quinta-feira, 10 de abril de 2014

Cinema Tentacular (das Antigas): Re-Animator


Ok, já passou da hora de reparar uma grande injustiça cometida aqui no Mundo Tentacular.

O Blog a respeito de H.P. Lovecraft está no ar já faz um bom tempo e até hoje não havíamos feito uma resenha decente sobre um dos melhores filmes inspirados pela literatura de Lovecraft. (E enquanto Guilhermo Del Toro não lançar seu "Nas Montanhas da Loucura" deve continuar dessa forma). 

Estou falando de Reanimator de Stuart Gordon!

Considerado para muitos como um clássico da tosqueira, muito imitado, jamais igualado. Para outros um absurdo, um desrespeito com a memória de Lovecraft que daria voltas no caixão se visse meio minuto do filme. Para a maioria, no entanto, Reanimator é um dos filmes de horror mais divertidos de todos os tempos.

É engraçado como alguns filmes marcam a gente. Eu já relatei em outros artigos as minhas lembranças sobre alguns filmes de horror que assisti quando era moleque (entre 11 e 15 anos). Uma das minhas maiores diversões, nessa época, era encontrar os amigos depois do colégio, ir até a locadora e alugar filmes de terror toscos para assistir a tarde inteira. Houve um tempo (muito antes da TV à cabo e dos DVDs) em que as videolocadoras ofereciam diversão barata para quem queria mergulhar de cabeça em estórias de horror sem muito sentido, com direito a baldes de sangue, mutilações absurdas, violência sem noção e nudez gratuita.

"Vejamos qual o melhor diagnóstico"
Tudo bem, a maioria dos filmes eram bobos e esquecíveis. Mas garanto que aqueles que estão na minha faixa etária (30 e vários), devem lembrar com carinho de pelo menos alguns filmes de horror dos anos 80. Filmes que eram tão ruins, mas tão ruins que acabavam sendo bons. Eu tenho vários prediletos que reconheço, eram meia boca, mas que eu adorava: "Colheita Maldita", "Eles Vivem", "Phantasm", "Quadrilha de Sádicos", "Pague para entrar, reze para sair"... isso sem falar de coisas como "A Maldição de Samantha", "Noite dos Demônios" ou "A Noite das brincadeiras Mortais"...

Só que Reanimator estava num outro nível.

Reanimator era muito mais do que um filminho descartável que ficava na memória por apenas alguns minutos depois de rebobinar a fita (sim, me sinto um velho caquético tendo escrito isso!). Já naquela época, ele tinha algo que os outros não tinham, pode chamar de magnetismo, de personalidade ou de carisma, ele se destacava. Hoje em dia, não é preciso se sentir culpado em admitir a satisfação que filmes como esse, por anos massacrados por críticos metidos a besta, inspiram nos verdadeiros fãs do Horror B. Filmes da lavra de Reanimator ganharam o status de Cult e uma legião de fãs dispostos a defendê-los com unhas e dentes.

E Reanimator é de tirar o fôlego: ultrajante, sanguinolento, ridículo, chocante, vibrante, bizarro, grotesco e acima de tudo divertido. Ele consegue ao mesmo tempo te deixar nauseado e arrancar risadas como se você fosse uma hiena.

"Saia da frente, Dan"

Reanimator foi o primeiro filme de Stuart Gordon, adaptando um roteiro levemente baseado em uma das estórias mais subestimadas de H.P. Lovecraft, considerada pelo próprio, como uma bobagem escrita para ganhar um trocado. Tomando emprestado ideias e conceitos de “Frankenstein”, “Herbert West, Re-Animator” conta a estória de um cientista louco interferindo com a natureza. Na versão de Gordon, a estória é transferida para meados dos anos 1980, com direito ao acréscimo de uma personagem feminina que se torna interesse romântico de um dos protagonistas e muito sangue. O roteiro se concentra na obsessão doentia de um estudante de medicina, que desenvolve um tipo de composto químico, o reagente reanimador (um líquido verde fosforescente) capaz de devolver a vida a pessoas mortas. O grande problema é que quando as cobaias despertam, estão completamente fora de controle. Talvez a culpa seja da dosagem, algum erro quanto ao frescor do morto... de fato, Herbert West não dá a mínima. Em sua busca por sucesso, ele testa o reagente em qualquer cadáver em que consegue enfiar a agulha.

