sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Criatura Marinha - O Mistério do Tritão capturado na Espanha


Na manhã de 9 de maio de 1868, o barco pesqueiro Santa Monique surgiu em meio às névoas cinzentas do Atlântico e sinalizou para o porto em Tomancha, uma pequena vila costeira entre as cidades de Bilbao e Gijon no litoral norte da Espanha. Os pescadores estavam atrasados em seu retorno e o sinal luminoso foi visto com alívio pelas pessoas em terra. As águas revoltas da Baía de Biscaia estavam ainda mais furiosas naquela semana, o mar remexido por fortes tempestades e um vendaval que formava enormes ondas.
Em sua viagem, o Santa Monique havia sido seriamente danificado. Sua quilha foi avariada e as velas estavam rasgadas, para manter a embarcação flutuando, os pescadores tiveram de bombear água para fora com mangueiras. Um dos homens bateu a cabeça e permaneceu desmaiado por dois dias, os outros estavam esgotados.

Ao menos o porão estava cheio, os marujos conseguiram pegar uma boa quantidade de peixes para compensar os danos sofridos. Mais importante, eles haviam capturado algo inesperado em suas redes pouco antes da tempestade se formar. Era algo que tornaria a tripulação e o barco lendários no norte da Espanha e que daria início a uma controvérsia que permanece até os dias atuais.

Quando aportaram, os pescadores foram saudados pelos seus amigos e parentes com alegria, mas eles permaneciam com expressões sérias em seus rostos, apesar do alívio que sentiam. Um dos homens mandou chamar o médico local Dr. Guzman e o Padre da Paróquia, Monsenhor Nobrega. Eles tinham algo no compartimento de carga que esses dois homens em particular precisavam ver. Imediatamente o médico e o padre foram convocados e acompanhados do capitão Tomas Cinoda, desceram as escadas até o porão.

Lá embaixo, havia um depósito trancado com correntes, e em seu interior uma grande rede de pesca embolada. Um cheiro forte de peixe emanava dos nós de cordame e metal. Quando se puderam a observar com mais cuidado perceberam algo sob as redes. Os dois se afastaram horrorizados, pois diante de seus olhos estava uma criatura que só poderia existir em fábulas e lendas. Era do tamanho de um homem, com a face de uma pessoa e vasta cabeleira castanha. O torso não tinha nada de extraordinário ois era o de um homem musculoso, mas abaixo da cintura, a coisa possuía um corpo sinuoso e coberto de escamas cinza-amareladas, terminando em uma barbatana idêntica a de um peixe. Os braços eram curtos, e os dedos se confundiam com nadadeiras.

Estava vivo e enquanto os dois observavam, ele se debateu violentamente tentando se libertar do pesado cordame que o prendia. O padre fez o sinal da cruz, o médico revirou os olhos assustado e o Capitão se apressou para conduzir o grupo para fora.


Em seguida, contou como haviam pego a criatura dois dias atrás.

Cinoda relatou que os primeiros dias no mar tinham sido especialmente proveitosos e que os homens estavam satisfeitos, pois logo poderiam regressar a Tomancha. No final da tarde de 7 de maio, eles resolveram puxar as redes e verificar o que haviam apanhado. Enquanto erguiam a carga, sentiram um peso extra na rede, mas apenas quando ela saiu da água é que se depararam com uma coisa meio homem-meio peixe que se debatia tentando escapar. Ficaram paralisados por alguns instantes, sem saber o que fazer. Não era um peixe espada, nem uma arraia, como cogitaram tentando achar uma explicação razoável para o que estavam vendo. A coisa parecia um tritão, como os seres míticos descritos nas lendas.

Seguiu-se uma discussão acalorada, os homens não sabiam se deviam trazer a coisa à bordo ou lançar de volta no mar. Enquanto isso, ele lutava furiosamente. O Capitão Cinoda, um experiente lobo do mar, com mais de 30 anos de experiência marinha, jamais havia visto tal coisa, e estava tão surpreso quanto os outros. Finalmente ele resolveu largar a coisa no tombadilho. Ela rolou pelo chão e tentou se desvencilhar, um dos homens se aproximou e ela o atacou. Um outro então veio cautelosamente e desferiu um golpe na cabeça da coisa com um pedaço de pau. Ela se agitou novamente e finalmente ficou imóvel.

