quinta-feira, 28 de março de 2013

Guia Visual de Arkham - A cidade de Lovecraft em detalhes (PARTE 2)


por Luciano Giehl com Davi Hoefling baseado no livro Arkham Unveiled

No mapa as cores representam a classe predominante em cada região. Verde Escuro marca um bairro de classe alta, o verde claro classe média e o marrom as áreas mais pobres. Como se pode perceber o mapa de Arkham possui uma divisão bem clara entre as classes sociais.

As pequenas bandeiras marcam a localização de bairros com predominância de imigrantes estrangeiros.


RIVERTOWN 

Esta parte da cidade está localizada, parcialmente, no norte da French Hill, indo desde a River Street até descer sinuosamente e encontrar o Rio Miskatonic. É uma área mais baixa, que tende a alagar na estação das chuvas quando o rio enche, devorando as margens. Nessa época a lama e o barro preto do fundo do Miskatonic é revolvida e como resultado as ruas ficam tomadas de sujeira e de um cheiro desagradável remanescente dos produtos químicos usados pela indústria têxtil. 

Habitantes do sul da River Street costumam ser descendentes de franco-canadenses ou europeus orientais falando dezenas de dialetos. Pequenos guetos congregando habitantes de mesma descendência se formaram naturalmente. Os únicos imigrantes judeus de Arkham habitam essa área. Uma pequena sinagoga foi construída em 1909, mas ela foi consumida em um incêndio três anos depois.

River Street e pier
Este é o velho distrito mercante de Arkham. Algumas das indústrias mais antigas da cidade, como a General Store e a Carnahan Têxteis, estão aqui. Muitos dos maiores mercadores de Arkham residiram nessa vizinhança, nativos e imigrantes, eles combinam suas casas a lojas. As casas são apertadas, velhas e se espremem ao longo das ruas. Muitas permanecem com as portas abertas, atrás de pequenos jardins que levam até seus portões de ferro escuro e cercas de arame.

Mais adiante as casas vão ficando cada vez mais empobrecidas. Algumas das pessoas mais pobres de Arkham vivem aqui, espremidas em bangalôs e cortiços entre a River Street e o rio. As casas hospedam famílias grandes apinhadas em habitações pequenas e feias. As ruas de terra batida sem calçamento costumam ficar cheias de lama e evitar os respingos constitui uma arte. A maioria das pessoas simplesmente pararam de se importar com isso faz tempo. A lama preta de RiverTown na bainha da calça é um indicador de pobreza na cidade.

A área da River Street também é uma das mais perigosas de Arkham com crime e violência constante. Não é algo frequente, mas já foram vistos cadáveres boiando no Miskatonic ou lançados nas margens lamacentas, sobretudo durante os períodos de maior beligerância entre gangues de italianos e irlandeses. Policiais tendem a ignorar chamadas dessa área e os próprios cidadãos formam comitês de vigilância que agem à margem da lei. Alguns dos únicos linchamentos ocorridos na história recente cidade tiveram como palco a rua na beirada do rio. 

River Street
Tavernas sórdidas na rua North Sentinel servem bebidas ilícitas e atendem uma clientela composta de marinheiros, estivadores e vagabundos. Casas de má fama são comuns aqui e ali, algumas oferecem jogo, bebida e entorpecentes, enquanto mulheres de "má-índole" circulam pela área quando a noite cai. 

Há boatos que os velhos armazéns abandonados da River Street continuam sendo usados por contrabandistas de bebidas que descem o Miskatonic nas noites sem lua em embarcações à vela para não chamar a atenção. Os homens de Dan "Irish" O´Bannion, o maior chefão criminoso de Arkham controlam a área e ai de quem desafiar a autoridade deles. Até mesmo a gangue local de pequenos delinquentes os Finn-Boys devem obediência a O'Bannion, reservando parte de seus ganhos ao mafioso.    


CAMPUS TOWN

O Campus é a região mais movimentada de Arkham.

Trata-se do principal ponto turístico da cidade, que atrai o maior número de visitantes. A paisagem é mantida imaculadamente limpa e as dependências da Universidade são ótimos lugares para caminhar, visto que são sombreadas, amplas e frescas.  Patrulhas de polícia são frequentes; vadiagem, principalmente após o anoitecer, é proibida.

Fachada do Prédio principal da Miskatonic University
Embora os prédios da Universidade encontrem-se fora dessa área o local tem um toque acadêmico. O Hospital St Mary (a Unidade modelo usada pela Universidade) e o Estádio de Futebol Americano ficam nessa vizinhança.

Assim como o bairro Merchant, o terreno do Campus é mais baixo, erguendo-se apenas ao sul. Há várias praças, restaurantes e lojas nessa área fazendo com que o ambiente fique constantemente tomado pelos estudantes. Mesmo à noite, é comum encontrar alunos reunidos nos bancos da praça ou mesmo sentados no gramado em animadas conversas. Lanchonetes, cafés e um pequeno comércio se desenvolveu nessa área. Alunos podem alugar bicicletas para ir à aula ou esperar pelo ônibus que sai a cada 10 minutos com destino a Universidade.

Ao norte da rua Crane e da West existe um bloco de casas residenciais, construídas em estilo federalista-georgiano. Muitas dessas casas não são mais residências, mas são mantidas como escritórios pela Universidade ou outras organizações. Esta área é bem preparada como qualquer outra do Campus. Ali fica a Casas do Reitor, a casa que hospeda os professores convidados ou temporários e o auditório cívico. A área abriga ainda o pequeno teatro usado pelo grupo de alunos artistas, jocosamente chamado The Thespian Arkhanites. Mais adiante fica o prédio que hospeda o Pavilhão das Artes, um dos únicos departamentos localizado no campus.
                
Crane Street
A rua College contém, além de prédios novos e modernos, alugados quase que inteiramente aos alunos, muitas casas de família, convertidas em pensões onde residem em geral os estudantes novatos. As três grandes fraternidades da Miskatonic tem as suas sedes sociais nessa área. A Delta Pi é a mais antiga e tradicional, mas a Beta Kappa também é muito concorrida pelos novos alunos por ser mais acessível. Finalmente a Gama Tau é a mais nova e restrita, aceitando apenas alunos com sobrenomes respeitáveis.

Na esquina com o Hospital localiza-se a morgue ocupando a área que antes hospedava o Pavilhão da Escola de Medicina, transferido para a Universidade e que hoje é uma escola de enfermagem. A Biblioteca Orne, depositário do vasto acervo de livros da Universidade, fica no final da rua e é de longe a maior construção.  

A Oeste da rua Boundary existem dois blocos de casas mais modestas. A Hill Street é uma velha rua  cercada por antigas árvores apodrecidas, que brotam da terra ao longo da estrada em alguns lugares. Esta é uma parte antiga e rústica da cidade com casas que datam do século XVII, e as famílias que as habitam estão lá há muitas gerações, provavelmente é a parte mais antiga da cidade. 


Prédio principal da Biblioteca Orne
O contraste entre o velho e o novo é um dos charmes da Boundary. Enquanto algumas casas são novas em folha, oferecendo todo tipo de conforto, ao lado encontram-se antigas moradias reminiscentes dos tempos coloniais. Para estudantes com espírito de antiquário, o lugar oferece incontáveis vislumbres dos velhos tempos e uma oportunidade de conhecer a arquitetura da Nova Inglaterra.
  
FRENCH HILL

Assombrada pelo sempre presente campanário da Igreja Episcopal de Bayfriar, essa é outra área histórica, o coração que viu a chegada dos primeiros colonos ingleses. 

