quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Horror Hardcore: O Nascimento da Ninhada Pálida


Mais uma cena tenebrosa de Call of Cthulhu.

Essa foi extraída de um dos meus cenários favoritos "The Pale God" aventura que eu já devo ter mestrado pelo menos uma meia dúzia de vezes. E que mestrei mês passado no encontro do Dungeon Carioca.

Como muitas aventuras, essa se inicia com um chamado urgente de um conhecido dos investigadores que afirma necessitar encontrá-los o quanto antes. O encontro é marcado em uma pequena cabana nos arredores da Universidade Miskatonic em uma noite chuvosa. 

O grupo não poderia imaginar porque o chamado era tão urgente e o que Stuart Cabot-Jenkins - um notável estudante do oculto - desejava contar a eles que não poderia esperar até o amanhecer...

     *   *   *

Dentro da cabana a luz do lampião a querosene era tênue, suficiente apenas para iluminar o pequeno aposento. Havia uma mesa redonda, algumas cadeiras e alguns poucos móveis rústicos. Sentado no canto mais escuro os recém chegados perceberam a presença de um vulto que se moveu assim que a porta se abriu.

"Finalmente vocês chegaram..." comentou uma voz débil e levemente rouca. E o homem se levantou com indisfarçável dificuldade. "Temia que não viessem à nossa pequena reunião." completou estendendo a mão para acender um segundo lampião colocado sobre uma mesinha de apoio.


Sem dúvida era Stuart Cabot-Jenkins, mas custou aos investigadores reconhecer naquela figura esguia seu companheiro de estudos. A visão era tudo menos agradável. Os anos haviam sido cruéis com Cabot-Jenkins, aquele que era um exemplo de vigor e obstinação não passava de uma sombra do que foi um dia. Os cabelos se tornaram grisalhos prematuramente, a expressão grave, a face pálida de aspecto pouco saudável marcada por profundas olheiras, lábios finos, uma barba cerrada por fazer e a postura de um ancião preso num corpo debilitado. No desastroso conjunto, apenas os olhos mantinham aquele brilho de genialidade. Vestido com uma simples camisa de flanela, uma calça social e sapatos Oxford, sua aparência geral era de desleixo. Ele se levanta colocando sobre a mesa um copo, ao lado do lampião e de uma garrafa de whisky pela metade.

"Vamos, vamos... entrem. A chuva está fria e vocês devem estar molhados. Aqueçam-se na lareira" seus modos eram um tanto afetados, incoerentes, fruto de uma tentativa de vencer sua óbvia agitação.

Ele se aproximou estendendo a mão de dedos longos para cumprimentá-los. Suas mãos estavam geladas apesar da temperatura confortável no interior da choupana. Seu hálito exalava um odor de álcool.


Quando o último dos investigadores adentrou, Cabot fechou a porta e serviu alguns copos com a bebida de boa qualidade.


"Estou satisfeito que tenham vindo... Meus velhos amigos." ele disse com a voz monótona e sussurrante, disfarçada com um sorriso sardônico. "Tenho muito que lhes falar... muito mesmo..."


Aaron foi o primeiro a vencer a surpresa e estupefação e estendendo a mão apanhou um copo oferecido pelo anfitrião.
 
"Como vai Stuart?" perguntou experimentando amigavelmente "O que aconteceu com aquele jovem que até pouco tempo presidia nossas reuniões nesta mesma cabana? Melhor que venha a cuidar mais de sua saúde."
 
Cabot-Jenkins grunhiu algo ininteligível antes de responder:

"Aquele jovem não existe mais Aaron... Minha vida mudou muito. Mas é bom que você tenha mencionado nossas antigas reuniões, pois o que tenho a dizer tem ligação com aquela época".

Os demais se aproximaram para ouvir melhor as palavras de Cabot-Jenkins que soavam abafadas pelo som da chuva lá fora. Jesica tentou quebrar o gelo se mostrando simpática ao lembrar a última reunião na cabana anos atrás, mas foi interrompida de forma grosseira:

"Ouçam-me, eu os chamei para algo sério, e não para ficar trocando estórias pueris. O que tenho a dizer é algo que vai muito além daquelas reuniões tolas".
Ele fez uma nova careta enquanto enchia um copo de bebida e entornou por inteiro, suas mãos estavam trêmulas e sua face mais pálida do que nunca.

Sua expressão era de impaciência, os olhos brilhando como uma centelha diante da luz da lareira crepitando. Lá fora clarões de relâmpago iluminavam a noite, seguidos de estrondos ruidosos. Todos ficaram em silêncio, como se sentissem que era chegado o momento de Cabot-Jenkins enfim explicar porque os chamou no meio da noite.


"Vocês lembram de nossas experiências com o sobrenatural?" ele perguntou com um sorriso falso e com um risada de escárnio. "Como nós éramos tolos. Não sabíamos de nada! Nada! Eu andei por muitos lugares desde então senhores... Estive em locais em que não podem imaginar, vi coisas absurdas e examinei tomos ancestrais repletos de blasfêmia e conhecimento proibido" ele ergue o indicador trêmulo como se quisesse salientar um ponto. "E vi o mal... o verdadeiro mal. É disso que quero falar meus caros, do mal". Ele sorriu novamente, a mesma expressão afetada beirando a insanidade.