Foi com base nessa premissa simples que Gordon e seus co-roteiristas William J. Norris e Dennis Paoli expandiram a narrativa criando situações pra lá de bizarras. Junte a essa fórmula baldes de tripas, nudez frontal e senso de humor do mais negro, elementos que fariam Lovecraft perguntar "em nome de Cthulhu, porque?!?", e pronto...

Uma visita noturna ao necrotério

O roteiro fornece um herói que é exemplo de retidão, Dan Cain (Bruce Abbott), para servir como referencial para a audiência. Em termos gerais, ele é um dos únicos personagens sãos do filme. Cain é um estudante de medicina na boa e velha Universidade Miskatonic, disposto a  realizar algo memorável em sua carreira. No início do filme, o sujeito parece estar no caminho certo para o sucesso: ele é respeitado entre os colegas e professores, tido como um aluno de primeira, além de estar envolvido com Megan Halsey (Barbara "Whoa Baby" Crampton) filha do Reitor Halsey (Robert Sampson). Cain está procurando por um colega para dividir a casa onde vive e acaba encontrando um sujeito esquisito chamado Herbert West, um estudante que foi transferido da Suíça depois de ter tido "alguns problemas" com seu mentor, o Dr. Hans Gruber. A famosa introdução do filme, dizem foi incluída para fisgar o público, já que nas sessões testes se reclamou que a ação demorava a começar.

Dean acaba aceitando West como colega de quarto e mais tarde como parceiro em suas experiências malucas que envolvem reviver gatos e cadáveres roubados do necrotério. O roteiro tem espaço ainda para um vilão maquiavélico, o Dr. Carl Hill, que ao ficar sabendo da existência da fórmula, e literalmente "perde a cabeça" tentando obtê-la. É claro, nem isso detém o Dr. Hill que depois de decapitado, morto e revivido, ainda tem disposição para dar asas às suas fantasias sexuais envolvendo a saliente filha do reitor. O que dá margem para uma das cenas mais notórias do filme quando a cabeça do bom Doutor planeja explorar intimamente seu objeto de desejo amarrada numa maca.

Grosseiro? Claro! 

De Mal gosto? Pode apostar! Mas não deixa de ser uma cena incrivelmente divertida. A própria Barbara Crampton, conta na faixa de comentários do DVD que seus pais jamais viram o filme por conta dessa cena. Como um filme tão gráfico e explícito pode resultar em algo tão divertido? Talvez seja por conta de que todos os envolvidos na produção de Reanimator tenham tido o bom senso de não se levar à sério em momento algum. Tudo no filme é tão selvagem e surreal, que não há como levar nada do que é mostrado à sério. Há algumas cenas que para os padrões da época (e mesmo para os atuais) poderiam ser consideradas chocantes, mas que em face do clima caótico, acabam tendo o mesmo efeito da violência de desenho animado. 

"Eu sempre admirei a sua beleza minha querida".
Contudo, nada disso desmerece Reanimator como filme de horror, nem mesmo o fato de que em algumas cenas você se pergunte se está assistindo na verdade uma comédia pastelão.

Muito disso se deve ao toque do Diretor. Stuart Gordon não por acaso passou a ser considerado um dos Mestres do Horror dos anos 1980 depois desse filme. Em Reanimator ele está em sua melhor forma. Pena nunca ter conseguido igualar o sucesso que obteve com Reanimator, nem mesmo com From Beyond, uma tentativa de reeditar o sucesso, usando outro conto de Lovecraft, com a mesma equipe e elenco.