As casas de tijolo cinzento, telhados de amianto e ocasionais telhas georgianas foram deterioradas pelo tempo e sua arquitetura é rústica. Dispostas lado a lado, cortadas por ruelas e becos elas assomam ao longo da colina que dá nome ao bairro. Muitas casas se aglomeram, acavalando-se loucamente pelas ruas apertadas. O projeto urbanístico caótico é resultado da ocupação por parte das famílias de imigrantes despejadas no porto de Arkham no início do século. Muitos deles receberam permissão de ocupar as velhas casas abandonadas que existiam aqui depois da inundação de 1888. Entre as construções mais antigas encontra-se a pérfida morada que pertenceu a lendária feiticeira Keziah Mason, conhecida como A Casa da Bruxa. Ela foi convertida em uma pensão que hospeda famílias de baixa renda e alunos com recursos modestos.    

Muitas ruas não são mais do que passagens estreitas e vias tortuosas em forma de escada, que sobem a colina e, eventualmente, são atravessadas por pórticos de pedra escura. O crime é comum nessa vizinhança e muitos moradores de Arkham consideram essa área perigosa evitando-a, sobretudo, à noite. 

Church Street no coração de French Hill
Os irlandeses mais prósperos vivem no lado leste da colina, bem como ao longo da East Street, ocupando casas maiores com pequenos jardins e quintais. A face norte da colina é povoada pelos irlandeses mais pobres, bem como muitos franco-canadenses. Famílias cheias de crianças vivem nessas pequenas residências mau ajambradas com pátios servindo como áreas comuns.   

A oeste da colina, alemães e famílias do leste europeu dividem espaço com ocasionais poloneses. A área possui sua parcela de casebres amontoados com telhados remendados, estendendo-se por seis quadras. Nessa área fica a Igreja de St. Michael fundada em 1854.

Uma propriedade chama a atenção nesse ambiente decadente. Uma imponente mansão com um jardim bem cuidado, totalmente cercado por um muro alto. Trata-se da Silver Twilight, uma espécie de clube de cavalheiros ou para alguns sociedade nos mesmos moldes da maçonaria. As viúvas fofoqueiras que moram nas proximidades contam estórias sobre o que acontece atrás de suas portas durante a madrugadas, horário em que seus frequentadores costumam se reunir. Se perguntado a respeito, alguns moradores apenas se benzem e desconversam. 

UPTOWN
            
A maior parte deste bairro é de classe média, mas as ruas Saltonstall High merecem maior atenção. Empoleiradas no alto da South Hill, possui apartamentos, como o condomínio Franklin Place, que concede uma bela vista do campus e do rio. Essas duas ruas de tijolos têm dezoito metros de largura e são ladeadas por árvores que proporcionam uma ótima sombra.

Mansões em estilo georgiano-federalista, uma vez propriedades de antigos donos de moinhos, seguem pelos dois lados das ruas, da continuação da Boundary até a South Garrison. As casas são postas lado a lado, uniformemente a três metros e meio da calçada de tijolos. Um pequeno gramado de um metro e meio de largura estende-se entre a casa e a calçada.
                
Santonstall Street
Há pouco espaço entre as casas, não obstante, existem alguns jardins laterais. Alguns donos são membros das antigas famílias que ainda mantêm propriedades; porém, é o pessoal da faculdade quem reside na maioria das moradias alugadas. Algumas mais foram adquiridas por consultórios médicos e firmas. O comércio praticamente inexiste nessa vizinhança.
               
As casas ao longo da rua Pickman são de um estilo mais modesto e moderno. Aqui são numerosas as casas de dois ou três andares, a maioria de madeira, sendo que muitas foram divididas em apartamentos. Algumas estão escondidas atrás de outras casas, acessíveis somente por becos estreitos. Muitas antigas mansões em estilo Georgiano ainda existem na região. Moradores aqui incluem universitários mais velhos que resolveram se fixar na cidade e professores permanentes.
                
Washington Street
Alguns prédios foram erguidos na ruas Miskatonic e Washington, mas a maior parte desta área se desenvolveu no final do século XIX, e consiste de grandes propriedades Vitorianas, pertencentes a membros da classe média e profissionais liberais. O seleto clube feminino das Filhas da Revolução Americana se localiza em um belo sobrado na Saltonstall. Já na High encontra-se o exclusivo Clube Miskatonic que congrega os cavalheiros de Arkham em atividades lúdicas e festivas. Entre os sócios estão pilares da sociedade local.
                
A South Hill Street quase nos limites da cidade, não possui iluminação e é pouco habitada. As casas aqui são antigas, cambaleantes, tomadas por musgos, trepadeiras  e com suas fachadas e telhados empenados. Embora muitas sejam grandes, a maioria não possui gás ou água encanada. A rua é recoberta de caibros de madeira e seixos que foram dispostos muito tempo atrás.

South Hill Street
Velhas e abandonadas casas de fazenda ainda podem ser encontradas, elas vão sendo gradualmente absorvidas pela cidade a medida que ela cresce; escondidos atrás de grandes árvores, estão antigos jardins que foram mantidos pelas antigas famílias, mas que estão abandonados agora. Esta área ainda não foi incorporada. Os residentes ainda têm de retirar sua água de poços escavados ao longo da rua.

SOUTHSIDE

Quase nos limites da cidade, South Side é uma área que começou a ser habitada pioneiramente por famílias de irlandeses e poloneses, e mais recentemente por um número cada vez maior de imigrantes italianos. Alguns habitantes mais antigos de Arkham chamam a área de Pequena Itália ou mais pejorativamente de Bairro dos Carcamanos.

Originalmente a região era pantanosa com algumas charnecas que no verão enchiam de mosquitos e afastavam os quem ali tentava se estabelecer. O terreno fazia parte de uma velha chácara que foi comprada pela prefeitura e aterrada, com os lotes colocados a venda por um preço atraente. Os títulos de propriedade foram negociados por corretores italianos que facilitavam a venda para seus conterrâneos. As casas que ali surgiram foram bem construídas com direito a jardins frontais e cercas brancas transformando o lugar em um agradável subúrbio. A vizinhança se beneficiou ainda de um pequeno comércio na rua Walnut


South Sentinel Street
Digno de nota é a casa conhecida como Unione Italiana, ou ainda Clube Napolitano. Frequentado por italianos ou a primeira geração de italo-americanos, o Clube possui uma sede social e salão de sinuca que serve de fachada para um bar clandestino no porão. Joe Potrelo, o chefe dos contrabandistas de bebidas e principal rival da gangue irlandesa é a face da organização. Disputas de território entre as duas facções já causaram episódios de violência na área e é uma constante preocupação da polícia local.

Na fronteira norte com French Hill, as casas são mais antigas e lotadas por famílias pobres que habitavam French Hill e foram vindo para o sul em busca de uma vizinhança menos combalida. Algumas delas foram construídas no século XVIII como o sobrado decrépito onde funciona  funerária do senhor Jaspar Eleazar a mais antiga da cidade. A área tem muito de French Hill e os moradores tentam evitar que as outras ruas sejam tomadas pelo mesmo processo que transforma os prédios em cortiços. A recessão da economia sem dúvida irá agravar esse quadro.


Na  rua Pickman encontra-se o Instituto Larkin, um hospital psiquiátrico renomado e opção para os que não se agradam com o Asilo Arkham. Na South Garrison, o prédio da Sociedade Histórica de Arkham destoa no ambiente como uma construção extremamente bem cuidada, aberta ao público diariamente. Ela conta com  uma biblioteca, museu e arquivos históricos repletos de curiosidades e informações sobre a cidade.

terça-feira, 26 de março de 2013

Guia visual de Arkham - A cidade de Lovecraft em detalhes (PARTE 1)


por Luciano Giehl com Davi Hoefling com base no livro Arkham Unveilled

É curioso, mas embora Lovecraft tenha usado frequentemente a cidade de Arkham como cenário para várias de suas estórias, deixou em aberto alguns detalhes a respeito dela. Por exemplo, qual a população total da cidade durante os anos 1920? O que existe lá? Qual a localização de alguns dos seus locais mais importantes?

