sábado, 18 de outubro de 2014

Pântano de Sangue - Quando mil soldados japoneses foram massacrados por crocodilos


Nos anais das guerras, inúmeras atrocidades foram cometidas por seres humanos contra seus semelhantes. O teatro de Guerra do Pacífico Sul durante a Segunda Guerra Mundial foi especialmente brutal, com múltiplos massacres e selvageria como raramente visto na história. Ainda assim, um dos momentos mais sangrentos e assustadores não foi promovido por mãos humanas, mas pelas presas e garras do mundo animal. Nos últimos meses do conflito, um pelotão com mais de mil soldados japoneses, que estava em uma remota ilha, entrou em um pântano infestado por crocodilos e jamais retornou; um desaparecimento que pode ser considerado como a maior carnificina causada por animais na história humana.
Por seis semanas, durante janeiro e fevereiro de 1945, o pântano infestado de crocodilos da Ilha de Ramree, localizada na Baia de Bangala na costa de Burma, foi o palco de uma sangrenta batalha entre japoneses e as Forças Aliadas. A Batalha de Ramree foi parte vital da campanha de Burma e foi iniciada com o objetivo de desalojar as Forças Imperiais Japonesas que haviam se instalado na ilha em 1942. Em 26 de janeiro de 1945, a Marinha Real Britânica acompanhada da 36a. Brigada de Infantaria indiana empurrou os inimigos da costa para o interior da ilha, tencionando estabelecer ali uma pista de pouso e decolagem. Não foi fácil expulsar os japoneses, eles haviam se preparado para resistir espalhando minas, ninhos de metralhadora e arame farpado que tornavam uma tarefa complicada avançar poucos centímetros pelo terreno irregular. 

Após uma longa e sangrenta batalha, as tropas aliadas conseguiram ganhar um trunfo, flanqueando a fortaleza japonesa e expulsando seus ocupantes, aproximadamente 1000 soldados, com disparos de morteiro e artilharia. Os soldados japoneses em fuga abandonaram a base e constituíram uma linha de defesa na esperança de que um batalhão maior pudesse se reagrupar e ajudá-los. Essa ajuda nunca veio. Os britânicos conseguiram cercar todos os lados, e não sobrou outra alternativa aos japoneses senão continuar retrocedendo para o interior pantanoso de Ramree. As tropas penetraram cerca de 16 quilômetros através de um terreno lamacento e com atoleiros, repleto de mosquitos e outros insetos peçonhentos. Ignorando a promessa dos britânicos de que os prisioneiros seriam bem tratados, os oficiais mandaram fuzilar aqueles que cogitaram a rendição. Foi nesse ponto que teve início o terrível martírio das tropas.

Supõe-se que os oficiais nipônicos acreditavam que cruzando o pântano conseguiriam atingir uma área mais elevada, mas a jornada era por demais árdua. Os soldados logo se viram atrasados pela lama densa e pegajosa que detinha seu progresso. Dezenas sucumbiam a doenças tropicais e pelo ataque de cobras, aranhas e escorpiões que se escondiam nos arbustos. O calor era sufocante. Ao longo de vários dias, a fome e a sede se tornaram incômodas companheiras de viagem. Os homens caíam pelos cantos e não tinham forças para levantar. Quando eles descansavam um pouco, eram bombardeados por navios na costa e pelas tropas britânicas que haviam desembarcado grandes canhões posicionados nos limites do pântano.
Japanese forces retreating.
Forças japonesas em retirada.
Mas o pior ainda estava por vir. Uma noite, tropas britânicas que estavam patrulhando a periferia do pântano ouviram o som de disparos e os gritos de pânico dos soldados japoneses. Logo ficou evidente que alguma coisa estava acontecendo no coração do pântano e que os soldados pareciam estar enfrentando uma força maligna que os estava fazendo em pedaços. Os britânicos receberam ordens para ficar de prontidão e não adentrar o pântano. Os soldados de guarda ouviram os gritos a madrugada inteira e só podiam imaginar o que estava acontecendo. 

