sábado, 24 de maio de 2014

Síndrome de Cotard - Os verdadeiros Mortos Vivos


Em 1880, uma mulher de meia idade fez uma visita ao renomado neurologista francês, Jules Cotard um dos médicos pesquisadores mais respeitados de Paris. A mulher foi levada até ele depois de reclamar um bocado, ela não acreditava que um médico, por mais renomado que fosse, poderia ajudá-la - não em seu estado.

A mulher aguardou calmamente na sala de espera, a enfermeira da clínica e o acompanhante da senhora tentaram manter as aparências, mas mesmo uma enfermeira treinada encontrava dificuldades diante daquela situação. A mulher não aparentava estar doente. Não tinha qualquer problema aparente, exceto uma óbvia subnutrição e palidez, mas fora isso parecia perfeitamente saudável. 

Quando o Dr. Cotard entrou na sala e perguntou qual era o problema daquela senhora, sua assistente e a acompanhante se entreolharam, pois sabiam que ela iria repetir o que havia dito pouco antes: 

"Doutor, lamento muito, mas creio que estou além de sua ajuda... quanto antes o senhor compreender o que está acontecendo comigo, melhor. Não há como eu ser curada de minha aflição, pois eu já estou morta há dias". foi o que disse a mulher, elaborando perfeitamente as palavras. 

Curiosamente Cotard já havia ouvido aquela descrição anteriormente. De fato, ele vinha realizando pesquisas a respeito desse tipo de manifestação psicossomática e havia escrito um artigo a respeito de algo que ele em linhas gerais chamou de "síndrome do morto vivo". O médico sentou na escrivaninha e pediu que a mulher, que ele passou a chamar de Senhora X, contasse o que estava acontecendo. 

A Senhora X estava convencida que seu corpo havia morrido. Ela não tinha mais cérebro, nem nervos, nem coração, nem estômago ou intestinos funcionais. Ela contou que ela não era nada a não ser um corpo em estado de decomposição que gradualmente se tornaria uma casca apodrecida, e que portanto a coisa mais correta a se fazer, seria incendiá-la para assim livrá-la de seu estado não-natural. Ela contou que não tinha uma crença religiosa estabelecida e que não acreditava na existência de uma alma imortal. Na sua opinião materialista, seu corpo ainda funcionava precariamente, mas isso não passava de um eco disfarçado de vida. Os batimentos cardíacos e a respiração, a circulação e sua locomoção, nada mais eram do que ecos que permaneciam teimosamente, apesar dela, em sua certeza, já estar irremediavelmente morta. 

Cotard tentou convencer a Senhora X de que ela estava errada, mas a certeza dela era tamanha que mesmo quando o médico tentava provar que ela estava viva (picando sua pele com um alfinete) ela não tinha uma resposta reflexiva. Se ele tentava impedi-la de respirar ela simplesmente caía inconsciente sem lutar por ar. Mais preocupante, a Senhora X acreditava que não carecia de alimento, já que era incapaz de processá-los em seu estômago, ela portanto não comia. 

O médico tentou tratá-la de todas as maneiras disponíveis, mas a certeza dela de sua condição morta-viva era tamanha que aos poucos ela foi desenvolvendo uma paralisia que a levou a imobilidade. Apesar de todas as tentativas, a Senhora X acabou morrendo de inanição meses depois de ter chegado ao consultório de Cotard. 

Apesar de ter sido pioneiro em diagnosticar essa estranha condição mental, que passaria a ser reconhecida com o nome "Ilusão de Cotard", o neurologista francês não foi o descobridor do mal. Em 1788 - quase um século antes! - Charles Bonnet, um médico inglês, descreveu o caso de uma rica viúva de idade avançada que acreditava ter sido vítima de um ataque mortal em sua sala de estar. Embora ela tivesse apenas desmaiado por algumas horas, quando despertou, estava convencida de que, na verdade, havia morrido. 

