quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As Bestas Aladas de Hastur - A Anatomia dos Byakhee


"Foi então que ouvimos o som de asas. Um som diferente de tudo o que já tínhamos ouvido e que poderíamos considerar normal. Não era o rumor de uma revoada de pássaros, mas o bater vigoroso de um único par de asas. Grandes e coreáceas. Logo soubemos que nada no planeta fazia aquele som".

Vários Antigos possuem uma associação com raças de criaturas. Estas espécies, diversas demais para serem satisfatoriamente catalogadas agem como cultistas, como escravos ou ainda como serviçais. Há raças independentes que enfrentam o poder dos deuses (ou de entidades poderosas) e não se sujeitam a eles. Algumas dessas raças terminam sendo aniquiladas pelo poder esmagador das divindades do Mythos. Incapazes de fazer frente a eles acabam obliteradas, lançadas no esquecimento.

Por outro lado, há aquelas raças que escolhem por conta própria se converter em servos fiéis dos horrores do Mythos. Assim acontece com as criaturas das profundezas oceânicas, os Abissais, que estão intimamente vinculados a Cthulhu. As criaturas negras conhecidas como Proles Amorfas por sua vez devotam sua existência maldita ao Deus Sapo Tsathoggua, e apenas a ele devem obediência perpétua. Outro exemplo seriam os Vampiros de Fogo que dançam ao redor de Cthugha, a Chama Primordial, cumprindo sua vontades e desejos. 

Mas entre as raças servis, os Byakhee, talvez sejam aqueles que possuem o elo mais inquebrantável.

Servos de Hastur, a Entropia Viva e de seus avatares, sobretudo o Rei Amarelo, os Byakhees são tão vinculados a essa entidade que em suas aparições, é quase impossível não haver ao menos alguns deles presentes. Quando invocado em seus templos, Hastur é escoltado por hostes inteiras de byakhees que voam como uma falange frenética, rodopiando ao redor de seu mestre. Nas ocasiões em que o Rei Amarelo é chamado para assumir sua posição régia no trono, por vezes byakhees são igualmente convocados, postando-se ao lado do trono como dignatários, exercendo a função de defender seu amo. Mesmo quando agindo solitariamente, os byakhee estão de alguma forma associados a Hastur, seja descendo dos céus para proteger um templo da presença de profanadores ou para capturar sacrifícios como parte de algum ritual.

Muitos sectos devotados a Hastur consideram que os Byakhee são uma ferramenta que o deus empresta aos seus cultistas para fazer sua vontade ser cumprida. Um secto herético, surgido na Palestina no início da cristandade, consideravam os byakhee como o equivalente a anjos, que serviam ao designo de um Deus único. Essa associação dos byakhees com figura angelicais, não é exclusiva, na Rússia Imperial, um culto fundado em São Petersburgo (do qual segundo boatos o próprio monge louco Rasputin, fez parte) tratava essas criaturas como mensageiros divinos. 

O conceito, no entanto, não é compartilhado por todas as seitas dentro do círculo de adoradores de Hastur. Para muitas seitas, os byakhees não passam de servos, abaixo da posição dos sacerdotes e cultistas líderes. Na África Ocidental, um culto dedicado a Hastur, praticava um ritual específico no qual um byakhee, especialmente invocado, era sacrificado. De sua pele era confeccionado um manto, de suas asas uma capa, de seus dentes colares e de seus ossos, apitos usados para chamar outras criaturas. Os alto sacerdotes desse culto, ativo até meados do século XVIII, no atual Camarões, usavam essa indumentária com grande distinção. Os malignos Tcho-Tcho que veneram Hastur e habitam o Planalto de Tsang, no Nepal, também consideram os Byakhee com meras bestas; úteis em seus planos, mas não obstante, inferiores.

De fato, uma das principais funções dos Byakhee, ao longo das eras, foi servir de montaria para poderosos feiticeiros e magos. Dizem as lendas que Eibon, o feiticeiro da Hiperbórea cavalgava nas costas de um Byakhee que obedecia as suas ordens. O árabe louco, Abdul Al Hazred, também citava essa função, e possivelmente foi ele quem cunhou o termo "montaria estelar" para se referir aos byakhee. No Necronomicon ele diz textualmente que os byakhee são a montaria consagrada dos grandes feiticeiros e que cavalgar um deles é a prova cabal de que o bruxo atingiu sua maturidade mística. É possível que seja em face dessa associação do byakhee como montaria, que algumas ordens herméticas utilizam o título cavaleiro - para citar uma, os Cavaleiros do Crepúsculo Prateado (Knights of Silver Twilight).

