segunda-feira, 28 de março de 2016

Colonização Sangrenta - A Brutal Guerra de Cabo Frio


Essa é a segunda arte de um artigo que foi publicado semana passada a respeito de um sangrento episódio da Colonização brasileira, a Batalha entre Lusitanos contra a "Confederação dos Tamoios". Indico aos interessados que leiam o artigo anterior antes desse, que pode ser acessado através do link a seguir:

Massacre dos Tamoios

Aqui, temos o que veio em seguida, mais um capítulo violento sobre o qual ouvimos muito pouco chamado a Guerra de Cabo Frio.

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Cabo Frio, hoje famosa cidade turística do Rio de Janeiro, conforme se dizia na época, trinta léguas ao norte da Baía da Guanabara, tinha uma posição privilegiada para salvaguardar as rotas entre o Rio e as Capitanias do Norte. Além disso, ocupava a entrada da Lagoa de Araruama, outro acidente geográfico estratégico para quem quisesse proteger a cidade.

Com essas qualidades, era lá que os corsários franceses desembarcavam para negociar pau-brasil com a Tribo dos Tamoios. Eles haviam firmado amizade com os nativos e conseguiram ajuda para construir uma pequena posição defensiva, a Feitoria Maison Pierre, que era guarnecida com canhões de pequeno porte. Era natural que os sobreviventes que haviam conseguido escapar da retumbante batalha contra as forças de Estácio de Sá, na notória "Pacificação dos Tamoios", para lá se dirigissem após sua derrota.

Os portugueses entendiam, corretamente, que jamais dominariam a Baía de Guanabara enquanto os Corsários de Villegaignon tivessem livre trânsito naquela posição. Por ali, poderiam sempre escoar seu contrabando e trazer armas, munições e suprimentos. Além disso, poderiam sentir-se tentados a uma nova Invasão. Para acabar com essa ameaça, a única maneira para os Lusos era conquistar aquela região. Mem de Sá desejava atacar Cabo Frio, mas a Guerra havia consumido uma grande quantidade de recursos: material, dinheiro e homens.

Seus planos de erradicar a ameaça dos Tamoios permanentemente teria de aguardar. Muitos homens estavam cansados da matança, enjoados com o sangue e morte que eles mesmos haviam produzido. Exploradores da área, anos depois, ainda traziam relatos sobre a alarmante quantidade de ossos abandonados no campo de batalha. Algumas cruzes demarcavam o local e muitos temiam ir até lá, pois falavam de espíritos vagando entre as campinas.

Em 1571, quatro anos após a Guerra, a Capitania tinha sido autorizada a gastar uma boa soma com batedores que trouxessem informações da região do Cabo Frio. Não haviam mapas confiáveis, de modo que as palavras dos exploradores que se embrenhavam naqueles ermos era tudo que se tinha. O trabalho era extremamente perigoso: o terreno era pontilhado por pântanos, charcos e alagados cobertos de ervas daninhas, cobras peçonhentas, insetos rasteiros e doenças tropicais. Além disso, os nativos, familiarizados com o difícil terreno se moviam através dele com relativa facilidade. Armavam emboscadas, surgindo do nada e disparando saraivadas de setas mortais embebidas em toxina de sapo. Alguns homens retornavam com a pele inchada, tomados de doenças e parasitas, feridos e alquebrados física e mentalmente. O horror estampado em seus olhos, alguns não falavam coisa com coisa.


Logo em seguida, o fidalgo Mem de Sá, já bastante velho e doente acabou sendo substituído por um desembargador de carreira chamado Antonio Salema nomeado como o novo Governador Geral.

Assim que se estabeleceu na cidade, Salema tomou conhecimento dos ataques cada vez mais frequentes de Tamoios a expedições que buscavam explorar Cabo Frio. Uma expedição, composta de 40 canoas havia sido massacrada e os cadáveres dos homens e destroços foram levados pela maré até a enseada da Baia de Guanabara. Pescadores retiraram das águas corpos horrivelmente mutilados, criando pânico na cidade. Os portugueses viram aquilo como um desafio, talvez o início de um novo levante Tamoio.