Outra razão para o sucesso de Reanimator reside na escolha acertada do elenco. Bruce Abbott consegue criar um personagem simpático com quem o espectador se identifica. Barbara Crampton também está bem, em todos os sentidos. O Dr. Hill por sua vez é perverso e maldoso na medida certa. Mas é o Herbert West interpretado por Jeffrey Combs que rouba todas as cenas em que aparece. O personagem é obsessivo como o Dr. Frankenstein e dono de uma língua ferina digna de Oscar Wilde. Ele é ao mesmo tempo o cara mais esperto e mais insano na tela. O grande mérito de Combs é ter encontrado o perfeito equilíbrio entre loucura e carisma. O Herbert West que ele criou não conhece o significado das palavras ética, moral ou bom senso, mas mesmo assim, você não consegue deixar de gostar dele. Talvez ele tenha sido o primeiro geek genial e ranzinza que estabeleceu empatia. Uma cena é emblemática para provar do que o Dr. West é capaz. Quando ele surpreende seu algoz atormentando a deliciosa filha do reitor, arremata sem piedade: 

"Francamente Dr. Hill, eu estou muito desapontado com o senhor. Você rouba o segredo da vida e da morte, e eu o encontro com essa estudante cabeça oca. Você não é nem um cientista de segunda categoria. Arrume trabalho em um circo de variedades"!


"Weeeeeesssssst... ssssseeeeeu.... bassssssssstardo"
Reanimator, que aqui recebeu um ridículo subtítulo, "A Noite dos Mortos Vivos", é daqueles filmes que você não cansa de assistir. Lembro dele passando picotado nas tardes do Cine-Trash da Bandeirantes, apresentado pelo lendário Zé do Caixão. Assistia ele sempre que possível, com a dublagem original que era um espetáculo à parte... "Vá procurar emprego num mafuá, Dr. Hill".

Para quem não viu essa pequena joia dos anos 80, eu só posso aconselhar uma coisa. Procure esse filme imediatamente. Assista ele na companhia de seus amigos, bebendo uma cerveja e prepare-se para 86 minutos de diversão indecorosa.

Ah sim, uma boa notícia para quem gosta de colecionar filmes. Re-Animator recebeu uma edição super caprichada alguns anos atrás com o selo Anchor Bay Collection. Para quem não conhece, a Anchor Bay é especialista em criar edições especiais e comemorativas para filmes Cult de horror.

A Edição Dupla de Re-Animator (também disponível em Blu-Ray) foi remasterizada em alta definição de som e imagem, acrescido de uma infinidade de extras exclusivos, vistos aqui pela primeira vez. São faixas de comentários, trailers, spots, cenas deletadas, behind the scenes, galerias de fotos, entrevistas, o script completo do filme e um super documentário megazorde de 70 minutos (quase a metragem do filme!) chamado RE-ANIMATOR RESSURRECTUS que conta toda a saga do filme e o legado deixado por ele para o gênero.


A edição especial da Anchor Bay
Que acompanha esse marca texto em forma de seringa

Na melhor tradição dos filmes dos anos 1980, o sucesso do filme motivou duas continuações. A primeira, "A Noiva de Re-Animator" (1990) é passável, embora não tenha o mesmo frescor e ritmo do original. A segunda continuação, "Re-Animator - Fase Terminal", bem é melhor nem comentar...

Existe uma lenda de que Re-Animator será refilmado e outra que fala de uma possível série de televisão e até um musical, mas nenhum desses projetos chegou a ser levado à cabo.

Sinceramente, na minha opinião uma refilmagem não iria conseguir a façanha que o filme original conseguiu.

Trailer:



E que tal o filme inteiro legendado em português?


3 comentários:

  1. Cara, o site esta de parabens, to a horas lendo. Parabens novamente

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  2. Eu prefiro Dagon, pode atirar a pedras kkkkkkkkkkk

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  3. Lembro perfeitamente da estréia deste filme no Cine Trash que, pasmem, passava à tarde. Saí do colégio voando (ficava somente a dois quarteirões de distância de casa) para não perder a maldição do Zé! Belo filme. O segundo também é bacana!

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