domingo, 29 de maio de 2016

Centopeias - O Mundo assustador de lendárias criaturas rastejantes


Existem poucas coisas que pessoas com medo de insetos temem mais do que Centopeias.

Os exoesqueletos brilhantes, o movimento serpenteante, os corpos segmentados longos e as dezenas de pernas são o bastante para fazer indivíduos adultos se encolherem no canto, gritar ou desmaiar como crianças. Mas, além das já assustadoras espécies conhecidas, existem outras, que são ainda maiores e ainda mais horrendas, espreitando no fundo de cavernas, no coração de pântanos e princialmente no terreno fértil da nossa imaginação. 

Verdadeiros monstros peçonhentos integram os relatos a respeito de criptoides: animais cuja existência não foi comprovada, mas que alguns juram ter encontrado e que outros prometeram revelar ao mundo. Essas criaturas elevam o terror para fora da escala: são insetos medonhos, com inúmeras pernas e assustadores além de qualquer classificação. Nessa série de artigos, que eu ousei chamar de "Semana da Centopeia", nós iremos explorar as estórias e mistérios que cercam estes animais. E quando terminar, se vocês olharem aflitos em baixo do cobertor antes de deitar na cama ou no ralo de seu pátio, significa que essa série atingiu seu propósito - mesmo por que, eu, vou ter que fazer isso.

Um dos mais bizarros e de fato, assustadores exemplos de criptídeo gigante, espreita não na terra, mas nos mares quentes que banham o Sudeste asiático, particularmente na Costa do Vietnã. Este seria o território de caça de um animal comumente chamado de Con Rit, uma enorme criatura que alguns acreditam pode atingir até 15 metros de comprimento. Com um corpo segmentado, protegido por placas de quitina e centenas de membros ao longo de sua lateral, o Con Rir é muito semelhante a um milípede ou centopeia. A principal diferença é que o Con Rit, uma vez adaptado a vida marinha teria nadadeiras ao invés de pernas. Para ser totalmente justo, o termo Con Rit significa "mil patas" no idioma vietnamita. As testemunhas descrevem esse animal como tendo um corpo de cor bronze-marrom e uma barriga amarela de onde surgem os filamentos semelhantes a pernas. Relatos também mencionam a existência de uma cauda similar a das lagostas, responsável por impulsionar o animal enquanto nada. 

O Con Rit e suas patas em forma de nadadeiras.
Os vietnamitas falam a respeito do Con Rit há séculos, ele aparece em várias lendas, sendo tratado como uma espécie menor de Dragão da Água. Ele é citado no famoso Chich-Quai, um importante tratado sobre animais fantásticos e seres mitológicos que fazem parte do folclore do Vietnã. No entanto, esta bizarra criatura ganhou notoriedade durante o século XIX, quando avistamentos se tornaram muito frequentes nas praias da Região de Hongay. Vários espécimes teriam aparecido na costa, depositados pelas ondas na areia. 

Em 1883, pescadores teriam encontrado a carcaça em decomposição de um Con Rit numa praia. O animal teria 13 metros de comprimento e 90 centímetros de largura. Sua descoberta causou enorme estranheza, alguns imaginaram que pudesse ser uma cobra, mas ele era muito diferente de qualquer réptil que já havia sido encontrado na região. Para começar, ele tinha uma série de nadadeiras dorsais, além de possuir placas no corpo, similares ao exoesqueleto de insetos. De cada segmento brotava um par de nadadeiras (como as de peixes) com extensão de 30 centímetros. A carcaça foi examinada antes de ser rebocada para o mar e descartada assim que começou a apodrecer exalando um fedor nauseante.

Depois desse acontecimento, avistamentos de Con Rit se tornaram cada vez mais frequentes na região. Até a primeira metade do século XX, mais de 100 avistamentos foram registrados. Em 1920, o médico francês Armand Krempf, que também foi o fundador e diretor do Serviço Oceanográfico da Indochina, conduziu uma investigação para provar a existência ou não do animal. Durante sua investigação, Krempf entrevistou pessoalmente o homem que encontrou a carcaça em 1883, um pescador chamado Tran Van Con, que ainda se recordava do incidente apesar dele ter ocorrido décadas antes. O pesquisador escreveu um longo artigo a respeito desse evento, publicado em várias revistas científicas da época. Em face das evidências obtidas, ele considerava a criatura como um genuíno mistério zoológico e sua existência ainda que não comprovada constituía uma possibilidade dada a quantidade de detalhes recolhida.

