segunda-feira, 9 de março de 2015

Os Chifres da Silat - Uma raça de criaturas terríveis saídas das Mil e uma noites


Ainda com relação ao artigo anterior.

A filmagem da aparição na estrada me deu um monte de ideias de como usar isso em uma crônica apavorante. Por mais que a gente saiba que é uma armação, não tem como deixar de reconhecer que a situação é bem apavorante.

Quando assisti pela primeira vez, sem saber onde havia sido feita a filmagem e sem fazer ideia do que se tratava, fiquei empolgado. Além disso, lembrei de imediato de uma lenda do Oriente Médio, a respeito da Silat.

Provavelmente a associação foi feita por causa dos gritos em árabe dos ocupantes do carro. Logo pensei que o vídeo poderia ter sido feito durante uma travessia de faixa desértica num rincão isolado do Oriente Médio. O fato da filmagem ter sido supostamente colhida no interior da Inglaterra foi meio que um banho de água fria nas minhas pretensões.

Se fosse a aparição de uma Silat, uma espécie de bicho papão da cultura árabe, sem dúvida, seria bem mais interessante e assustadora do que um suposto monge do século XVII.

Para quem não conhece, a Silat é uma figura aterrorizante, pertencente ao folclore do Oriente Médio, disseminada principalmente na região da Arábia, Iraque e Iêmen. A origem, contudo, é indeterminada; manuscritos árabes do século X, mencionavam a silat ao lado de gênios, ghûls e outros seres fantásticos que povoavam as lendas das mil e uma noites. Até mesmo o célebre poeta Omar Kayan mencionou as Silat na sua obra.

A criatura é um tipo de bruxa que vaga pelas estradas do interior e pela borda dos desertos, raramente visitando cidades grandes, preferindo vilarejos e povoados isolados. Quando se aproxima da civilização, utilizam disfarces mágicos, fazendo-se parecer com velhas inofensivas apoiadas em bengalas.

Em sua forma verdadeira, as Silat não são nada singelas. Elas pertencem a uma raça de gigantes ou gênios, com a pele enrugada e pálida tendendo para uma complexão amarelada ou verde. Na cabeça elas possuem um tipo de chifre de carneiro recurvo, geralmente escondido sob um lenço ou chapéu de aparência incomum e bojuda. Uma vez que esse chifre é a fonte de seus poderes mágicos, elas preferem escondê-lo para que ninguém reconheça sua natureza mística. O tamanho do chifre e a quantidade de curvas dele denotam a idade da Silat, cada espiral completa indica que a criatura tem pelo menos um século. As anciãs mais veneráveis possuem chifres incrivelmente grandes com várias curvas que são difíceis de disfarçar. O cabelo das Silat é comprido e semelhante a teias de aranha, caindo sobre seu rosto e ombros. Algumas vezes ele é branco feito giz, mas alguns relatos afirmam que ele pode ser preto ou acompanhar o tom da pele. Os olhos são profundos, com uma cor azulada não-natural, brilhando na escuridão. O hálito das bruxas é ofensivo aos sentidos, e sua respiração pode ser vista, emanando como uma fumaça azulada. Os dentes e unhas são compridos com um tom de marfim amarelado, mas resistentes e afiados como lâminas. As Silat se vestem com trapos velhos e andrajos amarrados cobrindo seu corpo arquejado. Elas são altas e magras, mas extremamente fortes, traindo a primeira impressão de que não passam de velhas com a saúde debilitada. Uma Silat é capaz de conter um homem adulto e levantá-lo do chão com apenas uma mão.

Curiosamente, nada se sabe a respeito de machos da espécie. Nenhuma narrativa assume a existência de Silat do sexo masculino, o que leva a crer que essas criaturas se reproduzem com outras espécies. Gênios - seres criados pela fagulha elemental, são os principais candidatos a consortes da Silat. Trechos de folclore atestam que a espécie é imortal e que as poucas Silat restantes no mundo teriam assassinado os machos da raça milênios atrás para que outras jamais nascessem.

Segundo algumas fontes, a Silat é uma entidade única, mas a maioria das lendas dão conta que existem várias delas e que estas costumam se encontrar de tempos em tempos, muito embora sejam solitárias por natureza.

