domingo, 31 de maio de 2015

O Cálice Amaldiçoado de H.P. Lovecraft (e outros tesouros menos conhecidos)


Muito se fala a respeito do ardente sentimento materialista e ateísta de H. P. Lovecraft. Para muitos, esse é um dos elementos que definem quem ele foi. Pessoalmente, um dos grandes "e se" da vida de Lovecraft, envolve os planos dele escrever um tratado a respeito da arte de debunk (expor) a verdade sobre superstições, um trabalho que ele estaria realizando para o famoso Harry Houdini - outro grande interessado em revelar um mundo sem crendices.

Mas apesar de estar claro para todos hoje em dia, que Lovecraft rejeitava veementemente o sobrenatural, isso não significa que ele deixasse de lado uma pitada de conhecimento mágico, ao menos, no que tange a origem de sua família.

Em março de 1934, Lovecraft escreveu uma carta para um de seus correspondentes regulares, Robert Barlow, que anos mais tarde seria reconhecido como uma das maiores autoridades em Antropologia Mesoamericana, especialista em raríssimos textos Nahuatl e hieroglifos Astecas. Em sua carta, Lovecraft discute sua genealogia, inclusive a alegada ligação de seus antepassados com a famosa Família Musgrave. Embora Lovecraft frequentemente discutisse o assunto (por vezes exagerando na existência de ancestrais ilustres para satisfazer seus interesses históricos), nesse caso ele traçou uma conexão incomum dos Lovecraft com um valioso tesouro pertencente aos Musgrave: "A Sorte de Edenhall"

Lovecraft escreveu o seguinte a Barlow:

"Essa é a lenda de Edenhall que fica em Cumberland, o berço da Família até tempos recentes. Ele é mencionado em um poema alemão, escrito por Uhland e mais tarde parafraseado em um verso de Longfellow – mas a versão original sobre a origem desse objeto é a seguinte: Trata-se de um cálice de cristal roubado por um membro da família Musgrave diretamente da corte das fadas, que fizeram tentativas improdutivas de recuperar a peça. Furiosa a Rainha das Fadas recitou a seguinte profecia, ou se preferir maldição, indicando que um desastre recairia sobre os Musgrave a não ser que o cálice fosse mantido intacto:

"If the glass either break or fall
Farewell to the luck of Edenhall"

"Se um dia o vidro quebrar ou cair,
Dê adeus à sorte de Edenhall"

Ele continuou na carta:

Na família realmente existem vários cálices de cristal, alguns muito antigos, sendo que um deles com certeza é o citado pela lenda. É claro, por conta disso, ele é guardado com todo o cuidado. Com a venda da propriedade em Edenhall, após a Grande Guerra, o cálice foi entregue aos cuidados do Museu de Kensington, em Londres. Eu espero que eles tomem muito cuidado, uma vez que se ele quebrar eu também seria afetado, já que tenho um pouco dos Musgrave em minha árvore genealógica".

[Correspondência Selecionada: 1932 – 1934. Volume IV. Editado por August Derleth e James Turner. Arkham House, Sauk City, Wisconsin p. 392, Carta 692]

O Luck of Eden Hall em seu primeiro registro no século XVIII
Uma versão mais longa a respeito dessa estória é que o cálice teria sido um tesouro conquistado por um grupo de heróis que desafiaram as fadas e as venceram numa disputa. Esse grupo teria retornado com o valioso tesouro que despertou a ira da Rainha das Fadas. Outra versão conta que o prêmio foi conquistado por um servo da Família Musgrave que de posse do tesouro ganhou a mão de uma das dama da família. As fadas teriam prometido vingança, e teriam tentado raptar o primeiro filho desse casal, sendo que o rapaz resgatou a criança, antes que ela fosse levada para o Reino Silvestre. 

Embora não seja de fato um cálice mágico fabricado pelas fadas, o "Sorte de Edenhall" não deixa de ter uma origem impressionante. Historiadores determinaram que o cálice ornado com prata provavelmente foi feito na Síria no século XIII. Ele parece ter deixado o Oriente Médio não muito depois de ter sido produzido, como evidencia a existência de um estojo criado especialmente para transportá-lo em segurança. Tudo indica que ele tenha feito a longa viagem, chegando a França no século XIV. Não existem informações de como ele foi parar na Inglaterra, mas é provável que ele seja um tesouro conquistado durante as Cruzadas. Sua qualidade superior, é claro, contribuiu para que sua criação fosse atribuída a fadas (elfos), que segundo o folclore britânico possuem uma lendária aptidão para produzir itens de rara beleza. 

Sabe-se que os Musgrave levavam muito à sério a lenda e por isso mantinham o cálice protegido em seu estojo, apenas raramente o removendo de seu descanso. Mesmo assim, algumas estórias mencionam ancestrais arremessando o cálice para o ar como forma de desafiar o destino. A peça é mencionada como parte do espólio dos Musgrave desde 1791.

Infelizmente a propriedade de Edenhall foi vendida e demolida em 1934, mas o cálice permanece intacto até os dias atuais, atualmente em exposição no Victoria & Albert Museum. O item foi emprestado ao museu em 1926, e mais tarde se tornou parte permanente da coleção do museu em 1956. 

Uma das condições para a doação do cálice por parte de seus donos, é que o Museu jamais permitiria que ele fosse avariado. A sorte dos Musgrave, afinal de contas, depende disso.


*     *     *

Eu adoro essas pequenas estórias e lendas que fazem parte da origem de certas famílias.

A descoberta desse artigo me lembrou de algo mais...

Em um grau estritamente particular, eu confesso que minha família possui uma tradição semelhante, um presente que passa de mão em mão há pelo menos três gerações e que hoje em dia está comigo.Trata-se de uma espécie de tradição que uma garrafa de vinho - antiga, muito antiga, seja passada de pai para filho. Meu avô recebeu do meu bis-avô (quando casou em 1930), ele passou para meus pai (em 1964) e foi parar comigo quando eu casei (em 2004). Para falar a verdade, meu pai sempre achou bobagem essas coisas, e eu meio que reclamei a garrafa para mim, como forma de preservar a tradição (...)

Quando perguntei a ele se por acaso a garrafa era ainda mais antiga, tendo passado de meu tris-avô para meu bis-avô, ou quem sabe até antes, ele não soube dizer. Eu tampouco saberia determinar, o rótulo na garrafa (que um dia existiu, pois é possível ver as marcas) desapareceu há muitos anos e não deixou pista alguma sobre sua origem. A pergunta seguinte foi: por que diabos, ninguém nunca abriu e bebeu?

Ele contou que em teoria, para o casamento ser feliz, a garrafa não deveria ser aberta. E disse isso com uma seriedade que beirava o tom solene. Ok, considerando que nunca houve caso de separação na família, talvez seja melhor manter a rolha no lugar, mesmo porque, desconfio, o conteúdo da garrafa deve ter azedado há muito tempo.

Enfim, quem somos nós (e quem sou eu?) para lutar contra o poder de uma tradição?

Já que a garrafa está em nossa família há tanto tempo, acho que posso considerá-la como uma pequena tradição. Nosso próprio "Sorte de Giehl Hall". Que jamais se quebre!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Spring-Heeled Jack - A Lenda do Maníaco Saltador que aterrorizou Londres


O século XIX foi uma época marcada pelo avanço científico e racionalidade; contudo, a superstição continuou reinando no dia a dia das pessoas. 

Antes de Jack, o estripador espreitar pelas ruas escuras de Whitechapel, um tipo diferente de terror supostamente vagava pelas ruas da Inglaterra Vitoriana. As estórias falavam de uma figura alta, usando um sobretudo comprido e com olhos vermelhos brilhando na escuridão. Uma visão apavorante, uma figura misteriosa capaz de saltar incríveis alturas e que ameaçava, perseguia e segundo alguns, até matava aqueles que tinham o azar de encontrá-lo. 

Era a década de 1830, e aqueles foram os tempos do Spring-heeled Jack (Jack dos saltos de mola, um nome horrível dolorosamente traduzido ao pé da letra).

No momento em que essa estranha figura fez a sua primeira aparição, o fenômeno agarrou a imaginação da nação e até hoje deixa historiadores sem palavras, pois o mito resistiu por mais de sessenta anos. Batizado pelos jornais e pelos tabloides interessados em lucrar com a estória de um monstro super-humano, este personagem fantasmagórico permanece até os dias de hoje como uma das mais longevas lendas urbanas da Inglaterra. 

A mais antiga narrativa sobre essa criatura menciona o Vilarejo de Barnes, um lugar notoriamente perigoso para se viajar à noite. Esta área remota de Londres (hoje em dia um belo subúrbio) foi onde o Spring-Heeled Jack foi visto pela primeira vez.

Era uma noite fria em abril de 1837 e um vendedor itinerante não identificado voltava tarde de seu trabalho. Em determinado momento, ele decidiu pegar um atalho que passava através do cemitério de uma igreja. Ciente do risco que estava correndo naquele lugar insalubre, ele acelerou o passo. Foi então que uma figura escura saltou do alto do campanário da igreja, caindo diretamente sobre as costas do pobre homem. No momento em que o comerciante viu os olhos vermelhos do fantasma, ele reuniu suas forças e correu sem olhar para trás. Este foi o primeiro testemunho a respeito do Spring-Heed Jack. Alguns relatos menores foram publicados em jornais nos meses seguintes após o ataque em Barnes, entretanto poucos identificavam a figura misteriosa como sendo o mesmo agressor.

