sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

"Eu, Cthulhu" - um conto traduzido do genial Neil Gaiman


Ilustração por Brian Elig, do site tor.com 

Traduzido por Tanilo

NOTA: Os termos que estão em azul podem ser encontrados no glossário no final do texto para facilitar a leitura.

I


Cthulhu, eles me chamam.

Grande Cthulhu.

Ninguém pode pronunciar isto certo.

Você está anotando isso? Cada palavra? Bom. Por onde devo começar – hmm?

Muito bem, então. Do começo. Anote isso, Whateley.

Eu fui desovado há incontáveis éons atrás, em meio à névoa negra de Khhaa’yngnaiih (não, claro que não sei como se soletra isso. Escreva como se pronuncia.), nascido de pais saídos de pesadelos inomináveis sob uma lua minguante. Não era a lua deste planeta, claro, era uma lua de verdade. Em certas noites preenchia mais da metade do céu e quando ela se levantava, podia-se assistir o sangue gotejando por sua face inchada, manchando-a de vermelho, até cair e banhar totalmente os pântanos e torres com uma sangrenta e mortal luz vermelha.

Aqueles eram os dias.

Ou melhor, as noites. Nosso lugar possuía um tipo de sol, mas ele era velho, mesmo naquela época. Eu me lembro que na noite em que ele finalmente explodiu todos nós rastejamos até a praia para assistir o espetáculo. Mas eu estou me adiantando.

Eu nunca conheci meus pais.

Meu pai foi consumido pela minha mãe logo depois de tê-la fertilizado e ela, por sua vez, foi comida por mim logo após meu nascimento. Essa é minha primeira memória, como tudo aconteceu. Eu me contorcendo e abrindo caminho para fora, o gosto forte dela continua impregnado em meus tentáculos.

Não fique tão chocado, Whateley. Eu acho vocês humanos igualmente repugnantes.

O que me lembra, será que esqueceram de alimentar os Shoggoth? Acho que ouvi um gemido.

Passei meus primeiros mil anos naqueles pântanos. Eu não era assim, claro, pois eu tinha a cor de uma jovem truta e era mais ou menos quatro vezes maior que seu pé. Passei a maior parte do tempo me arrastando por cima de coisas e as comendo e evitando ser arrastado e comido.

Então a minha juventude passou. E um dia - acredito que era Terça – descobri que havia mais na vida que comida. (Sexo? Claro que não. Eu não vou chegar a este estágio até a minha próxima evolução; seu pequeno e fútil planeta vai estar congelado até lá). Foi naquela Terça-Feira que meu tio Hastur deslizou até minha parte do pântano com suas mandíbulas fechadas.

Aquilo significava que a visita não era com a intenção de jantar, e que nós podíamos conversar.

Agora isso é uma pergunta estúpida até mesmo para você, Whateley. Eu não uso nenhuma das minhas bocas para me comunicar com você, uso? Pois muito bem. Mais uma pergunta como essa e eu irei achar outra pessoa para anotar minhas memórias. E você alimentará os Shoggoth.

Nós estamos saindo, disse Hastur para mim.

Você gostaria de nos acompanhar?

Nós? Perguntei a ele? Quem seria “nós”? Eu, ele disse, Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Tsathogghua, Ia! Shub Niggurath, o jovem Yuggoth e alguns outros.

"Você sabe," ele disse, "os rapazes". (Eu estou traduzindo livremente para você aqui, Whateley, você compreende. A maioria deles era a, bi, ou trissexual, e o velho Ia! Ia! Shub Niggurath era na época um milênio mais novo que todos nós, por assim dizer. Esse ramo da família sempre foi dado ao exagero).

"Nós estamos dando uma saída", ele concluiu, "e estávamos querendo saber se você deseja um pouco de diversão". 

Eu não lhe respondi imediatamente. Para falar a verdade eu não era muito chegado nos meus primos, e devido a alguma distorção nos planos sobrenaturais, eu sempre tive uma grande dificuldade de enxergá-los claramente. Eles tendem a ficar confusos em torno das bordas, e alguns deles – Sabaoth, no caso - tinham muitas bordas. Mas eu era jovem, eu ansiava por excitação. “Tem que haver mais na vida que isso!”.

