domingo, 27 de dezembro de 2015

Náufragos na Ilha do Demônio - Uma incrível estória de sobrevivência



Os mares sempre foram uma inspiração para estórias fantásticas a respeito de terras místicas perdidas entre as ondas e o horizonte distante. Parece haver algo de incrivelmente fascinante na exploração de terras longínquas e misteriosas, algo nos compele a buscar esses recantos na vastidão dos sete mares à procura de ilhas escondidas, onde florescem civilizações exóticas, povos desconhecidos e riquezas sem fim. Talvez nessas ilhas estejam ocultos antigos segredos, tesouros inestimáveis, maravilhas sem paralelo ou ainda perigos indescritíveis, mas seja o que for, elas continuam nos atraindo.

Mas o que acontece quando uma pessoa encontra um desses lugares lendários? O que acontece quando um navegador se perde em uma paisagem que jamais foi tocada por pés humanos? Encontra praias, florestas e recantos jamais trilhados pelo homem. Que tipo de maravilhas ele irá testemunhar e que horrores serão revelados? Para encontrar as respostas para essas questões, basta buscar a estória de uma jovem nobre francesa chamada Marguerite de La Rocque de Roberval, que experimentou uma série de acontecimentos em sua vida que culminaram com ela sendo lançada em uma ilha lendária, e segundo muitos, amaldiçoada, habitada por demônios e monstros aterrorizantes.

Essa é uma narrativa verdadeira sobre uma aventura notável numa ilha deserta e a prova definitiva da resistência do homem diante das adversidades.  

A Ilha do Demônio sempre foi um lugar legendário cuja existência era sussurrada por marinheiros. Segundo as superstições, era um lugar aterrorizante, onde a fronteira entre o reino do sobrenatural e o real se mostrava mais tênue e onde horrores inenarráveis se escondiam. Ninguém sabia sua localização exata, mas segundo as estórias, um dos maiores temores dos homens do mar era navegar à esmo e aportar em suas enseadas ermas e praias de pedras escuras. Aqueles que lá chegavam, raramente viviam para contar o que encontraram. A Ilha do Demônio ficaria no Golfo de Saint Lawrence, próximo da Costa de Newfoundland, no atual Canadá. As primeiras menções à sua existência factual vem de uma carta náutica francesa que a identificou com o nome de Ile des Démons.

O nome nem um pouco simpático surgiu com a primeira expedição a desembarcar em sua costa em 1508 e que fez detalhadas descrições do lugar. Os exploradores franceses custaram a encontrar um lugar seguro onde aportar. Ao achar uma enseada mais rasa, julgaram que ali seria um lugar adequado, e baixaram um bote, mas a medida que o grupo remava, espantou-se com o recorte escarpado de uma montanha negra que lembrava em aparência a forma corcunda e chifruda de um demônio gótico. Concluíram que aquele lugar devia ser assombrado, pois o mero acaso ou a natureza seriam incapazes de talhar o relevo irregular com formato tão sinistro. Além disso, ouviram de longe murmúrios do que julgaram ser almas penadas e fantasmas.

A praia estava coberta por uma neblina densa de aspecto cinzento que parecia rolar e se acumular além da arrebentação. Ao se aproximar o bote da expedição se chocou com rochas negras e pontiagudas ocultas sob a água turva. A avaria era séria e o barco necessitava de reparos imediatos. A praia se abriu diante deles, revelando um solo pedregoso e estéril, mais adiante havia uma floresta de árvores fechadas e sombrias. Os homens agarraram seus crucifixos e pediram imediatamente proteção, pois os ruídos que vinham daquela mata densa pertenciam a criaturas que eles desconheciam. Apesar do medo primitivo que os dominava, os marinheiros precisavam adentrar a floresta para obter suprimentos e madeira para consertar o bote. Além disso, seu comandante não permitiria que eles simplesmente dessem meia volta - aquela, afinal de contas, era uma Expedição de Descobrimento e eles estavam ali para explorar as ilhas daquela nova possessão reclamada pela França.

