terça-feira, 29 de outubro de 2013

Explorando os Mythos mais Obscuros: Atlach-Nacha - O veneno da Deusa Aranha


A grande maioria das entidades do Mythos de Cthulhu são absolutamente alienígenas para os padrões da natureza terrena, com seus muitos tentáculos, formas amorfas e misteriosos apêndices. São abominações que não sugerem qualquer grau de familiaridade com as formas de vida nativas de nosso planeta.

Contudo essa não é de modo algum a regra. Nem todas as entidades assumem uma forma incompreensível, inexplicável ou totalmente fora dos padrões existentes.  

Há deuses no Universo do Mythos cuja forma encontra eco em animais e seres aborígenes. Se essas formas foram adotadas propositalmente ou se essas eram suas aparências originais, é impossível saber. O fato é que algumas entidades assumem uma faceta similar a de criaturas da Terra. Yig, o pai das Serpentes que se assemelha a um imenso réptil, Chaugnar Faugn cuja aparência remete a traços elefantinos e o próprio Cthulhu cuja face sugere similaridade com um octopos - ainda que estejam presentes traços humanoides, são bons exemplos.

Outra divindade que assume a forma aproximada de um animal terreno é Atlach-Nacha, um dos mais curiosos e misteriosos Grandes Antigos.

Atlach-Nacha é chamada de "Deusa Aranha" por razões óbvias. Essa entidade obscura tem o aspecto de um monstro aracnídeo de tamanho colossal, muito maior do que um homem e supostamente capaz de alterar suas dimensões. Alguns teóricos do Mythos afirmam que Atlach-Nacha pode assumir o tamanho que desejar, sendo, no entanto, consenso que na maioria das vezes, seu tamanho se equipara ao de uma pequena casa. A deusa possui um corpo dividido em dois segmentos como a maioria dos artrópodes araneídeos.

A parte frontal é formada por um cefalotórax maciço e quitinoso, dotado de quatro pares de pernas articuladas que se movem agilmente a fim de permitir seu deslocamento. Esses membros são longos e grossos, cobertos de cerdas semelhantes a fios de cabelo negro distribuídos ao longo de toda extensão. Atlach Nacha capta mínimas variações através desses pelos como se eles fossem antenas extremamente sensíveis. Os quatro pares de pernas, permitem que ela corra a uma velocidade de até 50 quilômetros por hora em linha reta, o suficiente para empreender uma perseguição persistente a maioria das presas. As pernas são muito ágeis e capazes de manipulação, uma vez que terminam em três dedos rudimentares. As extremidades das patas aderem a superfícies lisas facilitando a escalada vertical.

Na porção anterior do corpo se destaca um enorme abdômen mais ou menos ovalado e anormalmente inchado. Esse abdômen tem uma coloração escura com raias avermelhadas na maioria das vezes, púrpuras ou amareladas segundo certas descrições. Os cabelos que recobrem o abdômen são mais ásperos e resistentes como fios de arame cuja função é protetora, desviando ataques. Nessa estrutura se evidencia um duto fiandeiro que produz fios de seda e um aguilhão retrátil que fica acondicionado no final do abdômen. Através desse aguilhão, ela transmite um veneno letal de composição desconhecida, tão poderoso que é capaz de corroer tecido orgânico como se fosse ácido. O poder corrosivo equivale ao do ácido fluorantimônico, podendo dissolver tecidos, órgãos e até ossos em instantes.  Uma quantidade relativamente pequena na corrente sanguínea já é suficiente para matar um humano adulto. Atalch-Nacha produz uma quantidade de veneno inesgotável.

Chama atenção o fato de que Atlach Nacha possui uma face estranhamente antropoide que em algumas ocasiões é descrita como a de um ancião de traços orientais reminiscente do povo tibetano. Outros descrevem essa face humana como similar a uma jovem mulher com cabelos negros e pele azeviche, dotada de uma beleza exótica que contrasta com o horror que é seu corpanzil aracnídeo. A face também já foi descrita como de uma velha com traços africanos, uma criança pálida com cabelos loiros encaracolados e como um selvagem das ilhas do sul com olhos ferozes quase animalescos. Embora nem todas as faces de Atlach-Nacha tenham uma face feminina, a maioria dos textos se refere a entidade como "deusa", ou seja um ser do gênero feminino.

