terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fazendo ligações - Telefones na Era Vitoriana e nos Loucos Anos 20

É engraçado, mas uma das grandes dúvidas de jogadores quando mestro uma aventura de época, diz respeito ao uso do telefone. Sério, pode parecer bobagem, mas o pessoal fica na dúvida à respeito do uso e abrangência do aparelho. Em mais de uma aventura, os jogadores da mesa demonstraram surpresa ao saber que mesmo nos anos 1890 já existiam linhas telefônicas conectando cidades e que no início da década de 20, os telefones não eram, nem de longe aparelhos incomuns.

Na verdade, o telefone se espalhou pelo mundo com enorme rapidez - um fenômeno semelhante ao que aconteceu com os celulares na década passada - já que desde o início foi percebido não apenas como uma invenção fantástica, mas extremamente útil.

O telefone, da maneira mais proxima ao que conhecemos hoje em dia, teve sua patente registrada no ano de 1876, pelo escocês radicado nos EUA, Alexander Grahan Bell. O aparelho, no entanto já vinha sendo pesquisado há pelo menos duas décadas por vários inventores, incluíndo Thomas Edison. A primeira ligação telefônica transmitida à distância por intermédio de cabos foi realizada em 10 de março de 1876, quando a voz de Grahan Bell pôde ser ouvida por seu assistente a 100 metros de distância do outro lado do aparelho.

Não demorou para que Bell conseguisse aumentar o alcance do aparelho telefônico. No mesmo ano ele trasmitiu uma ligação a uma distância de 6 milhas e posteriormente usando um ramal fez a primeira ligação de longa distância, conectando a cidade de Cambridge a Boston.

A primeira linha de telefone foi insatalada em 1877, possibilitando a comunicação entre a casa de Grahan Bell na cidade de Sommerville, ao seu escritório de Boston. Os números dos telefones, eram simplesmente "1" e "2".

No mesmo ano, Thomas Edinson trabalhando em um projeto semelhante, registrou a patente de um telefone com microfone de carbono (de qualidade muito superior no que tange a recepção e som) que foi imediatamente comprada pela Western Union Co. Bell reagiu criando a Bell Telephone Company, deflagrando uma guerra pela primazia da nova invenção que duraria anos e se espalharia pelas cortes de justiça do mundo.

A primeira central telefônica de que s etêm notícia foi instalada em New Haven, Connecticut em janeiro de 1878, no mesmo ano as centrais de Boston, Nova York, Chicago e Philadelphia entravam em operação. Quando a central na capital de Massachusetts foi inaugurada já contava com 800 assinantes, já a central da cidade de Nova York entrou em operação com meros 500 assinantes, mas pedidos para a instalação de mais 30.000 aparelhos. A demanda pela instalação do incrível invento era tamanha que a lista de espera chegava a 8 meses.

Os telefones chegaram a Europa em 1878, com a abertura da Telephone Company Ltda na Inglaterra (patente de Bell). A primeira central telefônica foi construída em Manchester e logo outras começaram a operar nas principais cidades do país. Um aparelho foi instalado a pedido da Rainha Victoria em seu palácio assim que as linhas começaram a ser criadas.

Em 1878, a International Bell Telephone Company também chegou a Bruxelas, Bélgica e as principais nações começaram a pedir a instalação de centrais telefônicas para conectar o continente inteiro. Os telefones chegaram a França e Espanha em 1879, Alemanha, Holanda, Suíça e Itália em 1880, e ao restante da Europa no ano seguinte. A grande necessidade de instalação de aparelhos fez com que a patente de Bell fosse quebrada e várias companhias independentes começam a oferecer o serviço.

Em 1886, as ligações telefônicas ganharam uma inovação, centrais que podiam conectar diferentes ramais, permitindo telefonemas de longa distância. O serviço era demorado e carecia da comunicação entre várias centrais, mas permitia que se falasse de um estado para outro por exemplo.

A primeira ligação telefônica de Costa a Costa nos EUA aconteceria em 1915, de Nova York para San Francisco.

Em 1919, a American Telephone and Telegraph (AT&T) apresentou uma inovação: o primeiro telefone com disco para números - surgindo assim o termo discar. Até então o número do telefone era passado para uma telefonista que efetuava a conexão, com essa inovação, a pessoa podia discar o número diretamente garantindo certo grau de privacidade.

