terça-feira, 27 de maio de 2014

Conhecimento na Carne - Três Livros do Mythos de Cthulhu escritos em pele humana


Livros encadernados com pele humana podem ser bizarros, mas não são de modo algum artigos incomuns ou raros. Um dos nossos recentes artigos mostrou alguns exemplos de livros que receberam tratamento especial e foram preservados para a posteridade com esse acabamento.

Curiosamente, na vida real, nenhum dos livros versam sobre ocultismo, magia negra e elementos sinistros que à primeira vista seriam os temas que as pessoas poderiam supor estariam presentes em tais tomos.

Mas que tal a gente subverter um pouco isso e inserir no contexto da Anthropodermic Bibliopegy algo mais macabro, bem ao estilo dos Mythos de Cthulhu?

Aqui estão três livros imaginários que contém conhecimento esotérico profano e que por alguma razão receberam um acabamento em pele humana.

O EVANGELHO DO DEUS SEM PELE
(Dedicado ao Skinless One, avatar de Nyarlathotep), Turquia, século XII



Até onde foi possível apurar, existe apenas um exemplar conhecido dessa obscura obra que esteve em poder do Museu Rumeli Hisam (Rumelihisari) em Istambul até o início dos anos 1920.

O volume chegou até o Museu oficialmente através de uma doação anônima. Na época em que ele foi incluído no acervo, houve rumores de que o livro teria sido na verdade, encontrado no pátio externo do museu, nas mãos de um cadáver humano cuja pele havia sido completamente removida. O cadáver teria sido colocado sentado num dos bancos enquanto o livro repousava em seu colo. Os boatos sobre esse estranho episódio jamais foram confirmados, embora alguns afirmem ter havido testemunhas. 

O "livro" é na realidade uma coleção de páginas com coloração amarelo-castanha difícil de ser descrita e também decifrada, uma vez que a tinta utilizada ficou bastante clara em alguns pontos. Essas "páginas" foram confeccionadas a partir de camadas de pele humana, sobre a qual tatuagens foram aplicadas ainda durante a vida de vários indivíduos. Esses pedaços de pele foram em seguida habilmente esfolados, curados e tratados para que se transformassem em páginas. Segundo os estudiosos que examinaram o livro, as 21 páginas que compõem a obra, pertencem às costas de 21 indivíduos diferentes, devidamente tatuados e esfolados para que o trabalho fosse completo. É possível que o livro esteja incompleto e que trechos estejam ausentes. As páginas são mantidas reunidas em uma espécie de caixa, não surpreendentemente, forrada com retalhos costurados de pele humana com diferentes texturas e complexões.

A obra em si tem conteúdo religioso e pertence a uma espécie de seita ou culto medieval que se instalou na Turquia durante o século XII. Embora não haja registros oficiais a respeito desse secto, alguns pesquisadores se referiam a eles como "A Irmandade do Sem-Pele" ou "Os Irmãos do Deus Esfolado". Muito pouco se sabe a respeito desse grupo além do fato que ela operava no submundo das grandes cidades, realizando seus rituais às escondidas, uma vez que seriam condenados pelo estrito código moral islâmico. É possível também que a seita possuísse enclaves em pequenos vilarejos que abrigavam mosteiros onde sacerdotes recebiam instrução e onde seguidores se encontravam. Até onde se sabe, a Irmandade teria sido totalmente erradicada no período das Cruzadas, quando autoridades religiosas exigiram um tratamento mais duro contra quaisquer seitas consideradas heréticas. Um pequeno registro, datado de 1189, menciona a captura de seguidores da "horrível seita que trabalha a pele de cadáveres" e a destruição de "um medonho templo dedicado aos seus costumes blasfemos".

O livro em si, intitulado "O Evangelho do Deus sem Pele" provavelmente foi criado no século XII e com base em todo cuidado e dedicação dispensados, é de se supor, que se tratava de uma obra mantida em poder de algum sacerdote de grande influência ou líder religioso. 

