segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Klarkash-Ton - A vida e Obra de Clark Ashton Smith


com base no artigo de Donald Wandrei.

Clark Ashton Smith (CAS) nasceu em 13 de janeiro de 1893, em Long Valley, California. Ele começou a escrever de forma profissional na tenra idade de onze anos. Independentemente de seus cinco anos em uma escola de gramática, Smith aprendeu tudo sobre escrita por conta própria. Isso não significa que ele tenha recebido uma educação negligente, mas, não é exagero dizer que ele nasceu com um soberbo talento para o mundo da literatura, dominando muito cedo técnicas de verso, prosa e poesia. Smith era acima de tudo um artista, que enveredou ainda pelos caminhos da pintura e escultura.

Aos 17 anos, Smith já vendia alguns de seus contos fantásticos para a Black Cat e Overland Monthly, além de outras publicações. Sua primeira coleção de versos foi publicada apenas dois anos mais tarde em uma antologia com as melhores poesias de novos talentos. Saudado como um prodígio, ele recebeu elogios de críticos e comparações com Chatterton, Rossetti e Bryant. Ele assumiu a vida de autor e começou a escrever estórias curtas profissionalmente. Disputado por revistas que dominavam o mercado editorial de Pulp Fictions, tornou-se expoente nos gêneros fantasia e ficção.

O sucesso de suas estórias inspiraram outros. Suas narrativas estranhas, fantásticas e pseudo-científicas, fascinava os leitores e escancaravam as portas para mundos de imaginação, nos quais a criatividade de CAS fornecia a própria essência dos sonhos. Ao mesmo tempo, ele continuava escrevendo poesia de alta qualidade, com trabalhos publicados na Yale Review, The London Mercury, Wings, Magazine of Verse e no Mencken Smart Set. Suas poesias foram incluídas em dezenas de antologias, e suas traduções da obra de Charles Baudelaire foram usadas na coleção The Flowers of Evil do Clube Limited Editions.

Além de sua prosa e poesia, Smith era ainda um pintor e escultor, que exibiu suas obras estranhas e cheias de mistério em galerias na Costa Oeste. Suas esculturas, consideradas especialmente poderosas e fascinantes, eram talhadas em materiais estranhos incomuns o que as tornava comparáveis a arte primitiva. Embora jamais tenham sido reproduzidas em grande quantidade, as peças originais de CAS encontraram vários interessados que as arremataram em leilões de arte. Suas pinturas também encontraram grande aceitação e foram comparadas às obras do francês Odilon Redon. 

Ao longo de sua vida, esse incansável californiano se envolveu em muitas atividades além do mundo das artes: foi jornalista, catador de frutas, motorista de caminhão, lenhador, misturador de cimento, jardineiro, mineiro de carvão e pescador. Todas as ocupações usadas para conhecer o mundo e colecionar histórias que foram sem dúvida incorporadas a sua produção literária.

De ascendência Franco-Normanda, sua família tinha parentesco com condes e barões de Lancashire e com Cavaleiros que participaram das Cruzadas. Um de seus antepassados pelo lado dos Ashton foi decapitado por ter participado da famosa Conspiração da Pólvora. A família de sua mãe, os Galards, vieram para a Nova Inglaterra em 1630. Eram huguenotes franceses em busca de terras mais tolerantes onde pudessem se estabelecer após sofrerem perseguições pela revogação do Édito de Nantes. O pai de Smith, Timeus Smith foi, ele próprio, um viajante, assim como o filho. Cruzou a América de ponta a ponta e chegou ao Alasca onde participou da Corrida do Ouro. Estabeleceu-se em Auburn onde morreu com mais de 100 anos de idade. 

É provável entretanto que o legado de Clark Ashton Smith seja mais lembrado pela sua amizade e cooperação com outro monstro sagrado da ficção fantástica, H.P. Lovecraft. A arte de Smith não inspirou apenas os simbolistas franceses, mas teve enorme influência sobre Lovecraft. 

A amizade entre Ashton Smith e Lovecraft começou em 1922 e progrediu ao longo dos anos a medida que o nome de ambos ganhava fama entre os leitores da Weird Tales e outras revistas pulps da época. HPL tomou conhecimento da obra de CAS através de um amigo que lhe apresentou sua poesia. Imediatamente, Lovecraft sentou em sua escrivaninha e redigiu uma carta elogiosa endereçada da seguinte maneira: "Para Clark Ashton Smith, Esq., a respeito de suas Fantásticas Histórias, Versos, Ilustrações, e Esculturas".

HPL se sentiu atraído pelo estilo poético de CAS, pelo teor macabro de seus contos e pela sua sagacidade. CAS por sua vez procurou ler tudo que HPL publicava. Ele admirava a criatividade do colega, seu "domínio de noções de tempo e espaço" e, sobretudo,  a filosofia do que ele chamava "indiferença cósmica" (a crença de que a humanidade era tão insignificante no universo quanto um grão de areia numa praia). HPL acreditava que seu colega poderia contribuir com a mitologia em que ele vinha delineando. Para tanto, encorajou CAS a se aventurar mais a fundo no gênero Horror Cósmico. Por alguns meses, as cartas de ambos trataram do tema e vislumbraram uma espécie de parceria na qual os dois poderiam expandir a mitologia.

Não é incomum para autores criarem uma série de contos usando o mesmo protagonista ou situar suas histórias em uma terra fictícia. No entanto, era bastante incomum um autor utilizar o protagonista e as terras fictícias de algum colega com sua permissão - quanto mais se este ainda estava vivo e trabalhando nesses conceitos. Lovecraft acreditava que sua mitologia poderia se beneficiar de outros pontos de vista que somariam às suas ideias e ajudariam os mitos ancestrais a crescer. Dessa maneira ela seria algo sempre em expansão. De fato, Lovecraft convidava seus colegas a experimentar com suas ideias originais, emprestando os seus conceitos. Também os incentivava a acrescentar suas próprias criaturas, deuses, terras e personagens a coleção de seres que compunham os Mythos de Cthulhu.

O termo Cthulhu Mythos - que se popularizou apenas após a morte de Lovecraft, congregava todas as obras criadas a respeito dessa mitologia específica. Eles eram o que autores atuais chamam de "mundo compartilhado", no qual vários escritores unem esforços para expandir uma mesma criação através de histórias independentes.  

Foi Smith quem criou a fabulosa terra medieval de Averoigne, que fascinou inúmeros leitores e incendiou sua imaginação com lendas de Druidas, seres mitológicos e criaturas mágicas. Ele também idealizou as terras lendárias de Hyperborea, Atlantis e Poseidonis, situadas num passado remoto em que magia, misticismo e fantasia se misturavam para criar um ambiente que mais tarde serviria de inspiração para a Era Hiboriana de Robert E. Howard e a Terra Média (de J.R.R. Tolkien). Invertendo esse conceito, Ashton idealizou o continente perdido de Zothique, uma terra num futuro distante em que a decadência lançou a humanidade em um nova Idade das Trevas com a redescoberta da magia e volta a barbárie.

Além de lugares mágicos, CAS também contribuiu para os Mythos de Cthulhu, acrescentando sua própria hoste de Deuses e Monstruosidades onde se destacavam Aboth, Atlach-Nacha, Quachil-Uttaus, Ubbo-Sathla, o ancestral Povo-Serpente e é claro, Tsathoggua sua criação mais marcante. Também foi o responsável por um dos tomos mais famosos dos Mythos, o célebre Livro de Eibon (também conhecido como Liver Ivonis).

Autores dentro do círculo de amigos de Lovecraft, aproveitaram essas idéias para seus próprios ciclos de histórias. Assim, a Hyperborea se tornou um dos Reinos Hiborianos, enquanto o Povo Serpente passou a figurar como inimigo mortal do Rei Kull. O próprio Lovecraft aproveitou Tsathoggua em suas histórias, citando o Deus-Sapo no Necronomicon e relacionando Averoigne em mais de um conto. Mais do que admirar Clark Ashton Smith, Lovecraft tratou de imortalizá-lo, nomeando o Sumo Sacerdote de Tsathoggua com o sugestivo nome de "Klarkash-Ton".