Eu choraria, à medida que o delicioso e cadavérico cheiro do pântano se espalhasse ao meu redor, e acima de mim os ngau-ngau e os zitadors gritassem e vaiassem. Então eu disse sim, como você provavelmente pensou, e deslizei atrás de Hastur até o ponto de encontro. Pelo que me lembro nós passamos a lua seguinte inteira discutindo para onde estávamos indo. Azathoth tinha seus corações na distante Shaggai, e Nyarlathotep ansiava o Lugar Inominável (Eu não posso, pela vida, saber o porquê. A última vez que estive lá estava tudo fechado). Era tudo a mesma coisa para mim, Whateley. Qualquer lugar úmido ou, de alguma maneira, sutilmente errado e eu me sentiria em casa. Mas Yog-Sothoth teve a ultima palavra, como sempre tem, e nós viemos para este plano.

Você conheceu Yog-Sothoth não conheceu, minha criaturinha de duas pernas?

Foi o que pensei.

Ele abriu o caminho para que nós viéssemos para cá. Para ser honesto, eu não me importei muito com isso.

Continuo não me importando. Se eu soubesse dos problemas que nós iríamos ter, duvido que tivesse me incomodado também. Mas eu era tão jovem.

Pelo que me lembro nossa primeira parada foi na escura Carcosa. Me defequei de medo daquele lugar. Hoje em dia posso olhar para a sua espécie sem estremecer, mas todas aquelas pessoas, sem escamas ou pseudópodes, me davam tremores.

O Rei de Amarelo foi o primeiro com quem me deparei.

O Rei em Farrapos. Você não o conhece? Necronomicon, página 704 (da edição integral) cita a sua existência. E eu creio que o idiota do Prinn também o menciona no De Vermis Mysteriis. E há o Chambers, é claro.

Enfim, camarada adorável esse rei, só depois que me acostumei com ele. Foi ele quem me deu a idéia.

"Que infernos indizíveis há para se fazer nessa lúgubre dimensão?" Eu o perguntei.

Ele riu. "Na primeira vez que vim aqui", ele disse, "também me perguntei a mesma coisa. Até que percebi o divertimento que se pode ter conquistando estes mundos estranhos, subjugando seus habitantes, fazendo-os temer e adorar você. É realmente engraçado".

"Mas claro que os Grandes Antigos não gostam disso".

"Os grandes antigos?" Perguntei.

"Não", ele disse, "Grandes Antigos. Com letras maiúsculas. Camaradas engraçados. Parecidos com enormes barris com cabeça de estrelas-do-mar, com grandes asas membranosas que usam para voar pelo espaço".

"Voar pelo espaço? Voar?" Eu estava chocado. Eu não pensava que alguém pudesse voar aqueles dias. Por que se preocupar em voar quando se pode deslizar, hein? Eu pude ver por que os chamavam de grandes antigos. Pardon, Grandes Antigos.

"O que esses Grandes Antigos fazem?" Perguntei ao Rei. (Eu irei lhe falar tudo sobre esses contrabandos depois, Whateley. Desnecessário, eu acho. Seu velho wnaisngh’ang! Todavia talvez os equipamentos de badminton sirvam muito bem pra isso). (Onde eu estava? Ah, sim.)

"O que esses Grandes Antigos faziam", perguntei ao Rei.

"Não muito", ele explicou. "Eles só não gostam que mais alguém faça nada". Eu ondulei, contorcendo meus tentáculos como quem diz “Eu conheci esse tipo de ser no meu tempo”, mas sinto que o Rei não captou a mensagem. "Você sabe de algum lugar pronto para ser conquistado"? Perguntei a ele.

Ele balançou a mão vagamente na direção de um pequeno e monótono grupo de estrelas. "Há um depois dali que talvez você goste", ele me disse. "É chamado de Terra. Um pouco fora do caminho traçado, mas com muito espaço para mudanças".