Em 19 de fevereiro de 1838, o Spring-heeled Jack fez outra aparição, dessa vez nos arredores de Old Ford, próximo ao centro de Londres. Por volta das 21 horas, uma jovem de 18 anos chamada Jane Alsop ouviu uma batida na porta da frente de sua casa. Estranhando a presença de alguém a essa hora, ela ficou relutante em atender as insistentes batidas. Ela concordou em fazê-lo apenas quando o homem do outro lado se identificou como um policial. 

"Pelo amor de Deus, mulher," disse a voz aflita do outro lado, "traga uma lanterna aqui fora, nós capturamos Spring-heeled Jack aqui na ruela."

Jane correu para pegar uma vela e abriu a porta. Entretanto, no momento que destrancou o ferrolho, a porta abriu de supetão e a atirou no chão. Ao erguer a cabeça, ela se deparou com uma figura incrivelmente alta, vestindo um sobretudo escuro e segurando uma lanterna com uma luz tênue. Da sua boca aberta emanava uma fumaça azulada e fria. A luz da lanterna iluminava a sua face maligna e a jovem mulher foi capaz de ver os olhos de cor escarlate, as orelhas pontudas e um tipo de chapéu estranho em sua cabeça.

Antes de poder reagir, a figura macabra se agachou sobre ela segurando seus braços e a impedindo de levantar. A seguir o monstro começou a arrancar as roupas da moça usando uma navalha extremamente afiada. Os gritos de Jane acabaram atraindo suas duas irmãs que viram a cena medonha e começaram a implorar pelo socorro dos vizinhos. O agressor então se levantou e escapou fugindo pela rua enquanto as meninas batiam a porta. Como resultado do ataque, Jane foi ferida por vários cortes produzidos pela navalha do monstro. Em estado de choque ela contou às autoridades - que foram imediatamente chamadas - o que havia acontecido. As três irmãs deram o mesmo depoimento e descreveram o agressor com as mesmas características perturbadoras. Da casa da frente, uma viúva chamada Freda Carrington contou ter visto toda a cena. Segundo ela, assim que as meninas bateram a porta, Spring-Heeled Jack correu para as sombras e saltou habilmente no teto da casa, desaparecendo em seguida. 

Em 28 de fevereiro, o facínora atacou novamente. As vítimas dessa vez foram duas jovens chamadas Lucy e Sarah Scales, irmãs que andavam pela Green Dragon Alley, uma área respeitada de Limehouse. Por volta das 20 horas, uma figura escura confrontou as jovens saindo de dentro de uma viela e tentando agarrar Lucy pelo braço. Elas descreveram o sujeito como sendo muito alto e coberto dos pés a cabeça por um sobretudo de veludo preto. Na outra mão ele tinha uma lanterna. Lucy tentou resistir batendo na figura, mas ele a puxou com violência para a viela onde ambos desapareceram. Sarah correu aos gritos tentando encontrar ajuda e por sorte foi ajudada por dois soldados que estavam de folga. Os dois correram para o lugar onde tudo aconteceu e ao entrar no beco viram a jovem caída de costas desacordada. O atacante havia sumido. Lucy se recuperou dias depois do choque, suas roupas estavam rasgadas e ela sofrera cortes semelhantes a última moça atacada, mas o monstro não a havia ferido gravemente. Sua descrição foi semelhante a dada pelas demais testemunhas. Tudo levava a crer que se tratava do mesmo agressor.

Em 9 de janeiro de 1838, poucos meses depois da aparição no cemitério e antes do ataque envolvendo Alsop e as irmãs Scales, o Spring-heeled Jack já havia se tornado uma preocupação genuína, sendo tema de uma sessão oficial da Mansion House.

Sir John Cowan, Lord Prefeito de Londres, recebeu uma carta anônima assinada por alguém que se identificava apenas como "Morador de Peckham." O autor relatava que havia tomado conhecimento de uma aposta firmada entre um grupo de jovens nobres. De acordo com o "Morador de Peckham", a aposta envolvia um nobre vestir uma espécie de fantasia de fantasma ou demônio afim de assombrar vilarejos próximos. Esses jovens eram, nas palavras do autor da carta, "moleques de famílias importantes que apostaram 5 mil libras em uma brincadeira inconsequente".

A carta ia mais longe, descrevendo lugares onde pessoas deveriam ser atacadas pelo "fantasma". Bastou o até então cético Lord Cowan mencionar a questão em uma sessão, para dezenas de outras cartas inundarem a prefeitura, todas alegando onde, quando e como aconteceriam ataques perpetrados por indivíduos vestindo fantasias diabólicas. Cowan estava inclinado a acreditar que os ataques não passavam de uma brincadeira bem elaborada e de extremo mal gosto. Ele ordenou a criação de um inquérito policial que deveria solucionar o caso o mais rápido possível, antes que alguém acabasse machucado seriamente.

Duas investigações tiveram início, uma delas conduzida pelo escritório da Polícia Metropolitana e a outra por James Lea, um membro estimado da Patrulha de Bow Street. Lea havia conquistado certa reputação e era considerado o melhor detetive da Inglaterra, tendo resolvido o notório caso do assassinato de Maria Marten em 1827.

Lea entrevistou Jane Alsop e conclui que "em seu medo, a senhorita deve ter confundido a aparência de seu agressor". O detetive conclui ainda que a moça "havia bebido na véspera, ainda estando sob efeito enebriante do álcool". Apesar de ter chegado a essa conclusão, Lea continuou procurando evidências de um criminoso, prendendo e interrogando dezenas de suspeitos. A pista eventualmente acabou esfriando e a maioria dos suspeitos foram inocentados como meros bêbados, a maioria deles inofensivos. Insatisfeitos pelo procedimento empregado, o detetive foi removido do caso e o inquérito encerrado sem uma conclusão.

O abrupto encerramento da investigação foi muito criticado pela população que desejava saber mais a respeito do Spring-heeled Jack. A histeria fazia com que as pessoas enxergassem o criminoso em todo canto. Relatos de pessoas que haviam visto o misterioso criminoso se multiplicavam nos jornais. Diversas edições de Penny Dreadful dedicavam suas páginas a estórias envolvendo a terrível criatura, transformada em uma assustadora ameaça, chamada repetidamente de "O Terror de Londres."

Em primeiro de março de 1838, houve um relato - até hoje questionável, de que três mulheres haviam sido atacadas por um agressor ao longo da mesma semana. As testemunhas descreveram o criminoso como um homem alto, vestido com um manto e com chifres na cabeça. Em Woodham, um vilarejo nos arredores de Londres, três homens teriam atacado uma mulher e a violentado em um celeiro. A mulher relatou que um dos agressores disse ser o Spring-heeled Jack e que voltaria se ela falasse a respeito do que aconteceu. Em outro povoado, um homem quase foi linchado por uma multidão, apenas por dirigir a palavra a uma jovem. Capturado e arrastado para a praça o pobre diabo escapou por pouco de ser morto pela turba. Depois se ficou sabendo que ele era um marinheiro e que estivera longe da Inglaterra nos últimos anos.


Com o temor crescendo entre a população, as teorias mais absurdas afloravam: o Spring-heeled Jack seria um demônio que havia escapado do porão de uma igreja, para outros o fantasma era um espectro pertencente a um conhecido estuprador, morto um século antes. Para outros ele era de carne e osso, o filho degenerado de um Lorde da cidade, interessado em satisfazer seus desejos carnais. Mas em todos os casos, o nome Spring-heeled Jack havia se tornado sinônimo de "bicho papão".

Eventualmente, o temor público foi diminuindo a medida que as pessoas foram esquecendo da estória. Spring-heeled Jack foi lentamente esquecido, substituído pela iminência de outras preocupações e de outros problemas numa sociedade em acelerada transformação. É possível dizer que ele chegou perto de desaparecer por completo, tornar-se apenas uma estranha lembrança, uma nota de rodapé, o equivalente a um vilão de contos de fadas...

Em 12 de novembro de 1845, houve um último sopro que revigorou ainda que parcialmente a sua identidade. Tudo ocorreu em Jacobs Island, no embarcadouro ao sul do Rio Tâmisa. Uma figura misteriosa se aproximou de uma prostituta conhecida como Maria Davis. A figura encapuzada, trajando um sobretudo arranhou a mulher com garras afiadas com navalhas e ela sobreviveu apenas por que saltou do alto de uma ponte. A mulher foi retirada do rio e confusa deu a descrição do monstro que havia deixado cicatrizes em sua pele: um homem alto, de aspecto diabólico, com chifres na cabeça. Ele saltou do alto de um prédio e a atacou com garras afiadas. Alguns jornais falaram a respeito do caso, alguns lembraram do Spring-heeled Jack, mas não houve maiores consequências. 


O caso seguinte teve lugar em meados de agosto de 1877, no Quartel de Aldershot em Surrey, a 60 quilômetros do centro de Londres. Aldershot era o centro de comando do Exército Britânico, o lar de 10,000 soldados que protegiam a capital. Em uma tarde, um jovem sentinela estava guardando o portão norte quando percebeu um estranho movimento. Era uma figura encapuzada e muito alta. O guarda lembrou mais tarde que ouviu o som de molas de metal enquanto a estranha figura se movia saltitando. No exato momento em que o soldado deu ordem para o sujeito parar, ele executou um salto que o lançou além do muro que cercava o quartel. O guarda imediatamente acionou o alerta e outros soldados correram para capturar o invasor. 