"Em meus estudos eu estive em contato com o mais tenebroso mal... algo incrivelmente antigo, primitivo, algo incomensurávelmente inumano... há cultos devotados a entidades veneradas como Deuses. E é isso que são: Deuses! No passado eles eram grandes, hoje estão quase esquecidos... Mas essas forças continuam poderosas atuando nas sombras. Elas estão voltando... elas..." sua face se contorceu e deixou escapar um gemido baixo. Sua mão correu por sobre o criado mudo e derrubou a garrafa de whisky.


"Eu fui longe demais... Eu simplesmente não posso mais... Quisera nunca ter feito... Quisera nunca ter me envolvido..." Suas palavras soaram desarticuladas, como se ele estivesse sem controle de suas faculdades. "Vocês precisam ajudar... Precisam saber" era um apelo desesperado.

"Stuart o que está acontecendo? Você está bem?" perguntou um de seus colegas preocupado.


Como resposta ele apenas se curvou para frente sofrendo um espasmo. Todos se assustaram com o movimento repentino. Em seguida jogou a cabeça para trás de forma ainda mais abrupta, sua face transfigurada: lágrimas correndo e o medo estampado nela.


"Por Deus Elliot, faça alguma coisa ele está tendo algum tipo de ataque!" gritou o Professor Jason Cartwright se movendo rapidamente para auxiliar o colega.

Elliot o acompanhou:


"Tentem segurá-lo, ele está tendo uma convulsão e pode se machucar. Os outros fiquem fora do caminho".
 
Imediatamente os demais obedeceram e se afastaram assustados enquanto Jason tentava segurar os braços de Cabot para imobilizá-lo. Apesar da aparente fragilidade ele demonstrava uma força incrível e era difícil contê-lo. O doutor se aproximou buscando abrir sua boca para verificar se ele está sendo vítima de um ataque epilético. Cabot sussurrou entre os gemidos: "A casa do verme... Destruam a casa do verme."

Em seguida ergueu a cabeça e gritou em desespero: "Eles estão me rasgando vivo!"

Sangue escuro escorreu da sua boca. Em um novo espasmo, ainda mais forte, Cabot se libertou de seus colegas e lançou um grito agudo semelhante a um uivo que congelou o sangue de todos. Ele cambaleou porta afora da cabana, mas só conseguiu dar dois passos antes de desabar de joelhos em uma poça de água turva e lama. Lá finalmente silenciou, de costas para os investigadores que o seguiram apavorados.


Foi então que aconteceu: um som horrível, como se algo estivesse se rasgando, e de repente a água se tingiu de vermelho. Os investigadores direcionaram a luz das lanternas para o corpo ainda em espasmos, e se depararam com uma cena inacreditável. O tórax e a barriga de Cabot-Jenkins se abrira como se tivessem sido rasgados por uma faca de dentro para fora. E desse horrível ferimento brotaram centenas, milhares de pequenas criaturas diminutas semelhantes a aranhas de cor pálida. Elas escalavam, saltavam e corriam pelo chão. O corpo parecia murchar gradualmente como se fosse um balão esvaziado a medida que essa incontável ninhada transbordava de seu interior gotejante. 

O fedor era indescritível. O cadáver teve um derradeiro espasmo e ficou estático naquela horrenda posição arquejada. As criaturas corriam para todo lado buscando abrigo, escapando da luz das lanternas a procura de refúgio no incontrolável desejo de sobreviver. Jason pisoteou dezenas em um frenesi desesperado, uma dança macabra de morte e aniquilação, mas centenas escaparam. 

Os investigadores incrédulos assistiam a cena, congelados pelo horror e asco de ter presenciado o nascimento de algo abominável além das palavras.

E esse foi apenas o início...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Mesa Devastada - A primeira aventura de Terra Devastada a gente nunca esquece!



Faz algumas semanas joguei minha primeira aventura com as regras de Terra Devastada mestrada pelo meu colega Rodrigo Gonzaléz.

A aventura, divertida pra caramba por sinal, foi inspirada não apenas em zumbis atacando e mortos vivos meio-apodrecidos famintos por miolos. Os zumbis e as regras é claro estavam lá, mas a história não tratava necessariamente do apocalipse, mas de uma explicação de como a coisa poderia ter começado. O roteiro se baseava em "A Cabana na Floresta" e no clássico "Evil Dead" e foi uma estória de horror gore com inevitáveis toques de comédia.

Na história, um grupo de amigos totalmente estereotipados (aliás esse era um dos charmes da aventura!) viajava para a cabana na beira de um lago que pertenceu ao um tio de um deles. Esse tio, um arqueólogo aposentado e excêntrico recentemente falecido, deixou a cabana como herança. Tudo indicava que seria um final de semana de diversão, saliência e bebedeira, mas as coisas não saem bem como o grupo imaginava, como é de se supor nesse tipo de aventura. Inadvertidamente os universitários acabam encontrando no porão da casa uma série de objetos estranhos e libertando uma maldição ancestral. No fim precisam lutar pela própria sobrevivência em meio a uma epidemia de zumbis e concluir um Ritual místico para reparar suas ações.

