sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Aqueles que vagam pelos desertos - Anatomia dos Habitantes do Deserto


"Estabelecemos um acampamento provisório na borda do Deserto de Pedirka. Nosso objetivo era acampar num vilarejo aborígene com os quais nosso guia já havia tratado anteriormente, mas não foi possível... havíamos retornado da escavação, trazendo conosco alguns artefatos que encontramos em uma caverna: pedras pintadas, pedaços de silex e algumas cabaças, além de três pequenas peças de pedra com figuras peculiares rudemente esculpidas por mãos humanas. Grotesco é bem verdade, mas as peças demonstravam inegável habilidade da parte de quem as entalhou. Ocorre que um dos rapazes, Whitford, o graduando, decidiu mostrar as peças a alguns dos nativos, talvez para saber do que se tratava... no momento que o fez, os nativos, até então amistosos se acabrunharam de tal forma, que tememos pela nossa segurança. Nosso intérprete, não deu conta de traduzir tudo o que eles disseram, mas ficou claro que qualquer pedido para pernoitar no vilarejo seria negado. De fato, eles praticamente nos expulsaram do lugar... Uma lástima! Achamos por bem concordar e partir o quanto antes. Passamos a tarde montando o acampamento, tivemos de nos afastar do povoado alguns bons quilômetros, pois eles não permitiram sequer que montássemos nossas barracas nos arredores. Após uma busca, achamos um bom local para passar a noite, amanhã tentaremos falar com os nativos uma vez mais e apaziguar os animos... Espero que tenhamos uma noite tranquila".

Última anotação no diário de Thomas Kendal, chefe arqueólogo da Expedição Miskatonic a Austrália, Deserto de Pedirka, 1935.

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Em nosso planeta, não faltam lugares inóspitos, desolados e abandonados. Cantões remotos onde a vida parece insustentável; cobertos de pedras, varrido pela areia e poeira. Tais lugares mais se assemelham a paisagens alienígenas do que recantos erigidos pela natureza. Neles, tudo parece conspirar contra a vida humana - as bruscas variações de temperatura, os ventos inclementes, a vegetação venenosa e os animais peçonhentos.

Em alguns desertos incrivelmente agrestes, onde humanos falharam em se estabelecer, vagam outros seres; criaturas que não são nativas de nosso mundo, mas que encontraram nesses ermos desolados um habitat no qual prosperam à despeito das dificuldades.

Tomemos por exemplo os assim chamados Habitantes do Deserto, uma espécie misteriosa, estranha ao gênero humano que não pode (e nem deve) ser confundida com qualquer raça nativa desse planeta. Aqueles que tiveram contato com essas criaturas as tratam como um gênero totalmente diverso e não estão errados em assumir que sua presença em nosso planeta decorre de algum acidente que aqui os lançou, deixando-os como náufragos em uma terra estranha. 

Os Habitantes do Deserto são oriundos de outra dimensão. Não se sabe ao certo de que forma os primeiros seres dessa raça desembarcaram em nosso planeta, mas sabe-se que aqui ficaram permanentemente ilhados, incapazes de retornar ao seu ponto de origem. Postula-se em alguns tratados esotéricos, que os primeiros deles teriam sido trazidos por entidades planares que romperam o tecido de nossa dimensão e aqui se estabeleceram milênios atrás. Eles formariam uma espécie de comitiva, sendo mais provavelmente serviçais ou mesmo escravos destas entidades superiores. Reforça essa teoria o fato de que a arte pertencente a esses seres, desenhos rupestres e grotescos entalhes em pedra, quase em sua totalidade se referem a figuras divinas tratadas com inegável veneração, idolatria e evidente terror.   

Outros estudiosos dos Mitos Antigos assumem que os Habitantes do Deserto podem ter dominado algum tipo de conhecimento místico que lhes permitiu construir passagens dimensionais conectando seu mundo com o nosso. Se essa teoria for verdadeira, é quase certo que a raça sofreu algum tipo de degeneração, revertendo a um estágio no qual perdeu seu conhecimento, deixando de serem capazes de acessar, quanto mais construir tais portais dimensionais.

Seja lá como se deu o surgimento dos Habitantes do Deserto em nosso mundo, é fato que eles passaram a viver em regiões remotas e afastadas de qualquer assentamento humano. Os Habitantes do Deserto, como diz o próprio nome, preferem residir em regiões estéreis formadas por vastas extensões de terra árida evitada pelos seres humanos. Eles não precisam de muitos recursos para sobreviver, e sua necessidade de água e alimentos parece ser mínima. Não há muitas informações que expliquem como eles conseguem perdurar nas mais árduas regiões, mas o segredo de sua sobrevivência parece estar ligado a sua fisiologia alienígena.

Embora alguns deles sejam por definição nômades, os Habitantes do Deserto tendem a buscar cavernas e estruturas rochosas onde encontram refúgio. Essas cavernas calcárias passam a ser moradias sazonais, usadas de acordo com a necessidade. Complexos mais profundos podem ser usados como habitações de caráter definitivo, reunindo algumas centenas de indivíduos, mas tais comunidades são bastante raras. Os Habitantes do Deserto preferem viver em pequenos bandos de caçadores e coletores onde cada um tem um papel bem definido. Os indivíduos mais fortes são os líderes naturais e comandam todos os demais intimidando e coagindo seus subalternos. Violência é uma constante entre essas criaturas e a sobrevivência dita todas as iniciativas e atitudes. Cada bando possui apenas uma fêmea que pertence exclusivamente ao líder. 

As fêmeas são muito raras entre os Habitantes do Deserto, nascendo apenas uma a cada dez crias. Seu papel é crucial, existem apenas para reproduzir com o indivíduo mais forte e gerar novos membros para o bando. Quando uma fêmea surge ou é raptada de outro bando, ela é protegida como um verdadeiro tesouro, uma vez que deverá substituir a matriarca tão logo atinja a maturidade. O fato das fêmeas serem tão raras certamente é a razão pela qual a população de Habitantes do Deserto permanece pequena.  

Os membros de um mesmo bando possuem um elo telepático que embora limitado permite que compartilhem seus pensamentos e "conversem" entre si sem articular sons. Usando essa mesma capacidade, eles são capazes de impor sua vontade sobre animais, transformando serpentes, escorpiões, morcegos e outras criaturas do deserto em seus agentes e espiões. Há rumores de que alguns humanos são suscetíveis a essa telepatia e portanto capazes de compreender o "idioma" dos Habitantes do Deserto. Esse contato telepático, se duradouro, desencadeia um efeito colateral que afeta a capacidade cognitiva na mente humana, tornando o indivíduo gradualmente incapaz de raciocinar de forma coerente. Por essa razão, pessoas capturadas e mantidas por muito tempo na companhia de Habitantes do Deserto acabam enloquecendo e são incapazes de explicar o que aconteceu.

De hábitos noturnos, eles preferem permanecer na porção mais profunda de seus covis ao longo do dia. Quando a noite cai, os Habitantes deixam o esconderijo e vagam por uma determinada extensão territorial em uma patrulha de quatro ou cinco indivíduos adultos que busca alimento e visa estabelecer a segurança do perímetro. Eles enxergam perfeitamente no escuro e conseguem captar sons e cheiros com enorme precisão. Os Habitantes preferem agir furtivamente se mesclando com o ambiente de tal forma que é quase impossível detectar sua presença. Silenciosos, eles observam invasores e presas em potencial, aguardando o melhor momento de atacar, de preferência quando estes estão sozinhos. O ataque tende a ser rápido e brutal, a presa é dominada e morta, em seguida arrastada para o covil para ser devorada. Essas criaturas raramente usam ferramentas, preferindo se valer de garras e presas afiadas. Por vezes, eles podem ter facas de pedra, clavas ou ossos, mas não é comum vê-los portando tais objetos o que contribui para a presunção de que são seres primitivos. O ato de consumir suas vítimas é puramente ritualístico já que eles quase não tem necessidades nutricionais. Os Habitantes podem viver por meses com rações ínfimas de alimento e quantidades irrisórias de água.

Fisicamente essas criaturas atingem no máximo 1,60 de altura, e costumam andar em uma postura arqueada para frente com os braços dobrados na altura no peito. Eles são bastante esguios quase ao ponto de serem emaciados, com braços e pernas longelíneos e discretamente mais longos do que o normal. Não há vestígio de gordura em seus corpos, e sua pele amarelada ou num tom de areia se estica sobre os músculos e tendões como couro curtido conferindo-lhes uma aparência mumificada. Eles costumam cobrir a pele com camadas de areia que lhes concede uma eficaz camuflagem em seu ambiente natural. Não usam roupas ou adornos, embora o líder do bando e sua fêmea tenham alguns poucos objetos cobrindo seus corpos, bem como tatuagens e escarificações. Eles se movem rapidamente e em total silêncio. O rosto é curiosamente largo com feições que lembram um coala, com olhos grandes e amarelados, sem íris e um nariz chato e curto. À noite, seus olhos brilham como o de felinos. As orelhas são arredondadas e em forma de couve flor com vários contornos de cartilagem grossa. A boca é larga, sem lábios, com duas fileiras de dentes afiados usados mais para rasgar do que macerar, eles não possuem língua. As mãos são longas, dotadas de três dedos compridos destituído de polegar. Garras na ponta dos dedos são empregadas como armas e para escavar, elas podem rasgar facilmente uma garganta. Seus pés são longos e possuem garras ainda mais compridas. As unhas são fortes como aço e dificilmente se quebram. Os Habitantes do deserto não são particularmente fortes, mas suas táticas de ataque, circulando a presa e atacando em grupo, lhes garante um trunfo que permite subjugar oponentes mais fortes.