É possível que Atlach-Nacha seja capaz de assumir diferentes feições e optar por aquela que seja mais interessante em um determinado momento. Os nativos da Ilha de Ponape, que veneram a Grande Aranha, acreditam que ela pode escolher a face de qualquer vítima que ela tenha devorado ao longo de sua existência. Para todos os efeitos a face do ancião é a que surge na maioria dos textos e descrições disponíveis. Em algumas circunstâncias, Atlach Nacha faz surgir um par de quelíceras dentro de sua boca para auxiliar na alimentação. Essas quelíceras são semelhantes as de aracnídeos terrestres e servem para sorver os alimentos ou segurar as presas para que a boca possa fazer o trabalho de trituração.


Horrível em cada detalhe, tenebrosa no todo, Atlach Nacha é uma visão abominável que não raramente provoca loucura e desespero. Há algo em sua forma anormal que incita ondas de repulsa e delírio na mente humana.  

Os poucos manuscritos que falam da Deusa Aranha são confusos e dificilmente podem ser interpretados como uma fonte confiável a respeito da origem de Atlach-Nacha. Existe uma lenda que menciona a Deusa como acompanhante de Tsathoggua quando este deixou seu lar original, Saturno para se estabelecer na Terra. Em outra versão desse mesmo mito, Atlach-Nacha teria construído uma teia entre os dois planetas através da qual Tsathoggua atravessou, como se fosse uma ponte. Teóricos do Mythos enxergam nessa fábula uma alusão clara a algum tipo de portal que Atlach-Nacha foi capaz de criar.

Segundo o mito, ao chegar na Terra Atlach-Nacha se estabeleceu sobre um precipício sem fundo no interior do legendário Monte Voormithadreth, na mística terra de Hiperbórea. Lá ela teria caçado e se alimentado dos selvagens Voormis que a consideravam uma entidade demoníaca. O povo da Hiperbórea teria descoberto um acesso para o precipício, e alguns desses pré-humanos chegaram a fundar um culto que a venerava em templos recobertos de teias e com grotescas estátuas de aranhas. O culto foi proibido em virtude dos rituais aterrorizantes realizados pelos seus seguidores fanáticos. Nessa mesma época, parte da vasta teia construída sob o precipício teria sido destruída em um incêndio que forçou a deusa a migrar para a Terra dos Sonhos onde ela passou a ser adorada pelas Aranhas de Leng.

Os sacerdotes hiperbóreos remanescentes teriam levado consigo o conhecimento para outras terras, criando seitas dissidentes que tinham como ponto em comum a adoração a aranhas. Supõe-se que na antiguidade o culto tenha se fixado na Fenícia e a partir desse ponto foi exportado por marinheiros para vários lugares do globo.

No Peru, a Deusa Aranha foi chamada de Tzizimica e é dito que sua teia conectava as várias passagens entre os planos. No Império Asteca seu nome era Tzitzimime - "A morte que vem do alto" e em sua homenagem seus seguidores realizavam sacrifícios em cavernas profundas. Na Sibéria ela foi chamada de Rerimuchka, e adorada por tribos selvagens de Evenkos que habitam as planícies gélidas. Seus totens medonhos ainda podem ser encontrados na paisagem cinzenta. O culto também existiu entre os malignos anões tcho-tcho de pele pardacenta que viviam no Planalto de Leng. Estes teriam levado os ensinamentos da deusa, chamada de "Mãe das Teias" através das montanhas chegando até a India. O culto foi especialmente poderoso na porção meridional do sub-continente, fixando-se entre nobres e aristocratas, mas a perseguição dos sikhs, que viam na adoração de Atlach-Nacha uma abominação, fez com que a seita acabasse proscrita. Contudo, ela ainda existe entre tribos da primitiva Ilha Andaman na costa do Mar de Bengala. Acredita-se que muitos de seus seguidores tenham o sangue miscigenado dos tcho-tchos correndo em suas veias.