Uma das coisas interessantes em aventuras com premissa clássica como essa (batida mesmo!) é que os próprios jogadores acabam inserindo elementos de filmes à estória e se comportam da "maneira esperada" sabendo que eventualmente vão acabar se dando mal.

Por exemplo, todo mundo sabe que "transar à beira do lago resulta em morte" mas mesmo assim o atleta desmiolado e sua namorada chearleader não conseguem conter seus hormônios em ebulição. Da mesma forma,  o palhaço do grupo tem uma compulsão por assustar os outros e empestear qualquer ambiente com fumaça. É claro que ele vai acabar se dando mal com isso, mas o divertido é não se importar com o destino do personagem e colocá-los no caminho da perdição. A garota gótica rebelde adora bruxaria e é claro vai tentar recitar os encantamentos mesmo sabendo que é uma péssima idéia. Enquanto isso, o nerd de quadrinhos/cinema que sabe tudo do universo zumbi não consegue conter a excitação quando os mortos levantam: "É agora! Meu Deus está acontecendo! Eu sabia que isso ia acontecer! U-hú! Apocalipse Zumbi!"

Como eu disse, divertido pra caramba!

 Aqui estão algumas fotos da aventura.

Os Personagens dos Jogadores:
 
A "Garota Normal" e o Doidão palhaço do grupo

O que seria de uma aventura de zumbis sem o Atleta jogador de Futebol Americano da Universidade e sua namorada a Cheerleader "loira burra"?

E fechando o grupo mais dois clássicos de filmes de Horror Adolescente: a Garota Gótica rebelde e o Nerd com vasto conhecimento de cultura pop.

O grupo na mesa de jogo quando as coisas começam a ficar feias para os pobres personagens.

Paranóia à vista! Um dos personagens encontra uma espécie de adaga cheia de estranhos símbolos cabalísticos e ao tirar a lâmina da bainha acaba se cortando. Teria sido infectado pelo sangue que estava na lâmina? 

É claro, uma aventura de terror tem que contar com um dos idiotas tentando assustar os demais usando uma máscara de Halloween.

E justamente quando o grupo descia até o soturno porão da cabana...

E o que seria de um final de semana numa cabana no meio do nada sem a "inocente" brincadeira de Ouija? Infelizmente os resultados foram meio que inesperados.
E a Tábua Ouija acaba fornecendo as palavras que libertam os espíritos malignos e fazem os mortos vivos levantar para atacar a cabana.
O Ritual:

Mas nem tudo estava perdido! Na casa havia um antigo livro de feitiçaria que ensinava como realizar um Contra-Ritual para expulsar os espíritos malignos e acabar de uma vez por todas com a ameaça dos mortos vivos.

O único problema era conduzir o tal ritual com uma horda de zumbis famintos batendo a porta.

E o tal ritual envolvia usar máscaras enquanto se recitava as palavras místicas.

Eu achei os props muito bacanas! É claro, todo undo queria vestir a máscara.

E para funcionar, era preciso também ingerir uma bebida mística.

Felizmente nossos (idiotas) heróis conseguiram completar o encantamento, salvaram o mundo e expulsaram os espíritos malignos terminando com a ameaça dos devoradores de miolos.

Pelo menos não foi dessa vez que o apocalipse teve início.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ruínas na Síria - A Fantástica descoberta do "Stonehenge Sírio"


A situação de instabilidade política e o risco de uma longa Guerra Civil na Síria, afugentou uma equipe de  arqueólogos que recentemente realizavam um importante trabalho de escavação naquele país.

A equipe liderada pelo canadense Robert Mason espera poder retornar em breve para prosseguir nas escavações a 60 quilômetros ao norte de Damasco, acreditando que no passado essa região desértica foi muito mais habitável e que pode ter comportado uma engenhosa civilização.

Hoje, a área onde a equipe se concentrava, faz parte do inclemente Deserto da Síria, uma vasta região árida e desolada onde a única coisa que se destaca na paisagem alaranjada são formações rochosas. Contudo, essas mesmas formações poderiam esconder tesouros arqueológicos notáveis: círculos de pedra, linhas desenhadas no solo e restos de um povo sobre o qual ainda se sabe muito pouco.

Análise de fragmentos e ferramentas de pedra encontradas na área sugerem que os objetos encontrados datam possivelmente do Período Neolítico ou Idade do Bronze inicial, de 6000 a 10000 anos atrás. Na Europa Ociedental construções megalíticas envolvendo o uso de pedra não foram datadas antes de 4500 ac. Isto significa que o sítio sírio pode ser mais velho doq ue qualquer coisa construída na Europa.

Ironicamente a descoberta do importante sítio se deu quase ao acaso. Em 2009, o arqueólogo Robert Mason do Royal Ontario Museum, chegou a região para realizar um trabalho de pesquisa e análise no mosteiro de Deir Mar Musa. O mosteiro foi erguido no século IV ou início do século V, e possui curiosos afrescos pintados posteriormente, possivelmente no século XI.  

De acordo com a equipe, o mosteiro possuia originalmente uma torre em estilo romano que foi parcialmente destruída por um terremoto. O arqueólogo estava procurando restos dessa antiga torre quando se deparou com uma série de formações rochosas que chamaram sua atenção: eram linhas de pedra claramente erigidas por mãos humanas. Seguindo essas construções ele descobriu outros círculos de pedra e o que pareciam ser restos de edificações funerárias.