Eles não produzem sons com o objetivo de se comunicar entre si, seus grunhidos e estálidos são usados para assustar a presa depois de surpreendê-la. É quase impossível para um humano diferenciar indivíduos da espécie, já que todos eles tem a mesma aparência genérica.

Os Habitantes são intimidados pelo fogo e fontes luminosas, mas é questão de tempo até superarem o estranhamento inicial. Tochas podem mantê-los a distância, assim como o farol de um carro ou uma lanterna poderosa, mas quando menos se espera, um deles irá avançar e os demais o seguirão. Uma vez que seus músculos são rígidos, eles possuem uma resistência natural a ferimentos, mas isso não significa que eles suportem incólumes um golpe ou um disparo. Armas de fogo podem obrigá-los a recuar, mas apenas até eles se reagruparem para um novo ataque. Essas criaturas não se importam em se sacrificar em pról do bando e o fazem sem pensar duas vezes. Na defesa de seus covis e da fêmea do bando, eles são especialmente determinados, lutando até o último fôlego.

Quando uma dessas criaturas é morta, os demais tentam a todo custo recuperar o corpo. Este é consumido pelo restante do bando, até não restar qualquer sinal de sua existência. Os ossos dos Habitantes se tornam frágeis poucas semanas após a morte e se desgastam como giz. Tentativas de preservar a carcaça de tais seres falharam lamentavelmente.

Os Habitantes podem ser encontrados em áreas isoladas do planeta. Sabe-se de uma grande colônia no Deserto do Arizona sob as Montanhas Superstition e outra no Death Valley da Califórnia. Colonos reportaram a existência de tais criaturas e nativos americanos sempre evitaram tais lugares por saber que esses seres viviam na região. Os Cheyene os conheciam como "o povo que não é nosso irmão", os Cree, os chamavam de "gente do deserto profundo". Sabe-se de outras colônias que prosperam no Egito, Sudão, na Líbia e na Mongólia em regiões impossíveis para o estabelecimento de comunidades humanas. Há rumores de que eles um dia habitaram o Norte da India, mas que foram extintos pelos ghouls que lá são maioria.

É nos Sertão Australiano (o vasto Outback), entretanto que se encontram os maiores e mais temíveis bandos. Os Desertos de Tanami, o Grande Rochoso de Sturt e sobretudo Pedirka são habitats perfeitos para tais seres. A Planície de Nullarbor, ao Norte do Golfo Australiano, também possui uma concentração de Habitantes que são combatidos por tribos de aborígenes, há gerações. A maioria das informações a respeito dessa raça ancestral provém dessas tribos que tiveram contato com eles. Shamans aborígenes elaboraram complexos rituais para banir os Habitantes do Deserto para o místico mundo de Alcheringa, o Reino dos Sonhos, mas as tentativas de se livrar dessas criaturas falharam.


Em 1935, uma Expedição da Universidade Miskatonic que explorou o Deserto de Perdirka entrou em contato com um bando de Habitantes do Deserto. Eles encontraram artefatos curiosos em um complexo de cavernas que julgaram pertencer a uma civilização até então desconhecida. O destino da Expedição é incerto. Em maio daquele ano, a equipe do arqueólogo Thomas Kendal, composta de sete outros professores e graduandos desapareceu nos sertões sem deixar rastro. Em 1947, uma expedição britânica encontrou restos de um acampamento e objetos que posteriormente foram identificados como pertencentes a grupo norte-americano. Entre os objetos havia um diário escrito por Kendal. O último trecho de seus apontamentos foi reproduzido acima. Os curiosos artefatos mencionados por Kendal não foram encontrados, mas fotografias comprovavam sua existência. O mistério sobre o que aconteceu com a Expedição permanece até hoje.

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Nota: As imagens pertencem aos onstros do filme The Descent, que ao meu ver se encaixam muito bem na descrição dos Habitantes do Deserto. Creio que eles seriam apenas um pouco mais emaciados e menores, mas como referência visual serve muito bem. O filme em si, serve como uma boa fonte de ideias a respeito do que poderia acontecer com um grupo que inadvertidamente entra no covil dessas criaturas.

Leia sobre outras anatomias das criaturas do Mythos de Cthulhu:

Insetos de Shaggai, os parasitas mentais

Lloigor, os Mestres do Tentáculo

Mi-Go (Fungos de Yuggoth)

Byakhee, crias de Carcosa

Cores do Espaço, o horror que caiu do céu

Vampiros Espaciais, sede de sangue

Shoggoths, bestas servis

Ghouls, os Devoradores de Mortos

Dholes, os Vermes Colossais

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ZUMBIS - A verdade sobre o Mito dos Mortos Vivos Haitianos (Parte 2)


(conclusão)

Nos anos seguintes a publicação do seu trabalho pioneiro, o estudo de Davis foi atacado por céticos e questionado quanto a sua validade científica por especialistas que criticavam sua metodologia e duvidavam de seu valor acadêmico. Alguns químicos apontaram que, embora a tetradoxina estivesse presente nas "poeiras de zumbi", a medida presente era inferior a necessária para causar um estado condizente com a "zumbificação" em indivíduos adultos. Foi sugerido também que para a tetradoxina funcionar de maneira eficiente, a dosagem teria de ser definida de acordo com cada indivíduo, e que uma concentração genérica dificilmente resultaria no efeito desejado. Uma dose muito grande poderia matar, enquanto que uma inferior não surtiria qualquer resultado. Céticos duvidavam também que feiticeiros bokor fossem capazes de sintetizar tetradoxina sem dispor de um laboratório e equipamento moderno. Finalmente, haviam suspeitas sobre a estória de Narcisse, com alguns achando a narrativa exagerada ou mesmo uma completa invenção. A ausência de elementos probatórios (além do testemunho da vítima) tornava difícil comprovar a maioria dos detalhes... a localização da plantação onde ele teria trabalhado e a identidade do bokor responsávelpela transformação, por exemplo, jamais foram determinados.

Davis defendia seu trabalho, ele acreditava que os bokor, ainda que não tivessem uma formação acadêmica, possuíam um conhecimento em bioquímica impressionante. Além disso, eles tinham acesso às suas vítimas o que lhes permitia calcular a dosagem necessária para o indivíduo que pretendiam transformar. O antropólogo também afirmava que o ritual dificilmente poderia ser considerado uma "ciência exata"e que os próprios bokor reconheciam que nem sempre o ritual era um sucesso. Um cálculo errado poderia matar ou deixar a vítima em um estado vegetativo. O próprio Davis afirmou em seu trabalho que ingeriu uma pequena dose da "poeira zumbi" para atestar seu funcionamento, mas que a dosagem não teve efeitos evidentes.

O peixe baiacu do qual deriva a tetradoxina
Após se defender de várias acusações, Davis decidiu assumir uma postura aberta, aceitando as críticas sem contra-atacar seus detratores. Segundo ele, a tetradoxina poderia constituir apenas um dos elementos presentes na "poeira zumbi", sendo ela potencializada por outros elementos presentes na fórmula. A presença da pele de diferentes anfíbios, e do veneno reativo nela, poderia agir como um catalizador da tetradoxina. Davis também criticou a maneira como foi realizada a análise de algumas de suas amostras, segundo ele, certos laboratórios descartaram elementos presentes nos ingredientes quando fizeram a decomposição química. Além disso, os feiticeiros podem ter ocultado algum detalhe da criação da poeira, escondendo alguns detalhes ou ingrediente considerado secreto.

Finalmente ele salientou que a tetradoxina era apenas uma parte dos ingredientes que resultavam na "poeira zumbi". Ela servia apenas para fazer a vítima "parecer morta", não especificamente para criar o zumbi. Seria a exposição ao coquetel de drogas que desencadearia o processo, não apenas a presença de um item isolado. O processo necessitaria de primeiro fazer a vítima parecer morta, através da tetradoxina, segundo, fazer a vítima enlouquecer por intermédio de drogas psicotrópicas, como a Datura stramonium e finalmente manter a vítima no estado de zumbificação, com a aplicação regular de doses.

Em seu segundo livro, "Passage of Darkness: The Ethnobiology of the Haitian Zombie"(Passagem para a Escuridão - A Etnobiologia do Zumbi Haitiano"), Davis continuou sua busca pelos componentes químicos que poderiam causar a zumbificação.  Ele empreendeu viagens para o Japão onde estudou a utilização da tetradoxina extraída do Fu-Gu (o peixe baiacu), uma iguaria preparada apenas por alguns cozinheiros especializados. No livro, Davis analisa os efeitos da toxina em indivíduos que comeram o Fu-Gu e sofreram o envenenamento pela tetradoxina ficando em um estado de transe por dias, e até sendo declarados mortos.

Zumbis trabalhando em uma plantação no Haiti
Embora o debate prossiga sem uma conclusão a respeito da validade do trabalho de Davis, houve outro estudo mais recente sobre o tema zumbis verdadeiros. O renomado jornal médico britânico The Lancett publicou um impressionante artigo em outubro de 1997, examinando três casos clínicos do que poderia ser compreendido como zumbificação, todos os três ocorridos no Haiti entre 1996 e 1997.

