quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Tripulação de Esqueletos - Barcos à deriva no Mar do Japão


O termo "Tripulação de Esqueletos" (Skeleton Crew) é bastante difundido e seu significado via de regra, nada tem de sinistro.

Homens do Mar costumam apelidar assim as embarcações que zarpam com uma quantidade mínima de tripulantes para realizar os trabalhos de bordo. É costume que os navios tenham pelo menos um ou dois suplentes para assumir as funções essenciais e fazer com que, em caso de necessidade, uma determinada tarefa não seja negligenciada.

Entretanto, nos últimos meses, o termo "Tripulação de Esqueletos" vem sendo utilizado em um sentido mais literal. Nada menos do que doze embarcações navegando à deriva, foram encontradas no Mar do Japão pela guarda costeira. A maioria delas parece ter sido abandonada, mas outras levavam em seu interior os cadáveres de seus tripulantes.

"Nada a não ser restos humanos", como explicou um dos membros de uma equipe de resgate, responsável por abordar uma dessas embarcações macabras.

Os barcos são bastante rústicos, construídos com madeira leve, claramente não o melhor material para navegar nas turbulentas águas do Mar do Japão, uma região assolada por tempestades e ondas de até 12 metros nessa época do ano.


O mistério começou no início de outubro quando quatro pequenos barcos de madeira foram encontrados no estreito que divide o ponto mais oriental da Rússia e o Japão. Essas primeiras embarcações estavam vazias, com indícios de terem sido utilizadas até recentemente, como apuraram equipes de inspeção. Foram encontrados alimentos e alguns poucos objetos pessoais deixados pelos tripulantes. Em um primeiro momento, as autoridades da Guarda Costeira acharam que as embarcações pertenciam a pescadores japoneses e que estes às haviam abandonado após receberem informes sobre o mar agitados. Não é totalmente incomum que pescadores saiam para o alto mar à bordo de barcos de madeira mais frágeis, porém escoltados por outros mais resistentes. Ao primeiro sinal de dificuldades, as embarcações mais simples são descartadas e os tripulantes retornam em segurança.

Apesar da explicação ser perfeitamente lógica, a Guarda Costeira não encontrou nenhum registro sobre tripulantes que pudessem ter abandonado os pequenos barcos recentemente. Eles foram levados e levados para o Porto de Fukui para serem inspecionados.

A principal suspeita passou a ser que os barcos haviam partido da Coréia do Norte, levando em seu interior pescadores que sem o devido equipamento estavam despreparados para encarar mares revoltos. Apesar da suspeita, o governo japonês foi muito cauteloso antes de emitir qualquer informação sobre a origem dos barcos, sobretudo por que suas relações com o governo de Pyonguiyan é extremamente delicada. Além disso, as equipes de inspeção não encontraram documentos ou mesmo papéis que pudessem corroborar a teoria dos barcos serem norte-coreanos.

A outra possibilidade é que dissidentes estariam tentando escapar do regime comunista norte-coreano através do mar. Nesse caso, a suspeita sobre o destino dos tripulantes se torna ainda mais lúgubre, já que os norte-coreanos não permitem que seus cidadãos deixem as fronteiras sem a devida autorização governamental. A pena de deserção ou traição é prisão perpétua ou fuzilamento.

Enquanto o governo japonês tentava lidar com um possível incidente diplomático, outras oito embarcações apareceram em seus limites marítimos. Diante dessas descobertas, as autoridades não tinham mais como ocultar a situação da mídia. 


Diferente das embarcações anteriores que pareciam ter sido simplesmente abandonadas pela tripulação, estes barcos traziam uma carga sinistra: esqueletos e cadáveres em decomposição. O pesqueiro mais recente, encontrado à deriva semana passada, levava no porão sete corpos em avançado estado de putrefação, todos eles deitados em redes ou espalhados em estrados pelo pequeno compartimento de carga. Mais arrepiante era o estado de alguns cadáveres: dois deles foram encontrados decapitados, outro teve os pés amputados na altura do tornozelo, dedos e genitálias foram arrancadas e há sinais claros de queimaduras e tortura. A bordo de outro barco, as autoridades encontraram uma caixa de madeira trancada, dentro dela estavam seis crânios humanos.

"Não existe ainda um consenso a respeito do que aconteceu à bordo desses barcos ou quem teria provocado essas terríveis mortes", disse o Ministro de Relações Exteriores do Japão, Ryuki Massara. Às primeiras suspeitas sobre a origem dos barcos parece ter se confirmado, já que, em um dos barcos foi encontrada uma anotação escrita no idioma coreano. Um outro barco encontrado na costa da cidade de Wajia no norte do Japão, havia um cadáver que ainda vestia uma peça de uniforme do exército norte-coreano. Além disso, o modelo das embarcações é condizente às utilizadas por pescadores daquele país. 

Curiosamente, objetos pessoais pertencentes aos tripulantes foram removidos, recolhidos ou confiscados após o massacre. A causa das mortes não foi divulgada, mas as autoridades atestaram que as mortes não foram causadas por armas de fogo. A suspeita é que a Marinha ou a guarda-costeira Norte-Coreana possa ter deliberadamente atacado as embarcações e assassinado os tripulantes para impedir a deserção. No ataque usaram porretes e facas. Os barcos teriam sido deixados à deriva como uma forma de impedir através de intimidação outras tentativas de fuga. 

Desde o início do ano, o exército norte-coreano reforçou a vigilância de suas fronteiras para evitar as fugas cada vez mais frequentes. Isso pode estar levando as pessoas a tentar uma escapada desesperada pela rota mais perigosa, através do mar, usando embarcações que não estão preparadas para essa travessia.

O Regime Norte-Coreano não quis se manifestar a respeito das suspeitas e afirmou não ter conhecimento da tentativa de fuga de cidadãos ou de qualquer medida repressiva para impedi-los de chegar ao Japão.

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Caras, vou te contar: O ser humano não cansa de me espantar quando o assunto é crueldade. 


Fico imaginando um desses barquinhos pesqueiros sendo abordado pela Marinha Norte-Coreana com soldados armados. Eles vêm à bordo, capturam os tripulantes, recolhem seus objetos pessoais, torturam em busca de informações sobre desertores, jogam cadáveres ao mar ou simplesmente os deixam, abandonados para serem encontrados como um aviso do que ocorre com quem tenta escapar.

Pessoal realmente malvado, caso essa suspeita venha a se confirmar.

Tem algo de especialmente aterrorizante em embarcações à deriva transportando cadáveres. Algo que remete aos nossos medos mais primitivos, juntando a sina de fantasmas que tiveram mortes violentas e almas lançadas ao mar. Nem quero imaginar a carga negativa contida no porão desses barcos de madeira amaldiçoados.

Material perfeito para um cenário de horror.

Anos atrás, eu adaptei uma aventura cuja premissa era bastante similar. Nela, um Junco Assombrado com uma tripulação de esqueletos e um único sobrevivente, responsável pela morte de todos os ocupantes, era visto na Costa de San Francisco. Um grupo de investigadores do desconhecido era enviado para descobrir a verdade. 

Eu tinha a ideia de adaptar essa aventura para o Brasil de 1920, mudando elementos chaves e transformando o Junco Chinês em um Navio Negreiro Assombrado. Com essa notícia, a vontade de fazer a conversão só aumenta. Acho que vou procurar minhas anotações...

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