Clark Ashton Smith imaginado como Klarkash-Ton
Após a morte de Lovecraft em 1939, CAS continuou escrevendo ficção fantástica mas sem o mesmo ímpeto ou interesse. Ele foi contatado por August Derleth que havia criado a editora Arkham House que o incentivou a prosseguir, contribuindo para expandir os Mythos de Cthulhu. Infelizmente, em 1953, após um ataque cardíaco, sua saúde se deteriorou e ele entrou em uma semi-aposentadoria na qual passava os dias cuidando do jardim e de seus netos.

Em agosto de 1961, Clark Ashton Smith faleceu tranquilamente enquanto dormia.

Ele tinha 68 anos de idade.

Alguns entretanto asseguram que ele apenas retornou para a Hyperborea, para ser saudado como o mestre escriba que sempre foi. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canibais, zumbis e Maldições contra Hitler - A vida no limite de William Seabrook


Em 22 de Janeiro de 1941, um grupo de pessoas se trancou em uma cabana nas florestas do estado norte-americano de Maryland com uma importante missão: eles tentariam matar Adolf Hitler.

Seu método e a escolha das armas era no mínimo curiosa. Um manequim, um uniforme nazista, alguns machados, uma caixa de pregos, bebida alcoólica suficiente para embriagar um exército e uma forte crença nos poderes da Magia Negra. 

Hoje em dia, a história continua sendo das mais estranhas, e entre os participantes desse peculiar ritual estava uma das figuras mais estranhas da História dos Estados Unidos. Hoje pode parecer apenas uma excentricidade, mas para os indivíduos que tomaram parte do experimento, não foi nenhuma brincadeira. Eles realmente acreditavam que os poderes envolvidos da magia negra invocada conseguiriam amaldiçoar Hitler e enviar sua alma gritando para o inferno. E para mostrar que falavam sério, eles convidaram um fotógrafo e repórter da Revista LIFE para documentar todos os acontecimentos. 

Quem conduziu o experimento ritualístico de magia negra foi ninguém menos do que William Seabrook um dos mais polêmicos e influentes jornalistas do período. Isso talvez explique a credibilidade de uma loucura desse tamanho ganhar as páginas da mais importante publicação da época.

Atualmente poucas pessoas sabem quem era ele, mas Seabrook foi muitas coisas durante sua vida: Autor, pesquisador, viajante, explorador, ocultista e membro de uma Geração Perdida. Um homem estranho mesmo entre os estranhos, capaz de testar os limites da civilização e quebrar tabus que a maioria das pessoas viraria o rosto nauseadas. Ah, sim, Seabrook foi entre outras coisas, ao menos uma vez, um canibal.


Foi durante uma viagem pelo continente africano em 1935, onde Seabrook trabalhava como correspondente internacional, que ele conseguiu fazer contato com a perigosa Tribo Guéré. Os nativos habitavam uma região selvagem na então colônia francesa da Costa do Marfim. Eles eram hostis e atacavam qualquer um que ousasse adentrar seu território. Meses de negociação permitiram ao repórter e um pequeno grupo, não apenas encontrar o líder Guéré, mas negociar com ele. Dizem que Seabrook presenteou o Chefe Tribal com uma caixa de rifles e munição para ganhar sua atenção. Ainda assim, o presente não garantia que ele, ou seus companheiros, conseguiriam sair de lá com vida.

O objetivo da expedição, era ainda mais ousado. Seabrook queria encontrar verdadeiros canibais e registrar sua sociedade para um livro que ele planejava escrever, "Jungle Ways" (Costumes da Selva). Mas como sempre, ele esperava ir além, desejava comungar com os nativos e experimentar sua cultura ao máximo para assim compreender seu comportamento. Queria ser um deles, e para isso teria de se alimentar como eles... de carne humana. Os Guéré, no entanto, o enganaram e embora tenham lhe oferecido uma refeição afirmando se tratar de carne humana, na verdade lhe entregaram carne de gorila. Furioso o repórter partiu da aldeia por pouco não causando a morte de toda expedição. De lá seguiu para o Sudão onde conheceu um feiticeiro tribal que também era cozinheiro, um homem que prometeu saciar sua obsessão pelo canibalismo. O feiticeiro cumpriu sua parte no acordo e como resultado, o explorador escreveu um parágrafo sobre a bizarra experiência culinária:

"A carne humana crua, em aparência, era firme, um tanto quanto densa quando comparada a outras carnes de animais próprias para o abate. A textura dela, crua, tanto aos olhos quanto ao toque, lembra um bife normal. Na cor, entretanto, ela era um pouco menos vermelha do que carne de gado. Ainda assim tinha um vermelho sangrento. Ela não era cinzenta ou rosada como a carne de carneiro ou porco".

De acordo com o livro de Seabrook, publicado no ano seguinte, carne humana tinha gosto "de um bom pedaço de vitela" e de fato "nenhuma pessoa com um paladar além do ordinário, e dos sentidos normais, seria capaz de distinguir essa carne em especial, da vitela que pode ser comprada em qualquer açougue no mundo civilizado". Embora apenas uma pequena parte de "Jungle Ways" tratasse do mergulho do repórter em um dos maiores tabus da humanidade, seu livro ficou conhecido como uma obra medonha, proibida em vários países. O livro talvez não definisse a carreira do jornalista, mas dizia muito a respeito dele.

Em vida, William Seabrook era ao mesmo tempo um homem notável e uma caricatura do ridículo. O Rei das Viagens Impossíveis e dos livros sobre povos e civilizações perdidas. Desde sua morte, a obra de Seabrook desapareceu e se tornou obscura. Recentemente, um de seus livros, Asylum foi republicado, lançando uma luz sobre a vida e obra desse cronista do absurdo.



Nascido em Maryland em 1884, Seabrook iniciou sua vida como um homem de respeito. Ele cursou a universidade e recebeu um cargo importante no semanário August Chronicle, que lhe garantiu uma vida de viagens pela Europa. Ele casou com a filha de um importante executivo da Coca-Cola e fundou uma agência de propaganda. Mas essa vida convencional logo se tornou uma espécie de inferno particular para Seabrook. Ele desejava algo mais em sua existência, embora a essa altura não 
soubesse exatamente o que.

A resposta veio em 1916, quando a Europa já mergulhava no segundo ano de uma catastrófica Guerra em que milhares de homens morriam diariamente. Seabrook deixou uma carta para esposa e colegas de trabalho alegando que precisava tomar parte no acontecimento que nas suas palavras "iriam moldar o século XX". Ele não esperou pelos Estados Unidos e antes desse se juntar ao esforço de Guerra, alistou-se como voluntário na França e recebeu a incumbência de dirigir uma ambulância no fronte. A adrenalina e o caos fizeram seu sangue fluir mais rápido do que ele poderia imaginar, dali em diante ele estava contaminado pela excitação da vida no limite.


Depois da Guerra, Seabrook fez uma séria tentativa de entrar no mundo da Literatura e passou a conviver com os círculos de boêmios do Greenwich Village. Um desses boêmios era Tony Sarg, que apresentou o jornalista a Deborah Luris a mulher que por sua vez introduziu Seabrook ao mundo proibido do sado-masoquismo. Mas para a maioria dos críticos literários, ele não passava de um repórter marginal que atraia um nicho muito específico de pessoas com histórias sobre crimes, ocultismo e sobrenatural. Ele era um jornalista que pertencia a Imprensa Marrom, um grupo que não era levado à sério.

Embora seu tempo no Greenwich Village não tenha trazido grandes benefícios para sua carreira literária, Seabrook conheceu pessoas interessantes como o estudante libanês Daoud Izzedin que encantava seus colegas da Universidade de Columbia com narrativas do Mundo Árabe. Izzedin e Seabrook se tornaram bons amigos e quando o primeiro o chamou para uma viagem até Beirute, este aceitou de pronto. Alguns meses depois, Seabrook estava vivendo entre os beduínos do Deserto da Arábia, participando de cerimônias envolvendo dervishes turcos e vagando pelo deserto no norte do Iraque sob a influência de drogas exóticas, ópio e coisas piores.

Ele retornou de suas peregrinações com histórias empolgantes a respeito de terras exóticas onde homens brancos raramente eram vistos ou apreciados. Trabalhando como correspondente, Seabrook não tinha ideia do quanto suas narrativas eram populares. Nem mesmo sabia que elas estavam sendo publicadas em várias revistas. Ele era tratado então como uma espécie de celebridade, um herói que explorava os mundos proibidos da África do Norte e do Oriente Médio trazendo para a "civilização ocidental suas experiências pessoais com os povos mais estranhos do globo" - ou assim prometiam as revistas que publicavam suas aventuras.  