No artigo, o primeiro caso envolvia uma pessoa identificada apenas como FI, que teria morrido de febre aos 30 anos de idade. Ela foi enterrada pela sua família e ressurgiu misteriosamente três anos mais tarde vagando pelos arredores de seu vilarejo. Membros de sua família reconheceram FI, assim como seu marido e o padre da paróquia local. Não havia dúvidas a respeito de sua identidade. Após ser encontrada, FI apresentava um estado de catatonia delirante, no qual era incapaz de falar e se expressar. Após sua sepultura ser aberta, descobriu-se que ela estava vazia. Os parentes imediatamente suspeitaram que a mulher havia sido transformada em um zumbi e acusaram o marido de ter vendido o cadáver para um bokor realizar o ritual. A família não sabia o que fazer com a mulher em estado perpétuo de transe, incapaz de se alimentar ou de cuidar de suas necessidades, ela acabou sendo admitida em um manicômio de Port au Prince.

FI foi examinada por médicos do hospício que concluíram que ela parecia jovem e mais magra do que em fotografias anteriores. A mulher andava de modo estranho, lenta e sem coordenação, tropeçando nos próprios pés, os braços estendidos retos para baixo. Um exame de sua musculatura mostrou que ela havia perdido parte de seus movimentos. Quando questionada, a mulher se recusou a falar e murmurou de maneira incompreensível. Ela não cooperava com os médicos ou psiquiatras e resistia a todas as tentativas de reabilitação. Médicos realizaram um exame completo em seu sistema nervoso central, mas não encontraram nada fora do normal e certamente nada capaz de explicar seu comportamento bizarro. No final, FI foi oficialmente diagnosticada como esquizofrênica catatônica.

O segundo caso, envolvia um homem de 26 anos chamado WD, que era o filho de um policial trabalhando para o Regime Duvalier. WD ficou doente com uma doença misteriosa e repentina aos 18 anos e "morreu" três anos depois. Testemunhas alegavam que ele teria retornado dos mortos 19 meses após seu enterro, vagando pelos arredores da cidade onde nasceu, sendo visto por pessoas que imediatamente o reconheceram, eventualmente seu pai o encontrou e levou para casa. Os vizinhos afirmavam que ele era um zumbi e exigiram que ele fosse levado dali. O pai acusou o próprio irmão (tio de WD) de ter zumbificado o rapaz e ordenou que ele fosse preso. O acusado foi recolhido a prisão e chegou a ser julgado pelo crime, seu destino se perdeu em meio a ausência de documentos oficiais. WD foi conduzido pelo pai para uma cidade do interior do Haiti, onde ficou escondido. Supostamente ele passava seus dias acorrentado pelo calcanhar a um pesado toco de madeira, para não fugir ou vagar sem destino.


Quando WD foi examinado pelos médicos, eles perceberam que o rapaz era muito magro, disperso e parecia uito jovem. As pessoas disseram que ele passava a maior parte do tempo parado em uma posição esquisita com as pernas voltadas para a esquerda e os braços para a direita. Ele raramente falava e apenas uma palavra de cada vez, como se estivesse dormindo acordado. Ele evitava contato visual e olhava para o chão com uma expressão apática. Cicatrizes nos pulsos e tornozelos evidenciavam que o rapaz era constantemente mantido preso a correntes e fios elétricos. Nas costas, WD tinha uma bizarra ferida circular e profunda que vertia pus e parecia ter cicatrizado repetidas vezes. Seu pai dizia que havia sido por aquela ferida que o veneno que o transformou em zumbi havia sido administrado.

O sistema nervoso parecia normal após um exame, e não havia sinal de retardamento mental ou catatonia, mas parecia óbvio haver algum tipo de redução da função cognitiva uma vez que WD tinha dificuldade em reconhecer pessoas ou objetos. As pessoas que cuidavam dele disseram que WD também era frequentemente acometido por um surto agressivo. O diagnóstico final foi que ele sofria de alguma doença cerebral e de epilepsia consistente com um período de anoxia. Uma análise de DNA anos depois concluiu que WD não era filho biológico do policial, e que provavelmente o caso não passava de identidade confundida.

O terceiro caso analisado foi o foco do artigo; ele se referia a MM, uma mulher de 31 anos. Aos 18 anos, a jovem teria sido raptada de sua casa e vendida a um feiticeiro que a transformou em um zumbi após um ritual. Ela reapareceu 13 anos mais tarde em um mercado de sua cidade natal. Confusa e apática, as pessoas apontavam e gritavam que MM era um zumbi. Seus familiares a encontraram vagando por uma plantação e imediatamente a reconheceram. MM contou que o bokor que a havia transformado em zumbi, a matou em um ritual e que depois ela foi obrigada a trabalhar numa fazenda como escrava. Ela escapou depois que o bokor morreu em um acidente e então vagou pelas florestas sem destino.


O caso de MM foi considerado atípico para ser tratado como uma zumbificação, já que ela reteve a maior parte de suas habilidades cognitivas, embora ainda fosse descrita pelos seus parentes como menos inteligente do que antes do incidente. Ela também demonstrava alguns problemas ao enfrentar situações sociais, como uma tendência a rir em momentos inapropriados e um déficit de atenção. Fisicamente, a mulher não apresentava anormalidades perceptíveis a não ser uma cicatriz arredondada sem causa aparente no esterno, semelhante a encontrada em WD. A essa altura, MM havia sido apenas diagnosticada como tendo inaptidão para o aprendizado, possivelmente causada por consumo excessivo de álcool da mãe durante a gestação.

A estória se tornou mais estranha, quando MM foi levada até a vila onde ela alegava ter sido mantido prisioneira. No mercado da vila, ela foi reconhecida por uma mulher afirmando que MM era uma moradora local considerada retardada que havia desaparecido há nove meses. A família dessa menina também a reconheceu e insistiu que MM era sua filha desaparecida. Os alegados irmão e filha dela na vila tinham uma semelhança física impressionante com ela, tanto na aparência quanto nos maneirismos. MM admitiu que a menina era sua filha, mas insistia que ela era resultado da união com outro zumbi que também havia sido escravizado. No fim das contas, os pesquisadores consideraram o caso como uma simples confusão de identidade.

A conclusão foi que MM sofria de esquizofrenia ou outra doença mental, agravada por abusos e um possível ferimento na cabeça. Ela simplesmente assimilou os conceitos do folclore e superstições locais a sua estória.

Um Zumbi e seu bikor
De forma interessante, o relatório admite que a incidência de indivíduos profanando tumbas e cemitérios no Haiti chega a ser epidêmica. O mercado de partes de cadáveres e de ingredientes macabros para potencializar rituais de vodu não para de crescer no país. O trabalho menciona o uso de tetradoxina e outras substâncias químicas extraídas de plantas e animais. Reconhece ainda a possibilidade de alguns bokor dominarem métodos de extração de substâncias capazes de alterar a percepção como o Datura stramonium capaz de paralisar e reviver as vítimas como escravos passivos, para alguns zumbis. O relatório conclui da seguinte forma:

"Não é possível excluir que o uso de toxinas neuromusculares, administradas topicamente por um conhecedor de suas propriedades possa induzir catalepsia e propensão a obedecer ordens. Dessa maneira, é possível, que o uso de substâncias especialmente criadas resulte naquilo que o folclore do Haiti chama de zumbificação".

Ingredientes Vodu à venda
Mas enfim: Zumbis existem ou não? O povo do Haiti certamente acredita que sim. Lá, as pessoas estão condicionadas a acreditar que eles são muito mais do que estórias criadas para assustar. As lendas sobre zumbis persistem no Haiti até os dias de hoje, com avistamentos dessas criaturas sendo algo comum tanto nas áreas rurais do interior, quanto nas cidades mais populosas da ilha. A incidência de queixas a respeito de pessoas transformadas em zumbis chega a mil por ano. "Zumbificação", aliás, é um crime previsto no  Código Penal Haitiano, sob o Artigo 246, no qual é considerada prática delituosa "qualquer assassinato com o propósito de trazer de volta dos mortos a vítima e escravizá-la".

Parece razoável acreditar, após analisar os trabalhos e pesquisas, que existe uma base científica para as estórias de zumbis no Haiti. Mas na prática, nem todos os pesquisadores estão inclinados a aceitar a noção de que indivíduos possam ser mentalmente escravizados após a morte, mesmo que os indícios corroborem essa possibilidade. Por hora, essas misteriosas criaturas permanecem espreitando os limites dos vilarejos haitianos e também nossa imaginação. Sejam eles escravos dominados pelo poder de drogas ou cadáveres reanimados pela mais negra magia, o enigma dos zumbis do Haiti continua.

Talvez um dia possamos responder essas perguntas, mas por enquanto o que nos resta é observar e temer o desconhecido.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

ZUMBIS - A verdade sobre o Mito dos mortos vivos Haitianos (parte 1)


Com base no artigo de Brent Swancer
Sanguinários e aterrorizantes, os zumbis da ficção se tornaram extremamente populares nos últimos anos. Eles estão presentes em incontáveis livros, em seriados de televisão e até nos filmes blockbuster de verão. É provável que os mortos-vivos jamais tenham sido tão populares e eles parecem ter chegado para ficar, deliciando e apavorando os fãs do terror.

Apesar de sua imensa popularidade, muitas pessoas desconhecem que em algumas culturas, zumbis são considerados reais. Em certas sociedades, zumbis não são simples monstros da ficção, usados para causar calafrios, mas criaturas profanas de carne e osso, seres que vagam pelo mundo espalhando pesadelos e medo. Mas o que existe de real nas tradições e crenças a respeito de zumbis? Onde a ficção se torna fato? Será possível que zumbis um dia existiram em alguma parte do mundo? E mais perturbador; será possível que eles ainda existam entre nós?

