quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Werwolf Kommando - Os agentes que continuaram a lutar após a queda do Reich


Berlim, 1945.

A guerra na Europa havia terminado há poucos meses, mas alguns soldados simplesmente não queriam se render. As cicatrizes da guerra ainda estavam abertas e a população civil tentava se recuperar das tragédias e horrores experimentados.

Em meio a ocupação das tropas aliadas, da fome, das privações, desconfiança e do medo, ainda haviam nazistas fiéis aos ideais do partido, decididos a instaurar um regime de terror e punir os que cooperassem com os vitoriosos.

Um desses grupos ganhou notoriedade pelas suas ações e pela maneira brutal como enfrentava seus opositores. O grupo tinha um nome temido entre a população, sussurrado com medo nas ruas. Um nome que se tornou lendário: Werwolf Kommando.

A organização ganhou notoriedade pelo assassinato do prefeito nomeado pelos aliados, na cidade de Aachen, o Dr. Franz Oppenhoff em maio de 1945. O crime foi uma ação bem organizada e orquestrada por um grupo de ex-membros da Juventude Hitlerista (Hitlerjugend) e da Bund Deutscher Maedel. Eles eram jovens indocrinados pelos ensinamentos nazistas e fanaticamente devotados à servir causa ariana. Quando a Alemanha se rendeu, esses jovens juraram prosseguir em sua missão de espalhar o caos pelas cidades devastadas e aterrorizar os civis que cooperassem com as tropas de ocupação. O juramento do Werwolf Komando era salvaguardar a honra e jamais se render, traidores e colaboracionistas tinham que ser punidos.

Wenzel recebendo uma condecoração ainda em tempos de guerra
O assassinato de Oppenhoff foi levado à cabo por um soldado veterano chamado Herbert Wenzel, um segundo tenente condecorado por missões de infiltração e assassinato durante o conflito. Wenzel era um especialista em preparar explosivos, improvisar armas e matar furtivamente. Segundo alguns registros de guerra, ele matou nada menos do que 34 alvos, entre oficiais e civis na França antes da ocupação. Seu método preferido de execução era utilizar a lâmina de uma baioneta na nuca de suas vítimas, uma forma de matar silenciosamente que ele aprimorou com maestria. Oppenhoff foi morto dessa maneira, atacado pelas costas em um banheiro público, a baioneta com o símbolo da SS foi cravada na base de sua nuca. Na parede, os dizeres escritos com sangue ameaçavam: "Morte aos Traidores do Reich! Nós nunca nos renderemos!"

De acordo com várias fontes, a Organização Werwolf nasceu no outono de 1944 em um encontro realizado entre o Reichsfuhrer-SS Heinrich Himmler, Artur Axmann (Chefe da Jugendfuhrer), o SS-Obergruppenfuhrer Hans-Adolf Prutzmann, Ernst Kaltenbrunner e o Waffen-SS Obsturmbannfuhrer Otto Skorzen, todos estes, indivíduos chave na estrutura do Alto Comando nazista. Na reunião realizada em Hohenlychen, Himmler apontou Prutzmann para a tarefa de recrutar e treinar agentes para o Werwolf Kommando. Os agentes deveriam se especializar em armas leves, sabotagem, assassinato e comunicação. Acima de tudo, eles tinham de ser absolutamente leais e dispostos a servir o Reich, mesmo após a inevitável derrota. Os membros escolhidos para compor o Kommando foram levados para uma base onde células se formaram, os Jagdverband (Grupos de Caça).