Criaturinha boba.

Isso é tudo por hora, Whateley.

Diga a alguém para alimentar os shoggoth quando você sair.

II


Está pronto, Whateley?

Não seja tolo. Eu sei que falei para você. Minha memória está boa como sempre foi.

Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fthagn.

Você sabe o que isso significa, não sabe? Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu, morto, espera sonhando. Um exagero justificado. Eu não venho me sentindo muito bem ultimamente. Isso é uma piada, cabeça-única, uma piada.

Você está anotando tudo? Bom. Continue.

Eu sei onde nós paramos ontem. R’lyeh. Terra. Esse é um exemplo de como as línguas mudam o significado das palavras. Que confusão. Eu não suporto isso. Em um tempo que R’lyeh era a Terra, ou pelo menos a parte que eu conheci, apenas um monte de água.

Agora aqui é apenas a minha pequena casa, latitude 47º 9’ sul, longitude 126° 43’ oeste. Os Grandes Antigos.

Eles nos chamam de os Grandes Antigos agora, como se não houvesse diferença entre nós e os barrilzinhos. Engraçado. Então eu vim para a Terra, e nesses dias ela tinha muito mais água do que tem hoje. Um ótimo lugar, os oceanos eram ricos como sopa e eu adorei os moradores. Dagon e os meninos (digo isso literalmente desta vez).

Nós todos vivíamos na água nesses tempos que já se foram, e antes que você pudesse dizer Cthulhu fthagn, eu os tinha escravos, construindo e cozinhando. E sendo cozinhados, é claro.

O que me lembra, há algo que tenho que contar para você; Uma história verídica. Havia um navio no oceano. No Oceano Pacífico. E nesse navio havia um mágico, um ilusionista, cuja função era entreter os passageiros. E havia um papagaio.

Toda vez que o mágico fazia um truque, o papagaio tratava de arruiná-lo. Como? Ele dizia como havia sido feito o truque, era isso.

“Ele pôs dentro da manga”, o papagaio grasnava. Ou “ele está no convés” ou “tem um fundo falso”.

O mágico não gostava disso. Finalmente chegou o momento dele fazer o seu maior truque. Ele o anunciou.

Subiu as mangas. Balançou os braços. E nesse momento o navio bateu e chacoalhou para um lado.

A submersa R’lyeh havia surgido logo abaixo deles. Hordas dos meus servos, repugnantes homens-peixe, pululavam por todos os lados, capturando passageiros e a tripulação, e os arrastando para dentro das ondas.

R’lyeh afundou para dentro das águas mais uma vez, esperando o momento em que o pavoroso Cthulhu ressuscitará e reinará mais uma vez.

Sozinho, acima das águas sujas, o mágico – deixado para trás pelos meus batráquios estúpidos, que pagaram caro por isso depois – flutuava, agarrado a uma porta. E então, muito acima dele, notou uma pequena forma verde.

Aquilo vinha devagar até finalmente pousar em um pedaço de madeira flutuante nas proximidades e ele ver que era o papagaio. O papagaio inclinou a cabeça para um lado e olhou para o mágico. “Tudo bem”, ele disse, “Eu desisto. Como fez isso?” É claro que é uma história verídica, Whateley.

Será que o medonho Cthulhu, que se esgueirou pelas estrelas mais negras, quando os seus mais terríveis pesadelos ainda mamavam nas pseudo-mamas de suas mães, que espera pela hora em que as estrelas estejam na conjunção para nascer de novo de seu túmulo palácio, reviver os fiéis e retomar suas leis, que aguarda para ensinar novamente os prazeres e a devassidão, será que ele mentiria para você?

Claro que mentiria.

Cale a boca Whateley, estou falando.

Eu não me importo se tenha ouvido isso antes.

Nos divertimos muito naqueles dias, carnificina e destruição, sacrifício e condenação, fluídos e lodo e limo, e jogos sujos e inomináveis.

Comida e diversão.