Durante dois meses Salema inspecionou os preparativos para uma grande expedição, solicitando reforços das Sesmarias do Espírito Santo e de São Vicente. Finalmente, em 28 de agosto de 1575, uma força de 400 portugueses e 700 índios catequizados, a maioria de Temiminós, a tribo de Araribóia, ficou pronta para a missão. Eles contavam com o que na época era equipamento moderno: bússolas, mosquetões de cano longo e canoas com fundo abaulado. Trajavam loricas de couro batido, capacetes de metal e carregavam longas lanças com hastes semelhantes a piques e alabardas. Na frente da companhia seguiam os Padres Capelães Jesuítas, carregando uma cruz de ferro batido e a imagem beatificada de São Vicente padroeiro da Capitania. Depois de rezar e receber as bençãos, partiram parte por terra e parte pelo mar, rumo à Região dos Lagos.

A marcha durou cerca de duas semanas por um terreno traiçoeiro, mas avançou inabalável. Em 12 de setembro as forças da Coroa alcançaram uma grande aldeia dos tamoios. Fortificada e cercada por um fosso triplo, sua tomada era pouco provável. A obra de engenharia tinha sido feita com a assessoria de dois franceses e um inglês, que viviam com os índios. Pensando no que fazer, Salema não atacou a posição de imediato, o que permitiu o reforço vindo de outras localidades, elevando o número de defensores para uma estimativa de 1.000 combatentes usando arcos, tacapes e bordunas, além de um sortimento de arcabuzes, pequenas peças de artilharia, espadas e adagas fornecidas pelos corsários.


Salema desistiu de vez do ataque e preferiu a velha Tática do Assédio: cercar e esperar. O povo nativo não tinha o hábito de estocar mantimentos, eles mal podiam compreender a acumulação de bens e portanto não estavam preparados para a carestia repentina. Resistir a um cerco não era tarefa das mais fáceis e, realmente, bastaram 10 dias para que a falta de água e víveres os deixasse dispostos a buscar uma surtida desesperada para vazar o cerco.

Ao redor da aldeia, Salema ordenou a construção de posições defensivas que se aproveitavam de uma elevação da qual podiam vigiar todo vale. Salema dispôs os homens e os instruiu a disparar contra qualquer um que tentasse deixar a aldeia, homens, mulheres ou crianças. Embora as armas não tivessem precisão, os portugueses conseguiam sucesso em disparos através da paliçada alvejando quem estivesse dentro da aldeia. Eventualmente, um grande grupo de guerreiros tentou romper o cerco, mas foi forçado a retroceder pelos artilheiros ocupando posições estratégicas.

Desconfiado de que os nativos estavam perto da rendição, Salema enviou o jesuíta Baltazar Álvares para negociar seus termos. Graças à boa fama de que a Companhia de Jesus gozava, Álvares foi recebido levando alimentos e água para os que estavam confinados. Inicialmente os portugueses exigiram a entrega do inglês e dos franceses ali refugiados em troca de víveres e do salvo conduto para a saída de mulheres e crianças. O chefe da aldeia, um velho chamado Japuguaçu concordou. Um Pajé acusou Japuguaçu de covardia, ressentido o chefe mandou o sacerdote junto com os brancos e todos acabaram enforcados.

Em seguida, Salema ordenou que parte da cerca fosse derrubada. Mais uma vez o colonizador foi atendido pelos nativos. Ato contínuo, os lusitanos exigiram que lhes fossem entregues 500 índios rebeldes que haviam vindo reforçar as defesas da aldeia. Japuguaçu, em sua ânsia de evitar a batalha, entregou-os aos brancos, que os aprisionaram e amarraram. Em seguida os homens foram escoltados para a mata para uma posição onde seriam mantidos prisioneiros. Lá, segundo alguns relatos alguns tentaram reagir e acabaram chacinados. Todos os quinhentos foram mortos a golpes de porrete ou esfaqueados pelos seus feitores. Os corpos deixados para apodrecer no coração da selva.


Alheio à tudo e acreditando que estava negociando uma saída pacífica satisfazendo as exigências dos portugueses, Japuguaçu finalmente requisitou que deixassem sua gente naquele local.

