domingo, 17 de janeiro de 2016

"E Deus lançou sua fúria sobre a Terra" - Uma nova visão universal do Dilúvio Bíblico


Postado originalmente em 5 maio de 2011

Alusões ao Dilúvio são recorrentes em praticamente todas as religiões e livros sagrados do planeta, geralmente encarada como uma lenda, mas que nos últimos anos vem ganhando força entre os pesquisadores como um acontecimento com bases reais, ocorrido em época não determinada.

O Dilúvio teria sido uma inundação sem precedentes, que varreu todo o planeta, ou uma parte considerável dele, após um período de chuvas intensas.

A Bíblia continua sendo a principal fonte a respeito desse acontecimento. A veracidade sobre o dilúvio não foi contestada até meados do século XVIII quando iluministas começaram a levantar questionamentos a respeito das sagradas escrituras.

Mas atualmente tem havido muitas discussões a respeito desse mito.

Alguns pesquisadores acreditam que um fenômeno de proporções jamais vistas na Terra e de caráter universal, possa ter ocorrido em algum momento da antiguidade, impressionando civilizações distantes umas das outras da mesma forma. Estas teriam registrado em seus mitos e em seus documentos sagrados o incidente. Em mais de uma narrativa ouvimos falar da construção de uma imensa embarcação, semelhante a arca de madeira descrita pela Bíblia.

Civilizações sem contato umas com as outras, como os chibchas, incas e maias da América do Sul e Central, a civilização egípcia, os nativos da América do Norte e os habitantes da Micronésia se referem ao Dilúvio em termos tão semelhantes que é difícil desconsiderar a possibilidade de que um grande cataclismo tenha ocorrido, afetando o planeta por inteiro, marcando profundamente as culturas que o testemunharam.


Em alguns casos, a semelhança entre relatos - inclusive com a presença de uma embarcação e de um homem que guiou os sobreviventes - é desconcertante. Para alguns, uma prova a favor da teoria de que a catástrofe ocorreu numa civilização ancestral, de idade indefinida, da qual se originou toda a humanidade.

Com a dispersão dos povos a partir dessa civilização inicial, que para alguns seria a lendária Atlântida, a narrativa da catástrofe se espalhou pelo planeta, modificando-se ligeiramente de acordo com o desenvolvimento de cada civilização. Na narrativa bíblica, o Dilúvio se iniciou na época em que gigantes viviam na Terra, quando os filhos de Deus começaram a se unir aos filhos dos homens. Deus teria decidido então exterminar a humanidade com exceção de alguns poucos escolhidos que deveriam repovoar a Terra após a catástrofe.

Curiosamente mesmo antes da estória ser inserida na Bíblia, ela já fazia parte dos mitos da Mesopotâmia e, como em outras partes do planeta, essa também fala de um homem, Umnapishtim, a quem foi ordenado construir uma embarcação para escapar da inundação. Esse nome parece uma variação de Uta-Napistim, que surge na epopéia de Gilgamesh como aquele que construiu uma arca para escapar do Dilúvio, também causado pela fúria dos deuses como uma forma de punição aos homens, e que durou seis dias e seis noites.


No Rig Veda, escrito na India, é Manu quem constrói a arca, escapa do Dilúvio e faz com que a nau se assente no topo de uma montanha, como Noé teria feito no Monte Ararat. Na Grécia, Zeus destruiu o mundo com um Dilúvio, pois o homem se tornara corrupto, Deucalião teria sido o homem escolhido para salvar a humanidade da extinção. Na Polinésia a lenda fala de uma luta entre os irmãos Rangi e Papa - os pais dos homens - que deu origem a nuvens pesadas e furacões que arrasaram a Terra. Entre as nações sioux da América do Norte também se fala de um velho chamado de Coiote, que foi avisado da inundação e construiu um grande barco para escapar. Ele também ficou encalhado no alto de uma montanha. Os maias possuíam relatos sobre a destruição do mundo pelo fogo e pela água, e os incas não ficavam atrás afirmando que após um Dilúvio causado pela fúria dos Deuses, a própria Terra teria mudado de forma e muitas nações teriam submergido.

