição era simples, mas jeitosa, trazia algumas das histórias mais clássicas de Lovecraft, entre as quais "Um sussurro nas trevas", "A cor que caiu do céu", "O chamado de Cthulhu" e meu favorito, "Sombras perdidas no tempo".

NOTA: usei os títulos conforme foram traduzidos nessa publicação.

Por muitos anos, essa edição foi a única que eu consegui com os contos originais de Lovecraft. Havia outros dois livros, mas estes, logo fiquei sabendo, estavam esgotados, sem previsão para serem relançados. Por muito tempo então eu permaneci na vontade de ler aquelas outras histórias que eu só podia inferir o tema através dos títulos intrigantes: "The Dunwich Horror", "The Shadow Over Innsmouth", "The Dream Quest of Unknown Kadath"... cada um desses parecia cheio de mistérios e maravilhas, mas que até então se encontravam fora do meu alcance.


Como muitos, eu conheci Lovecraft através do RPG Call of Cthulhu e quando lia a respeito de personagens e monstros pinçados das histórias, minha imaginação voava. Eventualmente eu consegui aprender o suficiente de inglês para ler as histórias e matar a curiosidade que me atormentava. Mas convenhamos, ler essas histórias em seu idioma nativo não é das tarefas mais fáceis. Por mais que me esforçasse, algo sempre se perdia... era preciso ler Lovecraft em português - de preferência com uma tradução de qualidade. 

Vamos pular alguns anos. 

Nesse meio tempo, Lovecraft se tornou cult lá fora, e não demorou até ele ser descoberto por um grupo cada vez maior de interessados em seus contos no Brasil. E eis que num estalar de dedos ele passou do quase completo anonimato, a uma sensível popularização. E com isso, contos até então inéditos desembarcaram por aqui: algumas vezes com uma tradução correta e adequada, outras, nem tanto.


Atualmente não é difícil encontrar a obra de Lovecraft em bom português em qualquer livraria. Há várias edições nacionais que compilam suas principais histórias, volumes que reúnem seus trabalhos mais conhecidos e até mesmo antologias que trazem senão todos, quase toda sua produção literal, com direito a poesias e historietas escritas na infância e juventude.

Então, se livros dedicados a H.P. Lovecraft não são mais exatamente uma novidade por que gastar linhas e mais linhas com mais um lançamento? Vale a pena adquirir outra edição com contos dele? Será que mais uma edição não seria apenas redundante?


Talvez, isso fosse verdade, se essa nova edição não fosse tão incrível.

Antes de seguir adiante, abro um parenteses para falar de uma jovem e ousada editora que aceitou o desafio de se dedicar exclusivamente a publicação do gênero Fantasia e Terror. Desde seu surgimento, a Editora Darkside se converteu numa referência de qualidade dentre os entusiastas da Literatura Fantástica.

Sendo um consumidor contumaz do gênero abordado pela Darkside, estou sempre atento em seus próximos lançamentos, ansioso para saber o que vem por aí. Minha prateleira está abarrotada com as edições deles e não canso de tecer elogios ao material. Não apenas a seleção de títulos é notável, mas a qualidade gráfica de cada edição, faz toda diferença. Os livros da Darkside não oferecem apenas literatura de qualidade, são um deleite, tanto para os candidatos a, quanto para os verdadeiros bibliófilos.


E por isso eu fiquei tão empolgado com a notícia de que a Darkside finalmente publicaria sua versão da obra de H.P. Lovecraft. Sob o selo "Medo Clássico", que já visitou outros expoentes como Edgar Allan Poe e Mary Shelley, o primeiro tomo inteiramente dedicado a Lovecraft é de uma qualidade monumental.