Os japoneses sabiam que a Ilha de Ramree era infestada por ferozes crocodilos de água salgada, uma espécie de réptil extremamente agressivo e que pode atingir até seis metros de comprimento e pesar quase uma tonelada. Quando os exaustos soldados entraram cambaleando no pântano, foi como se uma sineta avisasse aos crocodilos que o jantar estava servido. As roupas sujas de sangue dos feridos atiçaram os animais que vieram às centenas para atacar. Os soldados foram cruel e impiedosamente massacrados pelas bestas, e os sobreviventes contaram como os agressivos animais se lançavam às centenas contra os homens, arrastando-os em suas bocas para dentro da água onde os dilaceravam. Os soldados tentavam atirar para todo lado, mas os animais não se intimidavam com seus esforços de resistir. Alguns subiram em árvores e outros tentaram correr, mas quando um crocodilo fixava seus olhos em uma vítima avançava como uma máquina implacável de matar. Os relatos mencionam como os animais apareciam do nada, atacavam e arrastavam suas vítimas para as águas turvas que logo se tornavam vermelhas. Os homens se reuniam em grupos, uns de costas para os outros para vigiar, mas de nada adiantava. 

O naturalista Bruce Stanley Wright descreveu o cenário em seu livro "Wildlife Sketches Near and Far" de 1962:
Aquela noite foi horrível para as tropas que estavam posicionadas na borda do pântano e ouviram tudo. Alguns homens tiveram de ser dispensados da patrulha por não suportar os gritos que vinham lá de dentro. Os crocodilos atraídos pelo som da batalha e pelo cheiro de sangue convergiram aos milhares para o interior da ilha usando os mananciais rasos para se esconder e atacar de surpresa. O ataque do crocodilo de água salgada é rápido e certeiro, o animal se move com precisão, saindo da água apenas o suficiente para alcançar seu alvo e mordê-lo com presas afiadas capazes de triturar ossos como se fossem gravetos. Os crocodilos se concentraram nos feridos e naqueles muito extenuados ou aterrorizados para correr. O crocodilo de água salgada tem uma particularidade tenebrosa: ele continua atacando mesmo que tenha obtido carne suficiente para se fartar. Ele costuma afundar suas vítimas na água em tocas alagadas onde acumulam um estoque de carne. Os soldados que conseguiram correr foram perseguidos na escuridão, tendo que fugir através da lama que impedia sua retirada. Mesmo os que conseguiram subir em árvores não estavam à salvo. Os crocodilos aguardavam pacientemente até que a fome os obrigasse a descer e muitos preferiram acabar com o horror colocando uma bala na cabeça. O som dos disparos e gritos foram se tornando mais raros a medida que os homens morriam, mas por vezes era possível ouvir o som das mandíbulas se fechando e os urros de dor. O som de milhares de crocodilos massacrando mil homens é algo raramente ouvido na Terra e não deve ser algo agradável. Quando amanheceu, urubus e abutres sobrevoavam o pântano, ansiosos para limpar aquilo que os crocodilos haviam deixado. Dos cerca de 1000 soldados japoneses que entraram no pântano de Ramree, apenas 20 foram encontrados com vida.
Crocodile-attacks-5
Alguns dos sobreviventes que conseguiram sair do pântano e se entregaram aos britânicos, estavam em estado de choque, feridos ou cobertos com o sangue de seus companheiros. Nunca se soube o número exato de soldados que encontraram seu fim no pântano, mas a despeito da confirmação do número exato, o Guiness Book of Records coroou essa tragédia como "O maior número de vítimas humanas num mesmo ataque de animais". 

O pavoroso incidente na Ilha de Ramree ganhou uma aura quase lendária entre os veteranos da Guerra no Pacífico, ao lado do relato similar do naufrágio do USS Indianápolis que custou a vida de centenas de marinheiros, vítimas do ataque furioso de tubarões. 

Hoje, a Ilha de Ramree continua muito semelhante como era em 1945. Um lugar selvagem e inóspito, cuja quietude costuma ser enganosa. Os crocodilos de água salgada continuam vivendo nesse pântano, e talvez, os fantasmas dos soldados feitos em pedaços ainda vaguem sem destino através de seus charcos lamacentos.

4 comentários:

  1. ...ótima postagem...e a Natureza colocando o ser humano em seu devido e insignificante lugar...isso deveria acontecer com mais frequência...ou talvez esteja acontecendo...

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    1. Talvez você gostaria se isso acontecesse com alguém da sua família ou com você mesmo, já que se acha tão insignificante, da próxima vez que for visitar um zoológico não esquece de entrar na jaula do leão pra dar ao animal o direito de vingança!

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