O quartel foi todo revistado, mas nenhum sinal do estranho invasor saltitante foi descoberto, muito embora, nas semanas seguintes vários soldados tenham alegado ter visto (e ouvido) coisas estranhas. Temendo que algo sinistro estivesse acontecendo, o comandante do quartel ordenou que fossem distribuída munição entre os soldados e que a guarda fosse redobrada. Dias depois dessa medida, um soldado disparou contra um vulto acreditando se tratar do Spring-heeled Jack. Infelizmente, ele alvejou três cidadãos inocentes; um deles mortalmente.

O famoso tabloide londrino Illustrated Police News, famoso por vender notícias sensacionalistas estampou em sua manchete que aquele era o retorno do Spring-heeled Jack e ofereceu uma recompensa para qualquer pessoa que visse o maníaco. É claro, surgiram incontáveis narrativas em todo canto, algumas mencionando grotescos assassinatos e inexplicáveis mistérios sobrenaturais. Mas após alguns meses, as narrativas foram desaparecendo novamente, junto com o interesse do público. 

Três décadas se passaram até o nome do Spring-heeled Jack ressurgir no vácuo de outro acontecimento estarrecedor. Fazia quase 70 anos que uma figura vestindo sobretudo havia atacado um comerciante num cemitério no ano de 1837, e foram necessários outros crimes grotescos para o fantasma se manifestar uma vez mais. Em meio ao reinado sangrento de outro Jack, dessa vez o estripador de Whitechapel, a lendária figura do Spring-heeled foi resgatada. Em 1888, alguns acreditavam que os crimes haviam sido cometidos por uma entidade sobrenatural, o que era condizente com as lendas do criminoso saltitante.


Um jornal da época chegou a cogitar que o assassino de prostitutas conseguia se mover através do East End saltando por cima dos telhados dos prédios e sobrados. Dessa forma, ele conseguia iludir a polícia e seus perseguidores. Mas o horror dos assassinatos conseguiam suplantar até as mais sinistras estórias sobre o Spring-heeled. Em um inquérito público, um dos investigadores da Polícia Metropolitana se irritou quando um repórter perguntou se ele acreditava que os crimes eram cometidos pelo lendário criminoso. "Não temos tempo para esse tipo de bobagem" respondeu o investigador. O assassino real era bem mais assustador do que o da ficção.

Em setembro de 1904, uma nova aparição, dessa vez diante de uma multidão. Uma figura extremamente alta e veloz foi vista por mais de cem pessoas reunidas nos arredores da estação William Henry em Liverpool. A figura saltou do chão até o topo de um prédio e desapareceu diante das testemunhas atônitas que não sabiam o que pensar. Esta aparição, se é que se tratava do Spring-heeled Jack, marcou o primeiro avistamento da figura por um grande número de pessoas em plena luz do dia. Uma ousadia que até hoje permanece sem explicação.

O século XX abraçou o mito do Spring-heeled Jack de tal maneira que ele atravessou um século inteiro de transformações, sem alterar sua forma original. A figura seguiu fazendo aparições ocasionais e sendo frequentemente lembrado pela população. Na década de 1920, em 1940, 1950 e 1960, várias pessoas alegaram tê-lo encontrado nas ruas. Em 1967 ele teria atacado duas jovens em plena Trafalgar Square, em 1976 ele saltou no teto de um automóvel e dali para cima de uma estátua no Hide Park, em 1997, ele foi visto por um grupo de turistas japoneses que tiraram fotografias enquanto ele saltava para uma margem do Tâmisa... e é claro, ele ainda será visto centenas de vezes.

Desde a sua primeira aparição em 1837 o fantasma jamais foi apanhado, mas ao longo das décadas, o Spring-heeled Jack se tornou um termo frequentemente usado pelos habitantes de Londres, para descrever qualquer fenômeno sobrenatural ou de natureza ameaçadora. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

The Revival - Resenha do Livro de Stephen King, uma homenagem eletrizante ao Mythos

Por L.E. Peret

Em 2014, Stephen King lançou mais um romance que tem tudo para se tornar um clássico: “Revival”. King afirmou, em entrevistas, que tinha se inspirado em “O Grande Deus Pã” de Arthur Machen e em “Frankenstein” de Mary Shelley. Porém, uma influência que salta aos olhos, principalmente no final, é baseada no Mythos – em especial no clima narrativo de H. P. Lovecraft e em elementos de Robert Bloch. Vale lembrar que “O Grande Deus Pã” de Machen também foi uma das fontes de inspiração para Lovecraft.

Uma leitura que prende a atenção, “Revival” trata de perda da fé, drogas, eletricidade, morte, cura e rock’n roll. Tal como acontece em tantas obras de Lovecraft, é um texto autobiográfico, narrando em primeira pessoa a história de Jaime Morton, um homem comum, residente no Maine, estado norte-americano que ambienta a maior parte dos romances de King. O Maine também faz parte da Nova Inglaterra, mesma região onde ficam as cidades lovecraftianas de Arkham, Dunwich e Innsmouth.

A história acompanha a vida de Morton, desde os seis anos, quando ele tem seu primeiro encontro com o que ele chama de “Quinto Personagem”, o pastor Charles Jacobs. Numa ópera, o “quinto personagem” é o elemento que, mesmo não tendo um papel entre os protagonistas, carrega segredos dos mesmos e é o principal responsável pela movimentação da trama. E Charles Jacobs se presta a esse papel, ao se envolver com mistérios e segredos não apenas dos personagens, mas também da própria estrutura do universo. 

Jacobs é um pastor jovem, casado e com um filho pequeno. As famílias cristãs da pequena cidade rapidamente o acolhem com sua família, exemplos que eles são de uma relação estável e abençoada. A única coisa que ás vezes causa alguma estranheza é o entusiasmo quase obsessivo de Jacobs pela eletricidade e suas aplicações práticas. Ele é como um Tesla dos anos 70, tentando mostrar ao mundo os mistérios do que chama de “Eletricidade Secreta” e que, segundo ele, pode, mais do que acionar aparelhos e trazer conforto e comunicação para as pessoas, revelar os propósitos secretos de Deus.

Pouco tempo depois, as coisas mudam tragicamente e Jacobs desaparece. A história acompanha a vida de Morton e seus futuros encontros com Jacobs, em diferentes profissões e situações, mas sempre usando a “eletricidade secreta” de alguma forma – ora como charlatão e apresentador em um parque de diversões, ora como líder religioso novamente, às vezes atribuindo o curioso poder curativo da Eletricidade Secreta ao Deus cristão e, às vezes... a alguma outra coisa. Seja qual for a sua fonte, a estranha energia tem efeitos reais – e efeitos colaterais potencialmente perigosos.

Como acontece em outras obras de King, “Revival” traz elementos de política e religião, muita história e cultura norte-americana, usando um gancho sobrenatural para revelar o que há de melhor e pior nas pessoas comuns. O próprio nome do livro se refere aos encontros religiosos cristãos chamados “Reavivamentos”, realizados em grandes tendas, com muita música e evocações de “cura pelo espírito”, com o intuito de fortalecer a fé e coletar doações para fundos de caridade de instituições religiosas. É num desses “shows da fé” que Morton vai reencontrar Jacobs, em um dos momentos-chave da trama.

Em alguns momentos, a descrição muito detalhista da vida de Morton pode parecer arrastada, mas são pequenos detalhes que compõem um quadro maior, relacionado tanto ao desenvolvimento em paralelo dos fatos que não vemos imediatamente, quanto ao desfecho da trama. Algumas críticas, já comuns a outros romances de King, sugerem que o clímax é muito rápido e deixa um pouco a desejar, em comparação a tudo que aconteceu ao longo do livro; no caso específico de “Revival”, porém, o principal evento sobrenatural ainda deixa terríveis consequências após a sua passagem, além de enviar uma mensagem distópica e apocalíptica à Humanidade, no mais autêntico clima lovecraftiano. O final da obra bem que poderia ser resumido com uma homenagem a Dante: Abandonai toda a esperança, ó vós que entrais!



sábado, 23 de maio de 2015

Lugares Estranhos - A Floresta da Transilvânia - Os muitos mistérios de Hoia-Baciu


Florestas como todos sabem podem ser lugares muito sinistros. 

As árvores com seus galhos retorcidos bloqueando o sol. As sombras escuras se projetando sobre o solo coberto de folhas. Sons estranhos e misteriosos emanando das profundezas da mata. Os rosnados de animais selvagens ecoando a distância como uma ameaça permanente. Todos esses elementos conspiram para criar uma sensação enervante. Na maioria das vezes, não existe nada de realmente perigoso em florestas a não ser as sensações inquietantes que dominam nossa mente, ainda assim, para uma floresta sinistra localizada na mítica Transilvânia o medo pode ser mais do que mera sensação. Nesse lugar, os arrepios são causados por algo mais do que a imaginação.