Segundo o diário do comandante Gaston Dupré Duvichy, os homens ficaram na Ilha por apenas cinco horas, tempo suficiente para avançar inseguros para seu interior, desafiando vários perigos. Relataram ter encontrado alcateias de lobos de tamanho anormal, disseram que a variação de temperatura na ilha era desconcertante, com lugares muito mais frios do que outros e contaram que o som dos murmúrios não parou em um único momento desde sua chegada. Para piorar, a ravina escura com formato diabólico parecia provocá-los, como se os desafiasse a se aproximar de seu destino. Os marinheiros concluíram que avançar pela mata era uma loucura: com certeza, demônios viviam lá dentro, na companhia de animais hostis e todo tipo de horror conhecido e temido pelo homem. Aterrorizados e próximos de se amotinar, os homens imploraram para retornar ao barco.

Duvichy no entanto, ordenou montar um acampamento enquanto um grupo de cinco homens seguisse em frente para buscar uma fonte de água potável. O tempo passou e ninguém retornava. De repente, um grito de gelar o sangue irrompeu da floresta. Dois marinheiros e o comandante avançaram com as armas em riste à procura dos companheiros desaparecidos. Não os encontraram! Ao invés disso, relataram ter achado uma clareira onde havia sinais inequívocos de uma luta selvagem e manchas de sangue. Os corpos haviam sido arrastados para uma parte ainda mais escura da floresta. Enquanto decidiam como proceder, um enorme vulto negro se esgueirou pela vegetação e agarrou um dos marinheiros que desapareceu gritando. Retornaram ao acampamento e decidiram se manter na praia com as parcas provisões coletadas, fazer o reparos e partir o quanto antes.

Ao chegar ao barco, os sobreviventes contaram tudo o que haviam visto e o cartógrafo responsável pelo mapa batizou a Ilha com o nome que julgou adequado: Ilha do Demônio.    


Depois disso, a fama da Ilha apenas cresceu. Não apenas por conta dos relatos coloridos dos marinheiros que pisaram em seu solo maldito, mas por que Duvichy era um homem admirado pela sua coragem e sobriedade. Sem dúvida ele não iria exagerar ou inventar tal experiência.

Foram necessários trinta e dois anos para que uma nova expedição fosse formada com o intuito de explorar a baia onde ficava a Ilha do Demônio. O Comandante era Jean-François de La Rocque de Roberval, um dos mais experientes navegadores e exploradores da época. Na Primavera de 1542, a expedição composta de três embarcações seguiu para o Novo Mundo. Roberval havia sido apontado como Intendente Geral na Nova França pelo Rei Francis I. O objetivo da missão era explorar e estabelecer uma colônia na região de Quebec, no atual Canadá. A concorrência de outros reinos era grande e a França precisava estabelecer um porto seguro no outro extremo do Atlântico para suas naus. Do contrário, ela seria prejudicada na disputa pelas novas terras recém descobertas.

Acompanhando Roberval na árdua viagem estava sua tripulação de confiança, cerca de duzentos colonos, alguns cavalos, animais domésticos e sua sobrinha, uma jovem de descendência nobre chamada Marguerite de La Rocque de Roberval. O comandante era o guardião legal da jovem. A natureza da relação entre os dois é matéria de discussão até os dias atuais, com alguns historiadores afirmando que Marguerite seria na verdade filha ilegítima do capitão, sua irmã mais nova ou mesmo sua amante.