Assustados, os homens arrastaram a criatura para o porão e a prenderam em uma rede. Horas depois ele voltou a se debater, e eles lançaram uma segunda rede, mais pesada sobre ela.

Ainda estarrecidos com o acontecimento, os pescadores do Santa Monique debateram o que fazer. Alguns votaram por jogar a criatura e as redes na água, enquanto outros achavam melhor levá-la para terra e mostrar a outras pessoas. Quem iria acreditar em uma estória tão fantástica sem provas? O Capitão estava dividido sobre o que fazer, finalmente achou que seria melhor voltar para Tomancha com aquele ser estranho. Mas assim que tomou a decisão, um dos homens que estava no timão gritou para seus companheiros. Era um alerta de tempestade!

Entre o momento que o tritão foi capturado e nas horas que se seguiram à reunião para decidir o que fazer, o tempo mudara de forma dramática. Nuvens negras cobriam os céus, a água estava cinzenta e agitada e tudo indicava que uma horrível tempestade se aproximava. Mesmo nos arredores de Biscaia, o tempo não muda de uma hora para outra e alguns dos pescadores mais supersticiosos culparam a criatura pela mudança súbita no clima.


Como previsto, a tempestade atingiu o pequeno pesqueiro com força. A embarcação rolou de um lado para o outro, ao sabor das ondas destruidoras como uma rolha. Apenas a habilidade do Capitão Cinoda evitou o pior. Os pecadores tiveram de passar a noite inteira usando as bombas para retirar a água que por pouco não causou um naufrágio. Um dos homens foi lançado contra o costado e bateu a cabeça sofrendo uma concussão que o deixou desacordado. A tempestade por pouco não levou o barco à pique. Na manhã seguinte, o Santa Monique iniciou a viagem de volta para seu porto de origem, sob um tempo ruim, mas ao menos navegável.

O Padre e o médico ouviram a estória, mas não sabiam o que dizer. Ambos, no entanto, reconheceram que não acreditariam em nada daquilo se não tivessem visto com os próprios olhos a criatura marinha que estava no porão. Acharam melhor levá-la para terra.

Ainda existem jornais e artigos publicados que mencionam o incidente em Tomancha. Logo que chegou ao porto, os rumores sobre a captura de uma estranha criatura marinha, já haviam se espalhado pelo porto e pela cidade. As pessoas se perguntavam o que poderia ser aquela coisa pega pela tripulação do Santa Monique. O Capitão da Guarda, o Tenente Juan Constanza, foi chamado para ver o prisioneiro e ficou impressionado com a criatura. Ele despachou então uma ordem para que o monstro fosse levado imediatamente para a cadeia local.

"Tratava-se de uma besta estranha sobre a qual nada sabíamos. Ela poderia ser perigosa, por isso ordenei que fosse levada para a cadeia afim de ser contida", explicou o Chefe da Gurda aos jornais nas semanas seguintes ao incidente.

Para fazer o transporte da criatura do porto até a delegacia, os guardas mandaram esvaziar as ruas. Mulheres e crianças receberam ordens para ficar em suas casas, com as portas e janelas trancadas. Mais tarde naquele mesmo dia, longas varas foram presas a rede e o tritão ainda preso foi desembarcado. Centenas de testemunhas viram a criatura ser carregada em uma estranha procissão pelas ruas de Tomancha.

Um repórter de Bilbao que estava de passagem pela cidade descreveu a cena em detalhes:

"A criatura parecia furiosa, sendo arrastada lentamente na rede que a mantinha aprisionada. De quando em quando, ela tentava fazer um esforço para se libertar. As pessoas olhavam sem acreditar no que estavam vendo", ele em seguida descreveu a criatura da seguinte maneira: "Era uma criatura medindo cerca de um metro e oitenta de comprimento, do topo da cabeça até o rabo de peixe. Sua pele era escamosa em um tom amarelo-esverdeado. A cabeça permanecia abaixada entre os ombros, coberta por uma juba selvagem de cabelos castanhos que escorriam sobre os ombros. Seus braços eram curtos, parecendo nadadeiras. Ele era arrastado de lado, sobre o ventre e não produzia nenhum som, mesmo quando abria a boca. Na parte de baixo do torso haviam escamas mais claras e estreitas descendo até a barbatana triangular que ocupava o lugar das pernas."