Mas aqueles que pensam nos byakhee como meras bestas de carga, se enganam ao assumir que eles possuem inteligência inferior. Um byakhee pode ser tão inteligente quanto um ser humano, sendo capaz de entender idiomas, de formar uma linha de raciocínio e de realizar tarefas complexas que denotam poder cognitivo. Não é raro que eles também possuam conhecimento arcano, e que dominem a arte da feitiçaria.

Como ocorre muito frequentemente no universo enigmático do Mythos, não existe um consenso sobre a origem dos Byakhee. Há um consenso entretanto que seja uma raça interestelar, sendo que a maioria dos teóricos assumem que eles venham de Aldebaran. Uma corrente defende que os byakhee foram um dia a raça dominante de um planeta assimilado pelo Rei Amarelo e invadido por Carcosa, um acontecimento que resultou na loucura de toda espécie. Outros acreditam que a raça como um todo, firmou um pacto com Hastur que levou à destruição de seu planeta natal. Essa destruição os transformou em uma raça sem um lar, o que os forçou a adotar Carcosa e o espaço interestelar como sua casa. Há indícios de que os byakhee também estão presentes em outros mundos, em especial aqueles que giram ao redor de estrelas negras ou que são sujeitos a esmagadora atividade gravitacional.


Os byakhee são conhecidos por sua capacidade de se deslocar através do espaço. Eles são imunes ao frio e ao vácuo espacial e podem viajar naturalmente sem serem afetados por qualquer condição adversa. O que os torna tão resilientes a essas condições, normalmente insustentáveis para qualquer forma de vida, é um mistério completo. Essas criaturas são dotadas de um órgão, até onde se sabe, exclusivo da sua espécie, chamado hune. Ativando esse apêndice, localizado em seu abdômen, os byakhee conseguem afetar a realidade, dobrando as distâncias interestelares tão velozmente que para o observador eles parecem se teleportar de um ponto para o outro. A velocidade dessa viagem é tão alucinante, que supera a velocidade da própria luz, permitindo ao Byakhee singrar distâncias incríveis em meros segundos. Sabe-se de feiticeiros, que usaram esse método de viagem interestelar para chegar rapidamente em pontos normalmente inacessíveis do cosmos, tais como Celaeno, Aldebaran, Formalhaut e até o Trono de Azathoth que dizem, se localiza no centro do Universo. É claro, para empreender uma viagem dessa natureza, o feiticeiro precisa realizar preparativos e consumir ao menos uma dose do hidromel espacial (space mead). Apenas usando essa substância entorpecedora, o feiticeiro pode acompanhar o byakhee em sua jornada em segurança. Aqueles que não sabem desse detalhe, experimentam uma ruína completa, tendo seus átomos dispersos no espaço assim que o hune é acionado.

Metafísicos já tentaram explorar os mistérios da maneira única dos byakhee se deslocarem pelo espaço, mas até onde se sabe, ninguém teve sucesso em explicar o funcionamento do hune. Em 1965, no auge da corrida espacial, cientistas ligados ao Delta Green conjecturaram que os byakhee poderiam representar uma solução para a exploração espacial, excluindo de uma vez por todas qualquer limitador quanto a distância e velocidade. Há rumores de que engenheiros e cientistas tenham dissecado mais de um byakhee tentando compreender o funcionamento do hune ao longo dos anos 1970, mas isso pode ser mero boato. Extra oficialmente, o Delta Green colocou um fim ao projeto, com a eliminação de todos os cientistas envolvidos, inclusive alguns que tinham no passado associação com a Wunderwaffen nazista. Do outro lado da cortina de ferro, acredita-se ter existido um projeto análogo financiado pelos soviéticos na década de 1950. Mais recentemente, os chineses teriam tentado a mesma abordagem. O status atual desses projetos é desconhecido. 

Para invocar um byakhee, o feiticeiro deve proferir uma série de palavras cabalísticas e invocar o nome do próprio Hastur. Uma combinação de palavras usada pela Irmandade do Símbolo Amarelo envolve a seguinte invocação:

"Iä! Iä! Hastur! Hastur cf'ayak 'vulgtmm, vulgtmm, vulgtmm! Ai! Ai! Hastur!"

Se Aldebaran estiver acima do horizonte e se o feiticeiro utilizar um apito, especialmente um feito com o osso do fêmur de outro byakhee, as chances de sucesso são consideravelmente maiores. Nessas circunstâncias positivas, a criatura surge direto do espaço, com o corpo semicongelado pelo frio do vácuo através do qual viajou. Por vezes, um Símbolo Ancestral deve ser usado para fazer com que o byakhee se sujeite a acatar ordens. Mas que sirva de aviso que nem sempre, isso funciona! Muitos feiticeiros que acreditavam ser capazes de controlar um byakhee, acabaram retalhados pela criatura que eles próprios conjuraram.