A Transilvânia é uma terra icônica para os conhecedores do Horror Gótico. Ela é a lendária terra dos vampiros, carniçais e lobisomens, um recanto do mundo que parece concentrar as criaturas mais terríveis concebidas pela humanidade. Maldições, assombrações, horrores, essa região da Romênia reúne estórias, superstições e crendices que a tornam famosa mundialmente. E as florestas da Transilvânia talvez sejam responsáveis por muito dessa fama. Florestas escuras, sinistras, cheias de fenômenos inexplicáveis e eventos igualmente incompreensíveis.

A Floresta de Hoia-Baciu fica a oeste da cidade de Cluj-Napoca no coração da Transilvânia romena, uma área que ironicamente não é particularmente remota, pelo contrário, hoje em dia é bastante visitada, usada como área de recreação. A região se tornou popular entre os pesquisadores de eventos sobrenaturais em virtude dos estranhos fenômenos que lá ocorrem. Embora a floresta tenha uma extensão total de apenas uma milha quadrada (pouco mais do que três quilômetros quadrados), ela possui uma longa história como lugar maldito e evitado. Existem estórias a respeito de fantasmas, aparições, entidades espectrais, vozes sem corpo, desaparecimentos misteriosos, reações físicas inexplicáveis, avistamento de discos voadores, anomalias magnéticas, entre vários outros fenômenos. É difícil imaginar outro lugar no planeta que concentre um espectro tão vasto de anomalias bizarras em uma área tão restrita. Não é para menos que ela recebeu vários apelidos: "O Triângulo das Bermudas da Europa", "A Floresta Maldita", "O coração da terra negra"...

A Floresta de Hoia-Baciu 
Os habitantes locais até meados do século XX evitavam a região. Os registros históricos mencionam incontáveis lendas e um temor quase palpável a respeito da Floresta de Hoia-Baciu. De fato, o nome do lugar deriva de um acontecimento inexplicável. Segundo a lenda, um Baci, que é a palavra romena para "pastor", certa vez guiou suas ovelhas através da floresta ignorando as lendas sobre o lugar. Ainda segundo o mito, o pastor jamais emergiu da floresta, mas seus gritos foram ouvidos ao longo da madrugada por aqueles que habitavam um vilarejo na borda da mata. Apesar de uma busca ter sido realizada na manhã seguinte, nem o homem e nem as 200 ovelhas que ele conduzia foram encontradas. É como se ele e o rebanho tivessem sido engolidos pelo chão.

A região rapidamente ganhou notoriedade no folclore local como um lugar de onde não se retornava. As pessoas da região acreditam que a floresta é a morada dos fantasmas de camponeses que morreram de forma violenta durante rebeliões nos tempos medievais. Naquela época obscura, senhores tinham o poder de vida e morte sobre seus vassalos e podiam mandar executá-los por simples transgressões. Há lendas de senhores impiedosos que assassinavam famílias inteiras acusadas de matar animais pertencentes ao lorde ou de se negar a pagar impostos. Um mito bastante difundido é que os senhores ordenavam que os camponeses revoltados fossem enterrados no solo da floresta onde segundo a crença eles ficariam impedidos de descansar. "Aquilo que é plantado nessa floresta, jamais descansa, jamais conhece o sossego. O tormento é sua única recompensa, por toda eternidade", diz uma lenda romena.

A fama de ser assombrada sempre manteve as pessoas longe de Hoia-Baciu. Apenas a partir de 1948, o governo romeno decidiu construir uma estrada passando através dela. Até então, a floresta permaneceu quase inexplorada. Para a grande obra, inúmeras árvores tiveram de ser derrubadas e clareiras foram abertas para a passagem de máquinas. Dizem que muitos operários desistiram da obra por terem visto coisas estranhas naquele lugar ermo. Uma estória particularmente bizarra atesta que algumas grandes árvores verteram sangue ao invés de seiva, quando foram serradas pelos trabalhadores. Outra estória afirma que homens desapareceram em um recanto remoto e que os engenheiros resolveram contornar mais de um ponto onde as máquinas paravam de funcionar e onde pessoas sumiam sem deixar vestígios.

Não é difícil entender porque tais lendas surgiram em um lugar como Hoia-Baciu. A atmosfera na floresta é certamente intimidadora, com suas árvores ancestrais de troncos retorcidos cobertos de fungos e raízes se enterradas fundo no solo. Alguns mencionam troncos que guardam estranha similaridade com faces humanas. Muito se fala a respeito de equipamentos eletrônicos que simplesmente param de funcionar nos arredores da floresta. Mesmo bússolas não operam normalmente nesse lugar, com ponteiros girando sem parar, incapazes de mostrar a direção correta. Mas há mais...

Uma inquietante sensação de ameaça parece permear essa mata antediluviana. Uma das ocorrências mais frequentes entre os visitantes de Hoia-Baciu é a intensa sensação de apreensão que o lugar invoca. Não é incomum pessoas serem acometidas de crises de ansiedade, sede excessiva, a sensação de estar sendo observado, medo repentino e até mesmo ataques de pânico sem razão aparente. Outros sentem um forte desejo de escapar, mesmo sem serem capaz de explicar o motivo.


Visitantes também relatam fortes dores de cabeça, desorientação, náusea, tontura, desmaios e dores agudas em várias partes do corpo. Houve registro de pessoas que simplesmente perderam os sentidos, caindo inconscientes, despertando apenas horas mais tarde, quando afastadas dos limites da floresta. Há também relatos de indivíduos que experimentaram alucinações ou tiveram visões repentinas de coisas que aconteceram na floresta há muito tempo. Testemunhas afirmam ter viajado fora do corpo após desmaiar na floresta, ter visto o mundo de cima ou de ter habitado brevemente o corpo de algum animal selvagem.

Mais frequentes são as sensações descritas como inexplicáveis frios na espinha, arrepios, suores e choques elétricos. Pessoas sensíveis parecem ser as mais afetadas, com vítimas sofrendo hemorragia nasal, alergias severas, surgimento de erupções cutâneas: bolhas, verrugas, furúnculos e em alguns casos até mesmo queimaduras e marcas de mordida.

Toda essa aura de estranheza, somada a sensação de estar sendo vigiado por olhos invisíveis, e as reações físicas infligidas por forças ocultas se encaixam perfeitamente nas narrativas sobrenaturais em Hoia-Baciu. Uma variedade alarmante de assombrações são vistas no lugar, vagando entre as árvores ou viajando pelas estradas. Isso sem mencionar os ruídos desconcertantes: risadas e gritos que não parecem ser produzidos por seres humanos. 

Explosões de luzes são um fenômeno frequente e dizem que entre uma explosão e outra, faces transtornadas surgem no ar e podem ser vistas rapidamente. As mesmas faces desfiguradas também se materializam no tronco de algumas árvores milenares. Ocasionalmente um nevoeiro denso e cinzento se ergue do solo da floresta cobrindo tudo com um manto de umidade miasmática. As pessoas que atravessam essa névoa experimentam um frio intenso. Nos últimos anos, visitantes reportaram outra ocorrência fantástica nos arredores da floresta, com vozes estranhas e inidentificáveis emanando de rádios e celulares ligados. As mensagens são enigmáticas, em idiomas desconhecidos ou sem o menor sentido.

Uma das mais comuns formas de assombração vista na floresta envolve a aparição de luzes faiscantes que flutuam através das árvores aparecendo e desaparecendo do nada. Essas orbes luminosas voam livremente como os lendários Will' o' Wisps das lendas. Investigadores paranormais empreenderam sérias análises desse fenômeno utilizando equipamento científico como câmeras infravermelhas e detectores térmicos. Os especialistas descobriram que essas fontes de luminosidade móvel não emitem calor e não deixam uma assinatura térmica nos detectores. Eles também parecem surgir de modo inteiramente randômico, sem uma frequência ou ciclo de atividade. O que são? Como se formam? Ninguém sabe dizer...

A atividade de Poltergeists também são alarmantes na floresta, com equipamento eletrônico apresentando estranhos defeitos, da mesma forma, objetos parecem se mover por conta própria sendo agressivamente empurrados para o chão por forças invisíveis. Em um episódio do programa “Destination Truth,” um dos técnicos da equipe foi repentinamente empurrado caindo no chão enquanto o programa era filmado. De acordo com o restante da equipe, o homem em questão, Evan, estava assistindo uma gravação quando de repente uma explosão luminosa o atingiu fazendo com que ele "voasse" quase dois metros. O desorientado técnico sofreu arranhões e ferimentos menores, mas o susto foi tão grande que ele não retornou para completar o trabalho. Mais tarde ele contou ter sentido uma estranha vertigem e ouvido um ruído similar a vozes femininas instantes antes de ser "atacado". O episódio foi capturado em filme e examinado por especialistas que julgaram se tratar de uma forte reação telecinética. O mesmo programa conseguiu registrar as misteriosas orbes de luz durante suas filmagens. 
Se há fantasmas em Hoia-Baciu ou não, talvez nunca venhamos a saber, mas o lugar também é fonte de vários outros acontecimentos inexplicáveis, destacando-se o grande número de desaparecimentos. Alguns afirmam que mais de mil pessoas desapareceram nas imediações da floresta nos últimos 10 anos. A maioria dessas pessoas sumiu sem deixar traços. Os raros casos em que as pessoas desaparecidas retornaram, são cobertos de estranheza.