Bizarro como pode parecer, o Con Rit não está sozinho no mundo dos criptóides similares a centopeias ao redor do mundo.

Con Rit em um desenho aterrorizante
Há relatos de animais semelhantes encontrados desde o século XVI, inclusive por Guilhaume Rondelet, que é chamado de "Pai da Ictiologia" (o estudo dos peixes). Em seu pioneiro tratado "L`Histoire entiere des poisons" (A História Completa dos Peixes), Rondelet revela inúmeros avistamentos feitos em ilhas na Costa da India do que chamou "cetáceo-centopeia", descritos como bestas com corpo segmentado dotadas de centenas de pernas, ou nadadeiras, usadas como remos para impulsionar seu corpo na água. Rondelet também escreveu que tais criaturas eram encontradas no litoral carregadas pelas ondas e depositadas nas praias há séculos. O naturalista grego Aelian, em 200 d.C chamava essa espécie de "Grande Centopeia Marinha" na sua obra "A Natureza dos Animais". Ele afirmava ter examinado tais animais trazidos do Norte da África.

Tais relatos ao longo dos séculos se espalharam de tal maneira que o cripto-zoólogo Bernard Heuvelmans criou uma classificação para esse tipo de serpente marinha, em sua obra mais importante "In the Wake of the Sea-Serpents" (O Despertar da Serpente Marinha - 1968). Ele categoriza tais seres como "multi natatórios", animais dotados de pares de nadadeiras, semelhantes às centopeias de terra firme. Heuvelmans acredita que animais como o Con Rit pertencem a esse gênero pré-histórico, no qual os animais desenvolvem placas ósseas. Ele também aponta que tal gênero possa ter incluído os lendários "escorpiões marinhos", artrópodes aquáticos medindo quase 2 metros de comprimento que teriam existido em torno de 500–250 milhões de anos atrás.



Deixando o mar e mergulhando nas profundezas das selvas tropicais, nós encontramos outra criatura semelhante a centopeias. Na Floresta Amazônica, viajantes relataram ter encontrado enormes animais de corpo segmentado com mais de um metro e meio de comprimento. Chamadas de Centopeias Colossais esses animais são matéria de discussão e terror. Segundo as lendas indígenas, a Centopeia Colossal possui um veneno fatal que pode matar um homem adulto em poucos minutos. Tão poderosa seria essa toxina que pele e carne simplesmente dissolvem em contato com ela. Alguns relatos afirmam que além de transmitir o veneno pela mordida, tais animais podem projetar um jato de veneno a uma distância considerável. Embora nenhuma evidência desses animais tenha sido encontrada na América do Sul, muitas tribos possuem estórias a respeito de centopeias aterrorizantes.

O mais próximo desse monstro, é a Centopeia Gigante da Amazônia (Scolopendra gigantean) que atinge em média 28-33 centímetros de comprimento, sendo que o maior espécime encontrado media surpreendentes 48 centímetros (!!!). Essas enormes centopeias com hábitos noturnos são hábeis predadores, alimentando-se de qualquer animal menor do que elas: pássaros, sapos, lagartos e roedores. Essa espécie em particular possui a habilidade de se pendurar em árvores ou no teto de cavernas para capturar pássaros e morcegos em pleno voo. Sua mordida é tão dolorida que muitas vítimas comparam a dor de sua picada a um tiro à queima roupa. Poderia a misteriosa Centopeia Colossal ser um primo distante da Centopeia Gigante da Amazônia? É possível que seja uma espécie rara que habita áreas isoladas ou ainda, uma espécie extinta? Nesse último quesito, temos a Euphoberia, uma centopeia extinta que existiu há 35 milhões de anos e que media incríveis 110 centímetros. Seriam as Centopeias Colossais um grupo sobrevivente da Euphoberia?

