domingo, 14 de fevereiro de 2016

Fábula Sinistra - A terrível verdade sobre a Lenda do Flautista de Hamelin




Foi então que eles chegaram até o lado oposto da montanha, 
E lá um enorme túnel se abriu,
Como se a montanha estivesse bocejando.
E o flautista avançou para dentro, seguido pelas crianças,
E quando o último estava lá dentro,
A passagem na montanha se fechou.

Robert Browning, The Pied Piper of Hamelin: A Child’s Story

Muitos estão familiarizados com a encantadora estória do Flautista Mágico de Hamelin (em inglês Pied Piper of Hamelin). Poucos sabem, entretanto, que essa estória pode ser baseada em acontecimentos reais, que evoluíram ao longo dos anos para se tornar um conto de fadas que como todos os contos desse tipo servem para assustar e transmitir uma mensagem às crianças.

Para os que não conhecem a fábula, ela se passa no ano de 1284 em uma pequena cidade chamada Hamelin, na Baixa Saxônia, atual Alemanha. Esta cidade estava enfrentando um sério problema com ratos. Uma infestação sem precedentes na qual os camundongos se multiplicavam sem controle ao ponto de entrar nas casas, devorar a comida causando sérios danos e contratempos a todos habitantes. É então que chega a Hamelin um flautista vestido com uma capa e trajes coloridos. O artista itinerante promete se livrar dos ratos em troca de uma enorme recompensa. Os cidadãos concordam com seus termos sem esperar que ele vá ter sucesso onde tantos exterminadores falharam. Mas eles estão enganados! Usando sua flauta, o sujeito consegue atrair os roedores através da música e os leva para fora da cidade, conduzindo-os para um fosso onde eles se afogam. Apesar de cumprir com a sua parte, o povo de Hamelin se nega a fazer o pagamento combinado. O flautista então é expulso, e jura vingança. 

Em 26 de maio, ele retorna e começa a tocar uma música diferente em sua flauta, dessa vez, não são os ratos, e sim as crianças da cidade que são atraídas pela melodia encantadora. Elas deixam suas casas para jamais serem vistas novamente. Dentre as crianças da pequena Hamelin restam apenas três: um menino que se movia amparado por muletas e que não conseguiu acompanhar os demais, um cego que não podia ver o caminho pelo qual elas seguiram e um surdo que não ouviu a música.    

O mais antigo registro dessa fábula podia ser encontrado na própria cidade de Hamelin na forma de um vitral construído em 1300 para adornar a igreja local. Embora esse vitral tenha sido destruído em 1660, existem várias menções a ele que sobreviveram. Um manuscrito presente na coleção de documentos medievais na Biblioteca de Lueneburg (datado de 1440-50) contém o seguinte trecho:

"No ano de 1284, no dia consagrado aos Santos João e Paulo, em 26 de junho, um flautista, vestindo um manto colorido, tocou um instrumento e com sua melodia, encantou 130 crianças nascidas em Hamelin e as levou embora para nunca mais retornar".


O local onde supostamente as crianças foram vistas pela última vez, hoje em dia é chamada de Bungelosenstrasse (Rua sem Tambores), e segundo a tradição não é permitido que ninguém cante, dance ou toque instrumentos musicais. Incidentemente, é dito que não há ratos de qualquer tipo na cidade. Um documento do século XVI, menciona as tragédias ocasionadas pela peste negra, mas afirma categoricamente que Hamelin foi um dos poucos vilarejos intocados pela doença que devastou todos os vizinhos. Como sabemos atualmente, o vetor principal da peste era a pulga que vivia no rato preto. Sem o roedor, a doença não se manifestou na cidade.

Curiosamente, os primeiros registros que dão conta da lenda não mencionavam a Epidemia de ratos. Mesmo o vitral consagrado na igreja se concentra apenas no trecho sobre as crianças sendo encantadas e o desespero que se seguiu envolvendo os pais inconsoláveis pela tragédia.

Mas nesse caso; se o desaparecimento das crianças não foi um ato de vingança motivado pelo pagamento negado ao flautista, qual teria sido a razão do desaparecimento? Há muitas teorias que tentam explicar o que aconteceu com as crianças de Hamelin. Uma teoria, por exemplo, sugere que as crianças morreram de causas naturais, e que a figura do flautista seria uma personificação da Morte. A associação das crianças com os ratos leva a crer que elas possam ter morrido em face de alguma praga. Ainda assim, a Peste só atacou com força essa região da Europa a partir de 1350, mais de um século depois dos acontecimentos relatados na lenda. 