Mason também descobriu formações de pedra conhecidas como "desert kites", que teriam sido usadas para manter gazelas e animais capturados, como se fosse um curral rudimentar. Estruturas similares foram achadas próximo às ruínas de Palmira, no Norte da Síria, mas os pesquisadores não conseguiram ainda relacionar qualquer evidência de ligação entre os povos que as construíram.  


A região está seca hoje ("muito cênica, se você gosta de rochas", disse Mason), mas era provavelmente mais verde milênios atrás. Os habitantes deveriam dispor de fontes de água - talvez até reservatórios, que permitiriam a eles desenvolver agricultura. A descoberta de certas ferramentas indica que os habitantes não eram nômades, mas um povo que utilizava a área regularmente tendo modelado o ambiente para facilitar sua permanência prolongada. A quantidade de sepulturas também é um indício de ocupação por um longo período. Escavações mais cuidadosas com certeza poderiam revelar mais informações sobre o sítio, infelizmente a evacuação da equipe ocorreu antes de novos trabalhos poderem ser inciados. 
Em uma palestra em 2010, Mason disse que sentia como se tivesse tropeçado na Planície de Salisbury na Inglaterra, onde está localizado Stonehenge. A comparação levou as formações a serem apelidadas de "Stonehenge Sírio."

Na mesma palestra, o arqueólogo falou sobre o mosteiro de Deir Mar Musa, foco inicial da expedição.

O antigo mosteiro foi ocupada até meados de 1800, por uma ordem de monges ortodoxos. Apesar de ser repetidamente danificado pela ação de terremotos, o prédio foi usado extensivamente a partir do século V e reconstruído inúmeras vezes. Os monges utilizaram, para isso, pedras retiradas do deserto, o que pode ter danificado algumas estruturas mais antigas, erigidas pelo povo que habitava a região muito antes da chegada dos religiosos.  
O mosteiro tem importância histórica por guardar em seu interior diversos afrescos - alguns bastante danificados - representando cenas cristãs, santas do sexo feminino e o Julgamento Final. As paredes adornadas por esses desenhos ainda conservam as cores deixadas pelos artistas.


Mason também localizou uma série de pequenas cavernas que ele acredita terem sido escavadas pelos monges nas fundações do prédio. É possível que esses túneis subterrâneos tenham sido utilizados como catacumbas ou criptas. A equipe que contava com a permissão do governo para realizar escavações, havia localizado ossadas nessas catacumbas, além de alguns artefatos deixados pelos monges.

Com a descoberta das ruínas antigas, arqueólogos levantaram a hipótese de que o complexo do monastério tenha sido construído sobre uma estrutura antiga pré-existente. A equipe localizou alguns muros baixos e paredes dentro do monastério que parecem ter sido erguidos com pedras talhadas por ferramentas rudimentares. Se essa hipótese se confirmar, o monastério pode reservar algumas surpresas para os arqueólogos quando for seguro retomar os trabalhos.
*  *  *

Não sei quanto a vocês, mas eu consigo enxergar um roteiro para uma bela aventura pulp com toques clássicos de arqueologia, baseada nesta notícia. A coisa quase se escreve sozinha...

Primeiro passo: trazer essa descoberta para os anos 20-30, quando Damasco estava sob o controle de autoridades britânicas e já despertava enorme interesse de arqueólogos interessados em revelar seu fascinante passado.

Basta juntar na estória um passado sinistro envolvendo esse "povo ancestral", quem sabe eles fossem seguidores de alguma entidade do Mythos como Chaugnar Faugn, Nyogtha, Daoloth ou até mesmo Yog-Sothoth.

Esse povo teria desaparecido em algum tipo de catástrofe, eu imagino uma invocação desastrosa de um desses titãs cósmicos, que acabou com toda a civilização de uma vez por todas. O trágico episódio deixou relíquias, como por exemplo algum artefato que pode ser usado para invocar uma vez mais essas entidades bizarras dos recônditos do Universo.

Os monges, sabendo desse perigo construíram o monastério em cima de um tipo de templo dedicado a entidades do Mythos a fim de impedir que essa ameaça fosse libertada. Com o tempo o conhecimento se perdeu, e o propósito se desfez, embora nas fundações do prédio ainda haja pistas para descobrir essa estória.

Entram em cena os personagens que inadvertidamente descobrem nas ruínas o artefato que invoca a criatura. E pronto!

Aí estão os investigadores diante de um mistério ancestral, tendo de lidar com horrores do Mythos e uma iminente invocação.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

À caminho do Asilo Arkham (mas breve estaremos de volta!)


Caros leitores, amigos e companheiros cultistas.

O Blog Mundo Tentacular vai entrar em um pequeno recesso enquanto eu estiver viajando (ou seria internado no Asilo Arkham?) na próxima semana. Mas breve estaremos de volta trazendo artigos, curiosidades, resenhas e o melhor do Horror Cósmico baseado na obra de H.P. Lovecraft.