Centopeia Gigante da Amazônia com uma presa.
Outra narrativa a respeito de criptídeo de centopeia ganhou publicidade em um artigo científico publicado na Revista BBC Wildlife em 2009. Assinada pelo respeitado naturalista Jeremy Holden o trabalho descreve uma criatura estranha e assustadora. Enquanto explorava as remotas selvas da Ilha de Sumatra, Holden visitou um vilarejo isolado na porção ocidental do país, onde os nativos revelaram a existência de uma espécie de centopeia com 35 centímetros de comprimento e um corpo segmentado nas cores verde e negro. A mordida dessa centopeia seria tão poderosa que as pessoas feridas por ela, por vezes, morriam em decorrência da dor insuportável. Este misterioso animal, que eles chamavam de Upah, habitava o topo das árvores. A característica mais incrível desse animal é que ele poderia produzir um ruído agudo, semelhante a um grito ou trinado para atrair suas presas.

As estórias sobre centopeias produzindo sons estranhos não foram levadas muito à sério por Holden, afinal, na natureza não há nada parecido. Mas dias depois ele teria um suposto encontro com o animal descrito pelos nativos. Holden estava na selva, quando do nada um ruído bizarro irrompeu da mata assustando toda expedição. Os guias nativos confirmaram que era o grito de uma Upah, mas mesmo depois de escalar as árvores em busca do animal nada foi achado.

Semanas depois, Holden estava atravessando uma área de floresta fechada quando ouviu novamente o estranho grito, similar ao que havia escutado antes. Um grupo se encarregou de vascular as árvores e folhagem, mas uma vez mais, não encontraram nada que pudesse comprovar a existência dessa estranha espécie. Um dos guias, no entanto, encontrou os restos de uma centopeia de espécie desconhecida, medindo 25 centímetros de comprimento. Embora os nativos tivessem identificado a casca como pertencente a uma Upah "pequena", Holden não descobriu nada que pudesse confirmar que esse animal era responsável pelos ruídos bizarros.

Centopeia das Montanhas Ozark
Seguindo para a América do Norte, nós acrescentamos outra espécie à nossa lista de centopeias lendárias. As Montanhas Ozark, em particular a região nas redondezas de Gainesville, no estado do Missouri, seria o lar de uma misteriosa criatura avistada repetidas vezes. Descrita como uma centopeia de cor vermelha-ferrugem medindo mais de 50 centímetros, a Centopeia Gigante das Ozarks aterroriza viajantes e exploradores desde o século XIX. Em 1860 um espécime com 51 centímetros foi capturada em Jimmie´s Creek no Condado de Marion, e seu corpo preservado em um vidro com álcool em exposição na farmácia local. Segundo a lenda, o vidro teria sido confiscado por um General Confederado durante a Guerra Civil e nunca mais foi visto.

Há muitos relatos sobre centopeias misteriosas rastejando nessas montanhas escuras. Em um relato de 1903 um caçador contou uma estória perturbadora sobre seu encontro com um animal aterrorizante. Enquanto caçava em uma região próxima a Sebastian County, no Arkansas, o sujeito entrou em uma clareira seguindo a trilha de um cervo. Ele teria ouvido um som estranho e ao se voltar, deparou-se com uma cena que gelou seu sangue. O animal parecia estar sendo atacado por uma cobra, mas ao observar por alguns instantes ele percebeu que se tratava de uma imensa centopeia que estava fixada ao corpo do animal, contorcendo-se em volta dele a medida que mordia e tentava paralisá-lo.


O caçador decidiu disparar com seu rifle contra o pobre animal que estava sendo atacado e depois de feri-lo mortalmente fugiu em disparada temendo que a centopeia pudesse se voltar contra ele. Ao chegar no povoado mais próximo ele contou a estória e aceitou voltar ao lugar acompanhado de alguns amigos. Lá encontraram o gamo alvejado pelo disparo, conforme havia descrito, mas nenhum sinal da centopeia gigante. O animal apresentava estranhos ferimentos, mas não era possível atestar se eles haviam sido produzidos por uma centopeia ou não. A testemunha descreveu o animal como uma enorme centopeia de corpo escuro com quase dois metros de comprimento e com centenas de pernas amareladas ladeando seu exoesqueleto brilhante.