O livro Arkham Unveilled de Keith Herber resolve muita coisa, mas ele diz o seguinte: "Arkham é grande o bastante para que as pessoas não conheçam todos os seus vizinhos, mas pequena o suficiente para que tenham a sensação de que conhecem". Em seguida ele afirma que a população "corresponde a uma fração da população de Salem, que na época teria 45 mil habitantes".

Francamente eu não concordo com essa estimativa, e felizmente não estou sozinho...

Existem outros autores que mencionam que Arkham deveria ter pelo menos 50 mil habitantes e já li em uma estória que a cidade em 1930 tinha uma população de pelo menos 80 mil residentes, o que a colocaria como uma cidade mediana para a época.

O livro institui, contudo que cada grupo de leitores, jogadores e Narradores tem uma visão mental idealizada de "sua" Arkham, tentar definir certos pormenores pode gerar polêmica e nunca ser algo conclusivo. 

Eu acredito que isso constitui uma permissão tácita para que o Guardião construa sua própria Arkham. E acreditando nisso, a minha Arkham possui algumas diferenças em relação a do livro do Sr. Herber.

Primeiro: A localização da Universidade Miskatonic. A minha Miskatonic se localiza nos arredores da cidade e não dentro dela. Essa é uma mudança que no meu entender faz muito sentido já que esse é o formato padrão da maioria das Instituições de Ensino Superior. A Universidade tende a ser próxima, mas não necessariamente dentro da cidade para que exista uma certa liberdade do corpo docente em questões administrativas frente ao conselho municipal. O que eu considero para minha mesa é que a maioria dos alunos vive na cidade, no que se convencionou chamar de área do campus. Os prédios que abrigam as salas de aula e departamentos de ensino, entretanto se localizam fora dos limites distritais. Não é uma longa distância, longe disso. É plenamente possível se deslocar de ônibus, de bicicleta ou até à pé, como fazem de fato, muitos alunos.

Segundo: Se faz sentido destacar a Universidade do restante da cidade, faz mais sentido ainda mandar o Asilo Arkham para fora dos limites. Um asilo não é algo que as pessoas querem ter como vizinho, ainda mais esse asilo (onde convenhamos, coisas estranhas acontecem a 3x4). Então na minha Arkham, o Asilo um dia esteve dentro da cidade, na vizinhança de Downtown, mas foi transferido em 1900 para os arredores a cerca de 30 minutos de carro do centro da cidade. O que facilita muito cenários em que alguma presença bizarra tenta dominar o local e não há ninguém para ajudar.

Terceiro: A população. De jeito nenhum que uma cidade como Arkham tem menos de 30 mil habitantes. Arkham possui alunos vindos de todo país, dispõe de cinemas, teatros, de vida noturna, de duas gangues rivais de mafiosos, de um porto movimentado, empresas... em suma, ela pede para ser mais do que uma cidadezinha sonolenta. Fiquem à vontade para discordar, mas a minha Arkham tem uma população fixa de 60 mil residentes e uma população flutuante (composta de alunos, imigrantes não registrados ou visitantes ocasionais) de mais 15 mil. O que totaliza aproximadamente 75 mil pessoas.


Abaixo está a divisão de Arkham em bairros ou distritos. A cidade possui 9 áreas distintas cada qual com as suas características.



NORTHSIDE

O solo nesta parte da cidade ascende mais ou menos constante da margem do rio até se crispar próximo a Derby Street. É um terreno mais elevado o que o salvaguarda de cheias.

Derby Street
As ruas Derby e Curwen, particularmente próximo do cruzamento com a Brown e Jenkin, estão repletas de grandes mansões no estilo georgiano e vitoriano. Muitas têm grandes pátios, jardins geralmente cercados por muros de pedra e portões de ferro batido; algumas das casas ao norte da Derby Street podem possuir áreas realmente grandes, com bosques, suntuosos jardins com fontes e até mesmo pequenos campos de golfe em seu interior.

São propriedades requintadas, lar das famílias que enriqueceram com negócios e indústria e que mantiveram essas riquezas por gerações. Algumas das famílias mais prósperas da cidade, os novos ricos e aristocratas americanos, construíram suas residências nessa área abastada da cidade.

Curwen Street
Ao sul da Curwen Street encontra-se a região financeira e comercial, contendo muitos escritórios e sedes de firmas. Entre os marcos está a “Tower Professional Building” de sete andares, o prédio mais alto de Arkham que comporta grandes escritórios bem como as sedes dos dois principais Jornais de Arkham, o Gazette e o Advertiser. É uma área nobre de comércio frequentada por cidadãos de classe média alta e que hospeda ainda a filial da Loja Maçônica. Escritórios legais, contadores e firmas renomadas possuem sedes nessa região administrativa.

Ao longo da High Lane, indo para o norte da cidade, encontra-se uma pequena fileira de antigas fábricas abandonadas. Algumas delas foram arrendadas pela prefeitura que pretende derrubá-las e dar início a novos terrenos para construção familiar. Acredita-se que essa área planejada um dia irá se tornar a de maior prestígio na cidade. Por enquanto ela hospeda um dos mais notórios Speakeasies de Arkham, uma taverna clandestina frequentada por qualquer cidadão interessado em diversão ou em um bom trago. Controlada pela gangue de Dan "Irish" O'Bannion, o lugar ferve à noite com bandas de jazz e estouros de champanhe.

Estação de Trem de Arkham 
A Estação de Trem Boston & Maine, com seu prédio cinzento em forma de castelo fica no extremo norte do bairro. Guarnecido por duas magníficas torres laterais o pátio da estação de trens possui lojas de comércio e serviços. Através da Estação viajantes chegam e deixam Arkham com destino a Boston (sendo servidos por quatro trens diários). As demais cidades da Nova Inglaterra possuem trens agendados ao longo do dia e conexões. O serviço é rápido e eficiente como quase todos os transportes da Nova Inglaterra. Ali perto fica  a nova estação de ônibus que conecta Arkham às demais cidades do interior da Nova Inglaterra.
Hyde Street 
A Hyde Street é uma área de comércio movimentada com avenidas abertas na década de 1910 a fim de permitir o acesso de carruagens, bondes e finalmente de automóveis. As ruas foram as primeiras da cidade a serem asfaltadas e receber iluminação elétrica. No Natal elas são decoradas com enfeites para receber a parada natalina, uma das mais importantes no calendário festivo da cidade.

Dos dois lados da movimentada avenida há prédios construídos na primeira década do século com lojas no térreo e apartamentos residenciais. O Terrace Building é o condomínio mais conhecido, cinco bloco de prédios em estilo brownstone, cada um com cinco andares.

DOWNTOWN

Downtown é um terreno mais acidentado do que Northside. Conforme o terreno sobe da direção do rio, aparecem depressões e elevações criando ladeiras. A praça da cidade é a parte mais nivelada de Downtown.

Ao norte da Curwen Street o bairro é quase que totalmente residencial, e na sua maioria de classe média-baixa. As casas que rodeiam a praça da cidade são mansões, porém, as casas na parte de trás não passam de casebres antiquados, amontoados, construídos por volta de 1820. Um programa de remodelação pintou e consertou as casas frontais concedendo um ar mais limpo e digno, mas as ruelas internas mostram sinais claros de deterioração e descaso.


