segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Jogo da Possessão - As bonecas diabólicas da Indonésia


A humanidade sempre teve um desejo de transcender de alguma maneira a barreira amorfa entre vida e morte e se comunicar com o mundo espiritual. Ao longo da história, nós encontramos uma infinidade de rituais, ritos e uma inesgotável variedade de tentativas de buscar estabelecer contato com o mundo além, para se conectar com o que existe além do véu e habita esses reinos misteriosos.

Mesmo nos tempos modernos nós podemos ver tais coisas a nossa volta: elaborados rituais New Age, antigas magias branca e negra, sessões espíritas (as famosas seànces), e todo tipo de tentativa de acessar o sobrenatural através de jogos, sendo a Tábua Ouija a mais popular. Apesar da possibilidade de fazer contato com o mundo dos mortos ser algo assustador para a maioria, talvez não exista no mundo um lugar onde tais tentativas sejam mais frequentes do que na Indonésia. Neste país do sul da Ásia as pessoas parecem facinadas pelo conceito de se comunicar com os mortos.

É lá que surgiu um jogo que visa não apenas contatar os mortos, mas fazer com que eles possuam e ocupem, o corpo de bonecas especialmente criadas para esse objetivo. Se você acha que fantasmas e bonecas são algo sinistro, então evite a todo custo o Jelangkung. Este ritual de invocação envolve uma série de rituais de canalização e contato, com elementos extraídos das sessões espíritas e do Ouija. O resultado, de certa forma, é algo muito mais assustador do que todos os outros métodos combinados.

O jogo de Jelangkung funciona como uma mistura de sessão espírita e jogo de Ouija, com o acréscimo de algumas pequenas e estranhas bonecas. Durante a "brincadeira" os envolvidos repetem o nome de uma pessoa que morreu e tentam invocar seu espírito para que ele entre nessas bonecas e assim possa se comunicar. Em geral, três ou quatro pessoas participam de cada sessão de Jelangkung, quepode ser realizada em qualquer lugar, mas que funciona melhor em lugares onde pessoas morreram recentemente. Outra "regra" é que o jogo aconteça à noite, com velas acesas ao redor de uma mesa redonda. A lua cheia teoricamente ajuda a canalizar as energias espirituais, aumentando a possibilidade de contato, mas não é obrigatório que o jogo aconteça nessas circunstâncias. 

Acredita-se que o jogo tenha se originado há mais de 1500 anos, com base no jogo chinês Cai Lang Gong, que pode ser traduzido grosseiramente como "Espírito na Cesta de Vegetais", pois geralmente as bonecas eram colocadas sobre cestas arredondadas em que se guardava vegetais. Na versão chinesa, os deuses benevolentes Poyang e Moyang eram convidados para adentrar as bonecas e ajudar a responder questões simples sobre o futuro. Era um jogo de adolescentes e mulheres, jogado durante os festivais lunares. A versão indonésia tem algumas mudanças específicas que tornam o jogo bem menos uma "inocente" forma de predizer o futuro e mais uma forma de contatar os mortos e extrair deles segredos e verdades que talvez nós não devêssemos saber.

O Jelangkung é considerado algo muito sério na Indonésia e apenas adultos costumam usá-lo. Crianças e adolescentes são dissuadidos de fazê-lo, pois é consenso que os jovens podem ser corrompidos por fantasmas e espíritos malignos que ao invés de entrarem nas bonecas, preferem possuí-los. Aliás, outra regra do Jelangkung é que não haja crianças menores de cinco anos nas poximidades de uma sessão. Espíritos podem confundir as crianças com uma boneca e habitar para sempre o corpo destas como uma presença maligna.

Ao contrário do que se supõe, o jogo é bem mais do que uma crendice ou uma superstição. Em Jakarta, capital da Indonésia, há clubes específicos que recebem pessoas interessadas em praticar Jelangkung. Guias e médiuns oferecem seus préstimos e um praticante experiente pode alugar seus serviços por enormes quantias. Também é comum que lugares onde ocorreram mortes recentes sejam procurados por afixionados do jogo, pois eles se tornam pontos focais para as sessões. Casas consideradas assombradas também são disputadas por grupos que procuram usar esses lugares o quanto antes.


Os espíritos invocados tradicionalmente pertencem a pessoas que tiveram mortes recentes ou violentas: acidentados, assassinados e indivíduos com problemas mentais podem ser atraídos pelo ritual. Não há um consenso a respeito de quem ou o que é invocado para dentro da boneca, por isso, a primeira pergunta feita em geral se refere ao nome da pessoa e se ela deseja fazer mal a alguém na mesa. 

E há a preocupação com a boneca em si. As bonecas são feitas com casca de coco usada como cabeça, um pedaço de madeira como corpo e roupas de criança - de preferência roupas que foram usadas por um dos jogadores quando era criança (não sei porque mas esse detalhe me dá arrepios!). Uma face humana deve ser desenhada na casca de coco: boca, nariz, olhos e cabelos feitos de palha. A face no entanto, NUNCA pode estar sorrindo (não me pergunte porque) e os braços e pernas não podem ficar cruzados. Em algumas versões, um molho de chaves é colocada ao redor do pescoço da boneca, como um colar, preso com uma corda feita de cabelos humanos.

Um lápis, caneta ou mais tradicionalmente um pedaço de carvão é colocado na mão da boneca, junto de um papel. Não pode haver vincos no papel, os espíritos detestam isso (!!!). 