Reunindo ao longo de suas 400 páginas, nove contos desse mestre do terror, Medo Clássico traz ainda uma série de extras que vão fazer a alegria de qualquer fã. É claro, tudo indica que este será apenas o primeiro livro de uma coleção longa e que outros virão para construir gradualmente a bibliografia completa de H.P. Lovecraft. Neste primeiro volume temos uma seleção de clássicos da lavra de "O Chamado de Cthulhu", "Nas Montanhas da Loucura" e "Sombras Perdidas no Tempo" contos essenciais que sedimentaram alguns conceitos centrais do Mythos Cthulhiano e que são obrigatórios. Além destes, temos "Dagon", "O Cão de Caça" e "O Depoimento de Randolph Carter", três histórias curtas, mas igualmente clássicas de um período em que Lovecraft ainda estava sondando a amplitude de sua mitologia particular. Assomando a eles, a lista inclui "A Cidade sem Nome", um dos meus favoritos, frequentemente esquecido e "A História do Necronomicon" um ensaio curto no qual o autor estava trabalhando e que ficou, infelizmente, incompleto. Finalmente, temos "Herbert West - Re-Animator" que estava um tanto sumido dos catálogos nacionais e que ressurge aqui como um curioso exemplo de história em capítulos.


Algumas pessoas estranharam a formação dessa lista, que num primeiro momento parece um tanto aleatória, contudo ela reúne uma seleção de contos para quem está começando a explorar o universo do Mythos. Entre estes títulos encontram-se obras mais acessíveis, o que talvez explique a razão pela qual não temos nenhuma das histórias do intrincado Ciclo dos Sonhos. Os contos escolhidos compõem uma rica coleção cujo objetivo, sem dúvida, é atrair os neófitos e batizá-los nos dogmas Lovecraftianos. Nesse contexto, esse volume é uma ótima opção para aqueles que já ouviram falar do autor, mas que nunca leram um de seus contos. Literalmente uma porta de entrada para o restante de seu repertório profano.

Mas isso quer dizer que o livro vai ter serventia apenas a quem conhece pouco ou nada de Lovecraft?


De modo algum! Medo clássico possui, além dos já referidos contos em uma tradução afiada cortesia de Ramon Mapa, excelente material extra. Esse bônus inclui textos assinados por Fernando Ticon e por Mapa - a respeito da influência de Lovecraft na Cultura Pop, um texto de Robert Bloch analisando a relação entre H.P. e sua influência maior Poe, um ensaio de Clemente Penna, no qual ele relata sua passagem pela cidade natal do homem cujo túmulo está escrito "Eu sou Providence") além de uma série de anotações, trechos escritos à mão ou martelados na máquina pelo próprio Lovecraft que compõem uma curiosa tapeçaria de ideias e conteúdo - material garimpado nos arquivos da Universidade Brown detentora de uma extensa coleção sobre o autor. Uma vez que as histórias já foram publicadas anteriormente, oferecer material adicional na forma de extras exclusivos é uma excelente maneira de entregar algo diverso e cheio de frescor. Imagino que esse deve ser um padrão a ser seguido nos demais volumes.

Se isso não fosse atrativo suficiente, cabe ainda falar da parte visual a cargo da Retina 78, responsável pelo projeto gráfico da maioria dos livros da Darkside. E nesse quesito, Medo Clássico é sensacional. O grau de atenção e zelo com o acabamento final é (para usar uma palavra do vernáculo de Lovecraft) estarrecedor!


A capa possui duas opções de imagem: A primeira chamada de EDIÇÃO MISKATONIC em cinza metalizado, traz uma poderosa imagem de Lovecraft, como uma estátua enredada pelos muitos tentáculos de sua criação mais famosa, Cthulhu. A imagem remete diretamente aos livros de conteúdo proibido que repousam nas prateleiras empoeiradas da assombrada Biblioteca da Universidade Miskatonic. A borda das páginas tem uma coloração verde doentia, que combina com a noção de que seu conteúdo é alienígena e tóxico. A segunda opção de capa é a EDIÇÃO CÓSMICA com um caleidoscópio de cores fosforescentes igualmente doentias nas quais predominam os matizes verde, roxo e preto. A capa foca em Cthulhu, ocupando o centro da imagem e, segundo afirmam alguns, emite um brilho tênue na escuridão (mas essa pode ser apenas a impressão de quem já sofre com alguma insanidade). A borda das páginas é negra. Não adianta debater qual a mais bonita, qual a mais bacana pois, como dizem, beleza está no olho de quem vê. As duas tem o mesmo padrão de qualidade e acabamento; internamente, o conteúdo, é rigorosamente o mesmo.

