sexta-feira, 12 de junho de 2015

Vilão Imortal - Christopher Lee, o homem que sabia ser um vilão

Sir Christopher Lee




"Me parece fantástico que em geral, os atores que interpretam os vilões mais terríveis, os tiranos mais deploráveis, são, na vida real as pessoas mais gentis, simpáticas e acessíveis... pessoas como Christopher Lee, um verdadeiro cavalheiro". 

Christopher Lee, o lendário ator, que definiu o sentido da palavra macabro para toda uma geração de fãs dos filmes de horror morreu aos 93 anos. Ele era o último grande Mestre do Horror Gótico, o último dos vilões verdadeiramente assustadores, o último dos expoentes do mítico estúdio Hammer, ainda em atividade.

Em uma carreira invejável que se estendeu ao longo de quase todo o século XX, Lee se notabilizou como um ator que sobressaia nos papéis onde era necessário um toque de maldade e vilania. Ele viveu o clássico Conde Drácula nada menos do que em nove oportunidades, fazendo com que sua imagem ficasse de tal forma associada ao terrível morto-vivo que muitas pessoas imediatamente pensam nele quando o nome do personagem é mencionado.

Com sua expressão saturnina, cheia de verve e magnetismo, Lee, que media quase 1,90 de altura era uma presença fisicamente imponente em cena, com um porte aristocrático, olhos negros penetrantes e uma voz grave e profunda. O papel de Conde veio como uma benção para o ator britânico que sempre defendeu o personagem: "Drácula é extremamente atraente" ele dizia "ele não é um vilão a ser odiado, mas admirado. De certa forma ele foi o primeiro anti-herói. As mulheres o acham irresistível. Nós todos gostaríamos de ser como ele".

"As pessoas queriam me ver sempre no mesmo papel, mas eu desejava mostrar que podia fazer outras coisas". Aos poucos ele foi conquistando seu espaço, trabalhando em inúmeras produções até finalmente ter seu nome lançado ao auge em participações em filmes de grande visibilidade nos últimos 15 anos.
Christopher Lee e Veronica Carlson em Drpácula se Ergueu do Túmulo
Christopher Frank Carandini Lee nasceu em 27 de maio de 1922 em Belgravia, nos arredores de Londres, o filho do Tenente-Coronel Geoffrey Trollope-Lee da 60a. Companhia Real de Rifles. O pai de Lee havia lutado na Guerra dos Boeres e na Grande Guerra Mundial, e mais tarde se casou com a Condessa italiana, Estelle Maria Carandini, uma descendente direta da Família Borgia cujos parentes fundaram a primeira companhia de opera da Austrália. Entre as estórias de Lee a respeito de sua infância, ele dizia que seu pai descendia de uma tribo de ciganos em Hampshire - que havia assumido a identidade de um outro homem, e que sua mãe era descendente de Carlos Magno.

Os pais de Christopher se divorciaram quando ele tinha quatro anos e sua mãe voltou a casar. Lee cresceu na casa de seu padrasto, na companhia dos empregados que se tornaram seus amigos - o mordomo, dois valetes, um chofer e um cozinheiro. Ele estudou em duas escolas preparatórias de renome Wagners em Queensgate e Summerfields, antes de seguir para a prestigiada Escola de Eton que recebia a realeza. Lee não se sentia à vontade nessa pomposa instituição, e então pediu para ser transferido para o Wellington College onde demonstrou interesse em se tornar professor de história clássica. 


Fluente em italiano e francês, Lee tinha muita facilidade em aprender línguas e ao longo da vida adicionou espanhol, alemão, russo, sueco, dinamarquês e grego ao seu repertório de idiomas. Quando os negócios de seu padrasto entraram em falência em 1938, Christopher foi obrigado a deixar a escola com 17 anos e arranjar um trabalho. Pelos 12 meses seguintes, ele trabalhou como mensageiro, carteiro e entregador recebendo o salário de £1 por semana.

O terrível e mais famoso sorriso de Drácula 
Com o início da Segunda Guerra Mundial, Lee se alistou na RAF ae foi imediatamente promovido a Tenente de Voo. Ele foi agraciado com seis medalhas de campanha, mencionado em despachos oficiais e recebeu condecorações dos governos da Polônia, Iugoslávia e Tchecoslováquia. Ele também realizou trabalhos para a Inteligência Britânica em tempos de guerra. Nesse período conheceu Ian Flemming, o futuro criador de James Bond, de quem se tornou um bom amigo. "Servir nas Forças Armadas foi a melhor coisa que aconteceu comigo,” ele insistia. "Eu pude aprender como era a vida das outras pessoas e como elas viviam. Até então eu não sabia nada".