A aparência física dos Byakhee é difícil de ser descrita. Muitos cronistas tentaram descrevê-los, mas nenhum foi bem sucedido em encontrar os adjetivos que melhor os definem. Na ânsia de tentar dizer o que eles são, as testemunhas buscam compará-los a animais com os quais eles guardam mínima semelhança. Na Grécia, os Byakhee foram comparados às míticas hárpias, e talvez como já sugeriu mais de um estudioso, eles sejam a base para a lenda desses e de outros seres alados como o grifo e a manticora. Certos tomos afirmam que nenhum Byakhee é igual a outro, podendo ter características únicas que diferenciam enormemente membros da mesma raça, ao ponto de por vezes ser difícil encará-las como parentes.

O Necronomicon se refere ao Byakhee como sendo uma quimera monstruosa com características que remetem a aves, répteis, mamíferos e até insetos. Há espécimes com bicos, chifres e escamas, coexistindo com pelos, olhos multifacetados e antenas. O mais provável é que as características análogas a animais de nosso planeta seja um mero acidente, pois os Byakhee são inegavelmente alienígenas. Quanto a coloração, os Byakhee são normalmente pálidos, predominando o branco, o bege e o marrom claro, mas sabe-se de criaturas com escamas amareladas, azuladas e até esverdeadas.  Não é impossível achar um Byakhee totalmente negro, capaz de se mesclar com a escuridão como uma sombra. A pele é no mínimo três vezes mais densa do que a dos seres humanos.

Uma característica está presente em todos espécimes: as poderosas asas que os impulsionam em seu voo. Todo Byakhee possui ao menos um par de asas, em geral semelhante às de morcego, em suas costas. Essas asas são vigorosas e podem bater com enorme rapidez permitindo a criatura se lançar no ar e imediatamente ganhar altura. A envergadura do Byakhee varia a cada espécime, os maiores, podendo facilmente atingir 6 metros de comprimento. Nunca se registrou a velocidade do vöo da criatura em nossa atmosfera, mas há motivos para crer que espécimes maiores poderiam se deslocar a mais de 200 quilômetros por hora.

O Byakhee geralmente possui membros superiores que lembram braços, com mãos, essas dotadas de cinco dedos terminando em garras curvadas como foices. As mesmas garras estão presentes nos pés, sendo principalmente usadas para escavar e agarrar, mas também para atacar seus inimigos. O ferimento causado por essas garras resulta num corte profundo e possivelmente letal. Com sua inteligência, os Byakhee parecem conhecer o suficiente da anatomia de outros seres para visar áreas delicadas como a garganta de alvos humanos.

Além de ter uma visão bem desenvolvida, os Byakhee possuem um faro apurado que lhes permite diferenciar o odor particular de cada pessoa. Quando enviados por feiticeiros em missões de assassinato, um Byakhee geralmente é suprido com alguma peça de roupa ou com sangue extraído de sua vítima para que assim possa encontrá-la e exterminá-la. Há relatos de Byakhees viajando vários quilômetros para cumprir suas missões depois de serem invocados. As criaturas são incapazes de se comunicar em qualquer idioma humano, mas elas parecem compreender ordens e instruções, especialmente quando seu interlocutor se vale de idiomas antigos, bem como línguas mortas.

Outra peculiaridade dessas criaturas é seu gosto por sangue. Um byakhee aparentemente não precisa se alimentar, mas o prazer que eles sentem drenando sangue fresco de uma presa recém abatida pode ser descrito como inebriante. Há casos de Byakhees que capturam suas presas e as carregam para lugares isolados onde cortam alguma veia e as penduram de cabeça para baixo, a fim de facilitar a extração do precioso líquido. Outros sugam diretamente do corpo de suas presas, usando para isso línguas longas e tubulares que agem como cânulas. Um byakhee é capaz de drenar litros de sangue em poucos minutos, deixando uma presa do tamanho de um humano adulto exangue. Não se sabe quais ao as outras fontes de nutrição dessas criaturas, se é que estas existem na prática.

Há controvérsia no que diz respeito a uma separação por gênero nessas criaturas. Se existe tal distinção, não é possível discernir características típicas de machos e fêmeas. Não se sabe virtualmente nada a respeito da reprodução da espécie, jamais tendo sido encontrados filhotes ou evidência de acasalamento.

Por fim, é preciso admitir que embora os Byakhee sejam conhecidos por feiticeiros e círculos de praticantes de magia há milênios, na prática, pouco se sabe a respeito de sua natureza.

E é provável que jamais venhamos a conhecer todos os mistérios dessa obscura raça alienígena.

Um comentário:

  1. Olá amigo! O seu blog é excelente!

    Ainda sou leigo no universo Lovecraftiano!

    Os livros da editora Hedra são bons? Estão lançando o livro 'Os melhores contos de H.P. Lovecraft' que reúne os grandes contos do autor! Estou pensando em comprar!

    Abraço!

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