Nesse meio tempo, quero convidar os leitores habituais a ler alguns artigos mais antigos, lá no início do Blog, quando o Mundo Tentacular dava seus primeiros passos:














São alguns artigos menos lidos, mas ainda assim interessantes. Fiquem à vontade para explorar o Blog e em breve retornaremos com uns pontos adicionais de sanidade, ou assim esperamos.

Um grande abraço,

Iä, Iä para todos!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Esoterror Factbook - Resenha do Suplemento para Esoterrorists

Por Thiago Maraschin

Esoterror Factbook é um suplemento para o RPG Esoterroristas do sistema Gumshoe. O livro que eu possuo é a edição espanhola, publicada pela Edge em Espanha, sob licença da Pelgrane Press. Curiosamente o titulo da edição espanhola foi traduzido como “La Verdad Sobre El Esoterror” e não literalmente, que seria algo como "El libro de factos del Esoterror".

O livro tem capa mole, em cores, com miolo em preto e branco. As ilustrações são poucas, mas muito boas, também em preto e branco, do já conhecido ilustrador francês Jerome Huguenin, o mesmo de Rastro de Cthulhu. Diferentemente de seu primeiro trabalho em Esoterrorists, seus desenhos em Esoterror Factbook (EF, daqui em diante) tem uma pegada mais realista, lembrando as ilustrações internas do novo World of Darkness da White Wolf e não o estilo de Comic do Esoterrists.

O livro com 148 páginas é muito mais que um suplemento. A meu ver, ele traz todas as informações sobre o cenário de Esoterroristas enquanto o manual básico se fixa apenas nas regras, na verdade o manual básico que parece um suplemento de EF, e não o contrário.

Praticamente é um livro descritivo, com muitas, muitas informações mesmo sobre personagens, cenários, operações, procedimentos, inimigos e tudo mais. Está escrito na forma de um documento informativo para o leitor, supondo que esse seja um agente da Ordo Veritatis. Ou seja, toda a informação é apresentada sobre o ponto de vista dos superiores e agentes da Ordo Veritatis.

Pode ser dividido nas seguintes seções:

Manual de Operações: cobre tudo que os investigadores podem saber sobre os protocolos e procedimentos de ação da Ordo Veritatis. Aqui encontramos informações detalhadas dobre os processos de investigação, espionagem, interrogatórios, avaliações psiquiátricas dos agentes, entrevista de testemunhas e como os agentes da Ordo Veritatis atuam para localizar, capturar e neutralizar agentes de uma célula Esoterrorista. Explica porque os agentes da OV não devem torturar os inimigos capturados, quando e como chamar uma unidade de SSF (Special Supression Force) – uma espécie de braço armado militarizado da OV, estilo SWAT ou Fuzileiros. Também destaque para os procedimentos de “Velado”, ou seja, como encobrir um acontecimento sobrenatural usando os contatos da imprensa e manipulação de informação pública via os meios de comunicação.

SSF – Forças Especiais de Supressão: O capítulo que detalha as SSF da OV, unidades de assalto paramilitares que entram em ação nos casos extremos, para destruir, caçar e combater as criaturas do Outer Dark  e esoterroristas mais perigosos. O livro deixa bem claro que a entrada de uma unidade SSF é rara, e só é chamada pela OV em último caso, quando os agentes de campo comuns não são capazes de lidar com a ameaça. Inclui informações sobre o recrutamento desse agentes, seu treinamento e seu procedimento de ação. Note que a maioria desses agentes são indivíduos com um passado militar ou mercenário, contatados pela OV por sua experiência anterior em combate.

Também explica as diferenças entre jogar uma campanha com agentes de investigação da OV e com seus agentes SSF, uma voltada para investigação e outra centrada no combate e ação.

Para fechar o capítulo, nos são apresentadas excelentes regras que enriquecem muito o jogo e tem caráter opcional. São elas regras para recuperação mais rápida de Reservas de Combate, Finta, Fogo automático, Fogo Supressivo, artes marciais, ataques localizados, tiro mirado, especialização em armas, explosões, movimentos táticos, esquivas, acertos críticos, ataques duplos,  uso de habilidades para ganhar vantagem em combate, etc. São todas regras novas, muito simples e funcionais que não alteram o equilíbrio do jogo. É importante notar que as regras de fogo automático e explosões do EF são diferentes daquelas apresentadas em Rastro de Cthulhu. Na minha opinião, as regras de EF são muito melhores, mais simples, mais intuitivas e casam melhor com o sistema de jogo. Usar essas regras no Rastro é opção bem interessante, já que as regras de EF são mais funcionais. 

Esse é um ponto que se destaca, já que EF foi escrito por Robin Laws, o criador do sistema Gumshoe enquanto o Rastro de Cthulhu é obra de Keneth Hite. Nota-se claramente as melhores opções de desing de EF regras sobre as do Rastro, dando a entender que as de EF seriam algo mais próximas das “oficiais” do sistema Gumshoe enquanto as do Rastro parece que foram criadas as pressas para cobrir aquelas situações (fogo automático, explosões, alcances), já que o EF é posterior ao Rastro.  

