sábado, 21 de maio de 2016

Paraíso Perdido - A macabra história da Ilha Pitcairn


A mítica Ilha Pitcairn é um lugar tão remoto, e com uma história tão bizarra, que até muito recentemente ela era vista como um mito ao invés de realidade. Mas os acontecimentos que tiveram lugar nessa diminuta ilha do Oceano Pacifico são bem reais e assustadores. 

Colonizada por um grupo de marinheiros que praticaram o famoso motim no HMS Bounty em 1790, junto com um grupo de nativos polinésios, a ilha também ganhou fama com o romance de 1954 "O Senhor das Moscas" (Lord of the Flies), no qual um grupo de garotos naufraga em uma ilha desabitada e descamba na selvageria e decadência. Enfrentando isolamento físico, social, e psicológico, envolvendo disputas de poder, a população da Ilha Pitcairn diminuiu rapidamente em face de assassinatos, suicídios e loucura. Os habitantes restantes mergulharam em práticas consideradas como tabu: incesto, abuso sexual de menores e delinquência. Hoje, os poucos habitantes carregam consigo uma história sinistra e maligna que foi contada ao longo de filmes e livros. 

A Ilha Pitcairn é uma das quatro ilhas vulcânicas no sudeste do Oceano Pacifico que compõe o grupo de ilhas conhecido como Arquipélago de Pitcairn. Localizada a mais de 3,000 milhas (4830 km) do continente mais próximo, aproximadamente na metade do caminho entre Nova Zelândia e as Américas, trata-se de uma das mais remotas ilhas desabitadas e com população sem jurisdição. Não há um sistema de leis ou um governante eleito. Ela também é considerada como o Território Britânico mais distante no Pacífico. 

Mediando apenas 2.2 milhas (3.6 quilômetros) de leste para oeste, a ilha não é muito maior do que a extensão do Central Park de Nova York . Ainda assim, este pequeno pedaço de terra no meio do oceano tem uma história tão inacreditável, culminando com eventos dramáticos que tiveram início no século XVIII.


A história conhecida das Ilhas Pitcairn se estendem a meros nove séculos, quando a ilha foi colonizada primeiramente por polinésios. Sua cultura floresceu ali pelos primeiros quatro séculos antes de desaparecer misteriosamente. As descobertas arqueológicas também sugerem que diferentes povos de várias origens vieram a Pitcairn em diferentes momentos do passado tentando se instalar. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com cada um desses povos, mas é certo que em algum momento de sua permanência na ilha, algo ocorreu e resultou em um monumental fracasso. Há rumores de que podem ter sido doenças e misteriosas pragas a razão dessa destruição, mas nada que indique isso foi comprovado. Análises dos ossos determinaram as diferentes culturas que ocuparam Pitcairn mas não o que os teria matado.

Quando os europeus chegaram a Pitcairn quase ao acaso, não encontraram uma utilidade prática para o lugar. Ele era pequeno e não possuía víveres que justificassem sua colonização. Holandeses estabeleceram uma guarda sobre o local, mas em pelo menos duas ocasiões as famílias deixadas na ilha para tomar conta dela desapareceram sem deixar pistas. Os britânicos tentaram usar a ilha como posto de estocagem de suprimentos para embarcações de passagem, a posição estratégica poderia ser utilizada para viagens marítimas de longa duração. O plano foi abandonado já que em uma das primeiras viagens, uma embarcação encontrou a ilha vazia e os suprimentos estragados.

Os europeus que visitavam a ilha se sentiam intimidados por algo em seu interior. Os artefatos deixados pelos povos que tentaram ocupar Pitcairn eram estranhos e estavam espalhados por boa parte das cavernas e áreas rochosas que pontilhavam a ilha, justamente onde era possível construir casas para os colonos. Quase todas representações apontavam para uma utilização da ilha como cemitério. As representações em petróglifos de animais e humanos eram minoria quando comparadas a imensa quantidade que demarcava características fúnebres. Em verdade, boa parte das cavernas foram utilizadas como cemitério. Em uma das maiores cavernas da ilha, existe um imenso forno crematório no qual cadáveres foram queimados por séculos e as cinzas espalhadas livremente pela ilha. Em outra caverna arqueólogos encontraram vinte e sete grandes jarros contendo enorme quantidade de ossos e restos humanos incinerados, além de relíquias de uma civilização desconhecida. 

