quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tentáculos ao redor do Mundo - O Culto de Cthulhu e sua Influência

Nenhum culto nos dias atuais é mais espalhado, insidioso, misterioso e difícil de definir do que o Culto de Cthulhu.

Talvez o Culto seja o exemplo mais concreto do poder de influência dos Grandes Antigos sobre a raça humana. Povos primitivos, bem como sociedades civilizadas extremamente sofisticadas foram inspiradas pelos sonhos de loucura de Cthulhu.

O que une diferentes indivíduos em partes distantes do mundo em uma mesma crença nefasta?

Embora a imagem esteriotipada do cultista seja a de um maníaco vestindo um manto e portando uma medonha faca recurva, cultos e cultistas são, de fato, muito diferentes entre si. No que diz respeito ao Culto de Cthulhu isso não é diferente. O Culto de Cthulhu é em essência uma organização religiosa, cujo maior propósito é promover o despertar de seu senhor e uma nova era de caos e mudança.
Embora todos os cultistas possam ser julgados como insanos, isso não significa que todos os cultos são formados por indivíduos incontroláveis ou suicidas, em alguns casos a loucura.

O Culto de Cthulhu na Pré-História:

Em tempos ancestrais, ainda na aurora do homem, Cthulhu era venerado abertamente como uma força real.

O Culto de Cthulhu remonta a pré-história humana, pinturas rupestres encontradas em cavernas e ídolos de pedra indicam que o culto estava presente no Neolítico. É possível que as primeiras sociedades tenham sido de alguma forma inspiradas por Cthulhu através de suas visões.

A mítica cidade de Atlântida construiu enormes templos de granito devotados não apenas a Cthulhu, mas aos seus filhos Ghatanathoa e Ythorgtha. O culto na cidade, considerada por muitos estudiosos como o berço da civilização humana, operava abertamente sendo um dos mais influentes entre os dignatários nas camadas mais elevadas da população. Os Sacerdotes de Cthulhu estavam entre os cidadãos mais importantes, com acesso aos governantes. Eram temidos por conhecer os segredos do além e por secretamente praticar as artes negras. Cthulhu era considerado o Deus dos Sonhos e dos Presságios, uma divindade neutra quanto a humanidade.

Na Hyperborea ele era chamado de Kthulhut, e foi o principal rival do deus Tsathoggua venerado por raças pré-humanas como os voormis. Os conquistadores humanos vindos de terras além-mar, introduziram o culto de Kthulhut nas terras por eles dominadas e em pouco tempo o culto se espalhou pela gloriosa capital Commoriom. O povo da Ilha de Mu por sua vez temia Cthulhu e recorria aos seus três filhos para aplacar sua ira. Templos de basalto devotados a Zoth-Ommog, Ythorgtha e Ghatanathoa eram os mais procurados pelos fiéis. A obscura sociedade humana de K'n-yan, que até hoje habita cavernas azuis nos subterrâneos da Terra, continua seguindo rituais voltados a seu Deus maior, "Tulu". Foram também os seguidores de Cthulhu que baniram os últimos membros remanescentes do povo-serpente que vivia na antiga Valúsia.

O reinado de Cthulhu como Deus Maior, perdeu poder, sobretudo quando cultos devotados a ele começaram a ser associados a magia negra, sacrifícios e consórcio com a raça dos abissais. O medo afastou a maioria dos fiéis.

Quando cada uma dessas civilizações pré-históricas ruíu, o conhecimento místico e a crença em Cthulhu foi gradualmente substituído pela crença em outras entidades terrestres. Heróis e campeões que se colocaram contra Cthulhu e seu secto ganharam status divinos passando a ocupar um patamar elevado que deu origem aos primeiros panteões.

As tribos Perdidas de Cthulhu

Mas o Culto de Cthulhu jamais desapareceu por inteiro.

Fragmentos dessas antigas crenças viajaram pelo mundo, chegando a recantos distantes onde descendentes dessas civilizações ainda prestavam homenagem ao Grande Antigo. É possível que o culto não tenha sido a partir de então professado abertamente, exceto em sociedades extremamente primitivas, mas estudiosos acreditam que ele continuou atuando, nas principais civilizações humanas.

Há claros indícios de que o Culto de Cthulhu perseverou na Babilônia e na Mesopotamia. Seus cultistas faziam parte de uma importante sociedade de navegadores na Fenícia que honrava também Dagon e estava em conluio com os abissais. Eles estavam infiltrados entre mercadores que navegaram pelo Mar Vermelho e atingiram o Mediterâneo, estabelecendo bases entre os etruscos que antecederam aos romanos. O Culto se adaptou, prosperando no submundo, na forma de irmandades fechadas que mantinham em segredo suas atividades.