Em 1926 foi realizada a primeira chamada transatlântica por intermédio de cabos submarinos entre Londres e Nova York. As instalações telegráficas foram adaptadas para o uso telefônico. O serviço intercontinental foi aberto ao público no ano seguinte.


Em Nova York no ano de 1926, a Companhia Telefônica do estado de Nova York contava com 90.000 assinantes, um número considerável. A New England telephone Co tinha cerca de 75.000 assinantes registrados.

Em 1935 foi realizada a primeira ligação telefônica que circundava o planeta. Ela demorou 3 horas e 25 minutos minutos para ser completa.

Para quem tem dúvidas à respeito do funcionamento dos primeiros aparelhos telefônicos, eis aqui um manual operação dos velhos tempos:

A maneira correta de se manejar o aparelho telefônico incluía um passo a passo. Eis aqui as instruções detalhadas para utilização de um telefone de parede similar ao que está na foto ao lado.

Para fazer um telefonema:

1) Dar duas voltas inteiras na manivela para frente e então retirar o fone portátil levando o receptor ao ouvido.

2) Quando a telefonista atender, comunique o NÚMERO do assinante com quem se deseja falar - e não o nome ou endereço da pessoa (!!!).

3) A telefonista fará a conexão e dirá para girar novamente a manivela para frente. Isso fará com que a campainha no telefone desejado seja acionada.

Recomenda-se para uma transmissão clara falar em voz natural, pondo-se a boca à altura do fone receptor e afastada dele alguns centímetros.

Para desligar:

4) Finda a conversa deverão ambos os assinantes girar a manivela para traz.

Com a introdução dos Telefones com disco de número, não era necessário fazer contato com a Telefonista para completar a ligação.

Esse tipo de chamada era conhecida como Ligação Manual. O passo a passo era o seguinte:

1) Retirar o fone do gancho e discar o número "zero" para limpar a linha.

2) Devolver o gancho ao fone e aguardar a campainha.

3) Atender o aparelho e ao ouvir o sinal, iniciar a discagem do número do assinante com quem desejava falar.


Para desligar o telefone:


4) Para finalizar a ligação, disque o número "zero" e aguarde que o sinal fique mudo antes de devolver o receptor ao gancho.

Fazendo uma Ligação de Longa Distância:

Ligações de longa distância precisavam da ajuda da telefonista.

O número da pessoa com quem se desejava falar era transmitido e a telefonista de plantão fazia a conexão com outra estação. Quanto mais distante o lugar com quem se desejava falar, mais demorado era o serviço, uma vez que era necessário fazer várias conexões para integrar a linha.

Em geral a telefonista pedia que a pessoa desligasse o aparelho e aguardasse ao lado dele até seu chamado. Quando o indivíduo atendia a telefonista avisava que havia completado a conexão e passava a ligação ao interlocutor.

Para sua aventura:

Essas são as diretrizes que eu ao menos considero nas minhas mesas no que diz respeito aos telefones.

Era Victoriana (1890)

- Telefones são razoavelmente comuns em cidades de grande porte (com população igual ou superior a 100 mil habitantes).

- Capitais e cidades com essa população possuem centrais de telefonia e telefonistas 24 horas para realizar ligações de longa distância.

- Cerca de metade do comércio possui acesso a serviço telefônico e números disponibilizados nas listas telefônicas.

- Os serviços emergenciais de polícia, bombeiros e hospitais possuem telefones.

- Ligações de longa distância e tempo: dentro da cidade (imediato), cidades vizinhas (meia-hora), cidades distantes (1 hora), ligação entre estados (2 horas), ligação internacional (se disponível pelo solo - 3 a 4 horas), ligação intercontinental (não disponível)

- Personagens com Income igual superior a 7 possuem acesso a telefone particular e seus números estão presentes na lista telefônica. Profissionais com Credit Rating igual ou superior a 50% possuem telefones em seu local de trabalho.

- Cidades pequenas, povoados ou vilarejos isolados não possuem via de regra acesso a telefonia. Estas ainda dependem de postes de telégrafos se tanto.

- Regiões pouco desenvolvidas (colônias como o interior da India) ou com população insipiente (Interior da Austrália) dificilmente possuem acesso a telefonia. Nessas regiões o guardião deve considerar que o acesso ao serviço telefônico está disponível apenas a elite da população residente.