O Motim no HMS Bounty
Mas a Pitcairn entrou para a história através de um acontecimento inusitado. 

Em 1788, o HMS Bounty um grande navio mercante britânico velejou da Inglaterra para o Pacífico com a missão de coletar fruta pão, usada para suplementar a alimentação de escravos das Índias Ocidentais. Tendo parado no Taiti por cerca de cinco meses, a tripulação do Bounty tornou-se muito ligada às tradições do povo taitiano, sobretudo a liberdade sexual e costumes típicos de uma terra paradisíaca. Alguns homens desertaram, foram caçados e executados, junto com suas esposas nativas. Forçados a embarcar de volta, os homens estavam relutantes e prestes a se rebelar. Por algum tempo eles continuaram obedecendo as ordens do Capitão William Bligh, contudo a imposição de punições físicas por falta de disciplina fez com que a rebelião estourasse. Agindo como líder, o Tenente Fletcher Christian liderou um motim contra Blight. O Capitão e os 18 que escolheram segui-lo foram colocados em um bote, enquanto Christian e os demais retornaram para o Taiti no Bounty.

Contrariando todas as probabilidades, William Bligh conseguiu conduzir o bote por uma viagem de mais de 4,000 milhas (6,500 km), eventualmente sendo resgatado e voltando para a Inglaterra em abril de 1790. Ele imediatamente contou o que havia acontecido e o HMS Pandora foi enviado para capturar os amotinados e trazê-los para a Inglaterra onde seriam executados.

Enquanto isso, Christian, junto com outros nove amotinados e 18 polinésios - 6 homens, 11 mulheres e uma criança, decidiram deixar o Taiti para evitar a captura. Eles escolheram Pitcairn como seu destino e chegaram ao local em 15 de janeiro de 1790. Sua primeira ação foi incendiar o Bounty e afundá-lo na Baía de Bounty Bay (onde seus restos continuam submersos em águas rasas). Para o resto do mundo, os amotinados haviam desaparecido da face da terra, ninguém os buscaria em Pitcairn


Os colonos inicialmente sobreviveram plantando e pescando. Entretanto, como acontece no romance "O Senhor das Moscas", não demorou muito até que o isolamento, a falta de um governo e regras de sociedade fizessem vir à tona ciúmes, traições e finalmente assassinato. Muitas das tensões na ilha envolvia a escassez de mulheres. Cinco dos amotinados foram mortos por polinésios, que acusavam os ingleses de tratar os homens como escravos e de tomar suas mulheres à força. Um desses foi morto de maneira atípica, o corpo serrado ao meio como um tipo de sacrifício bizarro. Em retribuição os amotinados mataram todos os homens polinésios - alguns foram enterrados até o pescoço na praia para que a cheia da maré os afogasse. 

[Só um comentário: MEU DEUS!]

Dois amotinados, Edward Young e John Adams, acreditando que suas vidas estivessem em perigo, ameaçados por um companheiro chamado Matthew Quintal, o executaram para o "bem da comunidade". Outro amotinado, William McCoy, cometeu suicídio saltando de uma rocha para o mar revolto. Alguns outros morreram de doenças tropicais.

Por volta de 1800, apenas dez anos depois de chegar ao local, todos os nativos polinésios haviam morrido, e apenas um dos amotinados restava, John Adams, que sobreviveu com 9 mulheres polinésias e 19 crianças. John Adams decidiu se voltar para as escrituras e formar uma nova e pacífica sociedade e começou a doutrinar os habitantes através de um código de conduta puritano. Ele viveu em Pitcairn até sua morte aos 65 anos. Sua sepultura é a única pertencente aos amotinados que foi marcada com um nome. 

Em 1808, após 18 anos de isolamento, a presença dos amotinados e de habitantes em Pitcairn foi revelada pela passagem de um veleiro americano o Topaz. Ao desembarcar na ilha, os marinheiros ficaram chocados com a degradação geral, os habitantes não eram mais do que homens primitivos. Seis anos depois, o navio britânico HMS Briton e o HMS Tagus inesperadamente aportaram na enseada de Pitcairn. Eles encontraram a sepultura de John Adams e realizaram uma cerimônia na qual ele recebeu anistia pela sua participação no motim.