Para encontrar as respostas a essas perguntas, o melhor lugar para começar nossa investigação é a República do Haiti, localizada no Mar do Caribe. Ocupando metade da Ilha de Hispaniola, o Haiti tem uma longa tradição envolvendo zumbis, chamado por seus habitantes de "zombi". Os zumbis do Haiti para boa parte da população são muitíssimo reais. Eles são cadáveres reanimados através de poderosa magia negra por feiticeiros praticantes de vodu ou xamãs, conhecidos como bokor. Os zumbis são servos usados para várias atividades e tarefas, empregados como guardiões, como assassinos ou como simples mão de obra nas lavouras. Nos tempos da colônia, os zumbis eram rotineiramente usados como escravos em fazendas e plantações de cana de açúcar. 

Na religião vudu, que é professada por algo em torno de 80 ou 90 porcento da população do Haiti, existe a crença de que a pessoa pode morrer de duas maneiras: causas naturais ou por causas provocadas. Aqueles que morrem de velhice, acidente ou doença estão no primeiro caso e seus espíritos encontram seu caminho para o mundo além. Entretanto, aqueles que sofreram uma morte provocada pela ação de outros, tem as suas almas particularmente vulneráveis a ação de bruxaria praticada por feiticeiros vodu. Eles são capazes de aprisionar a alma dessas pessoas em garrafas ou jarros de barro. Com a alma devidamente capturada, o feiticeiro pode clamar o controle do corpo, transformando-o em seu servo, que passa a ser considerado um cadáver zumbi (zombi cadavre).  O bokor manipula esses mortos vivos ao seu bel-prazer, os corpos reanimados passam a ser sua propriedade, usados para os mais medonhos propósitos. Um zumbi pode ser enviado para matar um desafeto, para aterrorizar a família da vítima, para servir como escravo ou ainda para carregar malefícios e transmitir maldições. No vodu haitiano, um zumbi é uma abominação, uma monstruosidade que vai contra as leis da natureza e cuja existência é uma anátema. Em muitos lugares, mencionar a palavra "zombi" é uma espécie de tabu, algo que as pessoas preferem não falar a respeito para não atrair a ira de algum bokor.

Algumas vezes, uma pessoa é simplesmente transformada em zumbi como punição por ter desafiado a autoridade de um bokor ou como vingança por alguma transgressão. Por vezes, o bokor tem outros motivos para "fabricar" um zumbi. Vigora uma espécie de comércio de mortos vivos que são negociados e vendidos como escravos para qualquer um interessado em adquirir um servo desse tipo. Novamente no período colonial, fazendeiros e donos de terras compravam zumbis para lidar nas suas plantações.

Um típico zumbi haitiano

Zumbis também podem ser alegadamente criados a partir de indivíduos que ainda estão vivos, isso se o bokor for poderoso o bastante para arrancar a alma da pessoa do seu corpo. O processo de transformar uma vítima em zumbi segue alguns passos. Primeiro, o bokor deve direcionar uma maldição sobre o alvo de seu ritual. Esta pessoa irá contrair uma doença repentina que o levará a um estado semelhante a morte - uma espécie de coma profundo. A família da vítima (e mesmo médicos) serão incapazes de dizer que a vítima ainda está viva e esta eventualmente acabará sendo enterrada. O bokor então irá roubar o "cadáver" e levá-lo ao seu templo para reanimá-lo usando rituais de feitiçaria.

Aqueles que são transformados em zumbis pela magia negra do bokor, são descritos como indivíduos amaldiçoados, com o corpo emaciado, feições graves e uma cor de pele tendendo ao cinza pálido. Os ossos são visíveis através de sua pele macilenta. Todos tem uma expressão séria, fixa e tendem a encarar as pessoas sem parecer compreender o que elas dizem. Seus movimentos são vacilantes e lentos. Eles não demonstram coordenação motora e caminham de forma insegura, arrastando os pés no solo. Zumbis são capazes de falar, mas apenas em frases curtas, e as palavras são proferidas de forma pastosa, destituída de emoção ou sentimento. Zumbis também conseguem ouvir e entender comandos básicos, mas sua compreensão é limitada pela falta de livre arbítrio, fazendo com que eles pareçam meros autômatos. Segundo o folclore, zumbis são capazes de façanhas de força física, o que os torna ideais para trabalho braçal. Eles também não demonstram cansaço ou manifestam sinais de fatiga; além disso, o estímulo de dor não é registrado. É dito que os zumbis passa a existir em um tipo de transe, incapaz de entender sua condição ou registrar o que está a sua volta. Diferente dos zumbis da ficção, os verdadeiros zumbis haitianos são submissos e raramente agressivos, a não ser que seus mestres ordenem alguma ação violenta.  

Um bokor
Aqueles que são transformados em tais abominações em geral acabam à mercê de seus mestres, servindo a eles como escravos sem vontade própria. Mas há maneiras de romper o controle do feiticeiro. Segundo o folclore haitiano, se a garrafa ou jarro que aprisiona a alma do zumbi for destruído, ou se o bokor for morto, sua alma será imediatamente libertada e o zumbi estará livre para morrer em paz (se for um zumbi erguido dos mortos) ou para retornar aos seus familiares (caso seja alguém zumbificado em vida). Existe a crença de que se um zumbi receber sal, os efeitos de sua maldição poderão ser revertidos. Outros sugerem que se um zumbi for capaz de ver o mar, os poderes do bokor sobre ele irão diminuir. Finalmente, alguns sacerdotes poderiam realizar um ritual para remover o malefício e garantir o descanso do cadáver. Indivíduos "curados" a condição de zumbi infelizmente jamais recobram o estado mental que tiveram um dia. A maldição os afeta para sempre e para sempre eles carregarão o estigma de ter servido a um bokor na fronteira entre a vida e a morte.

Longe do retrato ocidental dos zumbis como monstros malignos e destruidores, os zumbis do Haiti são vistos tradicionalmente como vítimas inocentes ao invés de vilões. Haitianos historicamente não temem os zumbis, mas sim aqueles que os criam e a possibilidade de virem a ser transformados em um deles. O medo de se tornar um morto-vivo sem vontade, um escravo de um feiticeiro maligno é tão grande no país que ao longo dos séculos muita medidas foram tomadas para prevenir esse triste destino. Símbolos e marcas místicas de proteção eram tradicionalmente desenhadas no corpo de pessoas mortas até recentemente, bem como na lápide ou na pedra de seu sepulcro. Sacerdotes realizam uma espécie de "limpeza espiritual" que tem como objetivo purificar o corpo e impedir que ele seja vítima de malefício. Mas quando não há um sacerdote próximo, os haitianos mais temerosos apelam para outros métodos.

Um número elevado de haitianos são decapitados antes de serem enterrados, já que dessa forma não poderão ser reanimados como mortos vivos. A decapitação muitas vezes é uma espécie de último pedido de pessoas desenganadas ou que temem a ira de um bokor. O temor de ser transformado em um zumbi é uma ferramenta para controle político e social no Haiti. Durante os anos de opressão do regime Duvalier de 1957 a 1984, a cruel polícia secreta do governo, conhecida como Tonton Macoute recorria aos mais notórios bokor, e usava a ameaça de zumbificação para conter qualquer resistência entre a população supersticiosa.


O fenômeno da zumbificação começou a ser conhecido no ocidente durante a ocupação norte-americana do Haiti entre 1915 e 1934, quando soldados compartilhavam estórias macabras sobre magia negra e cadáveres animados magicamente. Esses relatos não eram muito levados à sério na época, e na maioria das vezes eram tratados como lendas urbanas exóticas e parte de um folclore estranho. Foram destes relatos que as revistas de ficção baratas da época, os pulp fiction, se apropriaram para criar o mito dos zumbis com fome de carne humana. Os zumbis lentamente tomaram de assalto o imaginário das pessoas e conquistaram reputação e um lugar de destaque entre os monstros icônicos do horror. Entretanto, algumas pessoas quando ouviram pela primeira vez as lendas vindas do Haiti, imaginaram se não haveria alguma verdade naqueles relatos macabros.

Uma das primeiras expedições organizadas para investigar a verdade sobre os zumbis no Haiti ocorreu em 1937, liderada pela antropóloga americana Zora Neale Hurston. Durante as viagens de Hurston pelo Haiti em busca de evidência, a pesquisadora ficou sabendo de uma mulher chamada Felicia Felix-Mentor, que segundo vizinhos havia sido transformada num zumbi. Os vizinhos explicaram que a mulher havia morrido em 1907, mas que retornou como um zumbi vinte anos depois pelas mãos de um feiticeiro.

Zora encontrou a mulher nas ruas de Port-au-Prince e a examinou. Felicia exibia limitadas capacidades mentais, coordenação motora abaixo da média e uma apatia que segundo a tradição era bastante condizente com o comportamento típico de uma vítima de zumbificação. Hurston investigou o caso e reuniu informações e rumores que a levaram a conclusão que aquele estado não era causado por magia negra, mas pelo uso de componentes farmacológicos. Em outras palavras, Hurston acreditava que algum tipo de veneno ou droga poderia induzir um transe, habitualmente confundido com o estado emocional de um zumbi.

Felicia Felix-Mentor.
Talvez a mais conhecida expedição realizada ao Haiti em busca de zumbis, tenha sido a do etnobotânico, antropólogo e explorador Wade Davis, que viajou para a ilha em 1982 a fim de investigar o curioso caso de um alegado zumbi chamado Clairvius Narcisse. Narcisse supostamente foi transformado em um zumbi por seu próprio irmão como punição por ter negociado terras que pertenciam a família há gerações. Em seguida, ele teria sido forçado a escravidão junto com outros zumbis em uma plantação de cana de açúcar em 1962. Ele trabalhou nessa plantação incansavelmente até a morte do bokor que o libertou da servidão. Ele então passou os dezesseis anos seguintes vagando pelos campos e pelas cidades do interior agrário do Haiti em um estado permanente de estupor como um morto vivo. 