Foi uma festa bem longa, e todo mundo adorou, exceto aqueles que se viram empalados em estacas de madeira entre um pedaço de queijo e um de abacaxi.

Oh, havia gigantes na terra naqueles dias. A festa não poderia durar para sempre.

Dos céus eles vieram, com asas membranosas, e regras, e regulamentos, e rotinas, e Dho-Hna sabe quantos mais formulários a serem preenchidos em quintuplicatas.

Pequenos burocratas banais, um monte deles. Você pode ver isso só de olhar pra cara eles. Cabeças de cinco pontas – e cada cabeça que se olhava tinha cinco braços, ou o que quer que fosse (que eu poderia acrescentar, estavam todos sempre no mesmo lugar).

Nenhum deles tinha a imaginação de fazer crescer três braços, ou seis, ou cento e dois. Era sempre cinco. Sem querer ofender. Não nos demos muito bem. Eles não gostaram da minha festa.

Eles bateram nas paredes (metaforicamente). Ninguém prestou atenção. Então começaram a argumentar. Discutir. Brigar. E lutar.

Ok, nós dissemos, vocês querem o mar, vocês podem ter o mar. Arrumamos nossas coisas e fomos.

Nos mudamos para terra – era um lugar muito pantanoso naquela época – e construímos estruturas monolíticas gigantescas que estavam muito acima das montanhas.

Você sabe o que matou os dinossauros, Whateley?

Fomos nós, em um churrasco.

Mas os desmancha-prazeres com cabeças pontudas não conseguiram nos deixar em paz. Eles tentaram mover o planeta para mais próximo do sol – ou foi para mais longe?

Eu nunca realmente perguntei a eles. Mas próxima coisa que sei é que voltamos para debaixo do mar de novo. Você riria. A cidade dos Grandes Antigos pagou caro.

Eles odiavam frio e secura, assim como as suas criaturas. De repente eles estavam em plena Antártida, seca como um osso e fria como as planícies perdidas da triplamente amaldiçoada Leng. Aqui termina a lição por hoje, Whateley. E por favor, mande alguém para alimentar o maldito shoggoth.


III 


(Professor Armitage e Wilmarth, estão ambos convencidos de que não menos do que três páginas do manuscrito estão perdidas nesse ponto. Analisando o texto e seu comprimento. Concordo.) As estrelas tinham mudado, Whateley.

Imagine seu corpo cortado longe de sua cabeça, deixado como um pedaço de carne em uma mesa fria de mármore, tremendo e asfixiando. Isso era o que era. A festa tinha acabado.

Nos matou.

Então, nós esperamos aqui embaixo.

De modo nenhum. Eu não ligo coisa inominável alguma. Eu posso esperar.

Sento-me aqui, morto e sonhando, assistindo os impérios formiga dos homens ascendendo e caindo, sendo construídos e se desintegrando.

Um dia – talvez amanhã, talvez em mais amanhãs que a sua mente débil possa mensurar – as estrelas estarão perfeitamente conjugadas nos céus, e o tempo da destruição cairá sobre nós: Eu vou surgir das profundezas e terei domínio do mundo mais uma vez.

Desordem e devassidão, comida, sangue e sujeira, eterno crepúsculo e pesadelos e os gritos dos mortos e dos não-mortos e o canto dos fiéis.

E depois?

Vou deixar este plano, quando este mundo for um cinzeiro frio orbitando um sol sem luz. Vou retornar para o meu lugar, onde o sangue goteja todas as noites da face da lua inchada como os olhos de um marinheiro afogado, e irei estivar.

Então eu irei acasalar, e no fim irei sentir a agitação dentro de mim e irei sentir o meu pequeno comer seu caminho para fora e para a luz.

Hum.

Você está anotando tudo, Whateley?

Bom. Bem, isso é tudo.

 É o fim. Narrativa concluída. Adivinha o que iremos fazer agora? Isso mesmo.

Iremos alimentar os shoggoth.


*     *     *



Neil Gaiman, 1986.

Para ajudar nas referências, preparei um adendo com os nomes dos curiosos seres e lugares citados no conto.