Com o passar dos anos, a fama de Seabrook crescia e quando finalmente ele retornou a América encontrou um público que queria ouvir ainda mais a respeito de suas jornadas. Ele foi convidado para presidir palestras em grandes universidades. Em uma dessas palestras ouviu falar pela primeira vez das religiões africanas praticadas no Haiti e se surpreendeu com o Vodu.

Não demorou até que o obstinado jornalista conseguisse patrocínio para sua próxima aventura. Ele havia ouvido falar de um curioso mito envolvendo o folclore caribenho e que havia se firmado durante o comércio colonial de escravos. Zumbis ainda eram pouco conhecidos na época e Seabrook foi um dos primeiros americanos a se interessar pelos rumores de mortos que caminhavam. O zombi cadavre imediatamente atraiu a sua atenção e ele partiu para Port au Prince disposto a explorar a origem da lenda.

Através de um coletor de impostos mulato chamado Constant Polynice, Seabrook ouviu falar de um feiticeiro vodu (um bokor) que trabalhava para uma companhia açucareira americana. O sujeito supostamente criava zumbis para servir de mão de obra barata para a plantação. O jornalista viajou até a região e entrevistou o feiticeiro, na verdade, ele e sua esposa, que eram os responsáveis por criar os zumbis e negociar com os empresários estrangeiros. Seabrook conseguiu convencer o casal a mostrar como eles criavam os zumbis. Ele os acompanhou até uma visita a um cemitério e assistiu um cadáver ser exumado e preparado para o ritual. O morto recebeu uma pitada de sal sob a língua e foi "batizado" com um novo nome a fim de esquecer quem ele era anteriormente. Segundo a narrativa de Seabrook ele ficou na companhia dos feiticeiros por alguns dias, mas teve de fugir às pressas quando um grupo de aldeões furiosos invadiu a casa onde os bokor viviam e os massacraram.

Ainda no Haiti ele visitou o vilarejo de La Gonave, onde esteve cara a cara com outro bokor que controlava zumbis e os "alugava para trabalho escravo". Seabrook participou de um "ritual de criação de zumbis"  no qual descreveu o uso de substâncias entorpecentes cujo propósito era deixar a pobre vítima dócil e suscetível a comandos. As explorações do jornalista pelo Haiti se tornaram um livro lançado em 1929 e intitulado "In the Magic Island" (Na Ilha Mágica) que se tornou um bestseller. É possível que esse tenha sido um dos primeiros trabalhos a respeito do mito dos zumbis e vodu publicados nos Estados Unidos. É provável ainda que o livro tenha sido usado como base para a utilização de zumbis em filmes e histórias de horror ao longo da década de 1930.


O livro tornou Seabrook ainda mais popular e permitiu a ele participar de novas aventuras. Em 1933, ele esteve no Norte da África na companhia da recém criada Força Aérea Francesa em uma campanha cartográfica para mapear essa parte do continente. Foi nessa época que ele participou de sua famosa jornada pela Costa do Marfim que o tornou persona non grata e lhe valeu a fama de canibal e o apelido "Abominável Seabrook". A vida intensa de viagens e empolgação cobrou um preço alto do jornalista. Adepto de drogas experimentais e quantidades devastadoras de álcool, Seabrook mergulhou em um acentuado declínio antes de chegar aos 50 anos. 

Para combater sua dependência química e psíquica ele aceitou se internar em um asilo e enfrentar uma longa terapia que durou mais de sete meses. Ao fim do tratamento ele já tinha um novo livro pronto, "Asylum" (Asilo) que tratava de seu período sob "tutela de médicos psiquiatras e na companhia de notórios insanos". O livro foi visto com curiosidade e se mostrou um de seus últimos trabalhos que alcançou o público. Mas algumas críticas negativas tiveram um efeito devastador e ele voltou a beber. Ainda assim ele continuava a pesquisar e escrever cada vez mais interessado em temas incomuns e bizarros: Percepção extra-sensorial, reencarnação, bruxaria, satanismo e viagens astrais se tornaram parte de sua literatura especulativa e renderam mais quatro livros. 

Em 1941, Seabrook voltou a ganhar exposição ao tentar seu ritual para assassinar Hitler utilizando o Vodu. Estranho como possa parecer, ele ainda tinha seus fãs, entre eles, um grupo de jovens que vivia em Washington D.C e que havia lido o livro "Witchcraft: It's power in the World Today" (Bruxaria: Seu poder no mundo atual) e estavam interessados em aprender com ele métodos de encantamento e magia negra. O grupo contatou Seabrook e pediu a ele que os liderasse em uma tentativa de matar o líder nazista através de feitiços. Sabendo que aquilo traria alguma atenção da mídia, ele aceitou.

"Feitiços Vodu", ele explicou na entrevista publicada na revista LIFE, "funcionam apenas quando a vítima do malefício sabe que está sendo atacada pelo feiticeiro". Por essa razão, ele convidou a Revista para documentar todo o experimento.

Seguindo as instruções de Seabrook, um manequim foi vestido com um uniforme nazista. Um ajudante usou um chocalho sobre a cabeça do manequim, enquanto o grupo repetia as palavras em uníssono: "Você é Hitler! Hitler é você!"


O grupo então começou a martelar pregos em uma foto de Hitler colocada sobre o peito do manequim ao mesmo tempo que repetia as palavras: "Nós estamos enfiando pregos e agulhas no coração de Adolf Hitler". Para terminar o ritual, um grupo recebeu machados e fez o boneco representando o ditador nazista em pedaços. 

"Istam!" gritou Seabrook afirmando que a palavra invocava uma entidade pagã, "Envie 99 gatos pretos para arranhar seu coração e 99 cães negros para comer o coração de Adolf Hitler".

Quando o ritual terminou, Seabrook e seus colegas enterraram o manequim em uma vala. Ali os vermes deveriam devorá-lo, até que o homem amaldiçoado encontrasse seu fim. Os fotógrafos fizeram a festa e detalharam todo o processo. A reportagem foi publicada na Revista LIFE com o título "Feitiço para Amaldiçoar Hitler e terminar com a Guerra". No artigo Seabrook garantia que até o final do ano o líder alemão estaria morto e o conflito terminado.

Hitler é claro não morreu em 1941. Ele viveria por mais três anos antes de morrer em um bunker de Berlin em 30 de abril de 1945.

William Seabrook morreria um ano depois de Hitler, também pelas suas próprias mãos ingerindo uma dose maciça de pílulas para dormir. Ele deixou para trás, uma das vidas mais bizarras e incomuns que um homem poderia desejar.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Cinema Tentacular: IT - A Coisa - "Você também vai flutuar"


Semana passada escrevi uma resenha a respeito de It na qual falava a respeito de minha experiência lendo a novela de Stephen King. Quem leu o artigo deve ter percebido o quanto eu adoro IT e o quanto eu estava ansioso pelo lançamento dessa nova versão para o cinema.

Foi com um misto de expectativa e ansiedade que fui assistir o filme, tentando equilibrar esses dois elementos que não raramente tendem a arruinar a experiência cinematográfica. A seguir estão minhas impressões a respeito do filme com poucos ou quase nenhum Spoiler, portanto, leiam sem medo. 

Filmes baseados em trabalhos escritos por Stephen King tendem a dividir opiniões. Na mesma medida em que filmes como Louca Obsessão, Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e A Espera de um Milagre se tornam sucessos imediatos, outros como a última versão de Carrie, Janela Secreta e Apanhador de Sonhos são fracassos retumbantes. É estranho, mas as adaptações de King baseadas em seu arroz com feijão - o terror, dificilmente conseguem se firmar, resultando em produções medianas como Cemitério Maldito (não um filme ruim, mas também não um bom filme), 1408 (que é bem ruim) e O Nevoeiro (que eu adoro, mas que está longe de ser uma unanimidade). Não vou nem citar O Iluminado, já que a diferença entre o filme e a novela é tão gritante que King por muito tempo chegou a renegar a autoria. Tampouco vou mencionar os vários filmes baratos produzidos nos anos 80, que nos deram bobagens como Colheita Maldita, Christine e Firestarter, apenas para citar três. Mais recentemente, a obra mais ambiciosa de King chegou aos cinemas e a reação do público foi quase glacial. A Torre Negra, que era aposta para se tornar uma franquia das mais lucrativas, não deu em nada.