Narcisse gradualmente recobrou alguma lucidez, o suficiente para retornar ao seu vilarejo natal, onde ele foi reconhecido por uma irmã que o considerava morto. Narcise foi capaz de reconhecer a mulher e compartilhou com ela algumas lembranças de infância que provaram sem qualquer dúvida que ele era, o irmão perdido. Aldeões do vilarejo a essa altura já estavam apavorados, porque Narcisse thavia sido decalarado morto há 18 anos. Alguns chegaram a ver seu corpo e participaram de seu enterro. O "zumbi" explicou aos vizinhos, amigos e familiares que de fato morreu e foi enterrado, mas posteriormente foi trazido de volta para trabalhar numa plantação quando um bokor roubou sua alma. O caso se tornou ainda mais surpreendente depois que médicos reconheceram ter examinado o cadáver de Narcisse na ocasião de sua morte. Ele foi oficialmente declarado morto e uma certidão de óbito chegou a ser emitida, assinada por dois médicos haitianos.

Uma foto de Narcisse sentado em sua suposta sepultura.
Wade Davis era formado pela Universidade de Harvard, mas seu foco eram as crenças e tradições tribais de vários povos que utilizavam as propriedades psicoterápicas de plantas e de remédios naturais. Davis empreendeu uma jornada ao Haiti a pedido do Dr. Nathan S. Kline, que havia ouvido boatos sobre o caso de Narcisse e acreditava que o estado do alegado zumbi era resultado de alguma poderosa droga, algo derivado de alguma planta local. Kline desejava obter amostras dessa planta para aplicações médicas na indústria farmaceutica. Ele esperava que Davis encontrasse a fonte e levasse para os Estados Unidos o resultado de seu estudo

Davis concordava com a hipótese do mito do zumbi estar ligado a utilização de drogas poderosas, capazes de mudar o comportamento das pessoas por elas afetadas. Ele chegou ao Haiti em 1982 para iniciar a investigação. Os nativos, no entanto, insistiam que a criação dos zumbis dependia da magia negra empregada por feiticeiros, ninguém sabia nada a respeito de supostas drogas extraídas de plantas locais. Davis negava veementemente qualquer explicação paranormal ou mística, e a falta de pistas o deixou frustrado. Entretanto, após entrevistar alguns bokor, Davis descobriu que os feiticeiros faziam uso de várias misturas, poeiras e unguentos extraídos de animais e plantas. O botânico ficou impressionado com a complexidade de algumas dessas misturas. Ele estava convencido que uma dessas "poções mágicas", usadas em rituais desencadeava os efeitos que eram condizentes com a zombificação.

Uma infinidade de poções e ingredientes usados pelos bokor.
Davis acreditava que essas "poeiras de zumbi" continham poderosas neuro-toxinas semelhantes a tetrodotoxina encontrada no veneno do peixe baiacú. Ele teorizou que essa poeira poderia ser  aplicada sobre uma vítima de várias maneiras - ingerida na comida, absorvida pela pele como uma pasta ou mesmo inalada como uma poeira dispersa no ar. Em doses menores, tetrodoxina causa paralisia e pode induzir um estado de coma caracterizado pela baixa temperatura corporal e drástica redução na frequência cardio-respiratória. Em tal estado, uma vítims poderia ser considerada morta e até ser enterrada. Quando os efeitos do veneno se dissipavam, cerca de 8 horas depois, a vítima era removida do caixão, recebendo do bokor um chá feito com base na planta Datura stramonium, conhecida vulgarmente como Erva de Jimsons, um potente psicotrópico que criava um estado de delírio e de transe, no qual o indivíduo se tornava extremamente sugestionável. Dessa forma, o bokor usava de seus poderes de persuasao para convencer o indivíduo de que ele havia morrido, passado por um ritual de zumbificação e retornado como um escravo da sua vontade. Doses adicionais aplicadas pelo bokor sedimentavam o domínio dele sobre a vontade de seu zumbi. No caso expresso de Narcisse, Davis especulava que ele tivesse recuperado suas faculdades mentais após a morte do bokor, quando ele deixou de aplicar as doses regulares do veneno.

Davis vasculhou o submundo do Haiti em busca de pistas sobre as drogas utilizadas pelos bokor em Port au Prince. Eventualmente, ele obteve oito amostras de poeiras para análise. Quando os ingredientes foram testados, ele mostrou ingredientes bizarros como sapos secos, pedaços de ossos humanos, restos de aranhas e lagartos, além de uma infinidade de ervas. Não foi totalmente estranho encontrar traços de tetrodoxina, exatamente como Davis sugeria. Os resultados da análise demonstravam que a poeira induzia efeitos de letargia e imobilidade quando administrada em cobaias de laboratório. Davis recebeu muitos elogios da comunidade médica, sendo reconhecido como o primeiro homem a oferecer uma explicação científica para o mistério dos zumbis haitianos. Posteriormente ele escreveu um livro a respeito de sua investigação intitulado "The Serpent and the Rainbow"(A Serpente e o Arco-Iris) que mais tarde foi adaptado para os cinemas, tornando-se um filme de horror dirigido por  Wes Craven. O filme, obviamente se aproveita de apenas alguns elementos do livro e romanceia a maioria das situações.



Uma representação do antes e depois do processo de zumbificação.
(Cont...)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Caso Kurin - A Horrenda Estória das Irmãs que chocaram o mundo



Com base no artigo do site medo.com

“A casa era feita para atrair crianças e quando estas estavam em seu poder, a bruxa os matava e cozinhava para come-los. Como João estava muito magro, a bruxa o prendeu em uma jaula e ali o alimentava todos os dias, para engordá-lo.”



Irmãos Grimm – João e Maria

Klara Mauerová nasceu na cidade de Kurim, na antiga Checoslovaquia em 1975. Foi uma criança problemática com sérios problemas psicológicos, Seus pais eram muito religiosos e a criaram com fixação de que cada pessoa deveria realizar uma grande obra de vida. Em sua adolescência, os pais abandonaram a religião após uma traumática separação, mas a obsessão de Klara pelo universo místico continuou forte. Ela sempre afirmava estar destinada a cumprir uma missão designada por Deus, uma grande obra que tornaria seu nome imortal.

Para alguns especialistas ela sofria da Síndrome de Mártir, um distúrbio que leva as pessoas a acreditar estar predestinada a grandes realizações em nome de sua fé. Alguns se recordaram mais tarde de Klara falando a respeito de ser uma santa... de um dia "ser convidada a sentar do lado direito dos eleitos", ou algo assim.

Ela tinha uma irmã, sete anos mais nova chamada Katerina que também apresentava uma personalidade complicada. As duas fantasiavam constantemente a cerca de grandes feitos que iriam executar quando chegasse o momento correto. No colégio, os orientadores alertaram os pais para a possibilidade das meninas sofrerem de distúrbios esquizofrênicos, mas a mãe se mudava com as crianças para outros lugares quando elas começavam a chamar a atenção pelos seus discursos excêntricos. Há rumores de que aos 13 anos, Klara tentou asfixiar a irmã com um travesseiro, no intuito de depois a ressuscitar usando poderes divinos. Klara foi medicada, mas o tratamento psiquiátrico não foi adiante por intromissão da mãe.

Com o passar dos anos, Klara acabou indo morar sozinha, e chegou a estudar engenharia em uma universidade. Infelizmente nunca conseguiu libertar-se inteiramente de suas fixações pseudo religiosas. Os colegas se lembram dela como uma moça retraída e sempre quieta, que não se relacionava com os demais alunos. Tempos depois, ela teve uma briga com a mãe e decidiu se afastar de vez do restante da família.

Eventualmente, ela conheceu um homem mais velho, chamado Januz, com quem passou a viver e que segundo a própria "cuidava de todas suas necessidades". Klara chegou a abandonar por algum tempo seus devaneios religiosos e nesse período teve dois filhos: Ondrej e Jakub. Sua vida era tranquila em um subúrbio de Praga, para onde ela havia se mudado.

Klara e seus dois filhos em 2002

Mas a idílica vida em família não iria durar muito tempo. Devido ao caráter doentio de Klara, que desconfiava de uma vida dupla do marido, o casamento não poderia durar muito tempo. Ela acusava Januz de ser um monstro controlador, de agredi-la e até de abusar dos meninos. As brigas eram corriqueiras na casa e um assistente social foi designado para verificar o que estava acontecendo. O casal decidiu se separar e Klara ganhou a guarda dos filhos. Januz não constestou o pedido, resolveu se mudar para a vizinha Hungria onde começou vida nova. 

Apesar de suas excentricidades, Klara era considerada uma boa mãe; passava bastante tempo com os meninos, os amava e zelava por eles. Nessa época ela voltou a apresentar um comportamento atípico, afirmando que a vida de casada havia lhe desviado de sua missão divina e que ela teria de recomeçar do zero. Klara buscou se reconciliar com a irmã, Katerina que também levava uma vida de altos e baixos, entrando e saindo de instituições de apoio ou da cadeia por prostituição. Como a mãe havia falecido recentemente, as irmãs herdaram uma casa em Kurin, a mesma em que haviam crescido. Decidiram então se mudar para lá e morar juntas, criando os meninos.