O confuso texto em caracteres árabes medievais narra a lenda de uma entidade chamada apenas de "Deus sem Pele" que seria um avatar vivo de uma divindade ancestral, mais antiga que o homem e o próprio mundo. Essa entidade repulsiva, que teria a forma de um homem adulto destituído de pele, mas ainda assim vivo, seria a figura central da seita. Os irmãos dessa fraternidade jurariam lealdade a ele e a tudo que ele representa, e se dedicariam a cumprir todas as suas vontades em troca de sua benevolência. Os objetivos do culto não são claros, mas há indícios que seus membros tencionavam derrubar outras crenças - sobretudo a fé muçulmana, e substituí-la pelo culto do Deus sem Pele.

O texto descreve a filosofia e os aspectos dogmáticos do culto, quais as obrigações e deveres de seus seguidores, além é claro, os rituais mais importantes para venerar seu Deus. Dentre os temas discutidos estão incluídas cerimônias de sacrifício, esfolamento de vítimas, aplicação de tatuagens e rituais de magia que podem ser aprendidos pelos cultistas de grau mais elevado. O livro também cita um artefato lendário que seria o depositário de energia mística do Deus, uma espécie de Simulacro, que permitiria a entidade caminhar entre os homens fisicamente. Segundo consta nas últimas páginas, esse artefato de notável importância teria sido roubado ou destruído durante as Cruzadas, o que representou um duro golpe para a estrutura da Irmandade.

O livro desapareceu após um ousado roubo a Biblioteca do Museu Rumeli Hisam em 1922. O livro estava em poder da instituição há cerca de oito meses e nesse período foi apenas parcialmente traduzido pelos especialistas em idiomas medievais. O desaparecimento coincidiu com uma série de outros ataques a museus e instituições que guardavam objetos antigos valiosos.  

O Evangelho do Deus sem Pele
em árabe medieval, autor desconhecido, c. Século XII.
Custo de Sanidade por ler 1d4/1d8
 +6% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x3

O LIVRO DO SUPLÍCIO DE ZHAO FENG 
(dedicado a Yibb-Tstll), China, século III


Este livro macabro é comumente considerado uma lenda chinesa,  ao menos, até a descoberta de um exemplar em 1916. O volume foi obtido por um missionário britânico chamado Mark Leland,  que o recebeu como presente em sua missão religiosa estabelecida em Gansu, no Noroeste da China. Atualmente o livro (na verdade um manuscrito) está em exposição em um Museu na cidade de Birminghan, na Inglaterra. 

Segundo a Lenda, Zhao Feng foi um místico, médico, astrólogo e feiticeiro que viveu na China, em meados de 300 depois de Cristo. As estórias a respeito dele atravessam os séculos e muitas de suas façanhas são consideradas em grande parte folclore disseminado nas regiões rurais da China. O feiticeiro segundo algumas estórias era capaz de comungar com demônios, ambos da Terra e de fora dela, de controlar magníficas bestas aladas (que ele usaria para se locomover em algumas ocasiões) e de capturar espíritos para responderem as suas perguntas. Ele também teria dominado a arte da alquimia e da complexa medicina chinesa que lhe permitiu destilar pós e unguentos que lhe garantiram uma existência muito prolongada.

O Livro dos Suplícios teria resultado de um ritual que Zhao Feng criou a partir das instruções de demônios ou entidades extra-planares, contatadas através do transe narcótico. Uma dessas entidades, chamada de "O Deus Paciente" (também conhecido como Yibb-Tstll) teria plantado na mente de Zhao um artifício perfeito para desvendar alguns dos segredos mais antigos e obter uma visão do futuro.