O treinamento ocorreu no Schloss Hulchrath, próximo da pequena cidade de Erkelenz no Vale do Reno. O castelo na época era o quartel general da HSSPF-Oeste chefiada por Karl Gutenberger, oficial da SS, posteriormente condenado por crimes de guerra. Os primeiros 200 voluntários vindos da Juventude Hitlerista chegaram no final de Novembro e começaram seu treinamento sob o disfarce de voluntários para as fileiras da Waffen-SS. Eles foram instruídos no uso de pequenas armas e demolições, comunicação por rádio, sobrevivência urbana e em florestas. Alguns também receberam instruções sobre como conduzir interrogatórios e sessões de tortura. Os Kommandos aprendiam ainda a matar furtivamente, seguir pessoas e plantar bombas em lugares públicos. Recebiam treinamento com o emprego de veneno. Quantidades enormes de arsênico foram entregues para os esquadrões, supostamente com o objetivo de envenenar reservatórios de água. Muitos deles já dominavam técnicas militares, mas o treinamento os transformou em verdadeiras máquinas de matar. A equipe de Prutzmann montou outros centros de treinamento nos subúrbios de Berlim e nos redutos alpinos da Bavária. 

A cúpula nazista responsável pela criação do Werwolf Kommando
Uma vez concluído o treinamento de operações especiais de guerrilha, os agentes ganharam novas identidades e documentos. Eles receberam também permissão de deixar as forças armadas e se misturar à população civil antes da rendição ser assinada. Para todos os efeitos eles não tinham um background militar que pudesse ser traçado, eram verdadeiros fantasmas. 

Os agentes Werwolf não reportavam suas ações a ninguém, as missões eram planejadas pelas células que contavam com a ajuda de simpatizantes e tinham autonomia para escolher seus alvos. Bunkers subterrâneos contendo armas, material, comida, remédios e explosivos foram preparados para suprir os esquadrões Werwolf por meses. Os agentes deveriam operar à noite, sabotando e matando, ressurgindo de dia para se misturar à população civil utilizando passes falsos e papéis produzidos pelos melhores falsificadores da Gestapo. Para todos os efeitos eles eram literalmente lobisomens: homens confiáveis e pacatos durante o dia, que a noite matavam sem piedade.

Os alemães sabiam muito bem quanto dano uma célula de guerrilheiros podia causar em uma força militar de ocupação. Eles haviam sofrido severas baixas com Partisans atuando em várias nações sob seu controle. O estudo das operações de resistência nos Balcãs, na Polônia, Itália e França foi instrumental para que eles traçassem seus métodos. O plano era que os agentes pudessem atuar indefinidamente, contando com um suprimento de material e esconderijos que lhes daria uma vantagem contra os Aliados.

Em abril de 1945, as tropas aliadas, lideradas por americanos e ingleses cercaram Schloss Hulcrath e encontraram uma resistência férrea dos seus ocupantes. Por três dias, os defensores, homens com treinamento Werwolf, conseguiram manter os oponentes longe, recorrendo a um plano quase suicida: espalhar minas terrestres em todo o perímetro para deter a invasão. Entretanto, usando apoio aéreo e artilharia, os aliados reduziram o castelo a escombros. "Prefiro destruir esse maldito castelo por inteiro do que perder mais um único homem!" teria dito um tenente coronel britânico.

Membros da Juventude Hitlerista
Os poucos sobreviventes que ainda resistiam compartilharam de pílulas de cianureto quando ficou claro que eles seriam derrotados. Em uma última ação de desafio, eles vestiram trajes de gala e cometeram suicídio após fazer a saudação nazista. Antes, todos os registros e documentos das atividades do Werwolf, já haviam sido incinerados. O mais chocante é que os defensores do Castelo eram em sua maioria muito jovens, recrutas muito jovens escolhidos na Juventude Hitlerista, com idades variando entre 13 e 18 anos.

Mas felizmente, a despeito dos planos ousados e de todo o planejamento, o Werwolf Kommando não conseguiu atingir as tropas de ocupação conforme desejado. A maior ação da organização foi justamente o assassinato do Prefeito de Aachen, uma missão dramática, mas não obstante ineficaz, já que um novo prefeito foi colocado no cargo e os envolvidos acabaram capturados poucas semanas depois. Herbert Wenzel, o assassino de Oppenhoff foi julgado e condenado por sabotagem, o crime foi punido de forma exemplar e o tenente enforcado na prisão. Morreu como um fanático: gritando a saudação ao Führer, segundo testemunhas que assistiram a execução.