A vida de Katerina em Instituições ao redor do país, fez com que ela entrasse em contato com várias pessoas. Algumas queriam ajudá-la a superar seus traumas, mas outras se aproveitavam de suas fraquezas. Uma dessas pessoas era uma mulher estranha chamada Barbora Skrlová, de 33 anos. Esta mulher sofria de uma rara doença glandular: sua aparência era de uma menina de doze anos e constantemente ela se valia disso para se passar por menor de idade e assim escapar de sanções e de medidas legais. Barbora chegou inclusive a ser adotada por um casal, que a confundiu com uma criança. Com caráter violento e personalidade obsessiva beirando a sociopatia, Barbora passou muito tempo de sua vida fazendo tratamento psiquiátrico, mas conseguia escapulir com facilidade.

A presença de Barbora Skrlová nas vidas de Klara e Katerina, foi devastadora para a já delicada estabilidade das irmãs. Barbora passou a dominar cada aspecto de suas vidas e as coisas só pioraram quando ela se insinuou na casa e passou a morar em um dos quartos do casarão. Segundo declarações do psiquiatra Zdenek Basný, a mulher com aspecto de criança se comportava daquela maneira em virtude de um grave distúrbio mental: “Toda a história de Barbora Skrlova está rodeada por um enigma de difícil solução. Não existe uma explicação clara, mas minha hipótese é que se trata de uma distorção psíquica grave com dissociação de identidade. Ela própria não sabe quem é, e se vale da personalidade que lhe é mais útil, em cada momento”.

Barbora não parecia especialmente má, mas quando se fixava em alguma coisa não deixava de lado. Ela abraçou a noção de Klara de que esta estava designada a cumprir um papel de importância religiosa. Alegando ter tido um sonho ou premonição, não foi difícil manipular Klara a aceitá-la como uma espécie de guia espiritual.

Barbora Skrlová aos 29 anos

Por influência de Barbora, as irmãs passaram a frequentar uma Seita chamada “Movimento Graal”, que afirmava contar com centenas de seguidores na Inglaterra, assim como dezenas de milhares de apoiadores ao redor do mundo. Este movimento se baseava nas escrituras criadas entre 1923 e 1938 pelo alemão Oskar Ernst Bernhardt, um místico que promovia sua imagem como uma encarnação de Jesus Cristo. Bernhardt chegou a contar com centenas de seguidores que viam nele uma figura santificada. Bernhardt construíu uma espécie de Igreja com as doações de seus seguidores em um terreno para onde os fiéis e suas famílias se mudaram com o intuito de levar uma vida de devoção espiritual. Em 1937, alguns membros do culto se ressentiram com Bernhardt, acusando-o de molestar mulheres e crianças, além de incentivar práticas estranhas como a leitura de livros diabólicos e a ingestão de sangue.

Há boatos de que o Culto foi tolerado por algum tempo pelo rígido regime nazista, por possuir alguns membros interessados nos ensinamentos de Bernhardt. Ele era um especialista em ocultismo, mitologia e horóscopo que chegou a fazer o mapa astral do Führer. Em 1942, no entanto, o Culto acabou sendo desarticulado, em parte porque ele defendia o uso da Cabala Judaica. O líder do Culto desapareceu nos dias tumultuosos da Segunda Guerra.
Oskar afirmava que seus ensinamentos haviam sido colhidos de um manuscrito que estava junto do lendário Santo Graal. Segundo ele, para chegar ao paraíso, o homem deveria realizar ações virtuosas na Terra. Mas a realidade era bem diferente. Um dos preceitos do grupo era que seus integrantes estavam livres de Tabus Sociais, como o incesto, a antropofagia e o homicídio. Apenas a libertação completa dos grilhões sociais poderia elevar o ser humano.
No ressurgimento do "Movimento Graal" fundado nos anos 1980, os membros recebiam ordens de um líder desconhecido a quem chamavam de "O Doutor". Os cultistas se comunicavam com ele apenas por mensagens, primeiro por carta e anos depois depois por celular. As mensagens de texto falavam sobre Patamares de Iluminação que deveriam ser alcançados. Cada etapa demandava um completo comprometimento com o culto e lealdade aos seus preceitos. O "Doutor" apoiava a escravidão, o maltrato infantil e a promiscuidade sexual, em razão de um suposto sentido libertário.
O que importava para Klara era estar inserida em um grupo. Outros seguidores, por influência de Barbora, viam nela uma pessoa "iluminada" que escalaria os Patamares da Iluminação e levaria todos ao seu redor mais perto do Paraíso. Graças às manipulações de Barbora, Klara raspou o cabelo e as sobrancelhas. Se vestia como uma mendiga, vagava pelas ruas e parou de tomar banho. Sua irmã Katerina apoiava a mudança da irmã, mas nunca chegou a se devotar ao culto, em parte porque Barbora a considerava indigna. As irmãs participavam de reuniões orgiásticas do culto, regadas a sexo e drogas.
Assumindo o papel de "criança", Barbora passou a se identificar como filha de Klara e ser tratada como tal. Ela nutria um ciúme doentio da atenção que sua "mãe" dedicava aos seus filhos verdadeiros. Pouco a pouco, ela deu início a uma sutil campanha contra os meninos. Os acusava de cometer travessuras, quebrar objetos e comportar-se mal. Dizia que eles riam de suas crenças religiosas e que estavam destinados a atrapalhar sua iluminação.

Influenciada por Barbora, Klara passou a castigar seus filhos com surras e deixando-os sem comida. A frequência de queixas aumentou tanto, que Klara, desesperada pelo suposto mau comportamento dos filhos, pediu conselhos à autora de tudo. Barbora, feliz ao tornar-se dona da situação, lhe sugeriu que construísse uma jaula de ferro para prender as crianças: "Só assim elas poderão ser controladas". 
A jaula foi encomendada a um ferreiro da localidade, um homem que construía canis. As mulheres a instalaram no porão da casa. Através de barras de ferro, os meninos poderiam receber alimentos e ficariam sem possibilidades de se comportarem mal. Barbora chamava os meninos de "pequenos demônios" e dizia que eles estavam possuídos por entidades malignas interessadas em frustrar seus planos. Em 2006, os meninos foram despidos e aprisionados na cela, mal sabiam que permaneceriam ali por mais de um ano.
Ampliando sua influência sobre as irmãs, Barbora exigiu que as reuniões passassem a ser realizadas na Casa em Kurin. Nessas festas estranhos entravam e saíam da casa, às vezes dormiam lá por dias. Para piorar as coisas, Barbora intruiu Klara a torturar seus "pequenos demônios" como forma de extinguir o mal que supostamente os possuía. As crianças dormiam no chão, sem cobertas, junto com sua urina e excrementos. As mulheres atiravam a comida pelas grades e as lavavam com baldes de água. Se choravam, eram golpeados através das barras com porretes de madeira.
Um dia, Barbora disse ter sido abençoada com outro sonho no qual ela recebia do Doutor o posto de Líder do Movimento Graal. Segundo ela, os meninos precisavam ser preparados para um ritual de confirmação. Pelas instruções, os meninos começaram a ser alimentados com doces. Quando ganharam peso, Barbora revelou que as crianças teriam de ser sacrificadas e devoradas em uma reunião da seita. A loucura da mulher chocou até mesmo Katerina, que não aceitou seguir com o plano. Klara também ficou em dúvida, e no fim aceitou uma outra sugestão de Barbora: ao invés de matar os meninos, elas beberiam seu sangue.
As mulheres obrigavam Ondrej a colocar o braço através da grade e enquanto Barbora o segurava, Klara realizava talhos em sua pele, coletando filetes de sangue fresco com uma bacia. As mulheres em seguida misturavam o sangue com vinho, bebiam e serviam para seus convidados. A escalada de loucura só continuou... em um final de semana em que Katerina não estava presente, Barbora convenceu Klara a amarrar Jakub e arrancar pedaços de carne de seus braços e nádegas. As duas teriam praticado canibalismo diante da criança e forçado Ondrej a tomar parte naquele ritual medonho.

Muitos outros rituais, criados pela mente perturbada de Barbora ocorreram naquele porão maldito.

Imagens dos meninos 

O estranho comportamento das mulheres passava desapercebido. Os vizinhos estranhavam o movimento na casa e a degradação das duas mulheres, mas em Kurin, todos aprendiam a não se envolver com os problemas alheios. As mulheres diziam que os meninos estavam com o pai na Hungria e chegavam a forjar cartas que mostravam aos vizinhos. Um dia, Barbora se descuidou e os meninos por pouco não conseguiram escapar da jaula no porão. Na última hora foram impedidos de fugir por Katerina que os pegou no pátio dos fundos. Depois desse incidente, Barbora teve a ideia de comprar em uma loja de aparelhos de vigilância um monitor para supervisão de bebês, essa seria sua perdição. O aparelho foi instalado no porão e através dele, as mulheres podiam observar o que os meninos faziam.

Foi então que algo inesperado aconteceu. Uma família se mudou para uma casa próxima e instalou um aparelho idêntico para monitorar o quarto de seu bebê recém nascido. Qual não foi a sua surpresa ao receber imagens estranhas de crianças presas no que parecia uma jaula de ferro. Passaram dias até a família se dar conta de que as imagens que estavam captando era da casa ao lado. A Família ficou chocada com o que havia testemunhado e resolveu gravar as imagens e fazer uma denúncia na Polícia de Kurin. Em 10 de maio de 2007 os agentes arrombaram a porta da frente da casa. Klara e Katerina tentaram impedir a entrada dos policiais e gritaram histericamente tentando impedir a invasão. Os policiais as removeram e levaram a uma viatura. Quebraram os cadeados que conduziam ao porão e entraram. O que encontraram ali lhes causou revolta e horror.