O medonho método empregado para obter esse conhecimento é uma das razões pelas quais o nome de Zhao Feng se tornou temido em grande parte da China Continental. Conforme a lenda, o feiticeiro preparou um ritual de tortura e sacrifício que visava destruir quase que completamente o corpo de uma vítima, levando-a a um limiar de dor e sofrimento tamanho que criaria um estado de consciência superior. Uma vez aberto esse canal, administrando uma bebida mágica, o feiticeiro poderia obter respostas para questionamentos profundos e de natureza arcana.

O ritual pode ser a base para a obscena prática de execução conhecida como "Morte por Mil Cortes", uma modalidade bárbara de inigualável atrocidade que foi empregada na China até o início do século XX, quando foi banida por ordem imperial. Há similaridades chocantes entre os estilos de execução. Em ambos os casos, a vítima é amarrada em um poste ou totem de onde não pode se mover e do qual é incapaz de se soltar. Em seguida pequenos cortes começam a ser feitos em sua pele a fim de deixar fluir um fluxo de sangue. Os cortes são executados com uma faca especial, extremamente afiada. A medida que os cortes vão sendo feitos, as feridas são lavadas com uma mistura de sal grosso e amônia que amplifica o sofrimento infligido a um nível quase insuportável. Na execução tradicional, os cortes acabam levando à morte pela perda de sangue, já no ritual do Suplício, a vítima recebe uma beberagem especial que a coloca em transe e permite que seu corpo seja possuído pelo Deus Paciente. Uma vez presente, ele começa a revelar segredos proibidos a respeito do universo, sobre o cosmos e os Mythos de Cthulhu.

Zhao Feng teria tentado o ritual em várias oportunidades, tendo êxito em uma única vez. Na ocasião ele teria anotado ao longo de 48 horas os segredos sussurrados pela vítima em transe profundo. Ao fim da narrativa, a vítima enfim expirou, o mago a desceu do poste, esfolou sua pele e a curtiu para se tornar a capa de um tomo contendo tudo o que ele havia dito.

O Livro dos Suplícios é um manuscrito escrito em caracteres chineses em pergaminho. A encadernação é de pele humana curtida, onde ainda se pode perceber uma infinidade de pequenos cortes e rasgos, supostamente provocados pelo ritual do feiticeiro. Ler o Livro dos Suplícios e a descrição do ritual, faz com que o leitor adquira uma espécie de hipersensibilidade a dor. O menor dos estímulos físicos é capaz de incomodá-lo profundamente. Esta "maldição" acompanha todos que aprendem o ritual, e ao que tudo indica, não há uma forma conhecida de retirar, aliviar ou mitigar essa condição. 

O Livro do Suplício
em chinês, autor Zhao Feng, c. Século III.
Custo de Sanidade por ler 1d6/1d10
 +10% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x3

Nota: Em temos de jogo, a maldição contida no livro se instaura se o investigador aprender o Ritual do Suplício (descrito acima). Ele deverá imediatamente fazer um teste na Tabela de Resistência contra PODer (POW) dificuldade 15. Se o personagem conseguir passar no teste, a maldição não irá se instalar e ele ficará imune a ela. No entanto, em caso de falha a maldição se inicia imediatamente. Qualquer estímulo de dor no personagem será amplificado tornando a sua vida um tormento constante. O personagem afligido sempre que receber pelo menos 1 ponto de dano físico em seu HP, perderá um ponto adicional, ocasionado pela sua hipersensibilidade. A maldição também acarreta na perda de 1d3 pontos de sanidade, toda vez que o personagem for ferido (não importando o grau de seriedade).

AS PEREGRINAÇÕES DO MONGE TORNEY, 
França, século XVIII



Até onde se sabe, existe um único exemplar desse curioso manuscrito, em poder da Biblioteca Nacional de Paris.