O que chama atenção no material é o capricho, o bom gosto e o nível de detalhes. Páginas com os textos escritos por Lovecraft, sobrepostos por runas misteriosas e o verde nauseante se sobrepõem em vários trechos. Fotografias, efígies, símbolos cabalísticos e rabiscos - muitos deles feitos pelo autor para descrever suas criaturas também são muito bem aproveitados. O grau de detalhismo inclui até o esmero de usar como fonte no Sumário, letras borradas de uma velha máquina de escrever.


A arte interna ficou à cargo de Walter Pax, ilustrador responsável pela arte da edição nacional de Chamado de Cthulhu (editada pela Terra Incógnita) e pelo livro de arte "Love - A arte que não deveria ser". O traço preto e branco de Pax, cheio de nuances confere texturas aos horrores do Mythos que são apresentados no início dos contos. Há uma versão ampliada de cada ilustração, disposta em duas páginas e tingido pelo onipresente verde (sempre o verde!) e outra menor antecedendo cada capítulo. Eu sou suspeito para falar, gosto bastante do traço do artista e acho que ele tem um talento notável para traduzir em imagens coisas que são em essência indescritíveis. Sua interpretação do Shoggoth que antecede o conto "Nas Montanhas da Loucura" e os detalhes de Dagon no conto de mesmo nome, são incríveis.

"H.P. Lovecraft - Medo Clássico volume 1" é um trabalho primoroso, um tributo a um dos nomes mais influentes no Terror no século XX e que só agora está conquistando seu merecido reconhecimento entre os entusiastas do gênero horror fantástico aqui no Brasil.

Ficamos na torcida para que esse seja apenas o primeiro de uma série que complete com chave de ouro (ou mais adequadamente, de prata) a obra completa do mestre do Horror Cósmico.

sábado, 6 de janeiro de 2018

As Bruxas de Salem - A infame Caça às Bruxas na América Colonial


Em algum momento perto do final de janeiro de 1692, Betty Parris, a filha de nove anos do Reverendo Samuel Parris, ficou doente. Ela sofria de convulsões que faziam com que seu corpo inteiro de contorcesse de maneira assustadora. Às vezes ela soltava urros medonhos, babava, virava os olhos e então se encolhia em baixo de cadeiras, mesas e da cama como se estivesse apavorada com ela mesma. Ou com alguma coisa que só ela podia ver. Aos olhos de seus pais, aquilo não podia ser algo natural.

O Reverendo e sua esposa não conseguiam reconhecer a doença que afligia sua filhinha. Chamaram vários médicos para tentar curar aquela estranha aflição. Os médicos a examinavam e não encontravam nenhum problema físico.

Logo, uma jovem órfã de treze anos, chamada Abigail começou a manifestar os mesmos sintomas alarmantes. A menina era uma prima e morava na mesma casa, dormia no mesmo quarto e era a melhor amiga de Betty. Aos olhos dos pais horrorizados, a verdade estava clara! As crianças estavam sob o ataque de forças demoníacas que tencionavam matá-las e reclamar suas almas. A suspeita foi corroborada pelo emérito Dr. William Griggs que após examinar as crianças declarou que a condição delas não era médica e sim espiritual: "o mal está com as mãos sobre essas crianças".

Como um rastilho de pólvora, o rumor se espalhou pelo pequeno Vilarejo de Salem: "O demônio foi conjurado e bruxas eram as culpadas por esse ato vil!".