Talvez seja por conta dessa inconstância cinematográfica que a notícia de que IT seria adaptado para o cinema gerou enorme repercussão. IT talvez seja o livro mais debatido e comentado de Stephen King e um dos mais celebrados por aqueles que se consideram fãs hardcore de sua obra. Para alguns, ele é o ápice de sua bibliografia, o auge da carreira de um dos novelistas mais lidos da atualidade. Um verdadeiro clássico do gênero HORROR (com letras maiúsculas).  

O problema é que não seria nada fácil levar esse filme para a tela grande já que IT é um tijolo com mais de 1000 páginas. Claro, existem as dificuldades em adaptar uma novela de tamanho e complexidade monumentais, mas o principal problema reside nos temas espinhosos contidos na obra. Não me refiro apenas à violência gráfica, mas aos elementos de racismo, sadismo, abuso sexual e o pior de tudo, um trecho inteiro de crianças participando ativamente de uma orgia infantil.

Não que o livo  já não tenha sido adaptado. Em 1987, IT se tornou uma mini-série que foi ao ar na televisão americana em duas partes de uma hora e meia cada. O roteiro foi bastante diluído, com as partes mais polêmicas devidamente limadas da versão final. No fim, essa versão é lembrada quase que exclusivamente pela performance magistral de Tim Curry que criou um Pennywise digno de pesadelos. Podemos dizer sem medo de errar que Curry deu vida a um dos monstros mais aterrorizantes da época e que sozinho foi responsável por traumatizar toda uma geração que passou a temer palhaços. Mas se o vilão foi marcante, o mesmo não se pode dizer do restante do filme que sofria dos típicos problemas das produções "feitas para a TV" do período. Atuações fracas, direção frouxa e um final atropelado e pouco convincente deixaram o filme datado e restrito ao público que consumia filmes de terror. Com tantos problemas, nem mesmo Tim Curry conseguiu salvar IT de ser apenas mais um filme mediano baseado na obra de Stephen King.


O tempo passou e por vezes, IT chegou a ser cogitado como candidato a uma refilmagem. Em algumas ocasiões o rumor ganhou fôlego, mas na hora de dar o sinal verde parecia faltar um produtor com coragem para bancar a encrenca. Curiosamente, o projeto IT só foi desengavetado e passou a ser discutido por conta da crescente onda de nostalgia a respeito dos saudosos anos oitenta. Não deixa de ser irônico que a geração que provavelmente assistiu ao telefilme estrelado por Curry, ainda criança, em pleno ano de 1987, tenha tido a ideia de adaptá-lo para essa época.

Os primeiros rascunhos de IT, escritos em 2010 contemplavam uma mudança de época. Na obra original, King recorreu às suas lembranças de infância para situar a trama no ano de 1957 dando destaque a uma época que muitos consideravam idílica e cheia de inocência para contrapor o terror reinante. Para o filme, a ideia era aproximar o espectador na casa dos 30-40 anos da trama, recorrendo ao clima de nostalgia oitentista. Faltava entretanto alguma coisa para impulsionar o projeto e esse "algo mais" surgiu por conta do sucesso de "Stranger Things", uma série que bebia direto da fonte do período. Os Irmãos Duffer, criadores de Stranger Things chegaram a ser cogitados para dirigir IT, mas no fim das contas, Andy Muschietti, do filme Mama, acabou ficando responsável pela direção. 

Uma das primeiras medidas do novo diretor foi brigar para que o filme fosse dividido em duas partes, cada uma com duas horas de duração. Uma estratégia pra lá de arriscada já que pressupunha que a primeira parte precisaria ser um sucesso para justificar uma continuação. Por sorte, os produtores acabaram concordando, depois que os dois roteiros foram escritos por Cary Fukunaga, escritor de True Detective.


O passo seguinte foi contratar um grupo de jovens talentos já que os protagonistas deveriam ter no máximo 12 anos de idade. O elenco reúne alguns dos astros mirins mais promissores de Hollywood, liderados por Jaeden Lieberhere (de Diário de Henry) e Finn Wolfhard (de Stranger Things). O elenco é um dos trunfos de IT, as crianças são incrivelmente naturais e a química entre elas é tão perfeita que a gente acredita que aqueles moleques são realmente os membros do "Losers Club". Os atores tem espaço para brilhar tanto individualmente, quanto em grupo, como um círculo de amigos. É impossível não associar o elenco com outros filmes de "garotos correndo em bicicletas"  como Goonies, E.T. e o próprio Strange Things. Sophia Lillis, que interpreta a única menina do grupo, Beverly também é perfeita, parece ter nascido para o papel.

Com tudo caminhando, faltava apenas um "pequeno" detalhe: quem ficaria com o papel de Pennywise? 

Uma das maiores preocupações desde o início era escolher um ator capaz de ao menos igualar a performance surreal de Tim Curry. Entre os candidatos estavam nomes de peso como Hugo Weaving (O agente Smith de Matrix), Tom Hiddleston (o Deus Loki dos filmes da Marvel) e Johnny Depp (o Capitão Jack Sparrow), mas no fim, o diretor preferiu optar por um nome não tão conhecido e com uma idade mais próxima das crianças.


A escolha recaiu sobre o sueco Bill Skarsgard, ator de apenas 27 anos, conhecido pela série Hemlock Grove. No início muitos fãs torceram o nariz para a escolha, mas no fim das contas ela se mostrou muito acertada. Skarsgard decidiu que sua versão de Pennywise seria bem diferente da encarnada por Tim Curry. Só assim ele não seria uma simples cópia. Enquanto o Pennywise de Curry era diabólico mas até certo ponto engraçado, assumindo os trejeitos de um Bozo demoníaco, o de Bill é bem mais soturno e inumano. Uma diferença fundamental é que o Pennywise de Bill está apenas parcialmente interessado em se passar por humano, ele é em essência uma abominação perversa, interessada em aterrorizar e devorar suas vítimas inocentes. Logo na primeira e chocante cena percebemos o quanto Pennywise é cruel e impiedoso e essa cena estabelece o tom sinistro do personagem ao longo de todo filme. Para os fãs que ficaram preocupados com a "cara de anjo" do ator, basta um sorriso maligno para assegurar que o personagem está em boas mãos. A voz esganiçada, a maquiagem e roupa bizarras, além da risada maníaca ficaram perfeitas. Há algo de pervertido e profundamente incômodo nessa encarnação de Pennywise, sobretudo quando os olhos do monstro insistem em não piscar e focam em dois pontos diferentes ao mesmo tempo. 

O fato do filme ter uma classificação R (de Restricted) garante que não vão faltar cenas sangrentas e grotescas, algumas delas bastante perturbadoras. O filme, por vezes recorre ao "jump scare", a técnica de aumentar o som da música de fundo para potencializar ao máximo o susto, mas em um filme como IT isso é perfeitamente compreensível para criar um efeito de montanha russa. IT possui várias cenas impactantes, com litros de sangue pintando o set inteiro de vermelho, membros sendo decepados e imagens distorcidas. O som e a música complementam as imagens perfeitamente e o resultado deixa o público na ponta da poltrona. Os risos nervosos e a quantidade de pessoas colocando as mãos na frente dos olhos, são prova inequívoca de que o objetivo do filme é causar uma sucessão de sustos. Não se trata de um horror denso ou psicológico, mas de um filme de terror honesto que em alguns momentos vai pregar um susto até nos fãs mais familiarizados com o gênero.


A maioria dos efeitos especiais foram criados seguindo a cartilha dos truques práticos de cena e tudo funciona muito bem. Mas em alguns momentos o diretor se rendeu às comodidades do CGI, recorrendo a alguns efeitos mirabolantes. As diferentes formas adotadas pelo monstro permitem que ele seja assustador de várias maneiras, seja como um leproso, uma pintura expressionista distorcida ou como um palhaço aterrorizante. 