Um desses casos envolve o desapareciemnto de uma criança de apenas cinco anos que apareceu cinco anos mais tarde andando pela floresta sem rumo. Alguns afirmam que o tempo parecia não ter passado, pois a criança estava perfeitamente igual a quando desapareceu. Suas roupas eram exatamente as mesmas e estavam em perfeitas condições, algo virtualmente impossível para alguém que viveu sozinha naquele lugar isolado. Quando questionada sobre o que havia acontecido, a menina sustentou que não tinha lembrança alguma do que havia transcorrido nesse período. O caso foi investigado e nenhuma conclusão apresentada.

Para adicionar ainda mais elementos sinistros a farta história de bizarrice na região, a Floresta de Hoia-Baciu também parece assolada pela atividade de discos voadores. A floresta tem uma reputação antiga como área de avistamento de OVNIs. Os primeiros avistamentos datam de 1968, quando um biólogo chamado Alexandru Sift, que estava acampado no local estudando a vegetação, fotografou uma série de objetos em forma de disco sobrevoando a copa das árvores. Essas fotos foram acompanhadas pelo testemunho de pessoas em diferentes pontos da floresta que na mesma data viram as estranhas formas se deslocando pelo céu. Um técnico do exército romeno chamado Emil Barnea em 18 de agosto de 1968 registrou sons e imagens estranhas na floresta. Suas imagens são condizentes com supostos discos luminosos que mudavam de cor e forma. Ao longo dos anos 1970, Hoia-Baciu foi apontada como uma das áreas com maior atividade de discos voadores no mundo, sendo que em várias ocasiões fotografias e filmagens foram obtidas das mais variadas fontes. O mais recente avistamento ocorreu em 2002, quando dois moradores de um vilarejo nos arredores de Cluj filmaram da varanda de sua casa um objeto desconhecido sobrevoando a cidade a uma altitude de não mais do que 50 metros. O OVNI flutuou tranquilamente acima das casas e desapareceu atrás de uma nuvem.



A coleção de bizarrice em Hoia-Baciu vai ainda mais longe. Existe uma área isolada no coração da floresta que chama a atenção por ser totalmente vazia. A clareira de aproximadamente 300 metros de diâmetro não possui qualquer vegetação e demonstra um alto nível de energia eletro-estática com leituras anormais. Investigações nessa "área morta" não conseguiram explicar por qual razão a vegetação não se fixa nessa extensão. As amostras de solo não apontaram nada de extraordinário em sua composição. Aparelhos eletrônicos trazidos para a clareira param de funcionar em face da potente carga eletromagnética permeando ali. Habitantes das redondezas apontam esse inusitado círculo como o epicentro dos fenômenos paranormais e estranheza na floresta. Alguns explicam que foi ali que centenas de camponeses foram enterrados na Idade Média. Escavações na área não revelaram nada incomum abaixo do solo.


A variedade e intensidade dos fenômenos inexplicáveis em Hoia-Baciu, é claro gerou inúmeras teorias que tentam explicar o que acontece nessa floresta. Algumas explicações parecem plausíveis, enquanto outras são absolutamente absurdas. Uma teoria afirma que a floresta é uma espécie de portão ou janela para uma outra dimensão, ou que ela se encontra nos limites de duas realidades distintas. Os defensores dessa teoria expõem que as várias entidades e orbes são manifestações de outras realidades que cruzam o portão para o "nosso lado", e que as pessoas desaparecidas teriam sido levadas para essa outra dimensão contra sua vontade. Outros afirmam categoricamente que os acontecimentos tem relação direta com a atividade de OVNIs e que estes causam essas flutuações inexplicáveis. Uma outra vertente, menos popular atesta que a floresta seria um centro utilizado no passado remoto por sobreviventes da mítica Civilização de Atlântida que teriam deixado ali enterrado sob o seu solo objetos de alta tecnologia que permitiriam a abertura de portais, descargas de energia e teleportação.


A inexplicável zona morta no coração da floresta
Uma das explicações mais embasadas proposta por alguns cientistas tenta explicar os acontecimentos na floresta como decorrentes de frequências de ondas sonoras ultra-baixas, inaudíveis para o ouvido humano, mas capazes de criar a longo prazo efeitos físicos. Essas ondas sonoras seriam responsáveis pelas sensações de ansiedade e desorientação nas pessoas. As mesmas ondas podem desencadear desconforto e é claro, dores de cabeça, náusea, sangramentos e todos os efeitos reportados.

Segundo especialistas, ondas sonoras desse tipo podem se originar na natureza, estando ligadas a fenômenos naturais como trovões, terremotos, erupções e vendavais. A teoria poderia se encaixar em muitos dos fenômenos de Hoia-Baciu, mas ele não consegue explicar a atividade de poltergeists, os ataques físicos e a visão de objetos misteriosos, a não ser que as ondas modulares pudessem induzir alucinações, o que os cientistas refutam quase em sua maioria. Seja lá o que causa esta vasta gama de atividade paranormal, não há como negar que algo extraordinário está em ação em Hoia-Baciu. A floresta atraiu especialistas do mundo todo, em diversos para tentar decifrar seus enigmas, mas ninguém foi capaz de conceder uma explicação aceitável.


Florestas podem ser lugares realmente sinistros, mas aqui as coisas parecem ultrapassar os limites da estranheza: Atividades magnéticas OVNIs, fantasmas, assombrações, desaparecimentos... a região parece ter de tudo. O que acontece em uma área relativamente tão pequena para atrair essa quantidade de fenômenos inexplicáveis? Ela seria realmente a fronteira para uma realidade distinta? O que haveria no outro lado?

Talvez um dia venhamos a descobrir os mistérios dessa floresta e poderemos compreender o que se esconde nas suas profundezas inescrutáveis.

Por enquanto tudo o que podemos fazer é imaginar, e temer aquilo que não estamos prontos para saber.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Cthulhu Invictus - A Sétima Volta: Relato da Segunda Sessão


(cont...)

NOTA: Se você não leu a primeira parte e o histórico dos personagens, leia antes esses dois artigos:

Personagens da Campanha
Primeira Sessão

Aqui damos continuidade a nossa narrativa da Campanha "The Legacy of Arrius Lurco" para Cthulhu Invictus. Jogadeores que pretendem participar dessa campanha em alguma oportunidade devem parar de ler nesse momento visto que ela contém SPOILERS que estragariam as surpresas da campanha.

UMA NOITE DE CAOS

Na suntuosa Vila pertencente a Famiglia Arrius, os investigadores e outras pessoas que ali se esconderam se vêem mais protegidas,  a situação entretanto continua séria do lado de fora.

Germanicus percebe que a segurança da casa é feita por ex-gladiadores (que até recentemente se apresentavam na arena) e que os guardas estão barrando os portões para impedir qualquer tentativa de invasão. Os feridos (alguns em estado crítico) se espalham pelo pátio e pelo jardim, enquanto os patrícios recebem acomodações mais confortáveis para descansar. Arrius Lurco está na casa, ele foi escoltado até a propriedade pelo seu filho mais jovem, Arrius Melito e alguns escravos de confiança. Melito ainda tenta compreender o que aconteceu e se esforça em ditar ordens afim de proteger os convidados.

Longe dali, Quintus Tullius busca refúgio na casa de um conhecido e fica sabendo das notícias; um oficial da Cohorte Urbanae foi assassinado durante o tumulto e por isso a Guarda recebeu a permissão de desembainhar seus gladius para lidar com a turba. Segundo boatos ocorreram muitas mortes e depredação, o que levou o Imperador a ordenar um toque de recolher na cidade.

No começo da madrugada, as coisas começam a ficar mais calmas por conta desse toque de recolher, mesmo assim, aqui e ali, ainda pode-se ouvir gritos. Com uma escolta armada, Arrius Casca manda sua esposa e filhos deixarem a cidade em uma carruagem, a seguir ele se dirige para a Vila do pai. Quintus oferece seus serviços e acompanha o grupo.

Enquanto isso, o médico Tarquinius Philo é convocado às pressas para tratar dos feridos refugiados na Vila dos Arrius. Ele é escoltado por um grupo de guardas armados até o Monte Caelina e ao chegar à residência começa imediatamente a cuidar dos que estão espalhados pelo pátio. Logo depois, Arrius Casca chega a casa de seu pai. Sua entrada é intempestiva e imediatamente o primogênito confronta o velho Lurco. Por pouco, eles não chegam às vias de fato, uma vez que Casca acusa o pai de ter jogado o bom nome dos Arrius na lama. Em contrapartida, Lurco ameaça deserdar o filho. Furioso, Casca deixa a propriedade acompanhado de seus guardas prometendo que irá consultar um legis (advogado) para interditar o poder de seu pai como pater famiglia.

OPORTUNIDADES E PROPOSTAS

N amanhã seguinte, Roma ainda está chocada pela noite de violência desenfreada, mas as coisas começam a voltar ao normal. O mercado está aberto e as pessoas tentam voltar a sua rotina. Os investigadores planejam retornar a propriedade dos Verus, mas antes são interpelados por Arrius Melito que pede educadamente por uma reunião numa câmara privativa na segurança do distrito senatorial.

Apesar da violência na noite anterior, as coisas voltam ao normal em Roma
O grupo comparece a reunião e Melito agradece a eles pela ajuda durante o tumulto da noite passada. O rapaz está claramente incomodado com os acontecimentos e reconhece que sua famiglia passa por um momento delicado. Casca planeja contestar a autoridade de seu pai, e o velho Lurco não parece agir de maneira coerente.