Os eventos que se seguiram em Salem, Massachusetts ainda são chocantes e controversos, mesmo nos dias atuais. Antes que a loucura despertada pela Caça às Bruxas terminasse 19 pessoas seriam enforcadas, muitas outras seriam atiradas na cadeia, várias sofreriam tortura, sendo que ao menos uma morreria dessa maneira. O procedimento legal dividiria famílias, faria aflorar desconfiança entre vizinhos e deixaria uma mácula na história do Estado de  Massachusetts, uma das mais antigas e orgulhosas colônias da América. O constrangimento seria tamanho que 300 anos depois, o governo da Nova Inglaterra emitiria um pedido formal de desculpas pelos horrores que sancionou. Enquanto os motivos para o que aconteceu em Salem continuam sendo assunto de debate até hoje, os fatos são bastante claros.


Em 1692, Salem era uma pequena comunidade rural, pobre e isolada, com uma população de aproximadamente 550 pessoas. Ela era um sentamento próximo a Cidade de Salem, um porto movimentado e muito maior que recebia um fluxo de colonos interessados em tentar a sorte no Novo Mundo. Os habitantes do vilarejo eram quase em sua totalidade puritanos. Esse secto da fé protestante havia surgido na Inglaterra e desde o início era alvo de desconfiança e dura perseguição religiosa. Os severos costumes dos puritanos e seu estrito senso de moral eram vistos com reservas na melhor das hipóteses e na pior, abominados. Após sofrerem dura repressão e serem perseguidos na Inglaterra, muitos puritanos decidiram deixar seu lar e se aventurar além mar. Nessa nova terra selvagem, esperavam achar sua Terra Prometida, local onde poderiam se fixar e reverenciar Deus da maneira que desejavam. Ironicamente, mesmo tendo sido forçados a deixar suas casas por motivos religiosos, os puritanos eram um grupo muito fechado e extremamente intolerante com qualquer um que não adotasse seus códigos morais.

Mas a existência em Salem era exasperante, muito diferente do paraíso que os puritanos buscavam. 

Os invernos eram muito frios e destruíam as plantações, os curtos períodos de clima ameno tornavam necessário trabalhar pesado na lavoura. O contato com os nativos americanos, embora celebrado com o Dia de Ação de Graças, havia se tornado amargo e perigoso. Não era raro que índios atacassem as fazendas, roubassem comida e animais ou pior, matassem e escalpelassem os colonos. O medo e a paranoia andavam de braços dados. Como qualquer grupo de pessoas vivendo em uma terra estranha, os puritanos procuravam se manter muito próximos uns dos outros. Essa proximidade fazia com que todos seguissem os mesmos costumes e tradições. Qualquer um que se desviasse dos costumes consagrados era visto com reservas: exílio e banimento eram algo frequente. Em um ambiente tão rígido, intrigas, fofocas e disputas por terra também costumavam ocorrer. A possibilidade de epidemias de doenças que na época eram mortais, como sarampo e varíola, constituía uma preocupação constante. 

O grande fator de união entre os colonos puritanos, sem dúvida era sua fé comum. A Igreja era o local onde a comunidade podia se encontrar e reafirmar sua unidade. Entretanto, na época, alguns aldeões estavam pouco satisfeitos com seu líder espiritual, o Reverendo Parris, que era considerado por muitos um forasteiro, já que não era nativo de Salem. Alguns duvidavam da capacidade de Parris e circulavam rumores de que ele havia passado por uma profunda crise de fé. Como um Reverendo que tinha dúvidas a respeito de Deus poderia guiar aquele povo sofrido? Essa era uma questão perguntada pelos colonos quando se reuniam.   


Diante de todos esses elementos aviltantes, o medo fazia parte da existência dos camponeses de Salem. Medo de morrer, medo de punições, medo dos nativos, medo de doenças, medo de falhar com Deus, medo, medo, medo... quando um novo e explosivo elemento foi acrescentado a esse caldeirão de temores, o vilarejo literalmente se incendiou. Bruxaria era o ingrediente que faltava para que a fervura atingissem o grau de ebulição e transbordasse numa onda de paranoia e violência.

