domingo, 26 de julho de 2015

A Esfera que caiu do Espaço - Objeto desconhecido poderia conter material biológico


Extraído da Revista Galileu escrito por André Jorge de Oliveira

A ideia de uma civilização extraterrestre avançada enviar ao nosso planeta uma cápsula contendo material biológico parece pura ficção científica, certo? Pois saiba que o cenário é levado a sério por pesquisadores das universidades de Birmingham e de Sheffield, na Inglaterra, depois de uma descoberta recente e completamente extraordinária.

Ao enviar balões a uma altitude de 27 quilômetros para coletar partículas na estratosfera, o grupo de astrobiólogos acabou capturando uma minúscula esfera metálica. Para a surpresa de todos, o interior estava repleto de um líquido biológico viscoso, que possivelmente continha material genético e jorrava para fora através de um orifício. Ao que tudo indica, nunca algo parecido foi encontrado na Terra.

Os cientistas têm certeza de que a estrutura veio do espaço pois provocou um impacto considerável ao se chocar com o balão, algo que não teria ocorrido se não fosse a alta velocidade de reentrada atmosférica.

É uma bola de diâmetro comparável ao de um cabelo humano, que tem vida filamentosa na parte externa e um material biológico espesso escorrendo de seu centro”, resumiu o líder do estudo Milton Wainwright, do Centro de Astrobiologia da Universidade de Birmingham, ao jornal britânico Express.

A equipe ficou ainda mais perplexa quando análises de raios X revelaram a composição da esfera: titânio, com traços de vanádio. Diversas hipóteses foram levantadas a respeito da origem do estranho objeto, sendo que a mais provável para os pesquisadores sugere que ele tenha chegado até a Terra por meio de um cometa. O que já é uma enorme descoberta.

Outras possibilidades, no entanto, vão mais além. “Uma teoria é de que a esfera tenha sido enviada por alguma civilização desconhecida para continuar semeando o planeta com vida”, especula Wainwright. "E esta vida, inclusive, poderia representar graves riscos à espécie humana, como a propagação de doenças mortais".


A ideia de que a vida na Terra tenha surgido a partir de cometas ou de outras formas semelhantes é chamada de panspermia, e apesar de ainda encontrar resistência no meio científico, foi amplamente defendida por cientistas como Francis Crick, um dos descobridores da estrutura do DNA, e também pelo astrônomo Carl Sagan.

Pesquisas recentes apontam cada vez mais para a existência de um intercâmbio de matéria entre a atmosfera terrestre e o cosmos, e também para o fato de que material genético e também certos tipos de organismos, como bactérias e vírus, são capazes de sobreviver às adversidades do espaço.

UPDATE: Gostaríamos de acrescentar a esta história algumas considerações que são de suma importância mas que ficaram de fora do texto que você acaba de ler. Um bom ponto de partida seria a frase tornada popular pelo astrônomo Carl Sagan: "Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias".

Apesar de a hipótese da panspermia dirigida ser plausível e apoiada por pesquisadores de peso, ela certamente é uma alegação extraordinária, que exige, portanto, evidências que sejam da mesma natureza. E o artigo assinado por Wainwright e seus colegas vem acompanhado de algumas controvérsias e inconsistências que não podem, de forma alguma, ser desconsideradas. Vamos, então, a uma análise mais cética da descoberta.

A primeira e maior das controvérsias é o periódico no qual foi publicada. O "Journal of Cosmology" é conhecido pelo caráter duvidoso dos estudos veiculados. Pouco se sabe sobre seu processo de revisão por pares, fundamental para a manutenção do rigor científico, e as pesquisas sobre astrobiologia que publica normalmente são enviesadas para corroborar a tese da panspermia.

Há dois anos, Wainwright co-assinou um artigo no veículo onde alegava ter coletado bactérias alienígenas na estratosfera terrestre, descoberta que não chegou a ser comprovada por falta de provas concretas. O pesquisador indiano Chandra Wickramasinghe, também da Universidade de Buckingham e um dos autores da pesquisa sobre a esfera de titânio, é editor do Jounal of Cosmology - ele tenta há décadas comprovar que a Terra é bombardeada por microorganismos vindos, sobretudo, de cometas.


O próprio Wainwright destacou ao Daily Mail a natureza improvável da hipótese: "A menos que possamos descobrir detalhes sobre a civilização que supostamente enviou a esfera, esta provavelmente é uma teoria que não se pode provar", disse. O estudo também é pouco científico ao afirmar que a esfera só pode ter vindo do espaço sem antes ter conduzido experimentos para chegar a esta conclusão.

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Para aqueles que conhecem a obra de Lovecraft, é impossível dissociar essa notícia de um de seus contos mais emblemáticos. Aquele que segundo muitos críticos é um dos mais importantes da carreira do autor por misturar de forma magistral horror e ficção.