O Inimigo: Detalha os esoterroristas tal e como são descritos pelas análises de inteligência da OV. O capítulo inclui tanto dados precisos como especulações sobre a organização das células esoterroristas, financiamento dessas células, perfis psicológicos dos integrantes, seus sistemas de comunicação e atuação. O material apresenta também tudo o que se sabe sobre dez células ou grupos esoterroristas ao redor do mundo e treze prováveis agentes.

Entre os grupos encontramos os mais variados tipos possíveis, como a Família Caillet, uma família incestuosa de fazendeiros canibais do interior da França, passando por Paretei Verein, um clube sexual clandestino na Alemanha, A Bala Negra, um grupo esoterrorista de guerrilheiros paramilitares no Afeganistão até a Empresa de Investimentos Enertia, que une os mundos da magia, finanças e software em Silicon Valley.

Dos prováveis ou confirmados esoterroristas estão personagens realmente curiosos como Sebastian Avruj, um pregador argentino que fundou uma seita nas favelas, Djoko Borcsok, um produtor de filmes e web-sites pornográficos, Annete Foss Haverngall, uma professora acadêmica e escritora especialistas em ciências humanas, Asumi Yanagi, uma ilustradora e desenhista japonesa, entre muitos outros.

Operativos sem afiliação: Esse capítulo descreve o perfil de nove personagens sem afiliação ou desconhecidos, que tomam parte ativamente no mundo das operações sobrenaturais, sem demonstrar lealdade com nenhum dos lados, estando muitas vezes a favor ou contra a OV ou o Esoterror. Alguns podem ser considerados aliados eventuais enquanto outros são piores e mais perigosos que o próprio inimigo. Entre esses indivíduos se destaca uma famosa assassina profissional, um desertor esoterrorista, um assassino serial, entre outros.

Lugares terríveis: Descreve os locais assombrados tradicionais, conhecidos como LFMB – Locais com Força de membrana baixa, ou seja, os lugares onde a membrana da realidade que separa o nosso mundo da “Escuridão Exterior” (The Outer Dark, no original), o plano de onde vem muitas das criaturas e monstros sobrenaturais invocados pelos Esoterroristas.


O capítulo detalha onze desses lugares, desde um campo de tortura africano até uma base de operações cientificas na Antarctica.   

Conselhos para o DJ: o Livro conclui com um curto capitulo com dicas para desenvolver cenários, campanhas e cenas.

Aventura Pronta: O livro vem com uma aventura pronta, ambientada na Birmânia. É um cenário de operações para a SSF da OV, então os jogadores devem encarnar personagens paramilitares. É Um aventura que possui muitas cenas de ação, combate e perigo, num ambiente hostil da selva birmanesa e cercado por forças militares inimigas. Ela conclui com o encontro com um horror sobrenatural e possui cenas para a utilização das novas regras de combate e investigação já apresentadas no livro. Não cheguei a jogar a aventuras, mas me pareceu bem interessante, com um foco diferente das clássicas de Esoterroristas, que são mais focadas em investigação.

Apêndice: Um Glossário de termos e siglas usados pela OV, e algumas páginas com novos horrores incessantes. Nada novo aqui se você já possui The Book of Unremiting Horror. São 6 criaturas, o Ovashi, Homem Misterioso, Sangrador, Moedor de Órgãos, golem Snuff e Demônio Residual. Dois deles, o Ovashi e o Homem Misteriso já aparecem também no livro Fear Itself.     

Conclusão: Um grande livro, com muito material descritivo e as poucas regras opcionais apresentadas são muito melhores que aquelas presentes no Rastro de Cthulhu, podendo ser facilmente substituídas. Podemos dizer que é praticamente um livro indispensável para se jogar no cenário de Esoterroristas, porque expande muito o cenário que é praticamente reduzido no livro básico. Enfim, um livro com muito fluffy e pouco crunch, mas o pouco crunch é excelente também. Recomendo se você é fa de jogos de horror pela grande quantidade de material descritivo, mesmo que sua intenção seja usar o cenário em outros sistemas. Um grande livro e uma excelente aquisição do sistema GUMSHOE.

Gostou? Quer saber mais sobre essa ambientação?

Resenha de Esoterrorists

Adaptando o Slenderman para outras ambientações (inclusive Esoterrorists)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Guerra dos Mundos - Rádio transmissão aterroriza a América noticiando uma Invasão Marciana



Menos de 70 anos atrás, a televisão estava apenas em fase experimental e nos Estados Unidos, o rádio era o rei indiscutível das ondas curtas. Três em cada quatro famílias americanas já possuía um aparelho (oito milhões foram vendidos só em 1936), mas, como muitos iriam descobrir, essas pessoas ainda não estavam totalmente em sintonia com o poder deste novo e excitante meio de comunicação. O despertar veio na noite de Halloween de outubro de 1938, quando um jovem e brilhante autor chamado Orson Welles confrontou os medos subconscientes de uma nação fazendo milhares de pessoas (talvez muito mais) realmente acreditar que marcianos estavam invadindo a América.