Assassinatos e planos de sabotagem esporádicos continuaram acontecendo na Alemanha ocupada, mas é difícil precisar quantos deles foram cometidos por agentes Werwolf e quantos por simples simpatizantes e ex-soldados insatisfeitos com a presença dos até então inimigos.

Em junho de 1945, um jipe com dois praças norte-americanos foi encurralado nas ruas de Nuremberg. Um grupo de cinco ou seis homens encapuzados fecharam a rua com rolos de arame farpado e metralharam o veículo até matar seus ocupantes. Em seguida o explodiram com granadas. Embora tenham havido rumores de que a ação foi planejada por agentes Werwolf, isso nunca foi comprovado. No mesmo mês, um bar frequentadopor soldados ingleses em Frankfurt foi pelos ares após uma explosão no porão. As autoridades que investigaram o caso afirmaram que havia uma bomba não detonada no subsolo da propriedade e que ela terminou por explodir justamente quando o estabelecimento estava mais cheio. Treze pessoas ficaram feridas, entre eles cinco soldados, dois civis morreram.

Hitler saudando os soldados do Reich cada vez mais jovens
Mas embora não houvesse um consenso se esses atentados foram ou não obra do Werwolf, entre a população alemã circulavam rumores assustadores. Agentes Werwolf poderiam estar em qualquer lugar, ameaçando e intimidando os civis dispostos a aceitar a presença dos soldados ou com eles negociar. Cartas ameaçadoras eram entregues para alguns cidadãos que abertamente ajudavam os inimigos. A carta trazia um símbolo que passou a ser temido: as letras W.W. de Werwolf. Portas de casas e muros também recebiam essas letras, uma espécie de marca que apontava para aqueles que cooperavam com as forças de ocupação. 

Em setembro de 1945, uma explosão numa fila de distribuição de suprimentos matou oito civis e um soldado, além de ter instaurado o pânico entre a população de Branau, uma pequena cidade a oeste de Mainz. Muitos afirmaram que a explosão havia sido planejada pelo Werwolf, uma vez que teriam havido ameaças prévias. Uma carta também foi enviada para um jornal reinvindicando a autoria do ataque e criticando os alemães que haviam traído o Führer. "O Reich viverá mil anos!" os autores da carta teriam escrito. Quatro homens e uma mulher foram capturados e julgados como autores desse ato terrorista, dois deles eram ex-membros da Jungerfuhrer. Jamais se soube ao certo se eles eram realmente os responsáveis pela explosão, mas o julgamento promovido às pressas os condenou a prisão perpétua.

Outra ação que atestava a ousadia da Organização, era a Rádio Werwolf, uma estação de ondas curtas que operava clandestinamente, transmitindo discursos de ódio e prometendo retaliação contra os traidores. Dois estúdios de retransmissão foram descobertos, um na Baviera e outro na Alta Silésia, onde haviam muitos simpatizantes do regime apesar da derrota.

A Rádio Werwolf ficou famosa por transmitir um suposto pronunciamento do antigo líder da HitlerJugen - Gebeitsfuhrer Mansfeld, que supostamente estava escondido em algum lugar da Baviera, se recuperando de ferimentos recebidos na batalha de Kharkov. O pronunciamento foi transmitido no dia 1 de fevereiro de 1946, e após sua transmissão cerca de 30 simpatizantes de um grupo chamado Kampfgruppe Harz atacou uma prisão onde eram mantidos soldados e oficiais. O grupo conseguiu explodir um buraco no muro do campo de prisioneiros e cerca de 70 homens, a maioria membros da Luftwaffe, conseguiram escapar. Apesar da Radio Werwolf ter declarado que a ação foi um sucesso retumbante, a maioria esmagadora dos fugitivos foram capturados ou mortos nos dias seguintes. 