Espero que ajude:

Azathoth: "Um dos rapazes", conhecido também como o Sultão Demoníaco, ele ocupa um lugar de destaque no Centro do Universo e representa o início e o fim de tudo. A Entropia viva. Acredita-se que tudo tenha se iniciado com Azathoth e que no fim, Azathoth irá consumir o universo como um todo. Infelizmente, ele não possui uma mente e é tratado como um "Deus Cego e Idiota" (na época isso não era considerado Politicamente Incorreto!). Azathoth foi criado por H.P. Lovecraft e mencionado pela primeira vez em "The Dream-Quest of Unknown Kadath". Se você quer saber se Azathoth é mais poderoso que Cthulhu, a resposta é SIM. Ele só não tem um relações públicas tão bom... Lembre-se Azathoth é um Deus Exterior, Cthulhu (apesar de ter nosso amor eterno) é "apenas" um Grande Antigo. De qualquer maneira, ambos são capazes de varrer a humanidade da face da Terra.

Carcosa: Uma ancestral e fictícia cidade concebida por Ambrose Bierce no conto "An Inhabitant of Carcosa". Mais tarde a cidade e sua mitologia foi incorporada pelo trabalho de Robert W. Chambers. Lovecraft era grande fã da obra de Chambers e tratou de arranjar um lugar para Cascosa dentro do Cthulhu Mythos. Você deve ter ouvido falar desse lugar se assistiu a série True Detective. A primeira temporada, é claro. A segunda, ainda estamos tentando entender.

Cthulhu: (fala-se Ku-Tú-Lu). A biografia e o conto é sobre ele. Leia o texto e você vai saber tudo o que precisa saber sobre ele.

Dagon: No conto ele é encontrado por Cthulhu na Terra, um aliado dele na dominação global e em sua luta com os Grandes Antigos (Elder Things). Criado por Lovecraft ele apareceu pela primeira no conto "Dagon" (agarrado a uma pilastra de marfim).

De Vermis Mysteriis: Um dos tomos terríveis contendo conhecimento dos Mythos de Cthulhu. O grimório foi criado por Robert Bloch e supostamente escrito por um "alquimista, necromante e mago de certa reputação", chamado Ludwig Prinn. O Vermiis é um dos livros mais famosos, perdendo apenas para o Necronomicon e talvez para o Dark Book (também chamado de Unaus... Unaus... Unausprachlicten Kulten (Ufa! Saúde!). Citado primeiro em The Shambler from the Stars, eleaparece algumas vezes nos contos de Lovecraft.

Grandes Antigos: Aqui existe uma pequena confusão de tradução. Tudo para Lovecraft era antigo, ancestral, venerável... a tradução para Elder Things está correta mas gera uma certa confusão. Os Elder Things são uma raça de criaturas que formam uma civilização que habitava a Terra antes da chegada de Cthulhu e seus amigos. Eles tem a forma de barris com asas e cabeça em forma de estrela do mar. Sim, esse tipo de combinação esquisita. Em um momento no passado, eles lutaram contra Cthulhu pelo domínio de nosso planeta. Citados em "At the Mountains of Madness" eles são especialmente geniosos e irritantes.

Hastur: Aquele que não se deve nomear (sério, o nome dele é proibido! Então não repita em voz alta!). Um Deus/Entidade cósmica criada por Ambrose Bierce e mencionado pela primeira vez no conto "Haïta the Shepherd". O nome foi posteriormente usado por Chamber e Lovecraft em suas estórias e depois pelo próprio Gaiman em sua novela Good Omens (que vale a pena ser lida!). Segundo a narrativa, ele seria Tio de Cthulhu, o que não é exatamente correto de acordo com a maioria das fontes, mas... francamente todos ali parecem mais ou menos parentes.

Leng: Outro lugar que você não quer conhecer. Leng é uma Terra no Mundo dos Sonhos que possui também uma entrada física no Mundo desperto. Confuso? Você não faz ideia. Leng fica no alto de um Platô distante e acessar esse lugar é pedir para encontrar monstros, deuses e povos que vão fazer de tudo para te matar ou arrancar até o último pingo de sua sanidade. 