Os ambiente claustrofóbicos, em especial os cenários da casa assombrada que é o covil lúgubre da criatura e o labirinto que forma o sistema de esgoto e leva até o local onde as crianças flutuam são especialmente eficazes. O cenário da cidade fictícia de Derry, também é espetacular. Para quem leu o romance, a recriação da fantasmagórica cidadezinha parece perfeitamente condizente, tanto nos cenários urbanos quanto nos arredores das florestas e estradas de terra. Derry é aliás uma parte essencial do romance, um lugar em que as crianças estão sempre em perigo, ignoradas pelos adultos ou ameaçadas pelos adolescentes capazes de horrível brutalidade. Nada em Derry é bom, a presença da Coisa corrompe tudo e todos, transformando pais em pedófilos, mães em bruxas super-protetoras e delegados em sádicos. Os monstros humanos em IT, em alguns momentos são tão terríveis, ou até mais medonhos que a própria Coisa. Em um lugar desses não é de se surpreender que as crianças tenham de recorrer umas às outras para sobreviver. Nenhuma delas estaria à salvo por conta própria.


Dado o formato escolhido para contar a história, em duas partes, é razoável que o primeiro filme explique muito pouco a respeito da origem da Coisa e o que ela representa. Tudo isso estará na continuação. A primeira vista, isso pode ser um pouco frustrante, já que não existe um fechamento e a porta para a segunda parte fica propositalmente aberta com a certeza de que o monstro pode ter sido derrotado, mas que definitivamente não foi morto. 

O sucesso do filme em seu fim de semana de estréia garante que a continuação de IT está mais do que certa. O filme fez bonito nas bilheterias, estabelecendo um novo recorde pra o mês de setembro, o que é especialmente surpreendente considerando que se trata de um filme adulto. Tendo custado modestos 35 milhões (uma cifra baixa no mundo dos blockbusters), IT arrecadou mais de 110 milhões em sua abertura, tornando-o um dos filmes mais rentáveis da temporada. Nada mal para um filme baseado num livro escrito há 31 anos. Prova inquestionável da longevidade e atualidade das obras de Stephen King.



O primeiro capítulo de IT desponta como o melhor filme de terror do ano, e sinaliza com uma continuação sólida se a premissa for mantida. Como os melhores trabalhos assinados por Stephen King, IT consegue conjugar horror de verdade com temas mais leves, no caso a força da amizade, do companheirismo e a perda da inocência.   

Se eu gostei? Com certeza!

Se vale a pena assistir no cinema? Sem dúvida!

TRAILERS:

Trailer #1:


Trailer #2


Trailer #3

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Elmo do Diabo - A medonha máscara do Rei Henrique VIII


Henrique VIII entrou para a história como um dos mais polêmicos monarcas da Inglaterra.

Em seu reinado, ocorreram algumas das mais profundas transformações de um período por si só conturbado. Foi Henrique que em sua sede de produzir um herdeiro masculino para o trono, casou com várias mulheres, descartando-as a medida que "elas" não eram capazes de cumprir sua vontade. Mais do que isso, para ter o que queria, o Rei ousou fazer aquilo que até então seria impensável: rompeu com a toda poderosa Igreja Católica Romana e deu início a sua própria Igreja.

Quando olhamos para as imagens de Henrique VIII vemos um sujeito rotundo e bonachão. A história conta que ele morreu de um quadro avançado de diabetes, causado por uma vida de excessos monumentais. A rotina do Rei incluía uma dieta maciça de açúcar, um profundo ócio e uma vida desregrada. Alguns estudos, apontam inclusive para uma degeneração mental, o que explica suas mudanças constantes de humor e o comportamento excêntrico. É claro, tudo isso cobrou seu preço. Ao morrer em 1547, com apenas 55 anos de idade, ele pesava mais de 140 quilos e sua cintura tinha 150 cm de diâmetro. Há relatos de que seu corpo teve de ser lavado com essências aromáticas inúmeras vezes antes do funeral em face do cheiro nauseante que dele exalava.    

Diante de tudo isso, é difícil imaginar alguém como Henrique VIII como um sujeito atletico. 


Entretanto, é fato que na sua juventude, pelo menos até os 30 anos, o Rei era um esportista dado a caminhadas, montaria e disputas de remo. Em uma justa ele se feriu gravemente e obteve uma ferida que jamais curou por completo e que foi motivo de angústia até o fim de sua vida

Uma outra faceta pouco comentada a respeito da personalidade de Henrique VIII dizia respeito ao seu gosto pelo estranho e inusitado. Tanto que ele recebia muitos presentes e agrados vindos de todos os cantos do mundo e é justo um de seus presentes mais peculiares o foco desse artigo.

O Elmo do Diabo é realmente uma peça... incomum.

Criado pelo ferreiro e ourives austríaco Konrad Seusehofer, considerado um mestre em seu ofício, o estranho elmo fazia parte de uma armadura completa. O traje mais leve e com detalhes em bronze e aço, além de filigranas em ouro e prata, foi um presente oferecido pelo Imperador do Sacro Império Romano Germânico Maximiliano I em 1514. Ele foi entregue ao embaixador em uma caixa lacrada sem que mencionassem o que havia dentro. Dizem que o embaixador cedeu a curiosidade e decidiu abrir a caixa se deparando com o estranho presente. Temendo a reação do Rei diante do regalo ofertado pelo seu senhor, o embaixador deixou a corte para que nem estivesse próximo quando um assistente entregasse a peça. Henrique, no entanto, ficou deslumbrado com o presente, tanto que escreveu ao Imperador agradecendo-lhe, coisa que raramente fazia.


A armadura jamais foi projetada para o combate, ela era consideravelmente mais leve, porém, oferecia pouca proteção em batalha. Sua função era puramente cerimonial. O poder de intimidação dela, entretanto era incrível, as pessoas tinham medo dela, e não era para menos. A armadura era toda trabalhada, com um peitoral de bronze emoldurado por uma capa esvoaçante, semelhante a asas e gravets - peças de braços e pernas, simulando escamas. As luvas de aço tinham garras e nos braços despontavam barbatanas dorsais e espinhos. Em resumo, era um traje aterrorizante. 

O elmo, entretanto, era a parte que mais chamava a atenção na armadura. 

A peça tecnicamente era conhecida como armet, uma proteção justa para o crânio, com peças para desviar ataques visando o queixo e a face. O Armet se tornou popular no século XV, sendo mais comum na Itália, França e nos Países Baixos. Era uma peça cara, que demandava grande quantidade de material e um molde da cabeça do indivíduo que o utilizaria para se ajustar. Este armet em especial tinha painéis para os olhos feitos de prata e interior em veludo. Ele foi esculpido por Seusehofer na forma de uma carranca medonha, com um sorriso diabólico, nariz adunco e expressão sardônica. Enormes chifres recurvos semelhantes aos de carneiro encimavam a peça. Para muitos ela era de gosto duvidoso, para o Rei, era perfeito! 


Henrique VIII gostou tanto do presente que imediatamente ordenou que o armeiro real fosse chamado para fazer os ajustes para que ele pudesse vestir o traje. O elmo serviu-lhe perfeitamente e ele passou a usar, mesmo em Reuniões da Corte tamanha sua satisfação. Posteriormente, Henrique mandou construir óculos para auxiliá-lo a enxergar melhor e ler os documentos entregues a ele. Os óculos foram forjados no elmo dando a ele uma aparência ainda mais estranha.

Quando finalmente a armadura ficou pronta, Henrique a usou em alguns eventos como torneios e paradas militares. A armadura, no entanto, não era nada confortável, ainda mais na medida que o Rei ganhava peso. Por fim, ele deixou de usá-la, e ela acabou sendo descartada como sucata provavelmente depois da Guerra Civil. O elmo contudo foi mantido, uma peça que o monarca adorava vestir para assustar as pessoas e que dada sua aparência acabou sobrevivendo a passagem do tempo.


Como não poderia deixar de ser, uma peça tão bizarra quanto aquela, despertava rumores. Algumas pessoas na corte diziam que o humor do Rei variava quando ele vestia a peça ou meramente a tinha por perto. Não demorou ate ela ganhar o apelido Elmo do Diabo. Acreditava-se que o elmo refletia o estado de ânimo do Rei. Quando a vestia se tornava taciturno e até cruel, decretava medidas austeras e impopulares. Mais de uma ordem capital teria sido decretada enquanto ele vestia o Elmo do Diabo. Dizem que a voz do Rei se tornava também soturna quando ele falava através dos buracos da mascara metálica, sua respiração acelerava e soava ameaçadora. Era como se o diabo estivesse ali dentro, e o Rei se divertia com aquilo.