A última grande ação reputada ao Werwolf Kommando ocorreu em abril de 1946, quando um grupo de alegados agentes atacou um arsenal vigiado por tropas britânicas no norte de Hamburgo. A célula formada por quatro ex-membros da notória divisão Fallshirmjager eliminou dois guardas e escapou levando um grande carregamento de explosivos e munições em um caminhão roubado. Três dias depois, o esconderijo onde eles estavam foi descoberto pelos britânicos que recuperaram todo o material. No local, encontraram planos para uma ação de sabotagem que visava detonar bombas em um quartel soviético.

Nazistas marchando na França ocupada
Os soviéticos aliás provavelmente foram os alvos mais frequentes do Werwolf Kommando. Suspeita-se que os territórios reinvindicados pelo Exército Vermelho, Berlim Oriental inclusive, tenha sofrido com sucessivos ataques de guerrilheiros, ainda fiéis ao regime nazista. O ressentimento pela derrota na Frente Oriental pode ter fomentado um grande número de ataques com explosões, ocasionando severas baixas nas tropas de ocupação. Mas não há como saber ao certo, já que os soviéticos jamais revelaram quantos de seus soldados foram mortos nesse período. Militares britânicos, americanos e franceses que viviam em Berlim afirmam que ataques a instalações soviéticas eram frequentes, quase que semanais.

Entre a população civil, rumores sobre atividades do Werwolf Kommando continuaram a surgir aqui e ali até a metade da década de 1950. Alguns afirmavam que os últimos membros remanescentes da organização decidiram abandonar a Alemanha e se dedicar ao trabalho como mercenários. Muitos membros do Werwolf teriam se filiado a Legião Estrangeira francesa, enviados para lutar na Indochina durante o levante da colônia do Vietnã. Alguns historiadores supõem que além de franceses, a Legião contava com muitos alemães em suas fileiras nessa época. De fato, a segunda nacionalidade mais comum entre os legionários, era justamente de alemães e austríacos, muitos deles criminosos de guerra e oficiais condecorados. Outro rumor frequente afirma que Agentes Werwolf encontraram boas opções de trabalho na América do Sul, tornando-se consultores militares na Argentina, Chile e Paraguai. Lá teriam compartilhado as técnicas de guerrilha aprendidas em seu treinamento nos dias finais da Segunda Guerra.

O Werwolf Kommando é uma prova cabal do extremismo dos seguidores do Reich Nazista, decididos a continuar seguindo a doutrina de seus líderes eles tentaram continuar a guerra além dos tratados de paz e do armistício assinado. Seu ódio ainda ardia, mesmo depois das armas silenciarem.

2 comentários:

  1. boa matéria, mas apesar de serem mais inspiradores para cultistas, existiram grupos mais obscuros ou que passaram por locais mais longícuos dentre as legiões de combatentes da 2a guerra: desde os franceses( de Gaulle esteve perigosamente em ruínas de Cartago com seus mistérios ancestrais, será que voltou mudado a ponto de não querer atacar a Argélia?) aos famosos partisans bielorussos que expulsaram os nazistas quase sozinhos, o nascimento da spetsnaz, os grupos na antiga Iuguslávia na terra dos vampiros, fora os grupos malucos da Waffen SS, com sanguinários de várias nacionalidades, uma verdadeira caixa de pandora. Fora a quase não contada 2a guerra em território chinês.

    ResponderExcluir
  2. O nazismo foi uma coisa horrível. Mas o que dizer do comunismo? Alguns descendentes de russos, fugidos durante a Revolução Soviética, são categóricos em afirmar o seguinte: Um Stálin valia por três Hitlers!!! Isso não é defender o Hitler, mas afirmar que os revolucionários comunistas foram (e são, já que o socialismo mudou de 'cara' e agora se chama 'social democracia') até piores. E se depender da mídia, NUNCA vamos ouvir nada contra o socialismo e o maldito comunismo. Reparem que só se assistem filmes falando mal do Hitler e das 2 guerras mundiais, NADA falando sobre o genocídio na Rússia, na Ucrânia (a Grande Fome), os ditadores cubanos, et caterva.

    ResponderExcluir