Derby Street
O antigo Sanatório Arkham se localizava originalmente em uma imensa mansão de dois andares em estilo georgiano, construída pelos irmãos Pickring, Paul e Thomas Jr., em 1822. Ele foi transformado posteriormente em uma casa para tratamento de mentalmente alienados, reinando no alto de uma ladeira atraindo olhares de suspeita de seus vizinhos. Não por acaso, o Sanatório foi transferido na virada do século XX para uma grande construção a cerca de 15 quilômetros ao norte da cidade.  

A maioria dos órgãos públicos e serviços civis de Arkham se encontram a oeste e ao sul da Independence Square. Inclusas estão a Prefeitura, o Tribunal de Justiça, a Cadeia, a Chefatura de Polícia e o Corpo de Bombeiros. A maioria dessas construções foram erguidas nos meados do século XVIII, em um estilo clássico, com grandes pilares e frontões; a alguns foram adicionadas novas alas mais tarde. A Prefeitura é uma construção de estilo georgiano/federalista. Profissionais como advogados e agentes de empréstimo podem ser localizados aqui, assim como os dois maiores bancos de Arkham, o Banco da América e o Banco do Estado de Massachusetts.

O entorno da praça é cercada por impressionantes mansões federalistas  construídas no começo do século XIX. Muitas foram convertidas em pensões, mas algumas ainda são o orgulhoso ninho de famílias renomadas. Os enormes carvalhos e olmos da praça concedem sombra no verão e proteção da neve no inverno. Trata-se de um lugar agradável que atrai famílias desejando fazer picnics e aproveitar os fins de semana.
Independence Square
Uma pequena área ao longo da Garrison Street se notabilizou por concentrar restaurantes de boa qualidade, cafés e uma variedade de opções para entretenimento familiar. O Teatro Jewel foi transformado no Cine Independence em 1918, mas o Amhearst ainda está em atividade com montagens dramáticas e musicais. Essa área costuma ficar agitada nas noites dos finais de semana, com alunos da universidade e visitantes, algo incomum no resto de Arkham.


A Av. Peabody, Fish Street e a Federal Street estão repletas de pequenas lojas, que também recebe uma feira uma vez por semana. A medida que as casas vão se aproximando da margem do rio, a qualidade das habitações vai decaindo progressivamente. Muitos moinhos abandonados apodrecem na beira do rio como uma triste lembrança do tempo em que estes mesmos moinhos impulsionaram o progresso da cidade. Alguns desses moinhos foram apontados como locais insalubres, usados por vagabundos e por isso são evitados pelos cidadãos de bem.

North Garrison Street
EASTTOWN

A parte norte de EastTown, acima da Whately Street, contém algumas boas e velhas casas no puro estilo georgeano. Essas casas foram construídas pelos Derbys, Ornes, Pickmans e Pickerings – os mercadores do mar que moldaram a velha aristocracia de Arkham. A maioria dessas casas, infelizmente, caíram no abandono; como um todo, as casas de Easttown são decadentes, algumas necessitando de  conserto e pintura. Fachadas magníficas carecem de pintura, paredes estão descascadas e jardins com ervas daninhas.

Vista de EastTown em 1928
Algumas famílias tradicionais de Arkham ainda residem aqui, muitas se equilibrando nas ruínas de suas casas um dia consideradas verdadeiros palacetes. Raízes de árvores são tão grandes que acabam destruindo as calçadas, tornando mais confortável andar no meio da rua. As ruas são apertadas e apenas um carro por vez cruza essas vias estreitas, calçadas com paralelepípedos.

Durante a enchente de 1888 algumas dessas velhas mansões foram tomadas pela água e acabaram ficando danificadas além da conta. Mais de uma dezena foi derrubada para a construção de prédios com tijolos vermelhos com até cinco andares. Uma avenida mais larga foi aberta para permitir o trânsito de automóveis em Whately Street.

Whately Street
Ao sul dela, o solo desce vertiginosamente até o rio. As casas são modestas e pouco espaçadas. Os poucos negros (como eles mesmos preferem ser chamados) de Arkham vivem nessa área onde são tolerados. Alguns vivem bem e são populares, cidadãos respeitados que podem traçar suas origens até antes de 1788, quando os ingleses tornaram a escravidão fora da lei. Como um grupo, no entanto, eles não são bem vistos. Alguns costumes de pequenas cidade ainda estão tristemente em voga. 
                
Um número de pequenos negócios existe ao longo da Armitage e da River Street. Trens de carga passam dia e noite apanhando caixas e sacas de mercadorias estocadas em grandes depósitos. O último moinho têxtil funcional de Arkham, movido à vapor, pode ser encontrado aqui.

MERCHANT DISTRICT

Estas duas quadras estreitas se localizam em terreno baixo, muito próximo ao rio. Cerca de 75% das lojas e estabelecimentos comerciais de Arkham podem ser encontrados aqui. A Church Street é a rua mais importante, com lojas de departamento, boutiques e excelentes antiquários, enquanto a Main Street é curiosamente secundária com mercados e farmácias. As pessoas, costumeiramente, chamam esta área de Merchant, embora, teoricamente, faça parte de Downtown.

A velha East Church e a West Church são encontradas aqui, assim como muitos galpões do começo do século XVIII. Esses galpões estão, em sua maioria em desuso, com exceção de alguns que servem como depósitos de barcos.

West Church Street
O coração do bairro é um longo bloco rodeado pelas ruas Main, Garrison, Church e West, onde se erguem grandes prédios de tijolos de dois a quatro andares, a maioria construído no começo do século XIX. São edificações resistentes feitas para durar, em 1890 um incêndio consumiu vários prédios da West Street, mas a estrutura não chegou a ser abalada. O maior posto de gasolina de Arkham, um Exxon-Mobill novinho em folha fica na esquina da West e Church. 

Church Street, da Main para a West é coberta de paralelepípedos, originalmente assentados em 1773, um trabalho realizado por operários irlandeses em sua maioria. Ocasionais becos, quase estreitos demais para um motorista experiente conseguir descarregar as mercadorias na parte de trás das lojas, se espalham pela rua. Esses becos, em geral, são cheios de crateras, latões de lixo, máquinas em desuso e caldeiras dos prédios.

A River Street já foi largamente utilizada por estivadores, carregando mercadoria, engradados e caixotes. Os depósitos continuam em uso, mas a maioria está sendo gradualmente abandonada. A Sociedade dos Estivadores e dos Marinheiros mantém a sua sede social em um sobrado no final da rua.

As duas quadras de galpões a leste da Garrison Street, na maioria feitos de madeira, foram convertidos há muito tempo em cortiços e pensões. Muitos dos moradores atuais descendem da primeira leva de imigrantes irlandeses que veio para Arkham. Aqui a rua é mais bem cuidada, resultado de um esforço voluntário dos moradores para manter a vizinhança em ordem.

South Garrison Street
Os dois blocos de lojas a leste da Garrison e ao sul da Main são compostos de construções velhas e menos impressionantes do que as lojas da Church. Muitas são casas convertidas com este fim hospedando armarinhos, quitandas e armazéns que atendem às necessidades básicas da vizinhança. O campanário da East Church domina o horizonte e quando os sinos da Igreja Católica chama os fiéis, a área se torna movimentada com o cortejo das famílias para o serviço religioso. Uma vez ao ano a procissão do Cristo Vivo é saudada pela multidão na véspera da Páscoa. O dia de São Patrício também é uma data festiva que congrega a maioria dos moradores de crença católica.

A borda oeste deste bairro é de casas mais novas em material de baixa qualidade, ela vai tornando-se cada vez mais decrépita perto da Boundary Street. Famílias de espanhóis, poloneses e portugueses se fixaram aqui para ficar próxima de uma vizinhança que compartilha de suas crenças. A Associação Cristã de Moços fica nessa vizinhança, bem como um terreno usado pelo Seminário religioso de Maristas que hospeda ainda um colégio. 