"Não resta dúvida", escreveu o repórter, "que a coisa não era um simples peixe. Mas também não podia ser chamada de homem. Um tritão, ou sereia do sexo masculino, parecia ser a única descrição que se encaixava em sua forma bizarra".

A criatura foi colocada em uma cela na delegacia de polícia, para esperar a chegada de um Oficial vindo de Bilbao. Naquele dia, o tenente Constanza, fez um relatório oficial sobre a criatura detida.

Enquanto aguardava na cela, o tritão foi mantido sob constante vigilância. O Dr. Guzman pediu que ele fosse molhado com um balde e que recebesse algo para comer (no caso peixes que ele sequer tocou). Várias pessoas visitaram a cadeia para ver a criatura atrás das grades naquele dia.

Segundo rumores, mais de 600 pessoas estiveram no lugar e afirmam ter visto a criatura ainda viva. Estes a descreveram como um homem de aspecto rude, com cabeça e torso humano, e a parte inferior do corpo correspondendo a um peixe. A cabeça segundo a maioria era chata e os olhos distribuídos um de cada lado, como ocorre em peixes. Ele tinha uma longa juba de cabelos escuros, castanhos ou negros de acordo com as testemunhas, uma barba cerrada e uma boca pequena. Seus olhos eram frios e sem expressão, leitosos, raramente piscavam, mas abriam e fechavam. Seus lábios eram grossos e ele não parecia ter dentes. Os braços eram descritos como nadadeiras mas havia vestígios de dedos nas pontas achatadas.

Enquanto isso, do lado de fora uma ruidosa discussão se iniciou entre o Capitão Cinoda e o Chefe da Guarda a respeito de quem era o real proprietário do tritão. Cinoda dizia que havia encontrado a criatura e a tirado da água e que portanto ela era legalmente sua. A ganância falava mais alto. Seu intuito era cobrar algumas moedas de cada pessoa que quisesse ver o monstro marinho. Já o Tenente Constanza declarou que estava mantendo a criatura sob custódia em nome da Província de Navarra.

Na manhã seguinte, o Dr. Guzman declarou que o tritão parecia doente. Todos que observavam a criatura podiam ver o mesmo, ela não parecia nada bem. Ofereceram-lhe um prato de peixe cru e água, mas ele recusou ambos. Observadores perceberam que a pele dele estava se tornando branca e quebradiça em algum pontos. Tentaram acudir colocando sobre ele cobertores, mas seu estado continuou deteriorando. Ele não lutava mais com a rede e permanecia imóvel. Seus olhos ocasionalmente se abriam, assim como a sua boca. Era como se estivesse lentamente sufocando. No começo da tarde, o Dr. Guzman entrou na cela para examinar a criatura, ele verificou que sua temperatura era de 16 graus centígrados e que sua pele era fria ao toque.

No dia 12 de maio, o tenente chamou novamente o Dr. Guzman, o tritão estava imóvel desde a noite anterior e embora sua boca ainda abrisse e fechasse estava claro que ele não ia durar muito. A criatura não comeu ou bebeu nada desde a sua chegada, não fizera nenhum som ou movimento. O médico entrou na cela e examinou a criatura, foi capaz de detectar uma fraca batida cardíaca, o suficiente para dizer que ele ainda estava vivo. O Doutor cogitou com o tenente preparar um tanque onde pudessem mergulhar a criatura, mas os preparativos não foram adiante. No final da tarde, o tenente entrou na cela e verificou que o tritão estava morto.


Naquela mesma noite ele foi transferido de carroça, sem grande alvoroço para um hospital em Bilbao. Era um domingo e o médico responsável não estava presente. Seu assistente aceitou receber o cadáver e em face de seu estado deplorável, resolveu ele mesmo conduzir uma autópsia. Segundo o jovem médico, o tritão possuía órgãos internos semelhantes aos de um homem, mas o aparato respiratório era típico de um peixe. Ele verificou a presença de um estômago e de um aparelho digestivo. Também encontrou um coração e o que julgou ser um par de pulmões rudimentares. A pele estava incrivelmente seca e exalava um fedor nauseante.