A vida de Marguerite é um verdadeiro enigma, sobretudo o motivo pelo qual ela se sujeitaria a uma viagem tão perigosa e com perspectivas remotas de sucesso. Em primeiro lugar, Marguerite era bela e jovem, na idade de buscar um pretendente e desposar. Além disso, era rica. Seus pais haviam falecido em um trágico acidente, deixando para a filha, única herdeira de sua fortuna, vastas propriedades no sul da França, na região de Périgord e Languedoc. A resposta para a questão, por que uma moça educada e nascida em berço de ouro arriscaria sua vida em uma Expedição Naval, talvez jamais seja obtida, mas muitos apostam que ela se sentia compelida a essa jornada. Talvez ela fosse consumida por um espírito de aventura, ou quem sabe, estivesse tentando escapar de alguma situação delicada em seu lar. É possível ainda que Roberval a obrigasse a acompanhá-lo, muito embora os textos da época afirmassem a personalidade da jovem era nada menos que obstinada.

Seja qual for sua motivação, lá estava ela, à bordo da nau capitânia, dividindo um compartimento apertado, sujo e impessoal com simples colonos, sendo jogada de um lado para o outro pelo mar inclemente. Sem dúvida deve ter sido um tremendo choque de realidade para uma jovem de família nobre, que havia crescido em meio ao luxo, sendo paparicada e mimada desde a infância. Mas a despeito de sua criação, logo ficou claro para todos que Marguerite se saía bem executando tarefas mundanas. Além disso, circulavam rumores que ela havia se deixado seduzir por um tripulante chamado Etienne Gosselin com quem iniciou um tórrido romance. Existem poucas informações sobre a história de Gosselin, com teorias de que ele seria um cavaleiro ou soldado, ou mesmo um simples carpinteiro ou marujo à bordo. 

A despeito de sua identidade, Gosselin teve importante papel nos trágicos acontecimentos que iriam incidir sobre Marguerite e mudar drasticamente o curso de sua vida. O romance segundo o consenso geral não era nenhum segredo, e logo ele chegou ao conhecimento do comandante e guardião da moça. A despeito de se ignorar qual a exata relação de Roberval com sua protegida, sua reação foi no mínimo exasperada. Furioso com as fofocas ele ordenou que a moça fosse mandada para uma outra nau, enquanto que Goselin foi amarrado no mastro e chibateado com um chicote - o sinistro gato de nove caldas, pelo contramestre. Marguerite amaldiçoou seu guardião pela punição que quase custou a vida de seu amado, mas a vingança do capitão seria ainda mais cruel. Enquanto passava pela costa da lendária Ilha do Demônio, Roberval ordenou que o casal fosse abandonado em um bote furado. A punição de exílio era severa até mesmo para a época, quanto mais em um lugar considerado maldito. Talvez a decisão tenha sido tomada obedecendo algum rígido código moral ou valores religiosos, mas é possível ainda que a motivação do capitão tenha sido o ganho pessoal: na qualidade de guardião, as terras da jovem passariam ao seu nome na iminência de sua morte.


Lançados ao mar, Marguerite foi seguida pela sua camareira pessoal, Damienne, que decidiu acompanhá-la em seu terrível exílio. Desconhecendo a natureza do lugar onde foram abandonados, os náufragos remaram para a costa coberta de névoas antes do bote afundar. Aportaram na praia rochosa praticamente inexplorada. Graças a benevolência de um tripulante, eles tinham algumas facas, restos de corda, água e suprimentos reunidos em um saco lançado ao mar e recuperado pela jovem.

A despeito do horror de ver o barco de afastando, Marguerite e Damienne trataram de cuidar de Etienne que estava muito ferido e improvisaram um acampamento. O trio supostamente conseguiu encontrar refúgio numa caverna perto da arrebentação. As duas mulheres sentiram necessidade de explorar a ilha, embora se sentissem acuadas pelos estranhos sons que emanavam da floresta adiante. Ficaram apavoradas com a presença de animais exóticos e ferozes, mas a despeito de seu terror compreenderam que se ficassem para sempre na caverna acabariam sucumbindo a fome e sede. Por sorte, localizaram uma fonte de água doce e alguns arbustos com frutas comestíveis. 