Era Clássica (1920)

- Telefones são bastante comuns em cidades de grande porte (com população igual ou superior a 100 mil habitantes). Eles são comuns em cidades de médio porte (com população acima de 50 mil habitantes) e relativamente comuns em cidades com população acima de 10 mil habitantes.

- Praticamente todas as cidades com população acima de 50 mil habitantes possuem centrais de telefonia e telefonistas 24 horas para realizar ligações de longa distância.

- O comércio se utiliza largamente de serviço telefônico e os números estão disponibilizados nas listas telefônicas. Telefones são comuns em lojas, restaurantes, escritórios, serviços gerais ou postos de gasolina.

- Os serviços emergenciais de polícia, bombeiros e hospitais possuem telefones em todas as suas centrais.

- Telefones públicos são largamente difundidos para o uso da população. Eles surgiram a partir de 1905 nos EUA e sempre funcionaram com o uso de moedas. Ligações à cobrar podem ser realizadas por intermédio de telefonistas.

- Ligações de longa distância e tempo: dentro da cidade (imediato), cidades vizinhas (imediato), cidades distantes (meia-hora), ligação entre estados (meia-hora), ligação internacional (se disponível pelo solo - 40 minutos), ligação intercontinental transatlântica(2 horas)

- Personagens com Income igual superior a 4 possuem acesso a telefone particular e seus números estão presentes na lista telefônica. Profissionais com Credit Rating igual ou superior a 30% possuem telefones em seu local de trabalho.

- Cidades pequenas, povoados ou vilarejos isolados podem ou não possuir serviço de telefone à critério do Keeper. Mas mesmo que disponham o serviço é pouco eficiente e o serviço de telefonista funciona apenas em horário comercial.

- Nos anos 20, a maioria das capitais do mundo possui acesso a telefonia, o que inclui as colônias na África e Ásia ainda sob administração das nações européias. Telefones, no entanto, continam disponíveis apenas à elite que governa esses lugares.

Para a Lovecraftian County:

Arkham - A Arkham Bell Company estabelecida em 1900oferece 4 centrais telefônicas cada uma com mil assinantes (em uma população total de 22 mil habitantes). O serviço de telefonista funciona 24 horas embora em horários de pouco movimento (de madrugada) ele possa ser lento. A chefatura de polícia, corpo de bombeiros e o hospital local possuem telefones de emergência. A Universidade Miskatonic dispõe de uma central própria que atende á instituição. Cerca de 50% do comércio dispõe do serviço. Telefones públicos são comuns.

Innsmouth - Central telefônica única e serviço de telefonista apenas em horário comercial. A delegacia de polícia possui telefone. Poucas casas de comércio dispõem de aparelhos. Há telefones públicos. Provavelmente as pessoas poderosas da cidade podem facilmente persuadir as telefonistas a revelar as ligações pessoais dos moradores e/ou visitantes.

Kingsport - Central Telefônica única e serviço de telefonista em horário comercial apenas. A chefatura de polícia possui telefone. Há (poucos) telefones públicos.

Dunwich - Não possui central telefônica, telefonista ou qualquer serviço dessa natureza... em Dunwich você terá de confiar em seu Byakhee!

6 comentários:

  1. Ótimo post! É algo que nunca tinha pensado antes XD

    Eu sei é que me senti muito velha de já ter usado telefone de disco.

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  2. Whataf.... fazia um tempão que estava querendo sugerir um post com esses assunto para o MT. Excelente!!!!

    O uso e abrangência do telefone sempre foi motivo de dúvida e debate nas minhas mesas, vai ajudar muito de agora em diante!

    Parabéns!

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  3. Post sensacional! Realmente esta é uma dúvida frequente em meus jogos "de época" e esses detalhes práticos são maravilhosos para realçar qualquer campanha. Agradeceria futuros artigos em outras coisas "cotidianas" (carros, iluminação, combustíveis, jornais, roupas, produtos em geral).

    Fora que o artigo me foi nostálgico: meus avós me deram um telefone igual ao da foto do artigo :)

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  4. Salve Tzi, beleza?

    Essas informações práticas são bem legais para conceder um toque de autenticidade ao jogo. Lá nos primórdios do Mundo Tentacular tinha um artigo sobre carros de época. As sugestões foram anotadas. Obrigado pela sugestão.

    Eu adoro esses telefones antigos... meus avós tinham um de parede também.

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  5. Luciano cada vez estou mais e mais fã do MT aqui só tem material de primeira qualidade!

    parabéns!

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