Após a Guerra, Lee serviu no Registro Central de Crimes de Guerra, trabalho que o levou a visitar campos de concentração na Europa e fazer levantamento das instalações usadas pelos alemães para eliminar seus prisioneiros. Lee deixou o exército aos 24 anos, ainda que estivesse indeciso sobre qual carreira desejava seguir. Ele pensou em se tornar um dançarino profissional, cantor de opera e diplomata até que um primo (o embaixador italiano em St James) sugeriu que ele poderia encontrar seu caminho como ator.

Apesar dos protestos de sua mãe que era contrária a essa ideia ("Imagine o tipo de pessoa que você vai encontrar") - Lee se juntou a uma companhia de cinema, a Two Cities, e assinou um contrato de sete anos, como parte da Companhia de Jovens Atores de Rank (também chamada de Rank Charm School) no ano de 1946. Seu primeiro filme foi uma ponta em Corridor of Mirrors (1948).

Após uma sucessão de pequenos papéis, ele teve sua primeira oportunidade em 1951, atuando como um Capitão espanhol num episódio da série Captain Horatio Hornblower.Esse foi um de seus últimos filmes na Two Cities e quando ele concluiu seu contrato, vários estúdios estavam interessados em contratá-lo. Ele trabalhou em vários episódios de televisão do programa Douglas Fairbanks Presents, aparecendo em mais de 40 produções.

Nos anos 1950 ele esteve à frente de várias produções, sempre no papel de militares garbosos, incluindo o tenente em Innocents in Paris (1953), um comandante de submarino em The Cockleshell Heroes e um capitão em That Lady (ambos de 1955). Mas seria com o horror que Lee escreveria seu nome no estrelato. Seu primeiro filme de horror pela Hammer Films foi o da Criatura em The Curse of Frankenstein (1957), um papel que o obrigava a vestir um traje com sangue artificial e maquiagem que fazia ele parecer, na sua própria opinião, "uma vítima de atropelamento ambulante". 

Os últimos trabalhos como O Vampiro da Noite.
Apontado como o primeiro filme realmente gótico produzido pela Hammer, The Curse of Frankenstein tinha cenas apavorantes, gráficas pelo uso excessivo de sangue. O filme foi um enorme sucesso e marcou a primeira pareceria de Lee, confrontado ao lado da outra estrela do estúdio, Peter Cushing. Percebendo que um filme a respeito do vampiro criado por Bram Stoker poderia atrair o público, o executivo da Hammer, James Carreras, ofereceu a Lee o papel de Conde Drácula.

O filme foi a semente para a consolidação do gênero Horror Gótico nos anos 1960. Lee parecia ter nascido para o papel título: alto, pálido e imbuído de um magnetismo notável, ele se tornou uma figura famosa. Com suas presas pingando sangue e lentes de contato vermelhas, Lee foi responsável por retomar a popularidade dos vampiros. Seu morto-vivo era assustadoramente realista. Em contraste com o Conde imortalizado por Bela Lugosi, Lee falava as suas frases com aquilo que ele descrevia como "a essência da nobreza, ferocidade e tristeza".

Ao lado de Cushing sempre o papel de seu arqui-inimigo, o Caçador de Vampiros; os filmes da Hammer se tornaram um filão de ouro a ser explorado. Nos Estados Unidos, os primeiros filmes de Lee foram considerados "excelentes peças de horror" e saudados como "melhores filmes do gênero horror de todos os tempos". Lee por outro lado, não estava plenamente satisfeito com seus papéis: "Apenas o primeiro da série é realmente notável, os demais acabam sendo uma repetição do tema". teria dito certa vez.

Para variar um pouco, Lee se envolveu em várias outras produções da Hammer, mas sempre dentro do gênero que o consagrou. Ele interpretou acadêmicos em busca de segredos, médicos loucos, assassinos imorais e maníacos homicidas. Ele esteve em produções variadas como The Man Who Could Cheat Death, The Hound of the Baskervilles e The Mummy (todos de 1959). Na década de 1960 ele trabalhou em mais de 20 produções, aceitando projetos curiosos nos quais vivia personagens como Fu Manchu (1964) e Rasputin, the Mad Monk (1966).   

Francisco Scaramanga em 007 e o Homem da Pistola de Ouro
Depois do sucesso do filme The Devil Rides Out (1968), uma adaptação da peça de Dennis Wheatley onde Lee vivia um aristocrata perseguido por adoradores do demônio, ele retornou ao seu famoso morto vivo, num filme chamado Dracula has Risen from the Grave. O filme fez mais dinheiro do que todos os demais e Lee acabou convencido a interpretar o Conde em mais uma oportunidade no projeto de 1970, Scars of Dracula. 