Inacreditavelmente, a causa deste caos foi uma apresentação dramática (e muito realista) de "A Guerra dos Mundos", romance seminal de ficção científica, escrito 40 anos antes por H.G. Wells. Mas como e por que isso tudo isso aconteceu? Há várias razões, mas primeiro vale a pena ressaltar que o rádio era algo novo e excitante naquela época. As grandes redes de rádio como a ABC, NBC e CBS existiam há apenas uma década e estavam envolvidas em um frenesi de experimentação, enchendo as ondas com enorme quantidade de material original: comédias, dramas, musicais, propagandas e um novo estilo de jornalismo que abriu ao público dos EUA uma consciência sobre o tamanho do mundo.

Os americanos eram agora capazes de se conectar com um mundo em rápida transformação e ouvir os formadores de opinião como nunca antes. Um pioneiro notável nesse campo foi o presidente Franklin D. Roosevelt, cujo programa "Conversas ao pé da lareira", trouxe a voz do governo para dentro da casa das pessoas. Eventos e notícias deixavam a nação em polvorosa. Boletins sobre a caça ao sequestrador do bebê do aviador Charles Lindbergh manteve ouvintes em suspense durante meses em 1932. Em 1936, o correspondente de guerra Hans Von Kaltenborn tornou-se o primeiro repórter americano a transmitir ao vivo de uma zona de guerra, quando ele trouxe os sons reais de uma batalha da Guerra Civil espanhola para dentro de casa. Igualmente dramático foi o acidente fatal do dirigível Hindenburg, gravado em 6 de maio de 1937 por Herbert Morrison da WLS uma estação de Chicago, um evento que levou o repórter às lágrimas de frustração e horror. Sem dúvida, as transmissões preocupantes sobre a Alemanha nazista causaram enorme abalo nos EUA. Durante a Crise de Munique em setembro de 1938, mais rádios foram vendidos aos americanos do que em qualquer outro período histórico. Todos desejavam saber como o Chanceler Hitler havia reunido suas forças e porque o mundo caminhava à passos largos para uma nova e devastadora guerra.

Neste clima de tensão, Orson Welles e sua equipe estavam preparando a sua apresentação mais recente Teatro Mercury, um show da CBS que já havia dramatizado romances como "O Conde de Monte Cristo" e "Drácula". Em face disso, "A Guerra dos Mundos" não deveria ter tido nenhum efeito maior sobre o público do que as transmissões anteriores. Contudo, Welles e seu escritor Howard Koch estavam planejando algo especial naquela noite. Há muito debate se a intenção deles era causar o tumulto e pânico subseqüente, ou se tudo não passou de uma infeliz reação a um show muito bem produzido.

Ao invés de situar a história na Inglaterra vitoriana, conforme escrito por H.G. Wells, a ação foi transplantada para a América contemporânea. De forma ainda mais significativa, Koch contou a história como uma série de flashes que interrompiam sem aviso a programação normal o que soava como um programa real. Este afastamento dos formatos estabelecidos se provou muito eficaz, e combinado com a utilização de numerosos nomes de lugares reais, adicionou de forma significativa a sensação de pânico. Outro fator que contribui, foi que muitos sequer sabiam da transmissão do programa de Welles e sintonizaram na estação depois que ele havia se iniciado. Aqueles que esperavam encontrar uma transmissão normal, encontravam ao invés disso relatos sobre as mais alarmantes e chocantes notícias.

As primeiras notícias transmitidas falavam de explosões de "gás incandescente", observadas no planeta Marte. Depois de um breve interlúdio e de mais música, vinha um gancho direto do Observatório Princeton onde uma entrevista era conduzida com o professor Richard Pierson. Pierson (interpretado por Welles) assegurava aos ouvintes que não havia nada para se alarmar, mas depois os relatos mencionavam o impacto de um meteoro na Terra. É neste ponto que um lugar despretensioso chamado Grover Mills entra na história. Ainda hoje, Grover Mills é um povoado pacato sem importância, mas naquela noite ele estava prestes a se tornar o centro do universo para um número muito considerável de pessoas.

Howard Koch escolheu Grover Mills como o ponto de desembarque para a Invasão Marciana simplesmente espetando um lápis em um mapa de estradas. Ele então, começou a narrar o avanço dos marcianos em direção a Nova York, destruindo as forças armadas americanas e dezenas de cidades ao longo do caminho. Um anúncio de emergência do governo apareceu para dar credibilidade à história, e notícias sobre mais tragédias deixaram os ouvintes em pânico. Em vários lugares, pessoas começaram a telefonar para delegacias de polícia exigindo que as autoridades fizessem algo. Espectadores ligaram para quartéis e bases do exército exigindo que mais soldados se mobilizassem. 

Em Trenton, a sede da polícia, transmitia a seguinte mensagem: "Entre 08:30 e 22:00 recebemos inúmeros telefonemas como resultado da transmissão da CBS referente a um ataque marciano a este país. Não se preocupem, os departamentos de polícia, incluindo Nova York estão em alerta. Manteremos todos informados a respeito desse acontecimento". 

Várias chamadas foram direcionadas ao serviço de telefonista: pessoas desesperadas perguntando como meteoros podiam ter caído na Terra trazendo alienígenas e ninguém ter feito nada. Outros queriam informações sobre o número de pessoas mortas, se havia perigo do gás tóxico usado pelas forças invasoras se disseminar ou sobre qual a estratégia militar seria adotada pelas forças armadas. 

O sistema de telefonia entrou em colapso com a quantidade de ligações de uma hora para outra.