Haviam boatos ainda mais alarmantes. Para alguns o elmo seria mágico e protegeria o Rei de qualquer tentativa de assassinato. Veneno ou lâmina não poderiam lhe causar mal, pois o elmo o defendia de todos os males. Para outros, quando o Rei vestia a peça, o Demônio podia olhar através de seus olhos e nesse ínterim, a Inglaterra ficava sob a influência do Senhor do Inferno. Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique e uma cristã devota, detestava a peça e temia até mesmo olhar para ela. As más línguas da corte diziam que o Rei em uma ocasião, para brincar com a esposa vestiu a peça e foi visitá-la em seus aposentos. O susto teria sido tão grande que por conta disso ela teria perdido uma criança que esperava (provavelmente um exagero que historicamente não pode ser comprovado).


Com o tempo, Henrique acabou perdendo o interesse pela peça e ela foi relegada a Royal Armourie (o Arsenal Real) lá permanecendo por décadas.

A peça foi redescoberta pelo Bobo da Corte Will Somers que tinha grande influência com o próprio Henrique VIII, sendo seu cômico favorito. O bobo usou o elmo em algumas apresentações na corte e após a morte do Rei recebeu a permissão de manter a peça em seu poder. Posteriormente ele se aposentou na regência de Elizabeth I. Algumas pessoas diziam que Somers havia "perdido a graça" depois de receber o elmo de presente, outros afirmavam que ele simplesmente havia perdido seu patrono e por isso ninguém mais dava atenção a ele. Somers foi enterrado na paróquia de St Leonard, morrendo na obscuridade. Antes ele deixou instruções para que o Elmo do Diabo fosse devolvido à Coroa, alguns acreditam que sobre ele pesava uma maldição.

Seja como for, o Elmo foi enviado para Leeds onde repousa até os dias atuais como uma das peças mais populares em uma exposição permanente de armas e armaduras medievais. Uma armadura de desenho similar a feita por Seusenhofer, presenteada a Charles V, ainda existe em Viena.

É natural imaginar que uma pessoa levada diante de um Rei se sentiria intimidada. O que dizer se esse mesmo Rei vestisse uma peça desse tipo. Como é se sentir observado pelo Diabo? Melhor não saber...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

IT - Resenha e Memórias de um Livro clássico de Stephen King


Já aviso de antemão, o título desse artigo talvez esteja errado.

Ele não se propõe a ser uma resenha, ao menos não no sentido convencional no qual o autor fala dos pontos positivos, dos negativos e equaciona uma conclusão a respeito da obra que pode servir para estimular ou então afastar o leitor da mesma. Esse artigo é muito mais um exercício de nostalgia a respeito de minha experiência lendo (ou ao menos tentando ler) "A Coisa"/"IT" ao longo de diferentes momentos da minha vida. Em certos momentos eu consegui, em certos momentos não.

Claro, ele contém comentários a respeito do livro e menciona em linhas gerais elementos da narrativa. Spoilers? Provavelmente há alguns e suponho que aqueles que pretendem ver o filme possam se incomodar. Entretanto, quero lembrá-los que esse é um livro editado há 31 anos e que nesse período, ele foi muito comentado e analisado. Portanto, se você é um fã do horror provavelmente a história não lhe será totalmente estranha. Ademais, IT ficou associado a uma mini-série (que aqui no Brasil foi condensada na forma de filme) bastante popular. Quem não lembra da atuação épica de Tim Curry como o Palhaço mais assustador de todos os tempos? Ora, se a essa altura, você, caro leitor, não souber do que estou falando, então eu duvidaria de suas credenciais como entusiasta do horror. O texto a seguir, no meu entender, não visa estragar a diversão alheia, pois me controlei para tocar apenas de leve nos principais temas da história.

Outro fator a se considerar é que essa "resenha" (olha a palavra aí novamente) se refere ao livro e não ao filme. Eu mesmo, ainda não assisti ao filme, de modo que SPOILERS a respeito dele são uma impossibilidade cronológica. Ainda assim, para evitar queixas, advirto aqueles que estão lendo e que querem chegar ao cinema sem qualquer noção (verdadeira tábula rasa) do que vão encontrar, que parem por aqui. (mas que voltem posteriormente para ler as baboseiras que escrevi).

Dados os avisos, vamos lá.  

A primeira vez que ouvi falar de IT de Stephen King foi quando eu era criança no colégio.

Naquela época, IT havia sido traduzido com o título "A Coisa". Tinha algo naquele livro, dividido em dois enormes volumes, na capa com uma aranha medonha e naquela edição em particular que me atraia quase como uma lâmpada atrai uma mariposa. Algo de perigoso e proibido, algo de hipnótico e desagradável repousava em seu interior. Era impossível desviar os olhos.


IT, ou melhor "A Coisa" (como chamarei no início desse artigo) ficava guardado num armário em frente a entrada da biblioteca do colégio onde eu estudava, atrás de um vidro transparente. Eu passava por ele e olhava de soslaio. Depois de alguns dias, tomei coragem e perguntei a senhora da biblioteca se podia alugar aquele livro e levar pra casa. Aos 11-12 anos, eu já era um bookworm e costumava alugar os livros da biblioteca do colégio para ler nos finais de semana - várias das fichas de retirada, se estas ainda existem, devem ter minha assinatura.

A bibliotecária, com uma expressão típica de condescendência e superioridade adulta, me olhou de cima a baixo e em seguida olhou para o livro como se estivesse nos medindo e comparando:

"Esse livro não é pra criança!" ela decretou e virou de costas. Insisti uma segunda vez.

"Você viu o tamanho desse livro? Além disso, ele não é para sua idade, você não vai gostar dele". Disse já se afastando.

"Me dá esse livro sua maldita! Quem você pensa que é para dizer o que eu posso ou não ler!"

É claro que eu não disse isso. Engoli a raiva como as crianças daquela idade são obrigadas a engolir de tempos em tempos. O gosto era de doer.

Meses passaram, eu vi "A Coisa" em livrarias, mas ele era muito caro para eu comprar juntando o dinheiro do lanche ou com minha mesada. Pelas minhas contas seriam meses e meses juntando o dinheiro da cantina ou abrir mão de inúmeras edições de gibis. Eu lembro de ter lido em alguma revista da época uma resenha sobre "A Coisa" que me deixou ainda mais curioso. Era um livro de Horror, isso eu havia entendido, mas havia algo mais... havia polêmica a respeito de coisas que eu não estava pronto para compreender.

De tempos em tempos "A Coisa" desaparecia do armário de vidro. Era alugado por algum aluno mais velho, da oitava série ou do segundo grau. Retornava amassado, com a capa cheia de vincos e orelhas, a lateral partida, mau tratado por algum adolescente desleixado. Cara, eu detestava aquilo!


Lembro que foi no final do ano, perto das provas finais que "A Coisa" finalmente chegou às minhas mãos ansiosas. Foi em uma semana na qual a "Senhora da Biblioteca" estava sendo substituída por uma outra moça bem mais jovem e sem tanto interesse pelo que os alunos desejavam ler. Como quem não queria nada, pedi pelo livro "A Coisa", que a essa altura já não era mais uma novidade, e portanto não era mantido em destaque no armário. Ela perguntou que livro era esse e eu apontei na prateleira atrás dela. A lateral do livro era enorme e eu podia ver de longe a lombada retangular despontando.

Ela franziu a testa, mas foi apanhá-lo. Eu pedi que apanhasse os dois volumes e ela voltou para pegar o segundo "tomo" segurando um em cada mão e examinando o conteúdo com uma curiosidade branda.

"É esse mesmo?" ela perguntou e senti que estava sendo medido novamente em relação ao livro.

"Esse mesmo! Posso alugar para o fim de semana?", ela olhou uma segunda vez para o livro e tenho certeza, pensou em dizer que não. Mas então acenou com a cabeça.

"Vamos fazer o seguinte, você leva o primeiro e depois aluga a segunda parte. Você não vai ler tudo isso num fim de semana, vai?"