Quatro anos antes uma mulher chamada Goody Glover havia sido acusada de bruxaria e enforcada. Na ocasião algumas pessoas guardavam dúvidas a respeito da sentença imposta pelo xerife do vilarejo. A mulher conhecia ervas e o ofício de preparação de unguentos e salvas curativas. Ela também havia auxiliado algumas mães nas agruras do parto, uma vez que sabia trazer crianças ao mundo. Quando foi acusada de usar a placenta dos bebês em feitiços, as pessoas do vilarejo ficaram chocadas. Mas devia ser verdade... afinal, quem inventaria algo assim? 

Nas semanas seguintes, seja lá o que estivesse acontecendo com Betty e Abigail, parecia se espalhar para outras meninas na comunidade. Para quem observava o fenômeno, aquilo estava muito além de algo que simples crianças poderiam inventar por conta própria. O Reverendo John Hale, foi chamado para prestar testemunho a respeito do que estava sucedendo. Ele escreveu: "Essas crianças estavam sendo mordidas e beliscadas por agentes invisíveis; seus braços, pescoço, e as costas se torciam de uma maneira inacreditável. Aquilo estava muito além de ataques epiléticos ou qualquer doença de natureza convencional. Era trabalho diabólico, disso não resta dúvida!"

Logo, as meninas afligidas pela condição somavam sete, com idades entre nove e vinte. Betty, a mais jovem, foi mandada para fora do vilarejo e poupada do que se seguiu. As outras continuaram a agir de maneira estranha e a certeza de que elas estavam sob o feitiço de uma bruxa só cresceu. Finalmente, a tia de uma das meninas afligidas, Mary Stibley, forçou a escrava que servia ao Reverendo Parris, Tituba a fazer uma espécie de feitiço branco de natureza protetora para ajudar as crianças. Tituba era uma mulher negra, trazida da Ilha de Barbados e versada em curas e mandingas. Ela assou um bolo que foi compartilhado pelas meninas e que serviria para cortar os vínculos malignos que pesavam sobre elas. 


Quando ficou sabendo do ocorrido, o Reverendo ficou furioso. Naquele dia ele subiu ao púlpito e fez um sermão no qual disse não existir diferença entre "magia branca" e "magia negra". Toda forma de magia era maligna e uma anátema aos olhos de Deus. Aqueles que usavam de tais artifícios eram os responsáveis por aquela tragédia que havia atraído a atenção do demônio para o vilarejo. Parris conclamou qualquer um que testemunhasse a realização de malefícios a denunciar a transgressão e foi claro: "Qualquer pessoa poderia ser culpada".

Quando fevereiro se aproximou, a pressão continuava a crescer e uma das meninas revelou o nome da suposta bruxa responsável por tudo aquilo. Elizabeth Hubbard de dezessete anos apontou Tituba como a feiticeira que havia lançado magias e sortilégios sobre as crianças. Pouco se sabe a respeito de Tituba, mas é certo que a escrava servia como babá e empregada na casa de várias famílias em Salem e que costumava entreter as crianças com histórias de sua terra natal, músicas e costumes típicos de Barbados. Uma das brincadeiras favoritas envolvia cantar e dançar ao redor de uma fogueira e então adivinhar o nome dos futuros maridos com quem as meninas se casariam.

As acusações não pararam por aí: diziam que Tituba havia conjurado espectros que saíam da fogueira para dançar com elas na floresta, contaram que sapos eram cozidos no caldeirão para criar sortilégios, que sangue de bebês não batizados era bebido à luz da lua cheia e até que a escrava voava nua sobre os telhados do vilarejo.