Antônio Salema, tinha fama de odiar e hostilizar os índios, chamava-os de selvagens e não considerava que fossem sequer humanos. Conta-se que uma de suas táticas para derrotar os Tamoios que habitavam as Terras da Lagoa de Sacopenapan (atual Rodrigo de Freitas) foi espalhar propositalmente varíola entre os nativos que não possuíam imunidade a essa doença. Em outra ocasião ele teria escorraçado indígenas catequizados de um povoado afirmando que ensinar a eles os mandamentos da Igreja era o mesmo que fazer um papagaio repetir os salmos. Ao negociar com Japuguaçu, Salema concordou em conceder a ele e seus parentes salvo conduto, mas avisou que escravizaria o restante da aldeia. Se ele não achasse os termos razoáveis, poderia voltar para seu reduto e lutar.

Já cercado por todos os lados, com parte da fortificação voluntariamente arrasada, o Tamoio entregou sua gente aos invasores. Os portugueses entraram em triunfo na aldeia, em 27 de setembro, carregando uma cruz a frente da companhia. No dia seguinte, enforcaram sem piedade os guerreiros remanescentes que ainda se encontravam na aldeia. Mulheres, velhos e crianças foram obrigados a marchar até onde ocorrera o massacre dos guerreiros para testemunhar o destino dos seus entes queridos. A visão daquela clareira maldita: repleta de corpos empilhados, mutilados e cobertos de moscas foi demais para muitos deles.  Algumas fontes dão conta que muitos se renderam a loucura arranhando os próprios olhos, lançando-se nos rios ou consumindo veneno mortal.

Conquistado o principal bastião dos nativos, a expedição começou a planejar como se daria o avanço pelos Sertões que se abriam mais adiante. Alguns prisioneiros foram obrigados a fornecer a localização de aldeias e ajuntamentos na área, bem como a posição da Maison Pierre.

A Marcha prosseguiu sangrenta por caminhos abertos no agreste. Uma vez que os Tamoios haviam perdido seus principais guerreiros, tudo que restava eram jovens inexperientes, incapazes de fazer frente a soldados portugueses fortemente armados e mercenários calejados. Ainda assim, estes esboçaram alguma reação na forma de emboscadas. Alguns franceses, assomando aos Tamoios, tiveram êxito em derrotar uma coluna lusitana. Para intimidar os invasores, corpos degolados foram amarrados a árvores de ponta cabeça. O desafio, entretanto, serviu apenas para enfurecer os homens de Salema que intensificaram sua brutalidade. 


O forte francês foi arrasado pelo fogo de canhões. Os defensores lutaram até o último homem, mas não conseguiram fazer frente a vantagem numéria e armamento dos portugueses. Parte da alvenaria do Forte foi desmantelada e utilizada na construção do Forte de Santo Inácio do Cabo Frio erguido em 1615. Dizem que os ossos dos defensores foi misturado ao cimento e argamassa e por isso o lugar seria assombrado.

Cálculos da época dão conta de que teriam morrido mais de 10.000 indígenas e outros tantos foram escravizados na fase final da Batalha de Cabo Frio. Os números jamais foram corroborados, mas é fato que as Terras ficaram desertas após o genocídio. Os nativos que sobreviveram não desejavam mais viver naquele lugar onde tantos haviam perdido suas vidas. Os Sertões foram então reivindicados pelos jesuítas que montaram lá um mosteiro.

A região ficaria tão abandonada que Tribos de Goitacases teriam empreendido uma tímida ocupação, aventurando-se em expedições de caça e pesca. A ameaça dos corsários franceses foi afastada de vez quando os portugueses instalaram na boca do canal que levava à Lagoa de Araruama o Forte de Santo Inácio. A insatisfação com sua localização, pouco depois, motivou a construção do Forte de São Mateus. De pé até hoje a construção é uma das atrações turísticas do Balneário da Região dos Lagos.

A Batalha de Cabo Frio figura entre um dos mais dramáticos incidentes do Brasil Colônia, uma prova incontestável de que a Invasão portuguesa nada teve de pacífica, muito pelo contrário.


Tão aterrorizante foi o massacre que sobreviventes dispersaram-se a tal ponto que, menos de 100 anos depois, foram encontrados descendentes dos Tamoios da região em plena Amazônia, juntamente com outros nativos da terra, os Tupinambás, fugitivos de campanha similar na Capitania da Bahia. O Horror os impeliu cada vez mais para o interior em uma desabalada fuga.

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