Segundo o relatório do Dr. Bonnet a mulher chegou ao ponto de ordenar que suas filhas a vestissem com trajes fúnebres e preparassem um caixão para enterrá-la no jazigo da família, uma vez que ela já "estava morta". O médico escreveu em seu relatório:

A "mulher morta" ficou bastante agitada e começou a implorar que seus amigos e parentes fizessem o que era correto naquelas circunstâncias. Ela disse que a negligência deles era insuportável e que eles deveriam lhe oferecer o descanso eterno antes que ela se tornasse um cadáver putrefato. A medida que a hesitação crescia ela foi se tornando cada vez mais impaciente, exigindo a todos que a vestissem como uma pessoa morta. Eventualmente as pessoas acharam que seria melhor não contrariá-la a fim de que ela se acalmasse. Ela recebeu uma camisola negra e imediatamente se deitou na cama onde ficou impassível, como se de fato estivesse morta. 

Esperando poder quebrar aquele transe, o médico administrou ópio e uma mistura de ervas medicinais fortificantes. Eventualmente ela acabou despertando de seu estado comatoso ilusório; entretanto ela continuamente voltava ao estado vegetativo no qual acreditava ser nada menos do que "um cadáver insepulto". Durante o período em que ela afirmava estar morta, a mulher dizia se comunicar com outras pessoas que assim como ela, já estavam mortas há muitos anos, preparava jantares para esses convidados e os recebia em sua sala de estar.

Em uma ocasião, ela teria se deparado com um grande espelho de cristal que adornava sua sala e apavorada ordenou histericamente que os criados se livrassem dele. Quando questionada do motivo para sua reação, a resposta foi sombria:

"Será que vocês não vêem que estando morta há tanto tempo, agora eu não passo de um esqueleto decomposto?" perguntou ela. Em seguida todos espelhos e superfícies reflexivas foram removidas de sua presença.

O estudo desse caso e dos casos que Cotard catalogou ao longo dos anos em seu consultório, levaram-no a aprender muito a respeito dessa estranha síndrome de fundo psicológico. O sintoma central da Síndrome de Cotard (também chamada de Delírio Niilista e de Síndrome do Cadáver Ambulante) é o delírio da negação. Aqueles que sofrem a doença muitas vezes negam a sua própria existência ou que uma certa parte de seu corpo existe. As vítimas em um primeiro momento desenvolvem uma depressão aguda e sintomas hipocondríacos severos. Em seguida a síndrome explode em delírios de negação e finalmente na etapa final se iniciam delírios graves e depressão crônica que a levam a simular a própria morte através de uma paralisia completa. 

A condição foi aceita como uma doença autêntica pela comunidade psiquiátrica internacional no início do século XX. Muitos veteranos da Grande Guerra (1914-1918) desenvolveram sintomas semelhantes a Síndrome de Cotard, agravados pela depressão e pelos traumas sofridos em campo de batalha. A quantidade de ex-soldados que acreditavam que uma parte de seus corpos havia se perdido na guerra (quando na verdade nada havia ocorrido) era alarmante. O mal ficou conhecido como "doença da falsa amputação".

Embora seja uma doença extremamente rara, pessoas ainda nos dias de hoje são diagnosticadas sofrendo de ilusão niilista, acreditando que estão realmente mortas.

Infelizmente ainda se sabe muito pouco a respeito da Síndrome de Cotard. Pesquisadores acreditam que ela possa estar conectada a desordens de natureza bipolar em pacientes jovens, bem como, depressão agravada por esquizofrenia em pacientes mais velhos. Os tratamentos variam enormemente: tipicamente, aqueles que sofrem desse mal recebem uma combinação de drogas anti-depressivas e anti-psicóticas, ainda que terapia eletroconvulsiva também se mostre bem sucedida em alguns casos. 

Uma coisa é certa: a Síndrome de Cotard, ilustra o quão pouco sabemos a respeito do cérebro humano em plena era de esclarecimento em que vivemos.

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