No dia seguinte, o médico principal retornou e ficou furioso com a ousadia de seu jovem assistente que havia procedido em uma autópsia sem a sua autorização. Ele ordenou então que a carcaça fosse incinerada e que todas as amostras coletadas fossem destruídas. O único documento que escapou dessa destruição deliberada foram duas páginas do laudo cadavérico. Mais tarde, o médico disse ter se arrependido de sua atitude intempestiva, mas que na ocasião julgou necessário agir daquela forma pois temia que a criatura pudesse transmitir alguma doença.

O jovem médico que realizou a autópsia, o Dr. Alejandro Verano, escreveu duas dissertações sobre a estranha criatura por ele analisada. A essa altura, a notícia já havia chamado a atenção de toda Espanha, ganhando destaque em todos os jornais do país. As pessoas se dividiam, mas a grande maioria não acreditava na fantástica estória... quanto mais, na ausência de provas. Cerca de mil pessoas afirmaram ter visitado a criatura na Cadeia de Tomancha onde a viram agonizando, outras cem pessoas também a viram no hospital.

Um jornal de Bilbao ofereceu uma boa recompensa para qualquer um que capturasse outra criatura marinha semelhante ao Tritão de Tomancha. Barcos de pesca procuraram por meses por algum outro espécime na mesma área, mas nada foi encontrado. Gradualmente, a notícia foi desaparecendo até sumir de vez e ser tratado como um caso de histeria coletiva ou uma mera confusão envolvendo um animal raro até então desconhecido.

Mas o que era o Tritão de Tomancha?

Hoje, ninguém sabe ao certo, embora os descendentes das pessoas envolvidas e das testemunhas que viram a criatura, jurem que o caso realmente aconteceu e que a criatura de fato existiu. Desenhos e testemunhos foram colhidos abundantemente e muitos se encontram em arquivos públicos e bibliotecas como provas contestadas daqueles dias estranhos em maio de 1868.

A verdadeira identidade da criatura, o que ela era e de onde veio. permanece mistério tão insondável quanto o oceano de onde ela supostamente saiu.

2 comentários:

  1. A costa Espanhola é historicamente rica em avistamentos mitologicos desse tipo. Nos tempos da ocupaçao romana da peninsula, Plinio o velho (escritor romano da "Historia Naturalis") enviou uma carta ao imperador Tibério relatando avistamento de um tritao nas costas de Cadiz por "cavaleiros" romanos, e que segundo as afirmaçoes se parecia a um homem da melhor maneira possivel. Aqui reproduzo a carta: "Auctores habeo in equestri ordine splendentes, visum ab iis in Gaditano oceano marinum hominem toto corpore absoluta similitudine; ascendere eum navigia nocturnis temporibus statimque degravari quas insederit partes et, si diutius permaneat, etiam mergi." ("Tenho testemunhos de distinguidos membros da ordem equestre atestando que eles próprios viram no oceano de Gades um homem marinho, em todas as partes do seu corpo parecido com um homem; e que durante a noite ele subia aos navios fazendo imediatamente afundar a parte onde se sentava e, se ali permanecesse por algum tempo, o submergia (…)".

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  2. Meu caro,
    Acompanho seu Blog há uns dois anos e o parabenizo pelo nível dos textos expostos.Também sou fã do Lovecraft e acredito que as coisas, invariavelmente, podem ser muito, mas muito estranhas. O que me chamou a atenção neste caso do Tritão de Tomancha -se é que podemos chamá-lo assim-, é justamente a falta de indícios do que teria ocorrido com o corpo. Será que foi mesmo incinerado? Existe um outro caso, bastante famoso, e que, este sim, foi amplamente documentado; estou falando do Homem-Peixe de Liérganes. Esbarrei com este caso estranhíssimo, pela primeira vez, quando li o espanhol Juan G. Atienza, verdadeiro colecionador de fatos anormais. Você conhece a história? Quem primeiro tocou no assunto foi Antonio de Torquemada em "Jardín de Flores Curiosas". Se quiser o texto original, em espanhol, é só me dizer.

    Fábio Siqueira Batista

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