Na Grécia clássica, o Culto de Cthulhu era forte em Creta e Minos. Pequenos mas bem organizados cultos existiam na terra dos Parthians, Síria e na Judéia. Junto com escravos e mercadorias, a crença em Cthulhu viajou através do oriente, desde as montanhas da Asia Central, passando pela India e Oriente Médio. Na Roma Imperial, o Culto conquistou influência entre ricos mercadores que negociavam com estrangeiros vindos dos rincões mais distantes do império.

Mas o Culto de Cthulhu não estava presente apenas nas civilizações do mundo antigo. Ele era forte em sociedades primitivas que praticavam rituais selvagens de sangue, morte e loucura. Em lugares isolados como nas montanhas do Nepal, nas ilhas remotas da Nova Zelândia, nas selvas tropicais do sudeste asiático ou da Nova Guiné. Nesses locais, o nome de Cthulhu era gritado a plenos pulmões sob a luz de tochas em cerimônias profanas. A litânia "Iä, Iä", ou "Eu tenho fome! Eu tenho fome! lançava o medo nas sombras.

Um estudo bastante documentado foi realizado em 1860, pelo falecido Professor William Channing Webb da Universidade de Princeton. Enquanto explorava a costa norte da Groenlândia, Webb descobriu uma pequena e isolada tribo de esquimós diferente de qualquer outra. Evitada e temida pelas demais tribos da região, o bando degenerado praticava rituais abomináveis incluíndo o sacrifício humano. Esses rituais eram praticados diante de antigas pedras entalhadas representando uma imensa figura marinha com a cabeça de um polvo - um tornasuk, ou demônio, que os primitivos chamavam de Cthulhu.

Embora a tribo esquimó tenha desaparecido sem deixar vestígios, os desenhos dos ídolos copiados por Webb, guardavam incrível semelhança com representações divinas veneradas por outros povos primitivos. Uma tribo habitando a remota ilha de Rotorua, na Polinésia tinha como divindade principal um deus ou demônio marinho incrivelmente similar ao tornasuk e seus rituais selvagens eram idênticos aos dos esquimós.

Mais curioso ainda é a similaridade de símbolos e padrões usados por povos separados por incrível distância geográfica. Webb identificou alguns símbolos em diferentes culturas primitivas como pertencentes ao antigo alfabeto Tsath-Yo, um dia usado pelo povo hiperbóreo. As anotações antropológicas de Webb sugerem que estes povos de alguma forma tiveram uma origem comum, sobretudo no que diz respeito a sua religião e mitologia.

Com base no estudo de Webb, outras tribos isoladas foram encontradas na América do Sul, Ásia Central, África, Nova Zelândia e na costa do Alasca. O trabalho sugere que estes povos fossem descendentes de civilizações antigas que preservaram a crença em Cthulhu e que compartilhavas de uma mitologia bastante próxima, glorificando entidades chamadas de Ktulu, Cathultus, Clulu ou Tulula, sendo que todos no fim das contas, são o mesmo Deus: Cthulhu.

Cultos Modernos

À luz do século XX, parecia improvável que um culto tão antigo e primitivo quanto o de Cthulhu ainda existisse, exceto em regiões absolutamente isoladas e pouco civilizadas do mundo.

Na verdade, o Culto de Cthulhu, em suas várias encarnações, sempre esteve presente.

Em meados de 1906, uma obscura seita com orientação voodoo, foi desarticulado pela polícia de Nova Orleans. Suspeito de inúmeros sequestros e assassinatos, o culto operava no interior dos ermos pântanos da Louisiana praticando o que os colonos descreviam como "algum tipo de magia negra demoníaca". Seus membros eram degenerados que se entregavam a cerimônias blasfemas incluíndo sacrifícios de sangue e a veneração de estátuas medonhas. Imensas fogueiras ardiam na parte mais fechada do pântano e corpos mutilados eram empilhados aos pés de Clooloo, a entidade por eles venerada. A maioria dos acusados capturados pela diligência policial foi considerada insana demais para enfrentar julgamento e apenas dois foram julgados e enforcados.

Um dos homens capturados, um velho chamado Castro, relatou que o culto de que fazia parte era parte de algo muito maior e antigo. Um culto global atuante em várias partes do mundo sob nomes diferentes, mas que em essência professava a mesma crença infame.

Segundo Castro, Cthulhu, o Grande Antigo um dia seria libertado de sua prisão ancestral proclamando com o seu retorno o fim da Era do Homem e o início do fim de todas as coisas materiais e espirituais. O culto preparava a humanidade para a servitude e aqueles devotos a ele tentavam ganhar seu favor através de sacrifícios. Em seu testemunho incoerente, o prisioneiro afirmava que Cthulhu era o mais antigo dos deuses da humanidade e que ele jamais deixaria de ser venerado.