Ao longo da Boundary, principalmente no cruzamento com a Church Street, a iluminação torna-se deficitária; o norte da Main Street é esparsamente habitado. Ali se destaca o Museu do Imigrante que registra a história dos estrangeiros que ajudaram a construir Arkham.

(continua)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Bem Vindo à Arkham! - Revelando segredos de uma cidade assombrosa



por Davi Hoefling com base no livro Arkham Unveilled e comentários de Luciano Giehl (em azul)


*     *     *  

"Por trás de tudo havia o taciturno e pestilento horror da antiga cidade... a imutável, lendariamente assombrada cidade de Arkham, com seus telhados angulares dispostos sobre sótãos, onde bruxas se escondiam nas trevas, durante os velhos tempos coloniais".


Bem vindo à Arkham, Massachusetts, uma cidade da Nova Inglaterra, localizada nas curvas sinuosas e bancos lamacentos do Rio Miskatonic. A cidade foi fundada no final do século XVII e se tornou o lar da Universidade Miskatonic e da renomada Biblioteca Orne.

Consideravelmente mais jovem do que as cidades vizinhas, Kingsport e Innsmouth, ela foi o lar para os fugitivos de Boston e Salem, aqueles “pensadores liberais” oprimidos pelas congregações religiosas dogmáticas e radicais dessas cidades vizinhas.

Nota #1: O povo de Arkham era bem menos radical com suas crenças religiosas e comparativamente menos inclinado a abraçar causas como o povo de Salem, famoso por dar origem a "Caça às Bruxas". Isso não significa que os primeiros colonos de Arkham não fossem típicos protestantes ingleses tementes a Deus. Eles eram! Mas é fato que o povo do vilarejo sempre foi mais tolerante e disposto a aceitar entre seus habitantes, pessoas com pensamento mais aberto. 

Entre a primeira geração de habitantes de Arkham estavam Keziah Mason e Goody Fowler, suspeitas de bruxaria que trouxeram com elas de Salem um obscuro e odioso culto. Em 1692, Mason foi presa por homens de Salem; Fowler fugiu para as florestas no noroeste da cidade. Mason acabou condenada à forca, depois de ter seu nome ligada a "práticas abomináveis". Mas ela escapou misteriosamente e nunca mais foi vista novamente. Quando a histeria das bruxas da Nova Inglaterra arrefeceu, Goody Fowler voltou discretamente para os arredores de Arkham e se instalou no sudoeste da cidade. Ali ela praticou bruxaria até que, em 1704, quando finalmente, uma multidão raivosa arrastou-a até uma colina a Oeste de Arkham e a penduraram pelo pescoço. Seus assassinos nunca foram a julgamento.

Nota #2: Keziah Mason viveu em uma casa que ainda existe no número 197 da Rua Pickman, lugar conhecido como "The Witch House" (A Casa da Bruxa). Até pouco tempo, a casa servia como uma modesta pensão para moradores com poucas condições financeiras e estudantes da Universidade Miskatonic. Em 1926 ela foi esvaziada após rumores a respeito de sons estranhos e visões perturbadoras envolvendo a bruxa e seu familiar, um horrendo rato com feições humanas apelidado Brown Jenkin

Nota #3: A Colina onde Goody Fowler foi enforcada recebeu o sugestivo nome de Hangman's Hill (Colina do Enforcado). Os supersticiosos da cidade consideram o lugar assombrado pelo fantasma da velha bruxa. Pessoas que estiveram no local após o anoitecer, afirmam ter visto uma forma espectral vestindo uma camisola branca flutuando e gargalhando grotescamente. Alguns até relataram ter mantido uma conversa com o espírito, que segundo rumores sabe inúmeros segredos a respeito de Arkham e seus habitantes.   

Arkham cresceu lentamente durante o início do século XVIII, obscurecida pelo sucesso da vizinha Kingsport na pesca e no comércio. Arkham tornou-se uma pacata comunidade rural; quando os preços eram bons, alguns poucos barcos escapuliam para o mar em busca de pesca. Por muitos anos a única maneira de atravessar o Rio Miskatonic era pela Balsa de Evan, larga o suficiente apenas para uma carruagem e mais quatro pessoas. As estradas eram de terra batida, a cidade contava com casas simples e um pequeno comércio. No centro do povoado e arredores viviam quase setecentos moradores. Nessa época um misterioso assassino teria aterrorizado Arkham, matando um número desconhecido de pessoas, algo entre 3 e 15 vítimas, até finalmente sumir sem deixar vestígios.

Nota #4: Os registros a respeito dessa terrível onda de crimes se perderam com o tempo e após as inundações de 1888, os poucos documentos existentes desapareceram (ou foram destruídos). Na ausência de uma comprovação documental desses acontecimentos, alguns historiadores em Arkham levantaram uma dúvida razoável sobre esses fatos. As estórias mencionam que quinze habitantes do povoado e cercanias foram vítimas desse assassino. O matador utilizava uma faca para cortar a garganta de suas vítimas e segundo rumores talhava nelas estranhos símbolos de natureza desconhecida. Em 1933, um repórter do Boston Globe conduziu pesquisas a respeito desses acontecimentos, tencionando escrever uma matéria para o jornal. O repórter desapareceu antes de concluir o trabalho, seu paradeiro permanece desconhecido.

Vista aérea de Campus Town - 1929
Em 1761, Francis Derby e Jeremiah Orne retornaram para Arkham como bem sucedidos capitães do mar. Eles trouxeram cinco navios com eles, determinados a transformar Arkham numa nova referência de comércio. Eles construíram docas e galpões na margem norte do rio, na área ao redor da “Fish Street”, e por alguns anos, Arkham hospedou navios que faziam o comércio pelo Triângulo das Bermudas, levando escravos para o Caribe e para o Sul, trazendo melaço, açúcar e rum para a Nova Inglaterra, e exportando peles e bacalhau seco.

No auge desse comércio as primeiras ruas permanentes ao norte do rio foram estabelecidas, bem como as primeiras grandes mansões de Arkham – as propriedades de Derby e de Orne e aquelas dos capitães – erguidas na área que agora se chama East Town. Orne e Derby ergueram a primeira ponte para atravessar o Miskatonic, uma estrutura de madeira que ficava próxima do local onde hoje há a ponte da Avenida Peabody.

Nota #5: A Ponte Antiga, que recebeu o nome de "Travessa do Rio" foi palco de pelo menos três suicídios em meados de 1790. O mais chocante deles envolvendo Francine Meadows, uma jovem não casada que se encontrava na época grávida. Ela se atirou no Miskatonic e morreu afogada. Por algum tempo, dizem que o espírito atormentado dessa jovem vagava pela "Travessa do Rio" depois da meia-noite. A ponte foi substituída pela atual Ponte Peabody mais resistente e durável. Alguns moradores afirmam ter visto o fantasma andando sobre a água no local onde estava a ponte.  

Jeremiah Orne morreu em 1765, deixando uma biblioteca com 900 volumes como legado, administrada pelos curadores Derby e George Locksley, ela foi usada para fundar o Colégio Liberal Miskatonic. A Escola era sediada em uma construção de dois andares no lado Sul da College Street.

Nota #6: Dentro da valiosa coleção de Jeremiah Orne havia livros com temas variados: filosofia, religião, ciências, romances e história, escritos em vários idiomas desde o inglês convencional, até o inglês arcaico, francês medieval, latim e grego, além de outros idiomas mais exóticos como um tratado em árabe. A coleção contava com tomos extremamente raros - muitos deles manuscritos, versando sobre Ciências Ocultas e Esotéricas. Esses tomos teriam sido adquiridos em um lote fechado pertencente ao espólio de um nobre no sul da Inglaterra. Pouco se sabe a respeito dessa aquisição ou se Orne tinha consciência do que estava comprando ao arrematar a biblioteca, fato é que, desse misterioso colecionador vieram alguns dos mais poderosos tomos do Mythos que ainda hoje figuram no catálogo da Universidade Miskatonic.