Havia é claro o temor dos predadores locais, ursos, lobos e outras feras desconhecidas que espreitavam ameaçadoramente. As primeiras noites foram um verdadeiro pesadelo. Uma névoa cinzenta de aspecto sobrenatural descia sobre a praia dificultando a visão. Em meio a esse nevoeiro diabólico, formas mefíticas apareciam e desapareciam conjurando a imagem de fantasmas. Havia ainda o brilho de olhos avermelhados que surgiam na escuridão e de vultos gigantescos que espreitavam farejando o ar em busca de suas presas. Em mais de uma noite, os passos de alguma medonha criatura foram ouvidos pelos três confinados na caverna e na manhã seguinte as pegadas de horríveis bestas eram encontradas ao redor. Risadas, gritos e uivos eram também frequentes. Quando esses sons grotescos, produzidos sem dúvida por demônios e assombrações, se tornavam insuportáveis, Marguerite e Damienne recorriam a oração para se proteger. Rezavam a noite inteira, pedindo ajuda a todos os santos, implorando para que amanhecesse o quanto antes e as forças das trevas recuassem. 

Eventualmente, Etienne conseguiu se recuperar de seus ferimentos e ganhar forças para acompanhar as duas mulheres nas explorações. Os dias passaram e o grupo de náufragos encontrou os restos de um acampamento abandonado na ilha - supostamente da Expedição Duvichy ou de algum bando de contrabandistas desconhecidos. De lá recuperaram alguns objetos úteis para sobrevivência e uma arma de fogo ainda em bom estado.


Os três conseguiram sobreviver na caverna por vários meses, mas um dia, Damienne saiu sozinha para buscar água e não retornou. As buscas pela pobre mulher não resultaram em qualquer sinal de sua passagem. Ela simplesmente foi engolida pela floresta e desapareceu sem deixar vestígios. Algum tempo depois, foi a vez de Gosselin sumir enquanto tentava pescar na praia. Marguerite ficou então sozinha na Ilha do Demônio. Com seus suprimentos diminuindo, em condições terríveis com o inverno chegando, atormentada por lobos e ursos e a presença de outros predadores, além do terror imposto por fantasmas e demônios invisíveis, parecia questão de tempo até ela também desaparecer.  

Mas não foi isso o que aconteceu. Contra todas as adversidades, Marguerite sobreviveu. Talvez fosse a força de vontade que a impulsionava, o desejo de escapar da ilha isolada ou simplesmente a vontade de triunfar diante de todos os obstáculos... algo lhe dava ânimo e coragem para continuar, talvez o mesmo ímpeto que a compeliu a embarcar em um navio em primeiro lugar e se arriscar em um continente desconhecido.

É dito que Marguerite abandonou a caverna para buscar um lugar mais seguro e que ela encontrou tal lugar em uma outra caverna natural, justamente aos pés da horrenda ravina negra em forma de demônio. Lá ela se estabeleceu, extraindo água de uma fonte natural, se alimentando de raízes e caçando pequenos roedores abundantes naquela área. Marguerite aprendeu a superar o medo de tal forma que já não se aterrorizava com os supostos fantasmas e demônios, vagava pelo lugar, mesmo à noite, usando pedras para abater pássaros e deles se alimentando mesmo crus. Em sua luta diária pela sobrevivência, Marguerite teria afugentado um bando de lobos famintos que assolaram seu acampamento e espantado uma presença assombrosa - talvez um urso, brandindo uma espada aos gritos. Até confeccionou uma manta com o pelo de um lobo abatido com um disparo de mosquete.