Seu autor, Berengar de Torney foi um monge erudito, o responsável pela biblioteca de um pequeno monastério na região rural de Lyon. Pouco se sabe a respeito de sua história, a não ser o fato dele ter trabalhado com afinco para preservar uma biblioteca que incluía além de obras censuradas pela Igreja, tomos esotéricos versando sobre os Mythos de Cthulhu. Alguns teóricos do Mythos acreditam que Torney foi um grande estudioso de Metafísica Medieval e da Filosofia de Averoigne, mas nesse ponto não há consenso: alguns dizem que ele pode ter sido um inimigo declarado de cultos, enquanto outros sustentam que ele próprio teria enveredado pelo caminho da adoração a Divindades blasfemas. É possível ainda que em algum momento ele tenha sido possuído por uma mente da Grande Raça de Yith.

Seja qual for a verdade, os arquivos do mosteiro relatam que o monge teria deixado a ordem da qual fazia parte em meados de 1785 quando acometido de uma estranha condição mental resolveu partir em peregrinação. Durante as suas viagens, o monge teria experimentado visões apocalípticas nas quais contemplou a existência de deuses e demônios, teria visitado terras distantes sendo carregado aos céus nas costas de aterrorizantes montarias e ainda comungado com seres não-humanos que lhe ensinaram as artes mágicas. 

No início de 1788, o monge reapareceu em Paris onde foi preso por discursar nas ruas a respeito de suas pavorosas visões. Tido como um lunático ele foi preso na Bastilha, mas posteriormente acabou ganhando liberdade quando a Revolução teve início e os prisioneiros foram soltos. Supõe-se que Torney tenha vivido por alguns tempo nas ruas, até ser recolhido e mandado para o famoso Manicômio de Charenton. Lá, um outro ilustre prisioneiro ficou interessado em ouvir as suas narrativas e o incentivou a escrevê-las. Este não era outro senão o infame nobre Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como o Marquês de Sade.

Fascinado pelas descrições vívidas de lugares assombrosos, rituais blasfemos e criaturas apavorantes, Sade que ainda tinha alguma influência, conseguiu fazer com que um de seus contatos contrabandeasse o esboço do livro para fora do manicômio e o entregasse a um de seus editores. O plano era publicar o volume intitulado "As Peregrinações do Monge Torney" em uma pequena tiragem, mas a censura em vigor na época acabou impedindo esses planos. As cópias foram todas apreendidas e destruídas.

Posteriormente, o Monge Torney escreveu uma segunda versão de seu livro quando já se encontrava muito velho e doente. A obra foi concluída poucas semanas antes dele morrer em Charenton. Acredita-se que Sade teria pago um coveiro para exumar o cadáver do Monge e um médico para esfolar sua pele e com ela encapar o manuscrito final. Na primeira página do livro há uma citação escrita a mão, supostamente pelo Marques de Sade onde se lê:

Este é um resumo das peregrinações de Berengar de Torney, em vida, um homem que tinha muitas perguntas. Em sua ânsia por conhecimento, ele mergulhou em mares escuros e insondáveis, e quando emergiu se deparou com uma luz que o cegou ao mesmo tempo que lhe abriu os olhos para a grandeza do universo. Sua pele envolve esse manuscrito, seus segredos encerrados no que restou de seu corpo.

O manuscrito foi descoberto na coleção da Biblioteca Nacional em 1842, possivelmente ele foi doado pelos descendentes do Marques de Sade, falecido em 1814.

O tratado é uma confusa narrativa sobre as visões do Monge Torney e de suas experiências metafísicas. Ele narra encontros com entidades cósmicas como Hastur e Yog-Sothoth, além de viagens estelares feitas nas costas de Byakhees que o levaram a Aldebaran, onde ele teria visitado Carcosa e a críptica Biblioteca de Celaeno. A escrita é extremamente complicada e exige muito do leitor e de sua capacidade de interpretar o texto, apenas alguém com prévio conhecimento do Mythos é capaz de entender o tema central, qualquer outra pessoa julgaria o texto como os delírios de uma mente perturbada.

As Peregrinações do Monge Torney
em francês, autor Berengar de Torney, c. 1796.
Custo de Sanidade por ler 1d4/1d8
 +7% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x1

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