Uma segunda construção maior que a anterior, sediou a Biblioteca Orne e o pequeno museu de esquisitices trazidas do Oeste das Índias - e além - por navios de Arkham. Essa bizarra coleção ainda pode ser vista no Museu de Exibições da Universidade Miskatonic. John Adams Pickering, um estudante de Harvard, foi escolhido o primeiro presidente do corpo estudantil.

Nota #7: A Coleção comumente chamada de "Museu de Esquisitices" é composta de itens trazidos do oriente. Boa parte dessa coleção, é oriunda das Ilhas de Ponape e Andaman no Oceano Indico, localizada entre a Península Indiana e a Oeste de Burma. O local é o berço de povos muito antigos que mantém um estilo de vida primitivo e costumes que incluem sacrifícios e adoração ritualística. Alguns também são canibais. A Universidade Miskatonic, motivada por essas descobertas empreendeu uma expedição a Andaman em 1898 que resultou na morte de três dos seus integrantes e em uma fuga desesperada. A Expedição tinha por objetivo estabelecer uma ligação entre os nativos e o lendário povo Tcho-Tcho. Os resultados foram inconclusivos.        

Durante a guerra revolucionária, os Derby e os Orne se converteram em corsários, atividade considerada patriótica naqueles tempos. Operando principalmente fora de Kingsport, eles afundaram ou capturaram 23 velas sob a bandeira inglesa, trazendo bons lucros. Após a guerra, as famílias subsidiaram o desenvolvimento da “velha cidade” – antigamente utilizada como pastagem e campo de treinamento da milícia – e logo instalaram um novo Campus do Colégio Miskatonic. Uma nova praça foi feita na margem norte do rio, perto do centro da cidade, e, após muito debate, nomeada “Independence Square”.

Nota #8: A Guerra Civil foi extremamente lucrativa para Arkham e concedeu o impulso necessário para seu desenvolvimento. Alguns no entanto se aproveitaram da luta pela independência para atacar os navios ingleses, usando o patriotismo como desculpa para atos de pirataria. Nessa época, "O Fogo-Fátuo" uma fragata ligeira, comandada por um capitão de Arkham chamado Lamar Garrison afundou pelo menos três embarcações. Dizem que uma delas transportando velhos, mulheres e crianças foi incendiada e enviada para as profundezas com toda tripulação. Verdade ou mentira, o nome de Garrison foi amaldiçoado e o Capitão desapareceu em alto mar. Histórias sobre o "Fogo Fátuo" e a vilania do Capitão Garrison ainda são contadas por marinheiros no Porto de Arkham. 

O fim da guerra marcou o declínio do comércio marítimo de Arkham. Enquanto Salem, Boston e Nova York rapidamente se consolidaram como as potências marítimas de comércio, principalmente com a China; a indústria de Arkham entrou em decadência. Os comerciantes remanescentes foram para Kingsport. Em 1808 o Escritório Alfandegário Federal em Arkham fechou, e a cidade perdeu o status de porto de entrada.

Não obstante a perda do comércio internacional, Arkham voltou a crescer na primeira metade do século 19, graças à visão de homens como Eli Saltonstall. Saltonstall, anteriormente um capitão do mar, anteviu a curta vida da cidade no comércio marítimo, fundando em 1796 a primeira fábrica têxtil de Arkham, no lado Sul do rio, no pé da “East Street”. Mais fábricas foram aparecendo e, conforme a atividade rural da Nova Inglaterra declinava, Arkham cresceu com as Indústrias.

Os industrialistas – os Saltonstalls, Browns e Jenkins – criaram novas ruas ao sul do Campus do Colégio, ao longo da “South Hill”, e construíram grandes mansões Georgiano-Federalistas, financiadas por grandes lucros têxteis.
Arkham - Main Street 1920
Nota #9: Fábricas têxteis se multiplicaram ao longo do Miskatonic e chaminés despejando fumaça negra no ar, surgiram a partir de 1800. Arkham dava passos largos em direção ao progresso. Nessa mesma época Norman Talmadge, um rico industrial natural de Boston, decidiu se fixar em Arkham e ordenou a construção de uma enorme mansão. Ele tinha interesse em investir pesado na cidade. Talmadge, entretanto, tinha fama de ser tão implacável na vida pessoal quanto era nos negócios. Alguns o consideravam um "barba azul" uma vez que ele havia casado quatro vezes com mulheres muito mais jovens que morreram de doença ou em trágicos acidentes. O industrial não teve tempo de investir na cidade, uma vez que morreu em um grande incêndio que consumiu sua mansão em 1802. As circunstâncias desse incêndio permanecem obscuras, embora muitos afirmem que não tenha sido acidental.

Neste período, em 1806, o primeiro jornal da cidade, “The Arkham Gazette”, foi fundado, subscrito pelo federalista Derby. Industrialistas republicanos mais tarde ajudaram a fundar o “Arkham Bulletin”. Nessa época a mercantilismo federalista no mar estava diminuindo. O último “boom” imobiliário ocorreu com  a partir da construção das mansões que costeiam os campos ao longo da “Federal Street” e da “Curwen Street”.

Em 1820, fábricas e indústrias de suporte surgiram ao Sul do rio, para o leste da Avenida “Peabody”. Arkham se tornou mais urbanizada. Em 1850 uma linha de telégrafo foi ligada com Boston. Respeitáveis estudiosos, em parte inspirados pela já famosa biblioteca Orne e pelo Colégio Miskatonic, começaram a se juntar ao corpo docente.

A industria continuou se expandindo. Em 1850, fábricas de tijolos, curtumes, fábricas de sapatos, relojoeiros e manufaturados como couro, joias e roupas surgiram tanto no norte como no sul da cidade. Uma grande linha de galpões, eventualmente alcançando a “West Street”, foram construídos na costa sul durante esse período.

Nota #10: Nessa mesma época, Arkham começou a atrair a primeira leva de imigrantes vindos do velho mundo. Um navio transportando imigrantes alemães, italianos e poloneses chegou a  cidade em 1840. Alguns destes estrangeiros passaram a trabalhar na agricultura, nas tecelagens e na indústria, a maioria deles se fixou em French Hill local onde anos mais tarde surgiria uma vizinhança quase exclusiva de imigrantes. Desentendimentos e disputas entre grupos de imigrantes geraram problemas desde o início. Em 1848, um jovem operário alemão foi acusado do estupro de uma jovem americana. O rapaz foi linchado por uma multidão, apesar de jurar inocência e a própria jovem não ter certeza a respeito de sua culpa. O episódio aumentou a desconfiança para com estrangeiros e freou a vinda de mais imigrantes para a área, ao menos até o início do século seguinte. 

Nos duros anos da Guerra Civil Americana, Arkham formou uma companhia chamada de 23º Regimento de Voluntários de Massachusetts. Vinte e sete homens jovens morreram na guerra; um memorial foi erguido em honra ao seu sacrifício no Cristchurch Cemetery  (Cemitério da Igreja de Cristo).