O fedor de sangue, urina e fezes era insuportável. O chão estava pegajoso e as paredes estavam cobertas de sangue e estranhos símbolos. A jaula de ferro estava trancada, em seu interior um dos meninos estava desmaiado, o outro em estado de choque. Ambos apresentavam feridas horríveis no corpo, com infecções e sinais óbvios de inanição e desidratação.

Parada em frente à jaula estava uma menina segurando um ursinho de pelúcia. Ao ver os agentes, correu para seus braços dizendo que também era prisioneira naquele lugar horrível. Disse-lhes que se chamava Anika, tinha 12 anos e que era filha adotiva de Klara. Os agentes a levaram dali rapidamente e a entregaram aos cuidados de uma Assistente Social. Uma vez na rua, a suposta menina aproveitou que os policiais tentavam desesperadamente abrir a jaula de ferro, para fugir: era Barbora se fazendo passar por criança para escapar da lei.

 O lugar onde as crianças eram mantidas.

O caso foi um escândalo na República Tcheca e ganhou garnde destaque na imprensa do mundo inteiro. As crianças foram hospitalizadas e receberam tratamento médico e psicológico vindo a se recuperar de seu trauma. Ondrej, o filho mais velho que tinha 12 anos, depôs contra mãe e tia, descrevendo em detalhes os horrores vividos naquele porão durante um ano.

Durante o julgamento, três jurados passaram mal, um curioso tentou agredir Klara com um martelo e o juiz ordenou que o restante do julgamento fosse realizado à portas fechadas. As duas mulheres alegaram inocência. Seu advogado arguiu que a verdadeira culpada era Barbora, que havia se aproveitado da fragilidade emocional das mulheres, realizando nelas uma espécie de lavagem cerebral.



Klara Mauerova durante o julgamento

Mas e quanto a Barbora Skrlová?

Após escapar da polícia da República Checa, a perigosa mulher fez seu caminho para fora do país e se refugiou por algum tempo na Alemanha na companhia de conhecidos. De lá, conseguiu fugir para a Noruega, onde assumiu outra identidade falsa: dizia ser um menino, chamado Adam e que tinha 13 anos. Um casal norueguês a acolheu e passou a cuidar dela. Barbora chegou a ser matriculada na escola primária, sendo tratada como uma criança.

Passou-se quase um ano até que a polícia descobrir seu paradeiro. Ela foi presa na Noruega, ante o olhar surpreso de seus pais adotivos que não podiam compreender por que o menino acohido estava sendo preso por um bando de policiais fortemente armados. Quando lhes contaram que não era um menino de 13 anos, mas sim uma mulher de 36, entraram em choque.

Barbora foi extraditada para a República Checa onde foi julgada junto com Klara e Katerina. Sua doença e sua estranha personalidade inspiraram o filme "A Órfã", que conta a história de uma mulher que engana as pessoas se passando por uma criança e cometendo crimes terríveis.

Barbora se passando por um menino. 

Durante o julgamento, Klara fez a seguinte declaração em juízo: “Ocorreram coisas terríveis e só agora me dou conta disso. Não consigo entender como deixei que acontecessem. Acredito que me deixei levar pelas palavras de uma pessoa que me convenceu a fazer o mal. Eu fui fraca e não consegui resistir... Tudo o que peço é perdão pelos meus atos”.

Psiquiatras se dividiram ao diagnosticar as irmãs, mas no fim concluíram que tanto Klara quanto Katarina sofriam de um quadro esquizóide grave. Em março de 2009, o Tribunal Superior de Olomouc condenou Klara Mauerova a 9 anos de cárcere em uma instituição psiquiátrica. Sua irmã Katerina Mauerova recebeu 8 anos em outro hospital. 

Barbora não chegou a ser condenada a prisão, mas foi recolhida a uma Instituição para Criminosas com Doenças Mentais. Seu caso foi estudado por especialistas, ela recebeu drogas e um tratamento para promover seu crescimento. Barbora tentou ganhar o direito de rejeitar esse tratamento, já que ela pretendia manter sua aparência juvenil. Um novo julgamento decidiu que ela receberia o tratamento, querendo ou não...

Até hoje ela vive em um manicômio judiciário em Praga e não há previsão de soltura.

Os meninos posteriormente se recuperaram dos horrores pelos quais passaram. O pai biológico recebeu a guarda das crianças e atualmente todos moram na Hungria.

O caso Kurim ficou conhecido como o pior caso de maltrato infantil da história da Europa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Criatura Marinha - O Mistério do Tritão capturado na Espanha


Na manhã de 9 de maio de 1868, o barco pesqueiro Santa Monique surgiu em meio às névoas cinzentas do Atlântico e sinalizou para o porto em Tomancha, uma pequena vila costeira entre as cidades de Bilbao e Gijon no litoral norte da Espanha. Os pescadores estavam atrasados em seu retorno e o sinal luminoso foi visto com alívio pelas pessoas em terra. As águas revoltas da Baía de Biscaia estavam ainda mais furiosas naquela semana, o mar remexido por fortes tempestades e um vendaval que formava enormes ondas.
Em sua viagem, o Santa Monique havia sido seriamente danificado. Sua quilha foi avariada e as velas estavam rasgadas, para manter a embarcação flutuando, os pescadores tiveram de bombear água para fora com mangueiras. Um dos homens bateu a cabeça e permaneceu desmaiado por dois dias, os outros estavam esgotados.

Ao menos o porão estava cheio, os marujos conseguiram pegar uma boa quantidade de peixes para compensar os danos sofridos. Mais importante, eles haviam capturado algo inesperado em suas redes pouco antes da tempestade se formar. Era algo que tornaria a tripulação e o barco lendários no norte da Espanha e que daria início a uma controvérsia que permanece até os dias atuais.

Quando aportaram, os pescadores foram saudados pelos seus amigos e parentes com alegria, mas eles permaneciam com expressões sérias em seus rostos, apesar do alívio que sentiam. Um dos homens mandou chamar o médico local Dr. Guzman e o Padre da Paróquia, Monsenhor Nobrega. Eles tinham algo no compartimento de carga que esses dois homens em particular precisavam ver. Imediatamente o médico e o padre foram convocados e acompanhados do capitão Tomas Cinoda, desceram as escadas até o porão.

Lá embaixo, havia um depósito trancado com correntes, e em seu interior uma grande rede de pesca embolada. Um cheiro forte de peixe emanava dos nós de cordame e metal. Quando se puderam a observar com mais cuidado perceberam algo sob as redes. Os dois se afastaram horrorizados, pois diante de seus olhos estava uma criatura que só poderia existir em fábulas e lendas. Era do tamanho de um homem, com a face de uma pessoa e vasta cabeleira castanha. O torso não tinha nada de extraordinário ois era o de um homem musculoso, mas abaixo da cintura, a coisa possuía um corpo sinuoso e coberto de escamas cinza-amareladas, terminando em uma barbatana idêntica a de um peixe. Os braços eram curtos, e os dedos se confundiam com nadadeiras.

Estava vivo e enquanto os dois observavam, ele se debateu violentamente tentando se libertar do pesado cordame que o prendia. O padre fez o sinal da cruz, o médico revirou os olhos assustado e o Capitão se apressou para conduzir o grupo para fora.


Em seguida, contou como haviam pego a criatura dois dias atrás.

Cinoda relatou que os primeiros dias no mar tinham sido especialmente proveitosos e que os homens estavam satisfeitos, pois logo poderiam regressar a Tomancha. No final da tarde de 7 de maio, eles resolveram puxar as redes e verificar o que haviam apanhado. Enquanto erguiam a carga, sentiram um peso extra na rede, mas apenas quando ela saiu da água é que se depararam com uma coisa meio homem-meio peixe que se debatia tentando escapar. Ficaram paralisados por alguns instantes, sem saber o que fazer. Não era um peixe espada, nem uma arraia, como cogitaram tentando achar uma explicação razoável para o que estavam vendo. A coisa parecia um tritão, como os seres míticos descritos nas lendas.

Seguiu-se uma discussão acalorada, os homens não sabiam se deviam trazer a coisa à bordo ou lançar de volta no mar. Enquanto isso, ele lutava furiosamente. O Capitão Cinoda, um experiente lobo do mar, com mais de 30 anos de experiência marinha, jamais havia visto tal coisa, e estava tão surpreso quanto os outros. Finalmente ele resolveu largar a coisa no tombadilho. Ela rolou pelo chão e tentou se desvencilhar, um dos homens se aproximou e ela o atacou. Um outro então veio cautelosamente e desferiu um golpe na cabeça da coisa com um pedaço de pau. Ela se agitou novamente e finalmente ficou imóvel.

Assustados, os homens arrastaram a criatura para o porão e a prenderam em uma rede. Horas depois ele voltou a se debater, e eles lançaram uma segunda rede, mais pesada sobre ela.

Ainda estarrecidos com o acontecimento, os pescadores do Santa Monique debateram o que fazer. Alguns votaram por jogar a criatura e as redes na água, enquanto outros achavam melhor levá-la para terra e mostrar a outras pessoas. Quem iria acreditar em uma estória tão fantástica sem provas? O Capitão estava dividido sobre o que fazer, finalmente achou que seria melhor voltar para Tomancha com aquele ser estranho. Mas assim que tomou a decisão, um dos homens que estava no timão gritou para seus companheiros. Era um alerta de tempestade!