A Cor que Caiu do Céu (The Colour out of Space) foi escrita por H.P. Lovecraft em março de 1927. 

Na estória, um narrador não identificado revela a verdade por tráz de um lugar assombrado chamado de "Blasted Heath" localizado no interior da Nova Inglaterra, mais especificamente nos arredores da cidade de Arkham, Massachusetts.

A narrativa conta que há muitos anos um meteorito caiu em uma fazenda, provocando grande alvoroço no meio científico. A rocha que se precipitou das profundezas do espaço carrega em seu interior uma forma de vida alienígena que escapa e acaba se entranhando no solo. Gradualmente ela começa a atuar diretamente sobre o ecossistema. Num primeiro momento, as mudanças que ela opera parecem benignas e a vegetação cresce de maneira acelerada com uma aparência frondosa, mas logo fica claro que a natureza foi afetada de uma forma temerária. Os animais se comportam de forma arredia, os frutos produzidos possuem um gosto intragável e mesmo as plantas parecem se comportar de uma maneira incomum (movendo-se mesmo na ausência de vento - essa é uma ideia que sempre pareceu incrivelmente perturbadora na minha opinião). Logo os animais começam a enlouquecer, filhotes nascem com deformidades grotescas e o horror se torna paupável.


Os habitantes do local percebem que há algo bastante errado. Uma doença insidiosa consome as forças dos moradores da fazenda onde o meteorito caiu e a medida que a criatura drena a vida de tudo e de todos na região, as vítimas não tem força sequer para tentar escapar desse lugar amaldiçoado. No fim, o narrador revela que a coisa alienígena consegue abandonar nosso planeta após se alimentar o suficiente para passar por uma mutação e nessa nova forma, parte rumo ao espaço deixando um rastro de morte e destruição.

Não é possível afirmar se Lovecraft concordava ou não a teoria da Panspermia, mas sem dúvida ele deveria estar ciente de sua existência, uma vez que esta estava muito em voga em meados do século XIX e ainda era largamente discutida no início do século XX. Sabemos que Lovecraft era um ávido leitor de revistas científicas e que sonhava em seguir carreira como astrônomo. Portanto, é razoável supor que ele tenha tido contato com o trabalho de cientistas como Herman Von Halmholtz e Svante Arrhenius proponentes da Panspermia. Segundo a teoria desses conceituados pesquisadores, a vida poderia ser dispersa pelo cosmos por intermédio de microorganismos viajando pelo espaço em uma espécie de animação suspensa no interior de corpos celestes errantes. Ao entrar em contato com um planeta com condições propícias, esses microorganismos despertariam e conseguiriam se adaptar a ecossistemas diferentes, desenvolvendo-se e atuando de forma transformadora. Possivelmente até originando vida em planetas até então estéreis. 

Transferência de matéria não viva de origem interplanetária é um fenômeno comprovado por cientistas que já determinaram que fragmentos provenientes de Marte chegaram a Terra na forma de meteoritos. Em 2012, o matemático Edward Belbruno e a astrônoma Amava Moro-Martín propuseram uma teoria de que a transferência de rochas entre planetas jovens poderia gerar uma espécie de intercâmbio de formas de vida. Mesmo o conceituado físico Stephen Hawkin declarou em um simpósito em 2009 acreditar que a vida poderia ser transferida de um planeta para outro, não importando o fator distância, por intermédio de meteoros e cometas. 

Mas resta a dúvida do que seriam essas formas de vida extraterrestres.
 

Em sua tentativa de criar uma forma de vida verdadeiramente alienígena, diferente de tudo que poderia existir na Terra, Lovecraft concebeu que o passageiro do meteorito que atingiu o interior de Arkham seria... uma cor. Não um ser capaz de ser compreendido como orgânico, sólido ou até mesmo material, mas uma forma de vida inteiramente estranha que desafia todos os conceitos existentes. Para nossa percepção ela seria apenas uma cor flutuante, diferente de tudo existente na Terra. 

Para criar essa entidade enigmática, Lovecraft buscou inspiração em fontes da ficção e não-ficção.

Em uma correspondência para um colega, ele afirmou categoricamente endossar a teoria de que formas de vida alienígenas, se um dia encontradas por humanos deveriam ser absolutamente estranhas e incrivelmente diversas dos conceitos e padrões conhecidos. Essa estranheza, segundo Lovecraft (de fato, em concordância com muitos cientistas e teóricos da hipótese de vida alienígena) constitui um dos maiores questionamentos de como nós, como raça, conseguiremos interagir com outras formas de vida absolutamente distintas. Como poderemos (se é que conseguiremos) compreender formas de vida que fogem ao espectro que nos habituamos a chamar de normais. Esse sem dúvida, será um dos desafios fundamentais de nossa relação com aqueles que podem ser nossos vizinhos cósmicos.

Um comentário:

  1. http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/2015/02/23/o-ataque-dos-alienigenas-requentados/

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