E assim foi. Eu levei "A Coisa" pra casa. Ele queimava dentro da minha mochila escolar da Company como um artefato proibido que eu havia removido de uma biblioteca blasfema. Me sentia o próprio William de Baskerville de O Nome da Rosa (que eu tinha assistido naquele mesmo ano) contrabandeando um tomo proibido e prestes a virar suas páginas venenosas.

Naquela mesma noite comecei a ler "A Coisa". Eu tinha uma daquelas luminárias de prender na guarda da cama que iluminava uma área pequena do quarto. Todo resto era treva. Apaguei as luzes e comecei a ler a história sendo apresentado a um grupo de garotos chamados Perdedores, a uma cidade medonha chamada Derry e a um Horror Imortal chamado Parcimonioso (esse era o nome de Pennywise, o Palhaço Dançarino na tradução).

Eu li e li e li...


Mas não posso mentir, é claro que não consegui ler tudo. IT na época estava muito além de minha capacidade de leitor: Era como um menino tentar correr uma maratona de adultos.

Contudo, o que li me deixou chocado. A história envolvia adultos que aos poucos tentavam lembrar de acontecimentos em suas infâncias, eventos traumáticos que envolviam uma luta desesperada contra uma força aterrorizante e imortal. Como leitor (e criança) eu imediatamente me identifiquei com os protagonistas juvenis. todos eles na minha faixa etária. Mas o que realmente me deixou chocado foi que "A Coisa" saltava no tempo, apresentando os personagens em dois períodos distintos de suas vidas. E mais chocante do que esse vai e vem temporal era o fato de que os horrores experimentados pelos Perdedores reverberavam nas suas vidas adultas.

Pode parecer bobagem, mas eu não tinha noção de que coisas que acontecem na infância podem ser carregadas para a idade adulta. "O que acontece quando você é criança, acaba superado quando você cresce e se torna adulto". Não é? Bem, assim eu acreditava...

Ler que um choque traumático podia levar um menino a sofrer na idade adulta de gagueira crônica ou que um adulto podia ter sua vida devastada por algo ocorrido na infância me deixava mais apavorado do que as diabruras de Pennywise. Quando você é criança imagina que vai ser imbatível quando adulto. A Coisa serviu como alerta de não era bem assim.

Eu li sobre palhaços dançarinos, sobre lobisomens, sobre garotos malvados (o termo Bully não existia na época) e sobre coisas que crianças não estão preparadas para enfrentar, mas que precisam enfrentar no final das contas. Até então, eu adorava me colocar no papel dos jovens heróis descritos nas páginas dos romances que eu lia. Mas em "A Coisa" isso não aconteceu, eu ficava apavorado só de pensar em ser uma daquelas crianças.

Eu gostei muito dele, mas na semana seguinte, devolvi o livro à biblioteca, tendo lido, talvez umas 300 páginas. O que deveria ser um recorde para mim na época, mas que na multitude do livro não simbolizava nem 1/4 de sua extensão.


Deixei "A Coisa" de lado e o livro voltou ao seu lugar na prateleira, sendo retirado dali de quando em quando. Sua capa deteriorando nas mãos suadas de adolescentes bombando hormônios.

A segunda vez que "A Coisa" caiu em minhas mãos foi anos mais tarde, quando eu já estava deixando de ser um destes mesmos adolescentes.

Eu lembrava bem do "tomo proibido" que tinha lido e por algum acaso do destino o encontrei em uma feira itinerante de livros usados. Eu não tive dúvida! O livro continuava me chamando e eu queria muito ler aquela história até o fim. Infelizmente, a segunda parte estava em estado lastimável, a capa havia caído, as páginas estavam amareladas, desbotadas e a espinha do livro estava pra lá de danificada. Mesmo assim, levei ele pra casa.

Comecei a ler pela segunda vez, impressionado a cada parágrafo com o fato de lembrar perfeitamente de trechos inteiros. A mente grava o que a mente deseja gravar: "Eles flutuam aqui..." disso eu lembrava bem, mas lembrava em especial de Bill Denbrough que eu considerava anos antes meu alter ego na história. Agora, entretanto, eu olhava a personagem Beverly com outros olhos, eu a idealizava como a garota ideal e queria muito salvá-la do pai e do marido abusivo (aqueles filhos da puta que faziam a vida dela um inferno!).

Tenho certeza de que passei das 300 páginas, mas novamente, "A Coisa" parecia uma maratona longa demais para um adolescente que precisa estudar matemática para não levar bomba e que era distraído frequentemente pelas garotas de short curto ao seu redor. Além disso, a perspectiva de terminar um tomo e iniciar outro que estava em estado deplorável me desagradava. Talvez isso tenha impedido que eu lesse por inteiro, isso ou o que eu enxergava nas entrelinhas.

O livro me dava calafrios! A essa altura eu não tinha ilusões a respeito daquilo que carregamos da infância para a vida adulta, mas outra coisa me incomodava dessa vez. A maldade dos adultos em Derby, a cidade fictícia em que se passava a história, me causava arrepios. O pai abusivo de Bev, a mãe carola de Eddie, os pais que não ligavam para Bill. Todas crianças que sofriam nas mãos de adultos perversos ou crianças maldosas. Eu não achava que podia existir gente tão maligna no mundo, o que fazia "A Coisa" soar exagerado: "coisa de livro".

Minha edição de "A Coisa" ficou na estante por alguns anos, até que um belo dia, minha mãe viu aquele livro decrépito na prateleira e decidiu jogá-lo fora. "Você não ia ler aquilo, estava nojento", ela disse.


O tempo passou novamente e meu terceiro encontro com A Coisa aconteceria uns 12 anos mais tarde. Dessa vez, seu nome era IT (e assim o chamarei daqui em diante) e seu formato era de Pocket book, escrito em inglês. Eu já havia assistido a série feita para a televisão e Tim Curry no papel do Vilão ficara marcado na minha memória solidificando um desconforto sadia para com palhaços - sobretudo aqueles com dentes afiados. Eu sabia como a história terminava, mas ainda faltava algo.

É engraçado como as coisas são, eu procurava algo para ler e por acaso dei de cara com IT em uma prateleira de descontos. O livro, com a face de Pennywise na capa parecia sussurrar: "Eles flutuam aqui.. você quer flutuar também?"  Ele continuava sendo um desafio de resistência, o mesmo desafio imposto por best sellers como Shogun ou Pilares da Terra. Comprei o desafio e levei IT para minha casa, não a casa dos meus pais, a minha casa de adulto. Para lê-lo como adulto, não como criança.

Minha surpresa é que IT ainda era um livro extremamente perverso, um livro sobre crianças tendo de ser adultos e adultos devastados pelo fato de terem sido obrigadas a deixar de serem crianças. Eu sempre achei IT uma versão de horror de Peter Pan, e ler o livro, finalmente por inteiro, aumentou essa percepção.

A despeito de ser um dos melhores livros de horror que já tive nas minhas mãos, IT tinha seus problemas. Eu não aceitei bem a parte mais polêmica de suas 1100 páginas, o tão comentado episódio em que as crianças para firmar seu pacto de responsabilidade a respeito do retorno de Pennywise abandonam a vida infantil, abraçando seu amadurecimento por intermédio da iniciação sexual. Em retrospectiva, hoje entendo o que Stephen King quis dizer, que aquilo sedimentaria seu compromisso e tornaria a lembrança de seu juramento eterna, mas de alguma forma parecia errado.

IT pra mim era mais do que um livro de horror e fantasia, era um tratado de como as pessoas mudam quando são confrontadas com fatores inesperados. O horror estava bem claro, mas era uma alegoria ao mal que temos de enfrentar, do contrário por ele seremos engolidos. Os Perdedores, venciam seu primeiro embate contra Pennywise, mas o round 2, viria 28 anos mais tarde e seu resultado era incerto. Nesse contexto IT é um livro sobre coragem e comprometimento, os garotos prometem algo que uma vez adultos, desejam esquecer. Derby ainda era um horror, por fora parecia idílica e pacífica, mas por dentro era podre, com um passado sórdido e acontecimentos que manchavam sua existência. Henry Bowers, o Bully que chefiava a gangue de valentões que perseguia os Loosers e Patrick Hockstetter, eram a personificação de tudo que eu odiava no colégio, tanto que ao ler IT, o rosto que eu colocava em Bowers era de um bully que aterrorizava a criançada nos meus tempos de aluno. Já Hockstetter, eu só fui conhecer alguém semelhante, anos depois, quando estava na faculdade escrevendo minha monografia sobre Psiquiatria Forense. Até ali eu achava que tais pessoas não existiam, novamente "soava forçado" um psicótico daquele naipe. Com o tempo entendi que não era apenas "coisa de livro".