É difícil acreditar que centopeias tão grandes possam habitar as Montanhas Ozark. Os maiores espécimes recolhidos na região medem aproximadamente 20 centímetros, tem o corpo vermelho e alaranjado, semelhante à Centopeia do Deserto (Scolopendra heros), espécie encontrada no México e no Extremo sul dos Estados Unidos. Com certeza, há centopeias verdadeiramente gigantescas no mundo, como a Milípede de Galápagos ou a Centopeia Golias de Darwin (Scolopendra galapagoensis) que frequentemente atingem 30 centímetros. Mas na América do Norte espécies maiores que 20 centímetros são extremamente raros.

A narrativa de uma centopeia com 2 metros, dominando um gamo parece absurda. O único artrópode conhecido capaz de atingir essas dimensões na América do Norte é o Arthropleura, que viveu há 340 milhões de anos e cujos fósseis coincidentemente podem ser achados ao longo das Ozarks. Não obstante, relatos de enormes centopeias na região, com um, dois até cinco metros, são recorrentes. Como tais animais poderiam se manter ocultos e sobreviver sob os nossos narizes é um enigma. É muito pouco provável que um animal dessas dimensões possa realmente habitar as montanhas, ainda que vivendo nas vastas cavernas que pontilham as Ozark. Há teorias, no entanto, de que na parte mais profunda dessas mesmas cavernas existam habitats totalmente alienígenas onde animais únicos poderiam ser encontrados.

A Centopeia Gigante da Amazônia
Centopeias estão, sem dúvida, entre as criaturas mais aterrorizantes do mundo, capazes de causar arrepios na maioria das pessoas. Elas combinam alguns dos nossos temores mais profundos no Mundo Natural, o medo de insetos e de serpentes. São criaturas rastejantes, com múltiplos membros e segmentos. Há espécimes conhecidos realmente gigantescos, mas, e se existir algo mais por aí? Centopeias podem surgir em praticamente qualquer ambiente, habitar qualquer recesso desde que haja umidade e presas. Elas se adaptam facilmente e não temem a presença humana. Não é raro que animais apavorantes registrem uma grande quantidade de lendas a seu respeito, e nesse quesito, as centopeias são quase imbatíveis. 

São criaturas que a maioria das pessoas prefere jamais encontrar; mas lá fora, nas selvas e florestas, nos desertos e pradarias, em túneis e galerias de esgoto de nossas cidades, pode ter certeza que elas espreitam, alimentando os nossos pesadelos com o som inconfundível de centenas de pernas.

Bons sonhos!   

5 comentários:

  1. Parabéns pelo BLog Luciano ! Sem dúvidas é um tesouro para aqueles, como eu, que desejam mestrar mesas de COC ou ROC ... Parabéns !

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    1. Entendam ROC = Trail of Cthulhu ... hahaha

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  2. Na década de 1980 uma centopéia de 30cm saiu duma quadra em frente de casa, que era um matagal e depois virou uma praça, em Campo Grande, MS. Atravessou a sala passando entre as pernas de minha irmã. Bicho muito bravo. Também vi duas num casebre semiabandonado na área de mata do balneário Atlântico, em Campo Grande, pouco depois.

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  3. Acho um pouco difícil essas criaturas crescerem muito em terra firme. Alguns insetos foram mesmo gigantescos (a citada arthropleura, a libélula de um metro do tempo dos dinossauros, os escorpiões enormes) no passado porque a atmosfera da Terra era mais saturada de oxigênio; o tipo de organismo deles consome muita energia, e pra que desenvolvam-se em grandes tamanhos é preciso maior concentração de oxigênio.
    O maior artrópode conhecido em terra firme é o caranguejo dos coqueiros, com o tamanho de um cão médio.

    No entanto, no mar, eu acharia mais possível - já temos artrópodes imensos vivos ainda hoje nos oceanos - como aquele caranguejo da costa japonesa, que parece uma aranha aquática com pernas enormes e tem com elas três metros de comprimento.

    Abraços, site excelente.

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