Também de Trenton, veio o relato de uma certa senhora Thomas: "Ficamos petrificados de medo diante da transmissão. Nós apenas olhávamos uns para os outros aterrorizados sem conseguir desligar o rádio. Alguém bateu a nossa porta. Era o vizinho do outro lado da rua. Ele tinha colocado sua mulher e os sete filhos no carro e estava prestes a fugir pois temia que os marcianos estivessem à caminho. Ele trazia uma espingarda na mão e parecia desesperado". 

Henry Sears, de 13 anos, estava fazendo sua lição de casa quando ouviu a primeira notícia sobre a invasão. Ele carregou o rádio até bar onde sua mãe trabalhava e junto com os fregueses ouviu a assustadora transmissão. De repente alguns homens se levantaram e anunciaram que iriam até Grover Mills - que ficava a poucos quilômetros dali - para enfrentar os invasores espaciais com quaisquer armas que pudessem encontrar.

E o que, acontecia a essa altura em Grover Mills? histórias de que moradores apavorados abriram fogo contra uma torre de água, pensando que era um tripóde, uma das diabólicas máquinas alienígenas. Mas apesar dos boletins estarrecedores relatando mortes e destruição, tudo estava calmo no proverbial "olho do furacão". Na verdade, bem poucas pessoas estavam sintonizadas na transmissão de Welles e ninguém imaginava o que estava acontecendo. Ali perto, um estudante chamado Sheldon Jugson, membro do Clube de Imprensa da Universidade de Colúmbia, após ouvir sobre a queda do meteoro partiu às pressas para o povoado esperando ser o primeiro a ver a tal coisa vinda do espaço exterior. Ao chegar a Grover Mills ele se deparou com uma tranquilidade inabalável. Ao bater de porta em porta encontrou os moradores já se preparando para dormir.

Mas a cidade foi uma exceção em meio ao caos instaurado. Muitos relatos atestam que houve um tumulto em outras partes do país, com destruição de propriedade, pilhagem, desordem e brigas nas ruas. Pessoas corriam armadas, milícias se formavam e gente movida pelo pânico era capaz de qualquer coisa. A confusão se espalhou até o Canadá e na fronteira, ouvintes apavorados cobravam do governo providências no sentido de fechar as fronteiras para evitar o ataque dos marcianos. A rádio WABC concorrente da CBS, dizia que não havia qualquer informação oficial sobre a alegada invasão, mas de nada adiantava tentar acalmar as pessoas, o estrago já estava feito.

Acredita-se que muitos ouvintes, sobretudo aqueles que sintonizaram na rádio após o início do programa, entenderam que os alemães estavam invadindo o país. "A sombra da guerra estava em todo lugar e as pessoas estavam em seu limite", disse Welles anos mais tarde.

A medida que notícias do mau entendido começaram a chegar a CBS, a emissora tomou conhecimento do que estava  acontecendo. Há rumores que Welles exigiu que o programa continuasse sendo apresentado e foi atendido já que a audiência estava aumentando exponencialmente a medida que mais e mais pessoas corriam para sintonizar na única rádio que àquela altura noticiava a invasão.

Assim que o programa terminou, a CBS se viu forçada a colocar no ar boletins regulares garantindo que a transmissão era uma encenação, que uma invasão alienígena não estava acontecendo e que a América não estava sob ameaça. Nem todos viram as notícias, muitos já estavam fugindo às pressas ou trancados em porões aguardando os invasores com armas nas mãos.

No dia seguinte jornais de costa a costa publicavam manchetes assegurando que tudo não havia passado de um engano. No período de um mês, os jornais publicaram mais de 12.500 artigos sobre a transmissão e seu impacto. No exterior a transmissão foi motivo de discussão sobre o poder do rádio e muitos cogitaram proibir novas transmissões dessa natureza. Adolf Hitler citou o pânico, como "prova da decadência e condição corrupta da democracia americana". Para muitos analistas a reação dos americanos demonstrava que eles não estavam preparados para uma guerra real e que seu ânimo desmoronaria se confrontados com uma situação de perigo verdadeira.

Ao longo dos anos, Welles contou versões conflitantes sobre o acontecimento, e até tentou reivindicar o crédito pelo planejamento do ocorrido, mas imagens de noticiários na época mostram claramente que ele estava bastante abalado pelo que seu programa havia desencadeado. O mais provável é que nem mesmo um gênio como Orson Welles poderia imaginar a reação ao que ele colocou no ar. O rádio havia confirmado sua força e os meios de comunicação de massa jamais seriam os mesmos. 

"Sussurre diante de um microfone e milhares ouvirão suas palavras, mas entenderão o que bem entenderem", disse um célebre repórter certa vez a respeito da influência do rádio. Ele não estava errado... 

Na janela abaixo está uma cópia da transmissão original feita por Orson Welles. Portanto, diminua as luzes, reúna os seus entes queridos e prepare-se para ser transportado de volta a outubro de 1938, uma época mais simples, quando a vida não era tão complexa e incerta como é hoje, um momento em que as pessoas estavam prontas a acreditar que o que ouviam de uma fonte confiável era toda a verdade e nada mais que a verdade. 

Interrompemos este programa para trazer chocantes notícias...

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