Mas Lee estava exausto de viver sempre o mesmo personagem e acreditava que não havia mais nada de novo a ser mostrado. Mais do que isso, ele temia ficar associado para sempre ao vampiro e não conseguir outros papéis mais desafiadores.

Afastando-se da Hammer ele conseguiu trabalho como o irmão mais velho de Sherlock Holmes, Mycroft no fime The Private Life of Sherlock Holmes ("tão impressionantemente bom", escreveu um crítico, "que certamente mostrará que ele é muito mais do que um vampiro") e seguiu em frente com papéis históricos como em Julius Caesar de 1971. Decidido a ganhar dinheiro com seus filmes de horror para bancar outras produções, Lee trabalhou em mais quatro filmes do gênero, mas não poupou críticas aos produtores que vinham usando seu personagem em filmes cada vez menos interessantes: "É uma vergonha", reclamou nos jornais, "trazer Drácula para os dias atuais é um erro que mina o conceito original do personagem".   

Escolhendo com mais cuidado seus filmes seguintes, ele apareceu em produções mais interessantes como The Wicker Man (1973), no qual fazia o papel de um lorde escocês envolvido com rituais de sacrifício em pleno século XX. Ele também viveu o maquiavélico espadachim Rochefort em duas produções de Os Três Mosqueteiros (em 1973 e 1974) antes de aparecer como vilão da franquia 007 - James Bond. Lee interpretou o implacável matador Scaramanga em The Man with the Golden Gun (também de 1974).

O Homem de Palha - um dos meus filmes favoritos com Christopher Lee
Ao longo de sua carreira ele estabeleceu a reputação de ser um ator generoso que adorava lembrar de colegas que trabalharam com ele. Em 1976, quando Lee escolheu deixar a Inglaterra para viver nos Estados Unidos, ele planejava dar seu passo mais ousado rumo ao estrelato. Mas no início as coisas não foram fáceis, Lee resistiu a ofertas de papéis em novelas e programas menores onde ele teria de se vestir como Drácula e outros monstros. Disposto a manter sua dignidade ele recusou essas ofertas e esperou pelo momento certo. Ao longo dos anos 1970, ele apareceu em várias produções, em papéis diversos como o Captain Rameses na série de ficção científica Starship Invasions (1977) e foi o cabeça de uma família de ciganos na Segunda Guerra no drama The Passage (1979).

Trabalhando de modo prolífico nas décadas seguintes, ele alcançou algum sucesso, mas o papel que o trouxe de volta ao estrelato e o familiarizou para uma Nova Geração de fãs veio com o Conde Dooku de Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones (2002). Ele voltou ao mesmo papel na sequência Star Wars: Episode III - A Vingança dos Sith de 2005. Esse papel abriu as portas para aquele que se tornaria um dos seus mais populares papéis, o Mago Saruman nos dois filmes finais da trilogia de Peter Jackson, O Senhor dos Anéis (2001-2002), e em dois da nova série The Hobbit (2012-14). Ele ainda estava planejando trabalhar em duas produções uma esse ano e outra no ano que vem.

Refletindo sobre seu papel mais importante, o de Dracula, Lee disse: "Há muito mal entendido a respeito dessa personagem. Ele já havia sido interpretado da maneira correta antes, eu dei a minha interpretação pessoal dele, tudo era a respeito de sugestão e de fazer o inacreditável parecer real".
Lee publicou duas biografias e recebeu vários prêmios literários e pelo seu apoio às artes. Ele se tornou cavalheiro (Sir) em 2009.

E, é claro, o eterno Saruman o Branco
Um de seus arrependimentos foi nunca ter insistido no sonho de se tornar um cantor de ópera: "Eu nasci com um dom inegável para cantar", ele disse "e poderia ter sido um grande cantor se tivesse insistido nisso, agora infelizmente estou velho para isso". Mais tarde em sua vida, entretanto, Lee emprestou seus talentos de barítono como narrador e em músicas da Banda de power metal Rhapsody on Fire. Em 2010, ele lançou um álbum por conta própria, Charlemagne: By the Sword and the Cross, seguido de mais um, dois anos mais tarde Charlemagne: The Omens of Death.

Sir Christopher Lee, nasceu em 27 de maio de 1922, ele morreu em 7 de junho de 2015.

Nós sentiremos falta de seu talento e de sua habilidade inigualável em nos aterrorizar, fascinar e maravilhar...

E aqui um video com dez fantásticos momentos da carreira de Christopher Lee:

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