Por dois anos e meio ela sobreviveu dessa maneira. No inverno, por duas vezes, chegou perto de definhar com a inanição, mas ainda conseguiu encontrar fibra em seu ser para resistir. No fim ela conseguiu triunfar sobre tudo o que a Ilha do Demônio lançou sobre ela. Quando ela enfim foi encontrada por acaso por um barco de pescadores bascos, Marguerite deveria se parecer com um dos demônios que as pessoas acreditavam habitar aquela ilha remota. Semi-nua, suja, extremamente magra, com os cabelos desgrenhados e olhos selvagens, endurecida pelas muitas privações e perigos, ela não tinha mais nada da sofisticada herdeira francesa. Ela lembrava muito mais um animal selvagem do que uma mulher. Os pescadores a resgataram e levaram até uma pequena colônia francesa onde ela foi reconhecida por dois habitantes que estavam na Expedição liderada pelo Intendente Geral da Nova França. Demorou alguns anos mas Marguerite conseguiu ser aceita à bordo de um navio que retornava para a França com uma inacreditável estória para contar.


Foi outra Marguerite, dessa vez a Rainha Marguerite de Navarre que ajudou a moça a se reerguer. Ao tomar conhecimento do ocorrido, ela ordenou que a jovem, que estava à bordo de uma embarcação na Espanha, fosse levada à sua presença para que contasse sua estória na corte. Como recompensa Marguerite recebeu uma boa soma de dinheiro e uma passagem para seguir para a França. Sua aventura relatada em detalhes foi recontada em um livro com o título, Heptaméron, publicado em 1558. As desventuras de Marguerite de La Rocque, se tornaram um romance bastante popular nos séculos seguintes em toda Europa. Seu nome passou a ser associado a façanhas de sobrevivência, força de vontade e resistência diante de adversidades.

Quando ela enfim retornou à França, Marguerite recebeu vários convites de nobres para visitar suas terras e relatar os incomuns acontecimentos de sua vida. Ela se tornou uma espécie de celebridade até se cansar daquilo e decidir partir para uma escola em Nontron, onde havia estudado quando jovem. Lá ela viveu até o final de sua vida, assumindo o papel primeiro de professora e depois de diretora da instituição. Ela jamais conseguiu reaver as terras de sua família, pois não conseguiu provar de maneira incontestável sua identidade.

E quanto ao cruel Jean-François de La Rocque de Roberval, o homem que abandonou a jovem Marguerite para morrer na Ilha do Demônio? Tudo o que se sabe a respeito dele, é que Roberval de fato retornou à França e reclamou a posse das terras que pertenciam a família de sua protegida. Aos 60 anos ele se tornara um senhor de terras e vivia em Languedoc. Do Novo Mundo havia trazido apenas más lembranças e uma doença que o atormentava enormemente. Sua tentativa de estabelecer uma colônia em Quebec havia falhado miseravelmente e ele não tinha mais a influência de que um dia dispunha. Quando soube do retorno de Marguerite, negou veementemente as acusações feitas contra ele e afirmou que a mulher não era sua sobrinha, mas uma impostora. Em uma visita a Paris, seu nome foi reconhecido e ele acabou perseguido pelas ruas da cidade, encurralado e espancado por uma turba furiosa. Ele não morreu imediatamente, mas jamais se recuperou de seus ferimentos, vindo a falecer anos mais tarde.

Mas até que ponto essa estória pode ser levada à sério?

A narrativa sobre a jovem menina de origem nobre que se aventura no fim do mundo, encontra o amor, é abandonada para morrer em uma ilha assombrada, sobrevive superando todos os obstáculos impostos e retorna anos depois, levanta várias dúvidas. Por exemplo, o que teria acontecido com ela no período em que ela foi resgatada da ilha e seu retorno à França? Muitos historiadores concordam que de fato Marguerite pertencia a uma família rica da baixa nobreza francesa e que ela viajou para o Novo Mundo na companhia de seu tio, o Intendente da Nova França. É um fato documentado que ela foi dada como desaparecida e que não chegou a Colônia de Quebec fundada por Roberval em 1542. Entretanto, até que ponto podemos levar em consideração as descrições da própria Marguerite para os acontecimentos na Ilha do Demônio? Lutar com lobos e matar animais selvagens parece um tanto exagerado para uma jovem de 18 anos levada a beira da inanição. Suas narrativas sobre a Ilha do Demônio incluíam fantásticas estórias sobre monstros medonhos, fantasmas e criaturas sobrenaturais obviamente resultado de sua imaginação. E se ela criou esses detalhes, provavelmente poderia inventar muitos outros para incrementar sua estória.