A Ordem Esotérica de Dagon em algum momento - possivelmente no final do século XVIII, entrou em contato com as tribos selvagens da Ilha Andaman. Eles assumiram que Atlach-Nacha era uma serva de Dagon, a habitante solitária da "Árvore da Morte" e a guardiã que punia os homens e mulheres que se negavam a copular com os abissais. Entre os rituais da Ordem, existem invocações e maldições que citam o nome de Atlach-Nacha.

Além de tribos primitivas animistas, a Deusa Aranha, é tida como uma entidade patrona de feiticeiros, sobretudo aqueles que buscam poder e conhecimento arcano. Os magos que estão dispostos a venerá-la, por vezes são admitidos como emissários de Atlach-Nacha em troca de receber o almejado conhecimento, visões de dimensões distantes e acesso a Terra dos Sonhos. Para negociar com a deusa, eles tem que se deixar morder por uma das Aranha de Leng durante um sonho a fim de despertar em um salão da Grande Teia, na presença de Atlach-Nacha. Se o feiticeiro oferecer um presente ou sua devoção incondicional, a divindade partilhará algo que ele deseja conhecer. Aqueles que faltam com o devido respeito ou se mostram incapazes de conquistar sua atenção são cercados por Aranhas de Leng, capturados em casulos de teia e posteriormente devorados. A grande quantidade de carcaças ressecadas penduradas como macabros troféus na grande teia, demonstra que a deusa não se impressiona facilmente.

Existe uma lenda muito difundida e tida como verdadeira a respeito da Grande Teia de Atlach Nacha e o Fim dos Tempos. Essa narrativa está presente em vários tomos, como por exemplo o próprio Necronomicon e é aceita por irmandades esotéricas e sociedades herméticas, desde o início dos tempos. Diz a lenda, que quando o trabalho de construção da Grande Teia for finalizado, os Grandes Antigos irão despertar de seu sono milenar, marcando assim o dia em que as estrelas estarão certas. Para alguns estudiosos do Mythos, a Teia estaria próxima de ser completa, e até já teria sido finalizada não fosse a destruição parcial ocorrida quando ela habitava a Hiperbórea.


Os xamãs siberianos evenkos creem que quando a teia estiver pronta, as Aranhas de Leng virão através dela, deixando a Terra dos Sonhos para saciar sua fome com os humanos do mundo desperto. Astrólogos do Império Maia previram que a construção da Teia de Atlach-Nacha seria concluída em dezembro de 2012, mas aparentemente eles cometeram algum erro de cálculo. Há várias outras tradições que tentam prever a data exata da conclusão da Grande Teia, mas as teorias divergem enormemente.

Sendo um dos Grandes Antigos, Atlach-Nacha também foi afetada pelas emanações cósmicas que forçaram ela e outros seres a hibernar em lugares até o dia em que as estrelas se alinharem. A despeito dessa imposição restritiva, ela pode ser invocada por poucos instantes. Na maior parte do tempo, ela prossegue trabalhando metodicamente em sua vasta teia, e quando ela estiver pronta, quem sabe o que poderá acontecer...   

4 comentários:

  1. O texto é bem interessante. Quem inventou essa Deusa do Mythos? O Ausgust Derleth? Só tem uma correção a ser feita. Na frase "A deusa possui um corpo dividido em três segmentos como a maioria dos artrópodes aracneídeos." deveria estar escrito "dois segmentos", porque os aracnídeos só têm o cefalotorax e o abdômen.

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    1. Opa, escrevi Ausgust* em vez de August. Corrijo o erro dos outros mas cometo um erro de ortografia muito pior. Será que tem tradução para o português do Clark Ashton Smith?

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  2. Acho que o conceito de Atlach-Nacha é do genial Clark Ashton Smith, ela aparece no conto "The Seven Geas".

    Vou fazer a alteração quanto a anatomia das aranhas, obrigado sagu.

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  3. Muito bom texto. Ter usado analogia com superácidos deixou muito sinistra as possibilidades. Neste conto "The Seven Geas" exploram de alguma forma interpretações científicas sobre o tal veneno? Abçs

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