Melito tem uma proposta a fazer aos investigadores. Ele não tem o direito de contestar o status do pai ou do irmão, mas pede que seus aliados da Casa Verus descubram o que levou Arrius Lurco a agir de forma tão descuidada. Melito teme que o pai esteja sob o poder de alguma força exterior (amaldiçoado quem sabe?) ou que tenha sido coagido a agir dessa maneira. 

Ele mostra uma tabulae defixiones, uma maldição escrita em uma folha de metal dirigida aos membros da Família Arrius. A maldição estava no pátio da casa, provavelmente alguém a atirou por cima do muro. Melito teme que aquilo possa ter influído nas ações de seu pai. O rapaz não faz ideia de quem encomendou a maldição ou porque. Amanicus examina o objeto e conclui que se trata de uma maldição encomendada a algum feiticeiro de renome, uma vez que este invocou Deuses do Submundo. [O fato da caligrafia ser perfeita, chama a atenção e o auguri conclui que é alguém instruído.]

Tabulae Defixiones
Melito aceita falar abertamente aos investigadores desde que eles guardem sigilo sobre suas confidências. Ele conta tudo que sabe a respeito dos acontecimentos na Casa Arrius e que envolve o Faccio Rosso.

As pistas são as seguintes:

- Arrius Lurco se afastou do comando da Casa e gradualmente foi deixando a maioria dos negócios à cargo de Arrius Casca que se mostrou um excelente administrador. Lurco tem agido de modo inconstante desde um sequestro sofrido nos arredores de Syrenaica, na Ilha de Creta, oito anos atrás. Na ocasião, Lurco, que havia viajado com o intuito de comprar cavalos, foi capturado por bandidos. Seus escravos foram mortos e por pouco ele conseguiu escapar dos rufiões e voltar para Roma. Após esse incidente ele nunca mais foi o mesmo.

- Apesar de estar longe dos negócios, Lurco continua tendo poder sobre os bens da Famiglia. Melito conta que o pai tem sistematicamente dilapidado os cofres da Casa Arrius. Seus gastos exorbitantes (na casa dos milhares de sestércios) depauperaram os recursos do Faccio Rosso. Ele comprou gladiadores veteranos ("Só Júpiter sabe, porque") e pagou enormes somas de dinheiro a um filósofo grego chamado Damokles de Gaius.

- Melito sabe muito pouco a respeito desse Damokles a não ser o fato de que ele é um obscuro filósofo e mestre em história. Alguns suspeitam que Lurco e Damokles sejam amantes, mas Melito acredita que o pai contratou o filósofo para escrever um livro. Damokles pode ser encontrado frequentando a Casa de Banhos de Nero onde ele é um cliente regular.

Que segredos esconde o distinto Arrius Lurco?
- Arrius Lurco contratou também um capitão de navio chamado Taccius Avitus, o comandante de uma embarcação chamada "Dama de Atenas". O contrato firmado entre eles foi de uma temporada de serviços. Melito não sabe explicar porque o pai precisaria de uma embarcação ou o que ele pretende transportar pelo Mare Nostrum.

- Recentemente, Lurco libertou sua escrava favorita Hedea. Melito sempre soube que o pai tinha Hedea na mais alta conta, a tratando com respeito e carinho. Ele desconfiava que o pai até pudesse casar com ela em sua velhice, lhe concedendo a liberdade e uma boa recompensa. Por motivos desconhecidos, Arrius libertou a escrava e passou para seu nome uma bela propriedade em Óstia. Contudo, ordenou que Hedea partisse imediatamente e deixasse Roma. É claro, Hedea tentou saber o que estava acontecendo, mas Lurco não a recebeu, ordenando que os escravos a removessem. Melito não sabe explicar o comportamento do pai, e supõe que isso possa estar ligado a sua loucura. Ele insinua que talvez Hedea saiba de algo mais.

O rapaz implora que os investigadores o ajudem a entender os acontecimentos. Ele propõe pagar uma boa quantia em moedas a Germanicus, Quintus, Amenicus e ao Dr. Philo. Já os irmãos Verus, Priscus e Falco estariam prestando um enorme favor aos seus aliados da Casa Arrius, um favor que poderia ser mais tarde retribuído.

INICIANDO A INVESTIGAÇÃO

Os investigadores decidem se dividir para dar início a sua busca por respostas.

Amanicus, Germanicus, Philo e Verus Falco decidem procurar pelo filósofo grego Damokles de Gaius. A única pista concedida por Melito sobre o seu paradeiro menciona a Casa de Banhos de Nero, uma das maiores  e mais tradicionais da cidade. Perguntando às pessoas certas e distribuindo algumas moedas, os investigadores ficam sabendo onde o filósofo reside. Trata-se de uma confortável residência na Alta Semita, uma área nobre da cidade, muito acima do padrão de vida de um filósofo.

O jovem aprendiz Senitus Bellator
Seguindo até o endereço, o grupo é recebido por uma mau humorada escrava grega que lhes informa que seu senhor está viajando e que deve demorar a retornar. A mulher parece interessada em afastá-los, mas Germanicus percebe que há mais alguém na casa espiando de uma janela. Verus ordena que a mulher abra caminho e com a ajuda de Germanicus eles entram. De fato, há mais uma pessoa na casa, um jovem ajudante de Damokles de Gaius, Senitus Bellator. O rapaz está trabalhando em uma série de cópias de manuscritos adquiridos pelo seu mestre. Desconfiado dos estranhos, ele diz não saber qual a relação entre Damokles e Arrius Lurco.

Amanicus observa os títulos espalhados sobre a mesa, e percebe que se tratam de volumes muito antigos versando sobre mitologia e lendas gregas clássicas: a tragédia da Medusa, o vôo de Icaro e Dédalo, o Labirinto do Minotauro... Amanicus pergunta a respeito do trabalho de Bellator, mas o rapaz insiste que é apenas um copista. O livro no qual ele está trabalhando é um manuscrito muito antigo sobre o a Lenda de Teseu e o Minotauro de Creta. O manuscrito parece ter pelo menos 200 anos e foi escrito em grego clássico. O auguri salienta que a lenda do Minotauro se passa em Creta, onde por coincidência Arrius Lurco foi sequestrado. Ele avalia o manuscrito em pelo menos 2 mil sestércios - uma quantia considerável.

Senitus revela que seu mestre está em viagem e que deve retornar dentro de algumas semanas. Verus Falco sugere comprar alguns dos manuscritos, mas o rapaz insiste que eles pertencem ao seu mestre, de modo que ele não pode dispor deles. Contrariados, os investigadores deixam o apartamento.

Enquanto isso, Verus Priscus e Quintus Tullius seguem pela estrada que leva a cidade portuária de Óstia. Não é difícil encontrar o endereço de Hedea, bastando perguntar a respeito de uma ex-escrava que se mudou recentemente para uma vila. A propriedade concedida por Arrius Lurco a Hedea é grande e imponente.

Hedea passou de escrava a domina
Os investigadores são recebidos pela mulher em seu jardim e eles percebem que ela ainda não se habituou com seu novo status de mulher livre. Hedea é uma mulher com traços delicados, ela está profundamente magoada por ter sido dispensada por Arrius Lurco. Logo fica claro que apesar de seu ressentimento, ela continua apaixonada pelo seu senhor e que deseja de todo coração retornar a Roma."Eu preferia viver como uma escrava de meu senhor Lurco, do que ser uma mulher livre longe dele" diz com lágrimas nos olhos.

Hedea acredita que seu dominus tenha sido de alguma forma enfeitiçado, Ela não acredita que Damokles de Gaius seja amante de Lurco, mas confirma que os dois passavam muito tempo discutindo no escritório com as portas fechadas. Ela não sabe o teor dessas longas conversas, mas reconhece que o filósofo foi convidado a dormir na casa repetidas vezes.

Hedea desconfia de outra estrangeiro, que ela chama de Mobaba. Ela o descreve como um homem velho, com uma longa barba branca e um estranho adereço na cabeça. Esse homem é um sacerdote de uma religião trazida da Província da Iudea. Ela teme que esse homem tenha de alguma forma enfeitiçado seu dominus utilizando rituais de "bruxaria semita". "Mobaba" reside em um templo nos subúrbios de Roma em Caelemontium. Hedea não sabe qual a relação do sacerdote judeu com seu senhor, mas diz que Arrius Lurco o visitava frequentemente e levava para ele muito dinheiro.

Questionada sobre o sequestro de Arrius Lurco em Syrenaica anos atrás Hedea franze a testa preocupada. A ex-escrava conta que seu senhor voltou diferente após essa experiência. "Foi ali que ele começou a agir de forma estranha". Ele passou a sofrer frequentes pesadelos, mas jamais foi capaz de recordar tudo o que aconteceu enquanto estava em poder dos bandidos cretenses. Hedea supõe que tenha sido por causa desse sequestro que seu dominus começou a se afastar dos negócios e passar o controle da famiglia a Casca.

Hedea pede que os investigadores intercedam junto a Arrius Lurco, para que ele permita seu retorno a Roma. Ela escreve uma carta banhada em perfume endereçada a Arrius Lurco. Uma vez fora da vila, Quintus abre a carta e lê. Na missiva, Hedea implora para ser aceita de volta e faz juras de amor eterno ao seu senhor. Constrangido pela indiscrição, ele fecha a carta e decide entregá-la a quem é de direito.