Nota #11: O Regimento de Voluntários de Massachusetts participou de importantes combates, inclusive a Batalha de Bull Run em 1862. Nessa batalha os jovens de Arkham lutaram bravamente para conter os Confederados e a maioria de suas baixas ocorreu nessa frente. As forças confederadas foram contidas, mas ao custo da vida de vários jovens. Ao retornar para casa após a guerra, o jovem oficial Gerald Washburne apresentou um comportamento estranho. Apesar de jamais ter sido formalmente acusado, sobre ele pesavam suspeitas de ter causado a chacina de uma família que vivia em uma área isolada da cidade. Verdade ou mentira, os pais de Gerald o enviaram para Boston a fim de tratar sua crescente melancolia causada após a guerra. Ele teria morrido em um Asilo para Mentalmente perturbados em 1875.   

Após a Guerra Civil, o Colégio Miskatonic tornou-se uma Universidade. Em 1870 a iluminação pública à gás estava quase completa e visitantes eram frequentes o suficiente para justificar a existência de um serviço de táxi. Em 1873 Arkham criou um serviço de polícia, após membros de uma fraternidade ilegal ficarem bêbados no “Doc Howard’s Bar” e iniciarem um tumulto que danificou várias lojas e estabelecimentos ao longo da “Church Street”. Uma lei foi logo promulgada, proibindo a existência de tavernas nas adjacências do Campus.

Em 1882, um estranho meteorito caiu a oeste de Arkham, na fazenda pertencente a Nahum Gardner. Professores da Universidade investigaram o meteorito, mas não foram capazes de atestar sua verdadeira natureza. No final, a família Gardner sucumbiu a uma estranha doença que eventualmente deixou toda a área devastada.

Nota #12: Alguns dos professores que estiveram na propriedade dos Gardner ficaram intrigados pelas estranhas características do meteorito. A pedra não correspondia a nada que eles já tivessem visto anteriormente. A morte de Gardner e de seus familiares foi relacionada por alguns a queda desse meteorito, mas nunca se chegou a uma conclusão sobre o ocorrido. Autópsias realizadas nos cadáveres atestaram um possível envenenamento radioativo, mas a teoria jamais foi comprovada. Após a morte da família, a Fazenda ficou abandonada e aqueles que vistaram o local afirmavam ter sentido uma "estranha presença" espreitando no local e uma "aura desagradável" entranhada no próprio solo. Felizmente a região foi coberta de água com a construção de uma represa anos mais tarde. 

Em 1888, uma chuva de primavera sem precedentes, combinada com tempestades em alto mar elevou o nível das águas do Miskatonic, levando o rio a transbordar muito além de suas margens. A pior inundação jamais registrada em Arkham causou grandes danos às fábricas ao longo do rio. Uma parte do Campus também foi atingida pela inundação, danificando os arquivos no porão da biblioteca, destruindo aquisições insubstituíveis.

Nos anos subsequentes, novos drenos de concreto e barragens diminuíram o risco de uma segunda inundação. Um pouco depois, novas linhas são instaladas, e trocando a iluminação a gás por iluminação elétrica. Linhas de telefone surgiram e, antes da virada do século, um sistema de saneamento público foi completado.

Nota #13: Durante as obras para construção das medidas preventivas para evitar novas tragédias, equipes de construção e manutenção, afirmaram ter feito uma estranha descoberta próximo ao Cemitério Antigo de Arkham. Uma rede de túneis e câmaras aparentemente escavadas pareciam se espalhar por toda a cidade. Rastros e pegadas recentes foram encontrados nesses túneis de terra, além de uma quantidade desconcertante de ossos humanos. As explorações desses túneis foram abreviadas pelo desaparecimento de dois trabalhadores que se perderam no subterrâneo. Um deles foi encontrado delirando a respeito de horrores nas profundezas e internado no Asilo Arkham. A extensão dos túneis ou quem os construiu é ma questão que permanece sem resposta. Parte deles foram lacrados pelos operários e até onde se sabe continuam inexplorados.  

A despeito de todos esses esforços para modernizar a cidade, em 1905, uma terrível epidemia de tifo varreu Arkham, matando muitos. Entre as muitas vítimas estava o Dr. Allen Halsey, reitor da Escola de Medicina da Universidade Miskatonic e um filantropo amado por todos. Uma estátua em sua memória foi erguida no Campus e até hoje ela observa a cidade que tanto amou.

Nota #14: A morte do Reitor Halsey (e de fato, outras pessoas ligadas ao Departamento de Medicina da Universidade Miskatonic), ainda suscita algumas dúvidas e estranhos rumores. Para alguns, acontecimentos que ainda permanecem inexplicados teriam ocorrido em meados de 1905 envolvendo estudantes da universidade e a realização de experimentos não-autorizados. O nome de Herbert West, um brilhante médico e pesquisador transparece em vários testemunhos, mas acusações formais contra West (e seja lá o que ele pesquisava) não foram levadas adiante por falta de provas. West se desligou da Universidade após essas acusações e seu paradeiro atual é ignorado.      

As fábricas de tecido nunca se recuperaram totalmente da enchente de 1888. A Nova Inglaterra perdeu muito do comércio para o Sul; a maioria das firmas de Arkham, sem seguro contra o desastre, fecharam para sempre.

Durante a Grande Guerra, Arkham deu sua parte; uma placa na prefeitura e uma estátua de bronze de um soldado prestam homenagem àqueles que caíram nos campos da Europa.

O crescimento econômico dos anos 1920 passou pela maior parte da Nova Inglaterra, e, embora a base industrial da cidade estivesse em franco declínio, a cidade conseguiu desfrutar melhorias, sobretudo no que diz respeito a Universidade. Cidade e Universidade se tornaram intimamente ligadas. Muitos dos estabelecimentos de Arkham voltaram-se para atender às necessidades dos alunos recém chegados de diversas partes do país. Seus administradores e estudantes formam parte da nova aristocracia de Arkham.

Arkham hoje

Visto que a sorte da Nova Inglaterra declinou muito depois da Grande Guerra, dados locais mostram que 83% dos moradores de Arkham possuem ferros de passar elétricos, 77% possuem lavadoras a gás e 51% possuem aspiradores de pó. O rádio está presente nas residências de 75% dos moradores. Quase 50% das famílias da cidade possuem pelo menos um automóvel, e lojistas reclamam daqueles que estacionam em frente a seus estabelecimentos.

Os bondes interurbanos que ligavam Arkham, Ipswich, Kingsport, Boston e Salem foram abandonados com a vinda dos automóveis. Linhas de ônibus foram recentemente estabelecidas entre essas cidades. As estradas principais, sobretudo interestaduais, são asfaltadas, bem sinalizadas e cuidadas, mas infelizmente o mesmo não pode ser dito das estradas que ligam Arkham ao interior do estado. Algumas destas se encontram em estado constante de má conservação carecendo ainda de sinalização. O fato delas serem de terra batida faz com que atoleiros e buracos sejam um problema recorrente.

Arkham possui três Hotéis de bom padrão, sendo o Miskatonic Hotel o mais conhecido e luxuoso. Um bom número de pensões familiares e hospedarias também oferece quartos para viajantes, estudantes e comerciantes de passagem. A cidade dispõe de restaurantes que oferecem a boa comida da Nova Inglaterra (os frutos do mar são uma marca registrada da região), mas a maioria desses estabelecimentos fecha após o horário de almoço. 