Outra teoria se concentra na possibilidade de que as crianças tenham sido mandadas embora pelos próprios pais, em face da extrema pobreza em que as famílias viviam. A fome e a miséria impunham condições terríveis e movidos pela situação depauperada, as famílias teriam firmado um pacto de se livrar cada uma de uma criança. Se essa teoria for verdadeira, estamos diante de um quadro chocante no qual os pais de comum acordo concordaram em se livrar de seus filhos. Outros especulam ainda que as crianças possam ter se juntado a fatídica "Cruzada das Crianças" na qual inúmeras crianças vindas de toda parte da Europa se uniram motivadas por um delírio coletivo no qual acreditavam que iriam marchar até a Terra Santa e libertá-la do domínio muçulmano. Historiadores acreditam que a multidão de crianças conseguiu chegar até a Romênia e que uma das estradas passava justamente pelos arredores de Hamelin. Talvez a visão de tantas crianças seguindo em uma mesma direção tenha atraído os jovens a fazer o mesmo.

Uma das teorias mais sinistras propõe que o Flautista possa ter sido uma figura maligna, um tipo de assassino ou predador sexual que se concentrava nas crianças de Hamelin. Na Idade Média, a violência contra crianças e adolescentes era indiscriminada e nem sempre os criminosos encontravam sua justa punição. O abuso infantil era considerado em muitos lugares um crime menor de pouca importância ou relevância social. As acusações das crianças raramente eram levadas à sério e a não ser que houvesse flagrante de alguma conduta indecorosa, raramente havia punição. Nesse ambiente insalubre para as crianças, inúmeras sofriam nas mãos de criminosos que agiam livremente.

O trecho sobre a sedução imposta pelo flautista às crianças pode muito bem ser enquadrado como uma alusão ao poder de convencimento de um pedófilo e sua capacidade de manipular os inocentes ao seu bel prazer. O fato das crianças desaparecerem e jamais retornarem, também sinaliza como um indicativo da ação de um assassino que eliminava suas vítimas. Para piorar, ao redor de Hamelin existiam extensas florestas, praticamente intocadas, onde os corpos das vítimas poderiam ser dispostos facilmente. Como ocorre em muitos contos de fadas, a lenda do Flautista de Hamelin, contém uma forte mensagem em meio a sua aparente inocência: não confie em estranhos, nem em suas promessas e menos ainda nas suas palavras por mais doces e amistosas que elas sejam.

Contudo, seria possível que um assassino em série medieval tenha sido o responsável pelos desaparecimento a ponto dos habitantes terem de criar uma estória para poder lidar com o trauma? Seria realmente possível que 130 crianças tenham desaparecido levadas por um músico hipnótico ou o que ocorreu na verdade foi a ação de um monstro cruel? 


Os registros históricos sugerem que a lenda tenha um fundo de verdade, ao menos no que tange a parte dos desaparecimentos. Não haveria tantos registros e documentos se o fato não tivesse realmente causado uma comoção. Também é perfeitamente aceitável assumir que a estória tenha sofrido mudanças e evoluído através dos séculos. Os documentos mencionam a tragédia de Hamelin e sua gradual transformação em conto de fada apenas atesta o quanto ela era popular.

Seja lá o que tenha acontecido nessa obscura região da Saxônia, a verdade parece fadada a permanecer oculta para sempre. Um mistério tenebroso e sem solução, transfigurado em conto de fada.

Mas o que causa mais desconforto é imaginar que, se essa fábula é baseada na realidade, quanta verdade reside em outras estórias que crescemos ouvindo e continuamos contando para nossas crianças?

9 comentários:

  1. Seria um flautista da corte de Azathoth desgarrado, perdido na Terra!?

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    1. Provavelmente sim, Nyarlathotep se assumiu de a forma de flautista

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  2. Um exemplo seria João e Maria, que seriam devorados por uma bruxa.

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  3. Curiosamente, há registros de que Hansel e Gretel (que inspiraram a história de João e Maria) eram dois delinquentes juvenis que mataram uma doceira e confeiteira de renome quando ela se recusou a lhes ensinar como fazer seu famoso pão de gengibre. Lembro-me de ter lido algo sobre isso há muito tempo. Uma expedição arqueológica encontrou uma casa com quatro fornos de padaria e, num deles, os restos mumificados de uma senhora idosa. Vasculhando documentos, eles teriam encontrado uma ordem de execução contra Hans, um rapaz acusado de matar a confeiteira que fazia doces finos que a aristocracia local apreciava. Sua amante, Gretel, teria fugido.

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  4. Geralmente as pessoas tendem a imaginar o pior. E se fosse alguém de outra dimensão que, vendo a maldade dos pais daquelas crianças, quis levá-las para um mundo melhor e sem sofrimento?
    O abuso contra crianças não era uma invenção medieval, tinha origem na antiga cultura romana e de outros povos, na mais remota antiguidade, era algo visto como normal e legítimo abusar de crianças se elas eram escravas e não tinham pais, fosse na Roma antiga, no Islã ou na China. A civilização ocidental, por influência do Cristianismo, é praticamente a única que ao longo dos séculos percebeu o quanto isso é errado, foi a nossa civilização a primeira que formulou a idéia de condenar pedofilia mesmo consensual e condenar casamento de crianças com adultos. Talvez Deus tenha enviado um anjo para levar essas crianças para um mundo melhor.

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