Os dois decidem descansar em Óstia numa casa pertencente a famiglia Verus e na manhã seguinte, irão procurar pelo Capitão Taccius Avitus no porto.

E foi aqui que a sessão parou.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Escrito em Pedra - Inscrições da Grande Guerra encontradas na França

Haunting Traces Of WWI Soldiers Found In Medieval French TunnelsArqueólogos esbarraram em uma incrível descoberta há algumas semanas.
Em uma escavação de rotina para remoção de neve, um grupo encontrou uma série de inscrições deixadas por soldados durante a Primeira Guerra Mundial. As inscrições, mais de duas mil no total, foram gravadas nas paredes de um túnel que servia como proteção para camponeses durante os períodos mais severos do inverno ou em meio a cercos durante a Idade Média.
O local, conhecido como Cavernas de Naour, faz parte de um complexo subterrâneo natural que se estende por mais de três quilômetros, formado por dezenas de túneis, câmaras e recessos, muitos dos quais até hoje inexplorados. Durante os dias negros da Idade Média, os camponeses buscavam refúgio nessas câmaras para se proteger de inimigos e para encontrar um refúgio mais confortável quando a temperatura baixava. No interior dos túneis as pessoas podiam se esconder por semanas, contando com um abastecimento de água subterrâneo. O túnel foi bastante usado até meados do século XVII, quando a entrada principal foi bloqueada por soldados que descobriram o acesso e resolveram prender as pessoas em seu interior. Em 1887, foi realizada uma exumação dos corpos de mais de trinta indivíduos que haviam morrido no interior do complexo. Depois dos corpos serem retirados e devidamente sepultados, a entrada foi lacrada uma vez mais. Havia estórias sobre o lugar ser assombrado e o pároco da época decidiu não alimentar os rumores lacrando a entrada.


A fascinante descoberta de que o complexo foi usado durante a primeira década do século XX é simplesmente fantástica. O arqueólogo Gilles Prilaux, do Instituto Francês de Arqueologia, foi chamado para verificar as estranhas marcas e atestou sua autenticidade, elas foram deixadas por soldados em 1916.O acesso alternativo aos túneis foi encontrado por uma equipe de limpeza de neve, tratava-se de um portão de pedra que estava bloqueado.

As pedras, provavelmente foram colocadas ali pelos soldados quando eles deixaram o local e não foi difícil removê-las. Ironicamente, o lugar ficou fechado por quase cem anos sem que ninguém soubesse de sua existência.

Prillaux já havia realizado pesquisas nos arredores das Cavernas de Naour, mas até então, não tinha conhecimento da existência de uma entrada alternativa. Seus planos eram estudar a utilização do lugar durante a Idade Média, mas a nova descoberta fez com que ele mudasse o foco de suas pesquisas: "É com o tropeçar em um grande mural histórico, com o nome e pensamentos de homens que viveram há mais de 100 anos e deixaram gravado na pedra aquilo que sentiam, às vésperas de um dos mais sangrentos episódios da Grande Guerra, a Batalha do Somme".

Com a ajuda do fotógrafo Jeff Gusky, uma equipe foi capaz de documentar 1.821 nomes e iniciais, que já foram identificadas como pertencentes a 731 australianos, 399 britânicos, 55 americanos e uma quantidade ainda desconhecida de franceses e canadenses. Centenas ainda serão identificadas.

Além dos nomes, alguns soldados deixaram mensagens para parentes, amigos e colegas, pensamentos, poesias e aspirações, sobretudo o desejo de retornar para casa assim que a guerra terminasse e de encontrar um mundo pacífico.

Um soldado escreveu em francês as seguintes palavras:


"No fundo desses túneis, um simples soldado veio se proteger. Aqui ele encontrou refúgio do frio e da escuridão. Na companhia de seus irmãos de armas, ele teve a oportunidade de sonhar com dias melhores. Que esses dias cheguem logo, para o bem de toda humanidade".


O sítio, localizado próximo ao Campo de Batalha do Somme foi largamente utilizado pelas tropas francesas e de seus aliados como alojamento temporário. Os soldados provavelmente encontraram os túneis acidentalmente e o utilizaram como abrigo, assim como faziam os camponeses. O local parece ter se tornado bastante popular, como uma espécie de memorial, usado por aqueles que se preparavam para seguir rumo ao front e encarar a possível morte.

*     *     *


Eu fico imaginando o que mais poderia ser encontrado nesse túnel. A notícia me deu várias ideias que eu compartilho aqui com os colegas. 

O Testemunho - Quem sabe um relatório tenha sido escrito por um oficial francês. Esta é a única fonte conhecida de algum episódio misterioso ocorrido durante o Caos da Guerra. Talvez, esse oficial tivesse receio de falar sobre uma descoberta bizarra, um evento que ele testemunhou, algo inexplicável ou aterrorizante que preferiu deixar registrado no túnel. Provavelmente seus superiores não levariam a sério suas palavras e o acusariam de inventar ou alucinar esses fatos. Talvez por isso, ele tenha guardado essa narrativa em uma bolsa e enterrado sob um monte de pedras para que ele fosse encontrado mais tarde. Infelizmente sua narrativa jamais foi achada, até agora...

O Artefato - Também é possível pensar na existência de algo mais estranho. Quem sabe, um grupo de soldados tenha sido chamado para escavar uma trincheira e durante seu trabalho desenterrou algo inexplicável. Talvez eles tenham achado uma estátua pertencente a um Deus Negro Ancestral, cheio de tentáculos e uma aura de maldade sufocante. Talvez eles tenham encontrado uma adaga amaldiçoada, enterrada ali desde os tempos da Guerra dos Cem Anos que coalhou esse mesmo solo de sangue. O que será que essa adaga é capaz de fazer se a sua lâmina for suja de sangue uma vez mais? Os soldados teriam escondido sua descoberta nas profundezas da caverna esperando que ela jamais fosse encontrada e por cem anos ela ficou na escuridão silenciosa. Sua longa espera terminou.

Os Famintos - As cavernas eram usadas por camponeses durante as frequentes guerras medievais e um grupo se escondeu ali dentro tentando escapar de seus inimigos. Ao invés disso, encontrou apenas a morte na escuridão, causada pela inanição. E se um ou mais desses pobres camponeses tivesse aderido ao canibalismo? E se eles tiverem, com base nessa medida desesperada, se transformado em algo blasfemo? Quem sabe uma comunidade de carniçais (ghouls) ainda vive nas profundezas, tendo hibernado por décadas, aguardando a chegada de visitantes depois de tanto tempo.  

O Culto Profano - E se o complexo não ficou realmente abandonado por todo esse tempo? E se o lugar era usado por um bando de cultistas que realizava rituais profanos no interior das cavernas? Pior ainda: e se o complexo for o reduto de uma criatura invocada das estrelas e que se alojou na porção mais profunda do complexo. Nyogtha? Tulzcha? Um Lloigor extremamente poderoso? Há muitas entidades que poderiam se ajustar a esse cenário.  É possível que os cultistas conheçam algum outro acesso que não foi encontrado e agora, é questão de tempo até ele ser descoberto por curiosos. Talvez eles tenham de agir o quanto antes para evitar que um grupo de arqueólogos e historiadores encontre seu centro de poder.

Os Fantasmas - Quem sabe o complexo seja realmente assombrado por espíritos e assombrações presas em seu interior. Esses espíritos pertencem aos camponeses ou aos soldados mortos, capturados ali há tanto tempo que nem eles mesmos sabem que estão mortos. Talvez os investigadores tenham de lidar com esses espíritos e dar a eles o devido descanso. Um exorcismo pode ser a solução, mas será que isso será suficiente?

As Inscrições Malditas - Talvez não haja apenas nomes escritos nas paredes da Caverna de Naour. É possível que alguns soldados tenham encontrado algo tenebroso habitando esse complexo subterrâneo e para impedir que ele fosse à superfície entalharam uma série de símbolos de proteção e trechos de uma magia de contenção nas paredes rochosas. Esse encantamento deveria lacrar a coisa que habita os túneis e conter seus esforços de ascender à superfície. O feitiço funcionou por todo esse tempo, mas agora que um grupo de arqueólogos está mapeando as paredes e recitando os estranhos nomes, o encantamento pode perder seu efeito.

E vocês? Tem alguma ideia usando a notícia que gostariam de compartilhar?

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Cthulhu Invictus - A Sétima Volta: Relato da Primeira Sessão


Olá pessoal,

Segue um pequeno relato do andamento da campanha "The Legacy of Arrius Lurco" de Cthulhu Invictus que eu estou narrando em sessões regulares.

A campanha escrita por Oscar Rios foi publicada pela editora Miskatonic River Press e é, na minha humilde opinião a melhor campanha de Cthulhu nos tempos de Roma.

Para não ficar muito extenso, vamos direto aos acontecimentos até o momento. Para os que não leram o artigo que apresenta os personagens dos jogadores (PCs) e os coadjuvantes, aconselho dar uma olhada para se situar melhor no contexto do cenário.

UM DIA NAS CORRIDAS


Roma 130 CE

Roma está agitada pela aproximação de uma data marcante no calendário de acontecimentos da Capital do Império. A temporada de corridas de Bigas no Circus Maximus está em um de seus anos mais acirrados, com Faccios (times) disputando palmo a palmo a hegemonia nas corridas.