O Rei Amarelo: Uma misteriosa e malévola entidade sobrenatural criada por (adivinhem!) Robert W. Chambers e usado em uma série de estórias curtas. A razão pela qual o Rei adora o Amarelo em especial, ainda é motivo de especulação. Em "I, Cthulhu", ele é um amigo e aliado de Cthulhu, apontando o caminho para a Terra e explicando que seria um bom lugar para conquistar afinal de contas. Apesar de ser da realeza, ele se veste com farrapos, e daí vem seu nome O Rei Esfarrapado.

Necronomicom: Admita, o nome é tão maneiro que você quase torce para esse livro ser verdadeiro. Mas tenho más notícias, ele é tão verdadeiro quanto Papai Noel e Coelhinho da Páscoa. Não venha me dizer que você leu, que seu tio possui uma edição, que um amigo disse que conhece alguém que guarda um e outras bobagens semelhantes. O Necronomicom é o equivalente a Bíblia dos Mitos de Cthulhu (ou uma revista Caras que relata o que cada um fez ou deixou de fazer). Escrito por um árabe maluco chamado Abdul, ele é extremamente raro podendo ser achado em meia dúzia de bibliotecas e coleções privadas. O mais divertido a respeito dele é que meramente folhear suas páginas já deixa todos malucos.

Nyarlathotep: Outro dos "rapazes", uma divindade de enorme, supremo, incomensurável poder e influência no universo. Nyarlathotep possui mil formas diferentes e por isso tem fama de ser um enganador. Criado por H.P. Lovecraft ele foi visto pela primeira vez no conto "Nyarlathotep". Se você quer saber, ele também é mais poderoso que Cthulhu e talvez seja o Deus Exterior mais conhecido e adorado pelos fãs na internet.

Professor Henry Armitage: O velho bibliotecário que acumula também o cargo de Reitor da Universidade Miskatonic. Assim como a maioria dos personagens de Lovecraft, Armitage deve ser um chato de galochas. Um daqueles professores dos anos 1920, arrogantes e prepotentes que acreditam repousar em suas mãos a tarefa de salvar o mundo dos horrores dos Mitos. Ele também é odiado por 10 entre 10 jogadores do RPG Call of Cthulhu, por negar aos personagens o acesso aos livros sob sua tutela. Armitage é apresentado no conto "The Dunwich Horror" frustrando os planos de nosso amigo Wilbur Whateley.

Professor Wilmarth: Outro dos "intrépidos professores" nada heroicos de Lovecraft. Wilmarth é um especialista em folclore que viaja para as montanhas de Vermont para encontrar um sujeito com quem se correspondia (sim, antes da internet era o que os solteirões faziam para passar o tempo). Ele acaba se envolvendo com uma raça de alienígenas que são basicamente fungos-caranguejos-alados vindos de Plutão, os terríveis Mi-Go. Ele é o protagonista de "Whisperer in the Dark", um dos contos mais famosos e celebrados de Lovecraft.

R’lyeh: A cidade construída por Cthulhu e a sede de seu império terrestre. Infelizmente R'Lyeh afundou e atualmente se encontra nas profundezas do Oceano Pacífico em uma área de difícil acesso - ao menos até James Cameron inventar um submarino capaz de ir tão fundo. A cidade emerge de tempos em tempos, mas acaba sempre afundando novamente. Por um curto tempo, Cthulhu pode ser visitado por quem tiver o azar de estar passando por aquela área no momento errado, na hora errada.

Shoggoth: Eles são feios, são gosmentos e são disformes... também não cheiram bem e se parecem com um grande vazamento de esgoto, só que com dentes e olhos boiando. Você não gostaria de encontrar um deles... não mesmo! Como deve ter adivinhado eles estão sempre famintos. Os Shoggoths citados em vários momentos nesse conto, aparecem em "At the Mountains of Madness" e são uma criação de Lovecraft.