Tituba foi levada diante do Reverendo Parris e da Congregação. Ser acusada de feitiçaria naquela época era um assunto grave. Em 1641 a Lei Britânica havia tornado a ofensa um crime capital. As pessoas acreditam que bruxas e feiticeiros, eram os servos fiéis de Satã, com quem haviam firmado um pacto para receber poderes em troca. Um dos poderes mais conhecidos era a habilidade de amaldiçoar e lançar o temido mau agouro. Uma bruxa podia amaldiçoar suas vítimas e causar os mais detestáveis efeitos; doenças, azar, perda de colheita, morte de animais e ferimentos, contudo, uma bruxa realmente poderosa podia matar com um olhar fulminante de pura perversidade.

Tituba tentou se defender, mas quando as acusações se tornaram mais e mais vilipendiosas ela acabou concordando em "entregar suas comparsas", a única forma de salvar a si mesma. Ela apontou Sarah Good e Sarah Osborn, duas mulheres que não tinham boa fama no vilarejo, a primeira considerada de mau temperamento, a segunda uma mulher que faltava regularmente aos cultos. Sob interrogatório e agressão, Tituba confessou que Good e Osborn eram suas irmãs de bruxaria e que as três formavam um cabal. Sua confissão mencionava vôos de vassouras pelo céu noturno e conversas com o Homem Negro (uma clássica imagem do Diabo) que vinha visitá-las durante os sabás.

Outras acusações se seguiram: Rebecca Nurse, Martha Cory, Sarah Cloyce, e Elizabeth Proctor foram presas em março e abril. Em 11 de abril, John Proctor, marido de Elizabeth, tornou-se o primeiro homem acusado de bruxaria depois que ele protestou contra a acusação imputada à sua esposa. Mary Warren, uma serviçal dos Proctor e uma das "crianças afligidas", deu voz às acusações depois que seus patrões afirmaram que as meninas provavelmente estavam fingindo e inventando tudo aquilo. 

Em 27 de maio o novo governador eleito da Nova Inglaterra, William Phipps, ordenou que uma corte fosse despachada para Salem a fim de tratar do caso. As meninas eram tratadas como testemunhas e sem dúvida adoravam a importância que lhes era dispensada. A corte decidiu que durante o inquérito "evidências espectrais" seriam aceitas, o que significava que as meninas - que supostamente conseguiam enxergar entidades invisíveis, poderiam afirmar se demônios estavam presentes na sala soprando informações no ouvido dos acusados. 


Durante o inquérito, ocorrido no salão paroquial, as meninas inventaram todo tipo de história bizarra a respeito de supostas bruxas que viviam em Salem. Algumas gritavam e desmaiavam, outras se levantavam e caíam no chão afirmando terem sido derrubadas por entidades invisíveis que as empurravam. Uma das crianças mordeu a própria língua e disse que uma das bruxas havia lançado contra ela um feitiço. Quando um acusado era chamado para se defender, as crianças interrompiam aos gritos afirmando que diabretes invisíveis estavam em seus ombros. Quando Elizabeth Proctor subiu a tribuna, as meninas simularam um desmaio coletivo, afirmando que as palavras dela estavam disfarçando maus agouros e maldições contra os juízes. Como resultado ela foi amordaçada e conduzida para fora da Igreja, impedida de se defender.

Em 2 de junho de 1692, Bridget Bishop se tornou a primeira das acusadas a ser julgada e condenada por praticar bruxaria. Oito dias depois, ela foi enforcada em Gallows Hill diante de toda comunidade. Em 19 de julho a segunda rodada de julgamentos teve início e em apenas dois dias mais cinco mulheres foram consideradas culpadas e executadas. Outro julgamento teve lugar em 19 de agosto e mais cinco foram sentenciados à morte, em sua maioria homens. John Proctor estava entre estes. Sua esposa Elizabeth escapou da forca por estar grávida.  