Entre os incas e outros povos da América do Sul, o Dilúvio ficou conhecido como Uno Pachacuti, e era tido como um castigo que assolou o mundo contra as maldades que estavam sendo praticadas pelos homens. Algumas versões da lenda afirmam que, após as águas terem baixado, Viracocha retornou a Terra para começar uma nova humanidade. Geralmente, a versão mais aceita para essa lenda inclui um possível degelo ocorrido na região do Lago Titicaca, onde floresceu a civilização que construiu Tiahuanaco. Novamente na lenda inca, um pastor e sua família também conseguiram sobreviver à inundação subindo no alto da montanha Ancasmara onde permaneceram escondidos por sessenta dias.

Um texto atribuído a um escriba egípcio, que teria examinado documentos antigos do Egito narrando a história até cerca de 10 mil anos, afirmava que não apenas um, mas vários dilúvios universais varreram o planeta e que em cada um deles uma civilização quase foi destruída.

Muitos pesquisadores aceitam a possibilidade de que o relato da Bíblia não seja o original, tendo sido inspirado por relatos bem mais antigos colhidos na região do Oriente Médio e Ásia, mas isso não explica a coincidência com o relato de outros povos com os quais não havia o menor contato.


A teoria de Hans Horbinger a respeito da Cosmogonia Glacial também tenta explicar cientificamente o Dilúvio, com a aproximação da lua aprisionada pelo campo gravitacional da Terra. A data mais citada como aquela em que ocorreu o Dilúvio se concentra entre 10,000 e 12,000 a.C.

Muitos arqueólogos compartilham a idéia de que o dilúvio teria sido um fenômeno restrito a Mesopotâmia idéia que começou a ganhar forma com as descobertas de Sir Charles Leonard Wooley, entre 1926 e 1929, quando este escavou as ruínas da cidade suméria de Ur. Estudando as camadas de limo e marcas deixadas nos sedimentos rochosos, ele descobriu que uma inundação teria coberto uma vasta região. Estudos mais recentes afirmam que uma inundação de grandes proporções também teria atingido a região do Mar Negro e que esse provavelmente se deveu a um terremoto que mudou a forma do mar interno movimentando um enorme volume de água.

A maioria dos cientistas, no entanto, tende a desconsiderar a narrativa da Bíblia que afirma ter a arca de Noé encalhado no alto do Monte Ararat uma elevação com 5 mil metros de altura.

Mas aí vem a pergunta que muitos podem estar se fazendo depois de ler esse texto: "O que isso tem a ver com o Mythos"?


Em essência? Nada.

Mas a destruição do mundo é um tema recorrente na mitologia do Mythos de Cthulhu e uma visão "conservadora" de como poderia ter se dado a destruição em uma ocasião, fornece subsídios para uma nova análise.


Ademais, embora H.P. Lovecraft raramente tenha se envolvido em discussões filosóficas a respeito da Bíblia, isso não significa que não se possa fazê-lo. Talvez nos anos 20, o máximo que ele chegasse do tema fosse constestar os dogmas judaico-cristãos de forma bem discreta, amparado no avanço científico.

Alguns autores atuais, em especial Donald Tyson, exploraram o tema relacionando eventos bíblicos com a manifestação de forças dos Mythos. Assim foi, por exemplo, quando ele relacionou a destruição da Torre de Babel com uma experiência conduzida pelos Yithians e a devastação de Sodoma e Gomorra ocasionada pela corrupção implantada por Insetos de Shagghai. Outros autores já levantaram questionamentos a respeito da identidade do Demônio Bíblico, relacionando-o a Nyarlathotep.

Seguindo esse princípio, conceituar o grande catoclismo que teria sido o Dilúvio dentro de um contexto Lovecraftiano não parece de todo absurdo.

5 comentários:

  1. Nossa!! Exelente post!
    A coisa mais loca do dilúvio é que em quase todas as culturas humanas existe menção a um acontencimento desses.

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  2. Sensacional! Adoro o tema do Dilúvio sob a ótica da mitologia comparativa. Uma hipótese que com certeza é furada, mas muito interessante, era de que o Dilúvio ocorreu com o degelo, qdo o que viria a ser o Estreito de Gibraltar foi rompido e a região que viria a ser o Mediterrâneo inundada (acho que a Era Hiboriana pega essa idéia, não?).

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  3. Existe essa teoria do degelo, eu vi em um NatGeo da vida. Outra teoria é a do terremoto que rompeu as eclusas do Mar Negro e teria inundado uma vasta região da Eurasia.

    Não lembro qual foi o Cataclismo hiboriano, mas acho que tinha alguma coisa a ver com dilúvio também.

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  4. Ótimo post, com valiosas informações comparativas. Alguém sabe de outros eventos relatados em tantas culturas distintas?

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