Verdade ou mentira, os tentáculos de Cthulhu invadem outras crenças. A presença de Cthulhu se manifesta no coração de seitas apócrifas e de igrejas separatistas cristãs. Sectos proliferam incorporando rituais antigos acrescentando simbolismo religioso ao Mythos em um sincretismo espúrio. Mesmo religiões modernas e sofisticadas não estão imunes a influência do Grande Antigo. Na marcha para o Oeste americano durante o século XIX, várias seitas messiânicas se apoiaram em mais do que o Velho Testamento para converter fiéis e mostrar o caminho da salvação (ou da destruição).

Mesmo irmandades e corporações formadas por marinheiros, pescadores e homens do mar foram suspeitas de adorar divindades marinhas ancestrais como Cthulhu, Dagon e Hydra. Na costa da Nova Inglaterra, na cidade portuária de Innsmouth um templo, chamado de Ordem Esotérica de Dagon congregava seus membros em rituais que remetiam diretamente ao Mythos em cerimônias envolvendo entre outras coisas a miscigenação do sangue humano com o de abissais. Por ocasião de uma intervenção do Governo Federal em 1928, Innsmouth foi fechada e grande parte de seus residentes envolvidos com a Ordem de Dagon aprisionados. Consultando os documentos e arquivos encontrados no templo, ficou claro que o culto era muito mais vasto do que se poderia supor com ramificações em várias cidades e portos do mundo. Filiais da Ordem Esotérica de Dagon estavam presentes nos portos de Marselha, Xangai, Singapura, Rotterdan e Santos, cada qual com suas próprias características, mas todos guardando semelhança no que dizia respeito ao seu deus e quanto a forma como ele era adorado.

Na conturbada década de 1920, uma facção do Culto de Cthulhu operando em Nova York se fixou na região ao norte do estado, plantando sua influência nas comunidades de imigrantes que se estabeleciam no novo mundo. O culto foi duramente confrontado por autoridades locais e desarticulado antes que atingisse um número elevado de membros. Fenômeno semelhate foi experimentado no Haiti onde o Culto de Cthulhu se entranhou na cultura do voodoo até quase ficar disassociável dele.

Durante os anos 1930, o Culto de Cthulhu encontrou partidários em grupos revolucionários no Norte da África que pleiteavam se libertar de seus colonizadores. No Marrocos, Sudão e Argélia, o Culto se reavivou misturado ao fanatismo e nacionalismo, usado como ferramenta e instrumento de identidade nacional. O mesmo fenômeno pôde ser visto ao longo dos anos 1950 e 1960, nas repúblicas centro-africanas e mesmo nos anos 1970 com as guerras de independência de Angola, Uganda e Tanzânia.     

A presença do Culto de Cthulhu ao redor do mundo, mesmo em uma época que nós convencionamos pautar pela ciência e razão, prova que a influência do Grande Antigo continua moldando a mente dos homens. É improvável que a presença de Cthulhu um dia abandone de vez a humanidade. É bem verdade, que há períodos de maior atividade, quando as emanações de telepáticas de Cthulhu se fazem mais claras, como o que ocorreu em 1925 quando R'Lyeh emergiu pela última vez.

Mas mesmo quando o Deus sonhador parece inativo em sua prisão sepulcral, com certeza seu culto está de alguma forma agindo nas sombras, conspirando e tramando seu retorno.

8 comentários:

  1. Muito bom o post, e fico feliz por saber que vivo tão perto de uma das sedes do culto a Dagon em Santos.

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  2. Santos até o século XIX era um pântano com ancoradouros onde havia contrabando e pirataria. O lugar era realmente muito perigoso.

    Só no século XIX é que o mercado de café ajudou a desenvolver a cidade a partir da atividade portuária. O lugar atraia marinheiros de todo o mundo e aatividade era contínua, nada mais justo que incluir homens do mar envolvidos com o Mythos nesse ambiente.

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  3. Cara que texto ótimo!!

    Seu trabalho é exemplar, obrigado por trazer para todos nós tantas informações sobre esse universo singular.

    SUCESSO!!!

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  4. Existem outras citações de cenário do Mythos no Brasil, oficiais ou não-oficiais?

    Bem interessante esse dado sobre Santos e sua justificativa.

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  5. Gostaria de deixar uma sugestão para o amigo dono do blog. Existe na música, principalmente no Metal Extremo, centenas de bandas que usam a temática de H.P. Lovecraft. Uma matéria sobre isso seria bem interessante. Parabéns por seu trabalho.

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    1. Exato! Xasthur é uma delas *-* Não que ele use H.P.L.como influência para suas músicas, mas o próprio nome da Banda sugeri: Hastur e Xenaoth. Sou uma pesquisadora de ocultismo e afins.

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  6. Muito bom material. COntinue postando, por favor...

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