Antes que a caça às bruxas perdesse o folego, 141 pessoas haviam sido presas e processadas por feitiçaria. É irônico que apenas as pessoas honestas tenham sido executadas.  Se um acusado estivesse disposto a reconhecer a sua culpa e confessasse seu conluio demoníaco, era eventualmente perdoado. De fato, muitos dos acusados de participar de missas negras e sabás, tinham apenas que reconhecer sua culpa e implorar pelo perdão. Muitos sequer eram julgados, ainda mais se a sua confissão fosse precedida de mais delações. O efeito era uma verdadeira bola de neve de acusações infundadas em que qualquer nome podia ser sugerido. Disputas e desavenças acabavam sendo resolvidas com acusações absurdas.

Aqueles que não confessavam sua culpa ou que não apontavam outros nomes eram vistos como bruxos e punidos com severidade. Alguns sofriam torturas, pedras eram colocadas sobre seus corpos que eram lentamente esmagados. Outros eram obrigados a segurar tijolos ou metal em brasa para testar se Satã lhes concedia resistência ao calor e ao fogo. Aqueles que pareciam estar fingindo eram apontados como feiticeiros. Os métodos eram tão absurdos e desonestos que era impossível passar nos testes impostos. Um deles envolvia decorar passagens inteiras da Bíblia e repetir de cor as palavras sem cometer um único erro. Outro teste envolvia colocar na boca um carvão em brasa e recitar uma oração.


As "meninas afligidas", que eram órfãs, serviçais e de certo modo as pessoas mais humildes e frágeis da sociedade, repentinamente haviam percebido que tinham um grande poder. Elas conseguiam causar medo nas famílias mais poderosas e ricas do vilarejo. Bastava uma palavra delas para que alguém fosse arrastado pelos soldados e interrogado. Os nomes delas estavam nos lábios de todos em Boston e outras cidades importantes. Elas eram convidadas a visitar estas cidades e apontar bruxas. De um momento para outro, elas haviam se tornado muito importantes. A histeria não parecia ter fim em Massachusetts e a loucura continuava na ordem do dia.

É difícil dizer quanto tempo mais isso poderia durar se a própria esposa do Governador não tivesse também sido acusada de bruxaria. Isso fez com que ele tomasse uma medida para controlar a situação. Em 8 de outubro ele ordenou que a evidência espectral não fosse mais permitida nos julgamentos. No final do mesmo mês, ele proibiu prisões sem uma justificativa e mandou soltar várias pessoas. Em seguida, a corte foi dissolvida. O último prisioneiro formalmente acusado de bruxaria foi libertado da prisão em maio de 1693.

O que aconteceu em Salem continuou como uma ferida aberta na colônia de Massachusetts por muitos anos. Em 1697 a Corte geral do estado ordenou um dia de luto pelas almas dos injustiçados que pereceram em Salem. Samuel Sewall, que foi um dos juizes durante o auge da Caça às Bruxas, confessou publicamente ter cometido erros que levaram a condenação de inocentes. Nove anos depois, Ann Putnam Jr., uma das garotas afligidas, pediu desculpas publicamente por ter tomado parte na tragédia. O vilarejo de Salem para se livrar da sombra dos julgamentos decidiu mudar seu nome para Danvers em 1752. Finalmente, em 1957, O Estado Soberano de Massachusetts formalmente pediu desculpas pelos eventos em 1692.


Hoje em dia, a próspera Cidade de Salem incorporou a sórdida história do vilarejo de mesmo nome e promove convenções e feiras anuais em homenagem ao ocorrido. Visitantes podem ir até o memorial dedicado aos que sofreram com a perseguição ou que morreram durante aqueles dias negros. Museus, centros históricos e excursões recebem milhares de turistas anualmente. 

A questão que ainda nos assombra hoje em dia é como tudo aconteceu? O que fez com que um grupo de crianças se comportasse de maneira tão estranha e acusassem seus vizinhos? Ninguém realmente acredita que bruxas foram realmente as responsáveis pelo ocorrido. Mas se o diabo não foi a fonte de toda essa tragédia, é lamentável reconhecer que a culpa recai justamente sobre aqueles que se diziam do lado correto.