O movimento de estudantes motivou o surgimento de lugares para diversão que ficam cheios nos finais de semana. O Hot Spot é uma nova casa que se tornou ponto de encontro e lugar de referência para os alunos, oferecendo diversão na forma de dança e bandas de jazz. Nem todos os moradores de Arkham, ficaram satisfeitos com essa "casa barulhenta" aberta até altas horas, mas ela é menos problemática que os speakeasies que operam clandestinamente, oferecendo whisky contrabandeado e gim de banheira. É claro, a polícia sabe do que acontece nesses "inferninhos" mas uma propina mensal ajuda a manter esses estabelecimentos abertos para alegria geral.     
Vista Aérea de Arkham com destaque para o Rio Miskatonic em 1926 

Mapa de Arkham (acesse o link para ver o mapa com mais detalhes)

sábado, 23 de março de 2013

The Walking Dead - A Ascensão do Governador - Resenha do Livro por Clayton Mamedes


Por Clayton Mamedes

Recordo-me como se tivesse acontecido ontem. Em meados de 1988 (quando eu tinha uns 12 anos) estava andando pelo pátio da escola onde estudava, quando me deparei com o seguinte anúncio:

FESTIVAL DE FILMES NA ESCOLA – PROJEÇÃO EM TELÃO

Nesta época não existia TV-a-cabo e o costume de ir ao cinema era pouco difundido (principalmente devido ao preço e a qualidade das salas – não existia Cinemark e correlatos). Como os aparelhos de videocassete eram caríssimos, era muito comum as escolas organizarem estas mostras de cinema, utilizando fitas obtidas nas escassas locadoras da época. Adquiri assim, feliz da vida, um ingresso para a exibição de um filme chamado “A Alvorada dos Mortos Vivos”, que seria realizada em um sábado à tarde. Não imaginava que minha vida mudaria pra sempre...

O filme era assustador. Aquela horda de mortos-vivos sufocando as pessoas no shopping center, devorando-as, intimidando-as...foram horas de horror e diversão, concluídas com um final excelente.

Após este evento, acabei tornando-me um fã assíduo deste gênero de filme. Credito a esta obra, exibida no pátio da minha escola de primeiro grau, toda a minha paixão por estas coisas desagradáveis e torpes, que nos perseguem em sonhos.

Com o tempo (e o advento da Internet) consegui mais informações sobre este horrendo filme de Zumbis. Qual foi a minha surpresa ao saber que este que eu assistira há alguns anos era somente o segundo de uma trilogia. Uma trilogia mórbida que eu consumi ao longo dos anos e que, com toda a certeza, não se tratava de filmes de horror comuns, criados por um gênio da 7ª Arte: George Andrew Romero.

Creio que uma discussão sobre a obra do veterano diretor mereça um outro e longo artigo. Neste momento, é a vez de falar sobre uma das várias obras que incluem zumbis que, obviamente, foram inspiradas pelos trabalhos seminais de Romero.

Devido ao sucesso alcançado na mídia, creio que todos já ouviram falar em The Walking Dead, seja a HQ ou série televisiva. Gostando ou não, é impossível negar os expressivos números e prêmios obtidos pela franquia. Como fã do gênero, acompanho as HQs há um bom tempo, e também não perco um episódio sequer do seriado da Fox, que está encaminhando para o desfecho da terceira temporada. Como veredicto rápido, posso acrescentar que a série televisiva tem os seus méritos, porém prefiro a HQ.

Contudo, não é sobre seriados e nem HQs que escrevo hoje, mas sim sobre outra ramificação deste império dos mortos. O livro The Walking Dead: A Ascensão do Governador, publicado aqui no Brasil pela Editora Record, agora em 2012. Nesta obra assinada por Robert Kirkman (a mente por trás de todo o universo de TWD) e Jay Bonansinga (de quem sinceramente nunca ouvi falar), é mostrada a trajetória de Philip Blake, o homem mais conhecido como Governador.

O livro de 360 páginas é dividido em três grandes partes: na primeira – Os Homens Ocos – um pequeno grupo de sobreviventes busca abrigo na periferia de Atlanta, logo nos primeiros dias da explosão da praga zumbi. O grupo composto pelo forte e ágil Philip Blake, sua pequena filha Penny, seu fracote irmão mais velho Brian Blake e seus dois amigos Bobby e Nick, se aventura em um condomínio de luxo em busca de um pouco de paz e alimento, em meio à horda de devoradores de homens. A segunda parte é chamada de Atlanta e, obviamente, cobre as ações do trôpego grupo na cidade mais famosa da ambientação de TWD. A terceira e última parte chama-se Teoria do Caos, e relata a inevitável e previsível chegado dos personagens à Woodbury, peça central no arco de histórias que envolvem o Governador.

Como o título já entrega, este livro é totalmente dedicado ao processo de criação e fortalecimento de Philip Blake, e como ele chegou ao seu “posto” de Governador. Para quem é fã das HQs, será uma leitura mais satisfatória, tendo em vista que alguns elementos das duas mídias se fundem, mesmo que de forma bem superficial. Para quem nunca leu a HQ e acompanha o seriado, a leitura deixará aquele gosto de “e agora?”.

Apesar de a premissa ser interessante, é na execução que A Ascensão do Governador falha. As primeiras páginas parecem se arrastar, devido à ausência de situações realmente interessantes ou tensas. Aqueles velhos clichês de histórias de zumbis aparecem a todo o momento, acompanhados de descrições pífias, repletas de analogias sem a mínima inspiração, tais como:

“...quando ouve o PÉIM de mais uma machadada do lado de fora do armário, arrebentando a membrana de uma cabeça, atingindo um crânio duro, atravessando as camadas de dura-máter e indo parar na gelatina cinzenta e polpuda do lóbulo occipital. O som é igual ao de um taco de beisebol acertando uma bola molhada – e o jato de sangue é como um pano de chão batendo no assoalho – seguido por um baque surdo, molhado e tenebroso.” Página 14. Ou ainda:

“O lado afiado da machadinha de Philip aterrissa perfeitamente a cabeça do monstro, quebrando o crânio velho como se fosse um coco, rasgando a membrana densa e fibrosa de dura-máter e afundando no gelatinoso lóbulo parietal. O som é parecido como o de um aipo sendo partido e lança um coagulo de fluido asqueroso no ar.” Página 24.

Algumas frases de efeito são repetidas à extrema exaustão ao longo do livro, evidenciando a falta de talento literário mais apurado de ambos os autores. Realmente, um repertório de palavras e expressões bem escasso.

As coisas começam a ficar mais interessantes a partir da parte dois, com a chegada do grupo a Atlanta, onde as situações de conflito social (uma marca da séria) ganham força e destaque. Por coincidência, o vocabulário utilizado enriquece um pouco, mas não muito. E as repetições ainda insistem em aparecer. Sim, isso irrita.

O final da parte dois e a parte três mudam um pouco o panorama. Alguns acontecimentos realmente interessantes vêm à tona, principalmente com a chegada a Woodsbury. É nítida a alteração no clima da obra. Uma melhoria bem vinda, devido à já comentada maior ênfase nos conflitos sociais.

Já o final do livro reserva uma surpresa muito agradável. Um verdadeiro twist digno das obras da fase inspirada de M. Night Shyamalan que, apesar de não ser inédito (os fãs dos quadrinhos da Marvel irão reconhecer), foi realmente surpreendente. E não é a primeira vez que o universo de TWD busca inspiração em outros para as suas cenas. É fácil admitir que a seqüência do despertar de Rick sozinho no hospital (TWD #1, outubro de 2003) é muito parecida com a que ocorre no filme 28 Days Later (Extermínio, 2002), com o personagem Jim, do talentoso Cillian Murphy.

Em resumo, The Walking Dead: A Ascensão do Governador passa a impressão de uma obra amadora. Ou até mesmo um verdadeiro caça-níquel, buscando alçar vôo no vácuo de seus irmãos mais famosos e muito, mas muito mais competentes. O ritmo arrastado e o péssimo estilo literário conduzem, aos tropeços, o leitor a um surpreendente final, que apesar de não ser inédito, é cativante. Vale para quem é fã da série.

The Walking Dead: A Ascensão do Governador
Robert Kirkman e Jay Bonansinga
Editora Record, 2012
361 páginas