Percebam que eu não conheço esse ritual e nunca realizei ele, nem tenciono fazê-lo... quando era moleque tive meus dias ruins (e perdoem-me a palavra, meus cagaços) fazendo a infame brincadeira do copo e da tábua Ouija. Não sei todos os detalhes sobre o Jelangkung, mas dada a quantidade de pequenas regras que reuni lendo algumas páginas, minha conclusão é que se trata de algo extremamente meticuloso, e que demanda a observância de várias regras para ser feito da maneira correta. Para quem acredita nessas coisas, eu sugiro se informar a respeito e fazer uma pesquisa...

De qualquer maneira...

Os participantes colocam a boneca no centro de uma mesa redonda e acendem ao redor dela uma vela para cada participante. As velas são colocadas diante dos participantes e acesas no momento que a brincadeira começa. Uma coisa vital é o uso de incenso que precisa ser aceso no momento que o nome do espírito é mencionado pela primeira vez. Um tipo específico de incenso ajuda a atrair os fantasmas uma vez que ele tem qualidades espirituais.

Quando tudo está pronto, as pessoas ao redor da mesa devem dar as mãos e entoar um mantra ou encantamento, no qual o nome de pessoas mortas recentemente é repetido exaustivamente. Com o incenso queimando, as vias espirituais se abrem e pronto! Um espírito é atraído para dentro da boneca e aprisionado em seu interior, compelido a responder perguntas que são feitas pelos participantes, um de cada vez. As respostas são escritas pela mão da boneca no papel em uma caligrafia igual a da pessoa quando estava viva.


Ah sim, esqueci um detalhe importante!

Todos os participantes devem ficar de olhos fechados durante a sessão. Sob hipótese alguma eles devem abrir os olhos ou contemplar a boneca. Em teoria, se alguém estiver de olhos abertos, o ritual simplesmente não funciona. Os espíritos são "tímidos" e se negam a cooperar se alguém na mesa estiver espiando. Mas há pessoas que afirmam ser potencialmente perigoso abrir o olhos durante o Jelangkung: pessoas que abriram os olhos teriam inclusive morrido de susto ou de choque ao fazê-lo. Um espírito pode ficar furioso, possuir o corpo de um dos participantes ou coisa pior...

Uma das particularidades do jogo é que os envolvidos não podem usar vendas sobre os olhos, já que isso é considerado trapaça. O pior é que os espíritos podem usar de artimanhas para ludibriar as pessoas na mesa e fazer com que elas inadvertidamente abram os olhos. Há relatos de espíritos soprando, esguichando água ou mexendo nos cabelos dos participantes. Alguns chegam a sussurrar nomes ou lamber a face com o intuito de fazer a pessoa abrir os olhos e ver algo que não deve ser visto. Alguns relatos incluem participantes cujo cabelo ficou cheio de nós ou que tiveram tufos inteiros arrancados por espíritos mau humorados.

A boneca, uma vez possuída escreve as respostas no papel na ordem em que as perguntas são feitas. O molho de chaves ao redor do pescoço indica quando a boneca está se movendo, já que pode-se ouvir o tilintar metálico enquanto ela rabisca o papel. 

Terminada uma rodada de perguntas, os participantes soltam as mãos e sopram as velas diante de si que são apagadas. Assim podem abrir os olhos sem perigo. Em seguida, opapelé verificado e acredita-se que em muitos casos, palavras são escritass ali. As respostas são lidas em voz alta por um dos participantes que fica responsável por queimar as respostas depois de lidas. 

A seguir uma nova rodada pode ser iniciada seguindo o mesmo roteiro.

Em teoria, os espíritos são obrigados a responder as perguntas de maneira honesta e direta. Um simples "sim" ou "não" é o ideal, mas respostas mais longas podem ser obtidas. Muitas vezes os espíritos não respondem as perguntas por não saber a resposta, mas se a sessão for bem feita, os participantes irão tentar facilitar as respostas. A sorte, o futuro, questões de amor e dinheiro... tudo isso pode ser questionado ao espírito na boneca. É calro, como sempre acontece nesse tipo de brincadeira,se desencoraja perguntar coisas como "quem vai morrer primeiro".



Embora o jogo ainda seja muito popular na Indonésia, é fato que ele vem sendo duramente combatidopor grupos religiosos que o consideram uma brincadeira perigosa e profana. A Indonésia possui uma população muçulmana crescente que critica duramente o Jelangkung como uma forma de arte oculta ou magia diabólica. Os praticantes nos últimos tempos tendem a esconder as reuniões sempre que possível. Talvez o caráter proibido do Jelangkung tenha sido fundamental para torná-lo tão popular no país. De muitas formas, o "jogo" é uma maneira de chocar e desafiar as convenções, algo complicado na tradicionalista sociedade indonésia. 

Mas até que ponto o Jelangkung é real? Haveria realmente uma maneira de estabelecer contato com os espíritos e obter deles respostas para questões fundamentais? Valeria a pena participar de uma dessas mesas e correr o risco de ser possuído ou aterrorizado por um fantasma? 

Ao que parece, na Indonésia muitas pessoas estão dispostas a tentar a sua sorte para er um vislumbre do outro lado. Verdade ou não, o que é certo, é que a curiosidade humana com as questões consernentes ao outro mundo transcendem fronteiras, raças, desafia credos e doutrinas religiosas, proibições e tabus... o poderoso desejo de saber oq ue há além da morte é tão antigo quanto o tempo e provavelmente jamais irá se extinguir.

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