Alguns acreditam que os "fantasmas" e "demônios" da Ilha poderiam ser na verdade nativos que habitavam a costa e que evitavam a ilha por ela ser inóspito e cheia de perigos. De tempos em tempos, algum nativo podia até visitar a Ilha onde Marguerite estava confinada, encontrando uma mulher selvagem lá e se assustando com sua presença inesperada.


Outro mistério que desafia a estória de Marguerite de La Rocque de Roberval é a exata localização da ilha em que ela teria sido abandonada. A Île des Démons desapareceu dos mapas na segunda metade do século XVII quando o trabalho de cartógrafos se tornou mais confiável. Muitos afirmam que ela não passa de uma invenção, uma "ilha fantasma" que jamais existiu. Ainda assim, Marguerite foi exilada em algum lugar, portanto há muitas especulações de onde poderia se localizar essa ilha misteriosa. Uma teoria popular é que a lendária Ilha do Demônio seria de fato a ilha conhecida como Hospital Island, também chamada de Harrington Island, que fica no litoral de Quebec. Histórias contadas pelos nativos de geração em geração dão conta de que uma mulher selvagem habitou a ilha no passado e que até mesmo a sua caverna seria conhecida. Há estórias orais sobre fantasmas de um homem e uma mulher de pele branca (Gosselin e Damienne talvez) que vagavam pela floresta. 

Outra teoria é proposta pelo historiador marítimo e navegador veterano Donald Johnson que afirma ser Fichot Island a verdadeira ilha onde Marguerite foi abandonada. Próxima do Estreito de Belle Isle, localizado ao norte da ponta de Newfoundland. Johnson pesquisou por muitos anos a localização e encontrou alguns detalhes que chamam a atenção, entre os quais a grande quantidade de cavernas naturais na costa, as praias rochosas e a ravina escarpada em formato demoníaco. Ele encontrou uma explicação até para os medonhos murmúrios ouvidos pelos exploradores que chegaram ao lugar no século XVI: os sons seriam produzidos por pássaros marinhos chamados gannets que fazem seus ninhos do outro lado da enseada. Além disso, no passado, a Ilha seria habitada por lobos e ursos, corroborando as estórias que falam da presença de predadores naturais. Apenas para se ter uma ideia do grau de perigo dessa ilha, o cenário foi usado pelo especialista em sobrevivência Bear Grills em um episódio de seu programa.

Na sensacional estória de Marguerite de La Rocque de Roberval encontramos a mistura de elementos cativantes que parecem enraizados profundamente na psique humana: o lugar misterioso cheio de perigos e ameaças e o triunfo diante das adversidades para domar o ambiente selvagem. 

O que acontece quando chegamos a um lugar místico e desconhecido? Como lidamos com um ambiente cheio de ameaças e perigos? Como é possível domar a natureza mais exuberante e vencer o desafio da sobrevivência em condições quase inviáveis para o estabelecimento humano? E o que resta de civilização depois de tal experiência transcendental? 

Uma pessoa que muito provavelmente sabia a resposta para essas perguntas era Marguerite de La Rocque de Roberval, que encontrou a sua Ilha Perdida além do horizonte, e perseverou contra a fúria de todos os demônios reais e imaginários.

2 comentários:

  1. Devo dizer que adoro essas matérias sinistras. Não deixe de postar!

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  2. Uma boa ideia para um conto de horror dos mitos de Cthulhu. Ainda mais se a ilha fosse um refúgio de Cultistas de Shub Niggurath.

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