Entre o momento que o tritão foi capturado e nas horas que se seguiram à reunião para decidir o que fazer, o tempo mudara de forma dramática. Nuvens negras cobriam os céus, a água estava cinzenta e agitada e tudo indicava que uma horrível tempestade se aproximava. Mesmo nos arredores de Biscaia, o tempo não muda de uma hora para outra e alguns dos pescadores mais supersticiosos culparam a criatura pela mudança súbita no clima.


Como previsto, a tempestade atingiu o pequeno pesqueiro com força. A embarcação rolou de um lado para o outro, ao sabor das ondas destruidoras como uma rolha. Apenas a habilidade do Capitão Cinoda evitou o pior. Os pecadores tiveram de passar a noite inteira usando as bombas para retirar a água que por pouco não causou um naufrágio. Um dos homens foi lançado contra o costado e bateu a cabeça sofrendo uma concussão que o deixou desacordado. A tempestade por pouco não levou o barco à pique. Na manhã seguinte, o Santa Monique iniciou a viagem de volta para seu porto de origem, sob um tempo ruim, mas ao menos navegável.

O Padre e o médico ouviram a estória, mas não sabiam o que dizer. Ambos, no entanto, reconheceram que não acreditariam em nada daquilo se não tivessem visto com os próprios olhos a criatura marinha que estava no porão. Acharam melhor levá-la para terra.

Ainda existem jornais e artigos publicados que mencionam o incidente em Tomancha. Logo que chegou ao porto, os rumores sobre a captura de uma estranha criatura marinha, já haviam se espalhado pelo porto e pela cidade. As pessoas se perguntavam o que poderia ser aquela coisa pega pela tripulação do Santa Monique. O Capitão da Guarda, o Tenente Juan Constanza, foi chamado para ver o prisioneiro e ficou impressionado com a criatura. Ele despachou então uma ordem para que o monstro fosse levado imediatamente para a cadeia local.

"Tratava-se de uma besta estranha sobre a qual nada sabíamos. Ela poderia ser perigosa, por isso ordenei que fosse levada para a cadeia afim de ser contida", explicou o Chefe da Gurda aos jornais nas semanas seguintes ao incidente.

Para fazer o transporte da criatura do porto até a delegacia, os guardas mandaram esvaziar as ruas. Mulheres e crianças receberam ordens para ficar em suas casas, com as portas e janelas trancadas. Mais tarde naquele mesmo dia, longas varas foram presas a rede e o tritão ainda preso foi desembarcado. Centenas de testemunhas viram a criatura ser carregada em uma estranha procissão pelas ruas de Tomancha.

Um repórter de Bilbao que estava de passagem pela cidade descreveu a cena em detalhes:

"A criatura parecia furiosa, sendo arrastada lentamente na rede que a mantinha aprisionada. De quando em quando, ela tentava fazer um esforço para se libertar. As pessoas olhavam sem acreditar no que estavam vendo", ele em seguida descreveu a criatura da seguinte maneira: "Era uma criatura medindo cerca de um metro e oitenta de comprimento, do topo da cabeça até o rabo de peixe. Sua pele era escamosa em um tom amarelo-esverdeado. A cabeça permanecia abaixada entre os ombros, coberta por uma juba selvagem de cabelos castanhos que escorriam sobre os ombros. Seus braços eram curtos, parecendo nadadeiras. Ele era arrastado de lado, sobre o ventre e não produzia nenhum som, mesmo quando abria a boca. Na parte de baixo do torso haviam escamas mais claras e estreitas descendo até a barbatana triangular que ocupava o lugar das pernas."


"Não resta dúvida", escreveu o repórter, "que a coisa não era um simples peixe. Mas também não podia ser chamada de homem. Um tritão, ou sereia do sexo masculino, parecia ser a única descrição que se encaixava em sua forma bizarra".

A criatura foi colocada em uma cela na delegacia de polícia, para esperar a chegada de um Oficial vindo de Bilbao. Naquele dia, o tenente Constanza, fez um relatório oficial sobre a criatura detida.

Enquanto aguardava na cela, o tritão foi mantido sob constante vigilância. O Dr. Guzman pediu que ele fosse molhado com um balde e que recebesse algo para comer (no caso peixes que ele sequer tocou). Várias pessoas visitaram a cadeia para ver a criatura atrás das grades naquele dia.

Segundo rumores, mais de 600 pessoas estiveram no lugar e afirmam ter visto a criatura ainda viva. Estes a descreveram como um homem de aspecto rude, com cabeça e torso humano, e a parte inferior do corpo correspondendo a um peixe. A cabeça segundo a maioria era chata e os olhos distribuídos um de cada lado, como ocorre em peixes. Ele tinha uma longa juba de cabelos escuros, castanhos ou negros de acordo com as testemunhas, uma barba cerrada e uma boca pequena. Seus olhos eram frios e sem expressão, leitosos, raramente piscavam, mas abriam e fechavam. Seus lábios eram grossos e ele não parecia ter dentes. Os braços eram descritos como nadadeiras mas havia vestígios de dedos nas pontas achatadas.

Enquanto isso, do lado de fora uma ruidosa discussão se iniciou entre o Capitão Cinoda e o Chefe da Guarda a respeito de quem era o real proprietário do tritão. Cinoda dizia que havia encontrado a criatura e a tirado da água e que portanto ela era legalmente sua. A ganância falava mais alto. Seu intuito era cobrar algumas moedas de cada pessoa que quisesse ver o monstro marinho. Já o Tenente Constanza declarou que estava mantendo a criatura sob custódia em nome da Província de Navarra.

Na manhã seguinte, o Dr. Guzman declarou que o tritão parecia doente. Todos que observavam a criatura podiam ver o mesmo, ela não parecia nada bem. Ofereceram-lhe um prato de peixe cru e água, mas ele recusou ambos. Observadores perceberam que a pele dele estava se tornando branca e quebradiça em algum pontos. Tentaram acudir colocando sobre ele cobertores, mas seu estado continuou deteriorando. Ele não lutava mais com a rede e permanecia imóvel. Seus olhos ocasionalmente se abriam, assim como a sua boca. Era como se estivesse lentamente sufocando. No começo da tarde, o Dr. Guzman entrou na cela para examinar a criatura, ele verificou que sua temperatura era de 16 graus centígrados e que sua pele era fria ao toque.

No dia 12 de maio, o tenente chamou novamente o Dr. Guzman, o tritão estava imóvel desde a noite anterior e embora sua boca ainda abrisse e fechasse estava claro que ele não ia durar muito. A criatura não comeu ou bebeu nada desde a sua chegada, não fizera nenhum som ou movimento. O médico entrou na cela e examinou a criatura, foi capaz de detectar uma fraca batida cardíaca, o suficiente para dizer que ele ainda estava vivo. O Doutor cogitou com o tenente preparar um tanque onde pudessem mergulhar a criatura, mas os preparativos não foram adiante. No final da tarde, o tenente entrou na cela e verificou que o tritão estava morto.


Naquela mesma noite ele foi transferido de carroça, sem grande alvoroço para um hospital em Bilbao. Era um domingo e o médico responsável não estava presente. Seu assistente aceitou receber o cadáver e em face de seu estado deplorável, resolveu ele mesmo conduzir uma autópsia. Segundo o jovem médico, o tritão possuía órgãos internos semelhantes aos de um homem, mas o aparato respiratório era típico de um peixe. Ele verificou a presença de um estômago e de um aparelho digestivo. Também encontrou um coração e o que julgou ser um par de pulmões rudimentares. A pele estava incrivelmente seca e exalava um fedor nauseante.

No dia seguinte, o médico principal retornou e ficou furioso com a ousadia de seu jovem assistente que havia procedido em uma autópsia sem a sua autorização. Ele ordenou então que a carcaça fosse incinerada e que todas as amostras coletadas fossem destruídas. O único documento que escapou dessa destruição deliberada foram duas páginas do laudo cadavérico. Mais tarde, o médico disse ter se arrependido de sua atitude intempestiva, mas que na ocasião julgou necessário agir daquela forma pois temia que a criatura pudesse transmitir alguma doença.

O jovem médico que realizou a autópsia, o Dr. Alejandro Verano, escreveu duas dissertações sobre a estranha criatura por ele analisada. A essa altura, a notícia já havia chamado a atenção de toda Espanha, ganhando destaque em todos os jornais do país. As pessoas se dividiam, mas a grande maioria não acreditava na fantástica estória... quanto mais, na ausência de provas. Cerca de mil pessoas afirmaram ter visitado a criatura na Cadeia de Tomancha onde a viram agonizando, outras cem pessoas também a viram no hospital.

Um jornal de Bilbao ofereceu uma boa recompensa para qualquer um que capturasse outra criatura marinha semelhante ao Tritão de Tomancha. Barcos de pesca procuraram por meses por algum outro espécime na mesma área, mas nada foi encontrado. Gradualmente, a notícia foi desaparecendo até sumir de vez e ser tratado como um caso de histeria coletiva ou uma mera confusão envolvendo um animal raro até então desconhecido.

Mas o que era o Tritão de Tomancha?

Hoje, ninguém sabe ao certo, embora os descendentes das pessoas envolvidas e das testemunhas que viram a criatura, jurem que o caso realmente aconteceu e que a criatura de fato existiu. Desenhos e testemunhos foram colhidos abundantemente e muitos se encontram em arquivos públicos e bibliotecas como provas contestadas daqueles dias estranhos em maio de 1868.

A verdadeira identidade da criatura, o que ela era e de onde veio. permanece mistério tão insondável quanto o oceano de onde ela supostamente saiu.