Em comum, as lendas atestam que a Silat é uma criatura maligna, sempre disposta a enganar e ludibriar os inocentes. A principal preocupação destes seres é obter sustento ou escravos que satisfaçam as suas vontades. As Silat tem predileção por carne, e quando saem em busca de comida não se importam com a procedência dela. Em alguns relatos elas buscam especificamente por carne humana, agarrando e cozinhando qualquer pessoa em quem coloquem suas garras. Aceitar a comida de uma velha que repentinamente oferece um banquete, era considerado uma temeridade em alguns lugares, pois havia o risco de ser uma silat disfarçada servindo carne humana ou de porco (um haram na crença islâmica). É por isso que em alguns lugares, as cozinheiras preparam as refeições diante dos convidados. Em culturas nômades do deserto, permanecer muito tempo em um único lugar podia ser perigoso, já que isso poderia atrair a atenção das criaturas. Da mesma forma, um inexplicável desaparecimento no deserto, podia ser atribuído a alguma tramoia empreendida por uma Silat com o intuito de fazer um peregrino perder seu caminho.


As Silat raramente se estabelecem em algum lugar fixo, mas em pelo menos uma narrativa elas são vistas refugiadas em cavernas localizadas em oásis no meio do deserto. Esses recantos verdejantes são convidativos e funcionam como armadilhas para viajantes cansados. Nas Mil e uma noites, heróis deixam uma oferenda de carne seca na entrada de um oásis como tributo para uma possível Silat residente e só depois disso, adentram o oásis, muito embora estivessem sedentos. Depredar a vegetação de um oásis ou reclamar da qualidade da água é uma ofensa que a Silat dificilmente irá perdoar. Em uma estória, um viajante perdido reclama de sua sorte por encontrar um oásis com águas turvas e acaba sendo devorado pela silat, enfurecida pelas críticas dele à sua morada.

Outro elemento sempre presente no mito (e esse é que me chamou mais a atenção quando comparado com as imagens do vídeo) diz respeito ao fato das Silat, não importa em que forma, sempre utilizem uma bengala para se equilibrar. A bengala da Silat é uma ferramenta extremamente necessária, elas não conseguem se mover sem o amparo dela. A bengala em geral é descrita como um pedaço de madeira inócuo, mas a observação cuidadosa dela, revela que se trata de algo diferente. A bengala possui várias inscrições, entalhes e símbolos de origem mística. É através da bengala que essas criaturas conseguem mudar sua aparência e assumir disfarces. 

Não é nada fácil tirar a bengala das mãos dessas criaturas, elas seguram com força e jamais as soltam. Contudo, se uma silat perder seu amparo, ela não conseguirá se mover, caindo no chão impotente. Se a bengala for capturada, a criatura se torna submissa, oferecendo sua ajuda na realização de desejos de quem detém o objeto. Extremamente sagaz, a silat, apenas aguarda uma oportunidade de reaver sua bengala para se vingar. Se a bengala for quebrada ou destruída, a silat morre imediatamente. Ela começa a definhar e desaparece em um monte de poeira. 

Eu já vi essa lenda adaptada em pelo menos dois RPG.

Em Al Qadim - uma das ambientações de AD&D nos tempos da TSR - e uma das minhas preferidas, as Silat apareciam no Livro de Monstros, e eram um inimigo extremamente perigoso. As Silat eram chamadas de de S'lat em um compêndio de Ars Magica (infelizmente não lembro o título) sendo apresentadas como um horror que assombrava os peregrinos à caminho da Terra Santa.

Em se tratando de uma raça de criaturas estranhas com origem mística, acho que as Silat são perfeitas candidatas a figurar no universo de Chamado de Cthulhu. Talvez elas componham apenas um cabal de feiticeiras que há séculos realizam rituais terríveis nos recônditos mais isolados da civilização. Possivelmente elas são servas de Shub-Niggurath, Yog-Sothoth ou Nyarlathotep, interessadas em disseminar o mal e a submissão aos horrores do Mythos.

Outra opção viável é que elas povoem uma porção da Terra dos Sonhos (Dreamlands), correspondente a uma versão onírica do Oriente Médio, onde as Mil e Uma Noites são muito mais do que lendas. Nesse ambiente, as Silat poderiam se associar aos tenebrosos Homens de Leng já que possuem algumas características similares.

Se esse for o caso, as Silat poderiam ser inimigos de peso para qualquer grupo de investigadores na região, desde soldados da Legião Estrangeira, passando por prospectores de petróleo, até militares na ocupação do Iraque ou até mesmo competidores de algum rali estilo Paris-Dakar. 

Não faltariam oportunidades de introduzir essas criaturas em uma estória de terror.

Um comentário:

  1. Interessante o aspecto da bengala, assim como o gancho com o rally.

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