Mas espere... muitos devem estar se perguntando que tipo de resenha e essa na qual o autor fala apenas sobe sua experiência de leitura do livro resenhado. Pois bem, já que é assim, voltemos aos trilhos para falar a respeito do livro em si de uma maneira mais direta.

IT é escrito por ninguém menos que Stephen King, que dispensa maiores apresentações pois é "apenas" um dos autores mais lidos de todo século XX. Famoso nos quatro cantos do planeta e com obras traduzidas em incontáveis idiomas você provavelmente já leu algo dele. Dentro de sua extensa bibliografia figuram clássicos do horror e suspense que alçaram o nome de King a um status lendário, como um dos maiores novelistas de nosso tempo: O Iluminado, Cemitério Maldito, Carrie, A Espera de um Milagre, A Hora da Zona Morta, a Saga Torre Negra são apenas alguns de seus romances de sucesso, títulos que encontram o caminho para o cinema, televisão e outras mídias com grande aceitação de público e crítica.

Em uma carreira consagrada, repleta de sucessos, IT, editado originalmente no ano de 1986 desponta como um dos principais trabalhos do autor. Para muitos fãs, IT é simplesmente a obra mais complexa e significativa de Stephen King. Apontado frequentemente em páginas dedicadas a ele como seu livro mais importante e aquele que na ausência de todos os outros deveria ser lido.

IT, obviamente é uma obra de horror, mas um horror diferente do que muitos estão acostumados. Os protagonistas não são indivíduos que se metem em um problema e investigam-no até conseguir triunfar sobre ele. O verdadeiro horror contido em IT diz respeito a viver com a certeza de que o mal que um dia você enfrentou, e que lhe deixou um trauma profundo, o acompanhará para sempre. E pior, ele um dia retornará para um ajuste de contas do qual não adianta tentar se esquivar.

O roteiro de IT não é linear, através da narrativa, vamos encaixando as peças do quebra cabeça que remonta a duas épocas distintas, os anos de 1957 e de 1985. A história tem lugar em Derry, uma pequena e sufocante cidadezinha da Nova Inglaterra, o quintal da maioria das histórias de King. As crianças de Derry sofrem com a presença de uma força ancestral que desperta a cada 28 anos para lançar uma sombra de pavor sobre os inocentes. Mortes e desaparecimentos se sucedem e na ausência de uma explicação razoável, as pessoas tendem apenas a aceitar esse destino.

Muitos acham que o palhaço Pennywise é o grande vilão de IT, mas de fato, o horror utiliza a máscara do Palhaço Dançarino apenas como uma de suas muitas faces. Ao longo do livro descobrimos que a Coisa (IT) pode ser um lobisomem, um pássaro gigante, uma múmia decrépita, um leproso imundo, um pai abusivo e qualquer outra coisa medonha capaz de aterrorizar crianças. Ela veste máscaras para cada ocasião, escolhendo aquela que aterroriza mais profundamente a sua vítima pretendida.


Na primeira parte da novela, que tem lugar em 1957, um grupo de crianças que chamam a si mesmas de "O Clube dos Perdedores" (Loosers Club) descobrem a existência da Coisa. Acompanhamos os laços de afeição e companheirismo entre elas se formando, amizades fortalecidas pela dependência mútua diante do perigo que enfrentam. Nenhum adulto pode ou irá ajudá-las e elas precisam fazer tudo por conta própria. Cada personagem tem a sua própria história que é contada de uma maneira tão engenhosa quanto convincente, fazendo com que o leitor passe a conhecê-los intimamente. Se existe algo que Stephen King sabe fazer com maestria é trabalhar a história de seus personagens e em IT ele teve tempo para sublinhar cada pequeno detalhe e fazer seus jovens protagonistas ganharem vida. Lá pela metade do livro, o leitor sente como se os Perdedores fossem de carne e osso e não meros nomes no papel.

Em algum momento da trama, as crianças conseguem derrotar Pennywise, mas os detalhes de como se deu essa vitória são nublados. Anos mais tarde, em meados dos anos 1980, a maioria deles não sabe exatamente o que aconteceu e os eventos parecem ter sumido de sua memória, restando apenas uma sensação de que as coisas não foram concluídas.

Na segunda parte do livro, as crianças, agora como adultos precisam retornar a Derry para enfrentar IT novamente. Aos poucos a lembrança dos eventos vão retornando e eles começam a compreender o grande preço que pagaram e aquele que está sendo cobrado uma vez mais. Em uma série de flashbacks vamos descobrindo junto com os próprios personagens, aquilo que eles haviam apagado de suas mentes. Toda descoberta no livro, é uma espécie de redescoberta que remexe um lodaçal estagnado, repleto de segredos densos e negros, enterrados na infância.

IT provavelmente é o meu livro favorito de Stephen King. Ele tem todos os elementos que fazem de King um escritor muito acima da média. Conheço muitas pessoas que tem reticências quanto aos livros de King, consideram-no comercial e raso em alguns trabalhos, mas é inegável que ele é um talentoso Contador de Histórias. Ao longo das 1100 páginas desse tremendo calhamaço, o leitor é desafiado a registrar os nomes de cada personagem, os detalhe da trama, a data de cada acontecimento e os indícios da presença de IT. Mas a despeito da tarefa a princípio hercúlea, a prosa de King é tão fluida e coloquial que a leitura transcorre fácil. Página depois de página, o leitor avança na trama querendo saber mais e mais, torcendo pelos seus personagens favoritos e esperando um final épico capaz de redimir todo sofrimento imposto.  

Algumas coisas em IT são de uma genialidade notável, a começar por Derry e sua aura de maldade latente. A história da cidade, contada brevemente entre os capítulos, serve para mostrar como a semente maligna de Pennywise encontrou um terreno fértil para se desenvolver. O livro também cava fundo em terrores mais mundanos, tratando de temas que vão muito além do horror sobrenatural, usando-o como alegoria para a maldade humana que assume a forma de hipocrisia, racismo, homofobia, puritanismo e sadismo. Por vezes, os coadjuvantes humanos são tão, ou até mais abomináveis que a "Coisa", e embora seja ela que fomente a maioria das tragédias, muitos dos personagens precisam apenas de um leve empurrão para se tornarem tão ruins quanto.


IT, a despeito de seu incrível tamanho, é uma história muitíssimo bem contada, que não tenta ser irritante ou moralista, e que aceita de bom grado a identidade de entretenimento. O próprio Stephen King disse inúmeras vezes que uma das coisas que realmente o irrita nos críticos é a busca incessante destes por significados ocultos nas entrelinhas de suas novelas, críticas a isso ou aquilo. A resposta dele é extremamente honesta: "essa é uma história de entretenimento, buscar significados ocultos provavelmente vai estragar a sua diversão". Talvez em parte, a culpa seja do próprio King que introduziu na história uma (ao meu ver) desnecessária polêmica, ao tocar na delicada tecla da sexualidade infantil. Muitos leitores jamais perdoaram King pela ousadia, ele próprio diz que não se arrepende da cena que no seu entender enseja numa espécie de Ritual de Passagem, contudo, talvez alterasse o contexto e mudasse algumas coisas. Para muitos leitores, o trecho estraga o livro, não me parece o caso, mas que é um "soco no estômago", é.

A razão para escrever uma resenha de um livro escrito há 31 anos é bastante óbvia. IT está chegando aos cinemas em uma versão que promete ser bastante fiel ao roteiro original. Assim como muitos fãs do livro, compartilho daquela incômoda expectativa de que seja um grande filme, equilibrando minha desconfiança de que pode vir a ser um fracasso.


A essa altura, resta torcer para que o filme faça jus ao livro e que a transposição seja respeitosa com os fãs. A se considerar os trailers e burburinho inicial, IT parece finalmente ter encontrado seu caminho para aterrorizar um público ainda maior.

Em breve teremos a resenha de IT, o Filme aqui nas páginas do Mundo Tentacular, então fiquem conosco.