As corridas de Biga são o esporte principal do Império Romano. Para se ter uma ideia da paixão dos romanos por essa modalidade, basta mencionar a quantidade de pessoas atraídas pelas corridas: mais de 200 mil. As disputas atraem pessoas vindas de todas as classes sociais e das mais distantes províncias do Império. Pessoas que adoram a competição e que torcem de maneira fanática para seu Faccio predileto. Nos bastidores, apostas monumentais são realizadas, fortunas são ganhas e perdidas, condutores se tornam verdadeiros heróis da noite para o dia e os chefes das facções são adorados ou odiados pela plebe. As corridas são um grande negócio movimentando fortunas consideráveis. 

A surpresa dessa temporada tem sido o desempenho do Faccio Rosso (Facção Vermelha), liderado pela Casa Arrius que conseguiu significativas vitórias no Circus Maximus, a principal pista do Império. Sempre um azarão, o Faccio Rosso emplacou uma sequência de vitórias que o colocou em pé de igualdade com as tradicionais facções Verdi e Azure (as mais fortes). Os boatos dizem que tudo isso se deve a liderança arrojada de Arrius Casca, o primogênito de Arrius Lurco que recentemente se afastou dos negócios.

Como amigos e aliados da Casa Arrius, membros da tradicional Casa Verus (os PCs) são convidados para assistir a importante competição num camarote de honra do imponente Circus Maximus.

A ocasião formal é de extrema importância, já que ela marcará a primeira aparição pública do ex-centurião Priscus Verus, que retornou recentemente da Britannia. Um acontecimento de tamanha importância atrairá os olhos de todos os aristocratas do Império e será de extrema importância para mostrar que a famiglia está unida. Sabendo o que está em jogo, Decimus Verus Falco, irmão mais novo de Priscus se prepara para o evento, trajando os símbolos que o identificam como Pater Famiglia. Ele incumbe seus homens de confiança, o guarda costas e ex-gladiador Germanicus e seu finder, Quintus Tullius a prestar atenção em todos os acontecimentos. 

O Monumental Circus Maximus
Amanicus, o auguri à serviço da Casa Verus também é um dos convidados. Antes de seguir com a comitiva ele consulta os deuses em busca de informações sobre o que está por vir. Ele se impressiona com os augúrios de que esse dia marcará o início de algo extremamente importante para a Casa Verus.

Com toda pompa e circunstância, os membros da Casa Verus acompanhados de uma comitiva de escravos e convivas, seguem pelas ruas de Roma a caminho do Circus Maximus. Uma chuva de pétalas de rosa atiradas das casas os saúda e moedas são distribuídas entre os plebeus que aplaudem efusivamente.

O Circus está lotado, Roma parou para assistir o grande acontecimento e o ar parece carregado com a expectativa de um espetáculo monumental.

No camarote da Facção Vermelha, os convidados são recebidos calorosamente e tem a chance de conversar brevemente com Arrius Casca que os saúda como importantes aliados. Há togas púrpuras entre os presentes, denotando a presença de dignatários da mais alta estirpe: senadores, políticos e patrícios. Há boatos em toda parte, alguns dão conta de que o Faccio Rosso não pode perder, uma vez que tem o contrato do famoso Albius Macer, um dos condutores mais talentosos da temporada e puros-sangue de excelente estirpe, adquiridos pelos agentes de Arrius Casca em Arabia Magna.

Quintus Tullius, no entanto, ouve rumores estranhos com alguns de seus contatos, que mencionam algum tipo de negociação escusa ocorrendo nos bastidores. Infelizmente, ninguém sabe detalhes. Outros boatos são ainda mais estranhos, afirmando que os Rosso fizeram acordos com os Deuses do Submundo para obter vitórias na temporada.

As fantásticas corridas de Bigas
Priscus, um tanto deslocado dos acontecimentos encontra seu padrinho, o velho Arrius Lurco e se surpreende com a sua aparência frágil. Os anos foram cruéis com o velho patriarca dos Arrius, e sua vitalidade parece ter se exaurido desde a última vez que Priscus o encontrou pessoalmente, quando ainda não passava de um rapaz. Lurco conversa brevemente com Priscus e Amanicus, e ambos percebem que o homem tem uma postura distante como se nada daquilo fosse importante, um comportamento estranho já que aquela corrida pode representar um salto decisivo para sua família. 

Após um breve discurso de agradecimento de Arrius Casca, um auguri contratado pelo Faccio Rosso faz a leitura do que está por vir. A mulher vê dificuldades, mas um dia que irá favorecer a Casa Arrius. Amanicus interpreta os presságios de forma diferente, mas guarda suas conclusões para si mesmo.

Logo em seguida, o público se prepara para a apresentação das equipes que irão disputar a corrida principal. Os competidores se alinham para a volta de apresentação, mas quando os conjuntos adentram a pista há uma comoção geral. O condutor e os cavalos fã equipe vermelha foram substituídos de última hora! Pior ainda, Albius Macer, adentra a pista vestindo as cores do Faccio Azure, os principais oponentes dos Vermelhos. O público parece não acreditar no que está vendo. Imediatamente um burburinho toma conta das arquibancadas e no camarote pessoal dos Arrius, Casca o líder da facção confronta o pai furiosamente: "O que fizeste? Como foi capaz de tal coisa?" ele questiona transtornado.

Pater, quid fecisti?
Arrius Lurco não parece incomodado pela situação: "Eu precisei liquidar alguns recursos da famiglia. Necessitava de dinheiro para algo mais importante, por isso vendi o contrato de Macer e alguns cavalos para outro Faccio", ele se limita a responder.

Casca fica transtornado e é contido por alguns amigos, afastado ele chama o pai de "demente" e o acusa de deliberadamente "arruinar o nome da famiglia".

CAOS EM ROMA

A corrida tem início, e conforme previsto, o resultado é desastroso para o Faccio Rosso. 

O condutor inexperiente tem problemas guiando um time de cavalos inexperientes. Ele chega em último. Para piorar, o grande vencedor é o Faccio Azure, liderado pelo condutor que até pouco tempo pertencia ao time dos Vermelhos. Logo após a chegada, a revolta toma conta dos torcedores mais fanáticos. Um grupo de arruaceiros invade a pista para agredir o condutor vermelho e os animais. O ódio da turba então se volta para os chefes da Facção e todos os ocupantes do camarote. Uma chuva de pedras voa na direção dos assentos de honra e os dignatários começam a abandonar o local às pressas. Arrius Casca, prevendo o pior deixa o Circus cercado por escravos e guardas. Preocupado com a segurança de sua famiglia ele se apressa para chegar em sua casa. Quintus o segue em meio a multidão insatisfeita que o cerca e ofende, para abrir caminho em meio ao povo, ele saca sua adaga.

Caos em Roma
Em meio a confusão, Verus Falco reúne seus guardas, enquanto Germanicus tenta providenciar a saída pela escadaria. A essa altura, o frenesi já contagiou o entorno do Circus Maximus, torcedores furiosos se enfrentam abertamente nas ruas. Priscus consegue escoltar Amanicus para junto dos demais. Em meio a balbúrdia, os guardas são incapazes de conter a confusão. Alguns escravos aproveitam para escapar, deixando seus mestres a mercê da plebe. Ouve-se gritos de "Morte aos Vermelhos" e "Matem os Aristocratas" em todo canto.

O Caos dominou a Capital do Império e o sangue começa a correr em profusão pelas ruas apinhadas.

Em meio a confusão, o grupo em fuga é interpelado por Melba o chefe dos escravos à serviço da Casa Arrius. Melba organiza um grupo para a retirada pelas ruas abarrotadas com destino a Vila dos Arrius onde eles poderão se proteger. Não é a melhor opção, pondera Falco, mas os guardas farão uma escolta. O trajeto é marcado por ameaças e objetos sendo arremessados. Os investigadores presenciam cenas de violência; patrícios sendo agredidos, mulheres arrastadas para becos escuros e escravos agredindo seus senhores. A plebe parece ter dado asas a suas frustrações, descontando sua fúria em qualquer um ao seu alcance.

As coisas poderiam ficar piores, não fosse Priscus e Germanicus sacarem seus puggios para manter a plebe afastada. Na confusão, Falco é agarrado e por pouco o patrício não é ferido seriamente. Germanicus mata dois agressores e consegue afugentar os demais. O ex-gladiador é uma figura intimidadora brandindo suas armas e punhos. 

O grupo finalmente contorna a Via Caelina e avista a extravagante Vila pertencente a Famiglia Arrius. Infelizmente, próximo do portão, uma multidão se concentra, disposta a atacar qualquer membro da casa. Quando a turba percebe a aproximação da comitiva, alguns imediatamente avançam na sua direção. Baderneiros armados com paus e pedras, transtornados pela raiva incontida. Tudo parece perdido mas então um destacamento da Cohorte Urbanae aparece no final da rua para salvá-los. Os soldados responsáveis pela segurança na cidade empunham gladius e escudos, e usam suas lâminas para dispersar a multidão. O resultado é um massacre e os rebelados fogem em disparada pelas ruas. Com isso, os investigadores conseguem se refugiar na propriedade e as portas são trancadas.

A Cohorte Urbanae reage
Do lado de fora da vila, Roma arde em meio ao Caos!

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