Shaggai: Um dos planetas distantes do universo, onde vive uma espécie de insetos inteligentes que veneram Azathoth. Não é um bom lugar para visitar,os insetos são especialmente malvados e tem o costume de torturar as pessoas.

Shub-Niggurath: Outro dos "rapazes", muito embora o termo pareça incrivelmente errado nesse caso em particular. Shub é tratada como uma entidade que representa a fecundidade e a força da reprodução, portanto "rapaz" não parece adequado. Shub pode ser encarada como uma entidade feminina, entretanto é possível que ela seja a, bi, pluri, pan ou multi sexual, ou qualquer outra coisa que sequer imaginamos. Em se tratando de Shub-Nigurath tudo é extremamente complexo e confuso... Uma entidade de poder extremo (sim, eu sei, mais uma!) tratada como Deus Exterior. Ela é citada pela primeira vez em um conto obscuro de Lovecraft intitulado "The Last Test".

Tsathoggua: Uma entidade sobrenatural criada por Clark Ashton Smith, encontrado na estória curta "The Tale of Satampra Zeiros". Tsathoggua é da mesma "laia" que Cthulhu, um dos Grandes Antigos que habitam a Terra e adjacências. Para os interessados, ele parece com um sapo gigante, passa seu tempo comendo e dormindo. E sim, meninas... ele está solteiro!

Wilbur Whateley: Esse caipira nascido no interior da Nova Inglaterra, é filho ilegítimo de Yog-Sothoth, concebido após um ritual bizarro na pequena cidade de Dunwich (que não é um lugar recomendado para se passar as férias!). Wilbur é o responsável por anotar as memórias de Cthulhu, muito embora no conto em que ele aparece pela primeira vez, "The Dunwich Horror", o Senhor de R'Lyeh não seja citado uma única vez. Ah sim... Wilbur é daqueles sujeitos destituídos de uma aparência que pode ser considerada agradável. Um baita eufemismo para evitar dizer que ele é feio feito o pecado!

Yog-Sothoth: Outra entidade cósmica de poder infinito, arrebatador, esmagador, blá, blá, blá... Ele é um Deus Exterior (mais um sujeito muito mais poderoso que Cthulhu!) que representa conceitos como o Tempo e o Espaço. Para compreender Yog Sothoth seria necessário recorrer a uma mesa redonda formada por físicos como Steven Hawkins, Carl Sagan e Neil DeGrasse Tyson (talvez precisassem ressuscitar Einstein também!). Criado por H.P. Lovecraft ele foi encontrado pela primeira vez na novela "The Case of Charles Dexter Ward". Nesse conto ele também é chamado coloquialmente de "um dos rapazes".

Yuggoth: No conto que você acabou de ler, ele é tratado como outro dos "rapazes", algum tipo de Deus. Mas Gaiman parece não ter feito o dever de casa. Yuggoth é o nome de um planeta, no caso Plutão, uma das bases avançadas dos Fungos... de Yuggoth. 

7 comentários:

  1. Divertido o conto,mas meio confuso. Ao que me parece dá a entender que Ctulhu e seus amiguinhos eram apenas uma raça "tentaculosa" hahaah. Continuem com o ótimo trabalho!

    ResponderExcluir
  2. Sim, muito confuso. Neil Gaiman não merece tanta admiração assim. Ele fez um bom trabalho com Sandman na DC Comics. Mas duas contribuições para os Cthulhu Mythos não são lá essas coisas...

    ResponderExcluir
  3. As duas obras de Gaiman são:
    - Um estudo em esmeralda; e
    - Eu, Cthulhu.
    Prefiro Thomas Ligotti.

    ResponderExcluir
  4. Sim. Em Xoth, segundo Lin Carter...

    ResponderExcluir
  5. Gosto de Gaiman, mas este está muito abaixo do padrão até mesmo das histórias escritas por fãs que não são escritores profissionais. Certamente se não fosse pelo nome do autor ninguém se daria ao trabalho de traduzir e publicar semelhante lixo.

    ResponderExcluir