A população da ilha começou a crescer novamente com a chegada de visitantes e de colonos interessados em habitar a ilha quando rotas de comércio se estabeleceram no curso da ilha em meados de 1825. A Ilha ficou conhecida como um dos lugares mais distantes da civilização, literalmente "o outro lado do mundo" onde uma pessoa podia simplesmente desaparecer e jamais ser encontrada. 

Em 1838, a Ilha de Pitcairn recebeu uma nova tentativa de colonização por parte dos britânicos que pensavam em estabelecer no local uma Colônia Religiosa. A primeira tentativa falhou quando todos 22 colonos morreram vítimas de doença e tempestades. Em 1886, houve uma segunda tentativa, quando Adventistas do Sétimo Dia liderados pelo Pastor John Tay visitaram a ilha com o objetivo de converter os nativos polinésios. 

A nova religião trouxe fé até a população da ilha e o passado de traição, violência e brutalidade de Pitcairn parecia superado para sempre. Durante a década de 1940, a ilha foi evacuada por temor dos japoneses e o local ficou deserto até o final dos anos 60 quando a ilha atraiu novamente a atenção de religiosos interessados em reconstruir a colônia adventista que havia logrado sucesso. A colônia permaneceu ativa até os anos 1980, quando praticamente todos religiosos partiram.

Mulheres e crianças chegam a Pitcairn em 1916
Por um bom tempo, Pitcairn se tornou um lugar pouco visitado, com uma população de apenas 50 almas. Em 2004, um grupo de jornalistas britânicos chegaram ao local com o objetivo de filmar um documentário sobre o motim do Bounty. Eles descobriram que o mal havia penetrado novamente na Ilha resultando em algo tão chocante que mesmo os acontecimentos do passado empalideciam diante do exposto.

Após a descoberta, sete homens que viviam na ilha foram presos e acusados de 96 crimes violentos incluindo abuso de menores, estupro e assassinato ocorridos em um período de mais de 30 anos. As vítimas, quase todas mulheres e crianças, viviam em uma comunidade fechada na qual prevalecia uma cultura própria profundamente entranhada na sociedade, privilegiando abuso, a prática de incesto e depravação. As mulheres eram trancadas em celas, amarradas ou trancafiadas durante a noite. Não podiam vestir roupas, recebiam surras frequentes com varas e eram degradadas e humilhadas diariamente. Os homens trocavam de esposas e mantinham uma espécie de harém composto de crianças (muitas vezes seus próprios filhos!). Tinham uma espécie de religião, que retirava sua base de várias crenças pervertidas até se tornar algo abominável e daninho. Todos trabalhavam na agricultura de subsistência, mas só os homens podiam pescar.

O mais chocante é que tudo acontecia às claras sem que ninguém sequer tentasse esconder. Pitcairn era simplesmente longe demais para que alguém soubesse o que estava acontecendo ou se importasse. Pior anda, aquelas pessoas não entendiam suas ações como criminosas. Para eles, aquela era, a única vida que conheciam. Os documentaristas ficaram aterrorizados e partiram levando as filmagens que comprovavam todo aquele horror.


As autoridades uma vez alertadas chegaram a ilha, libertaram os prisioneiros e prenderam os culpados. No julgamento que durou mais de um mês, todos foram sentenciados, inclusive o prefeito que havia negociado a vinda da equipe de produção. O Governo Britânico decidiu então estabelecer uma prisão em Pitcairn para onde internos foram enviados a partir de 2006.

Atualmente a população de Pitcairn é de 47 habitantes, todos homens, alguns deles descendentes dos amotinados e seus acompanhantes taitianos. A maioria deles carrega o sobrenome Christian, em homenagem ao chefe dos amotinados que tomaram o Bounty e que teve mais de uma dúzia de filhos até ser assassinado. A visita a Pitcairn é proibida e ninguém pode entrar ou sair.  

Aquilo que um dia foi um refúgio para homens em fuga, um Paraíso na Terra se tornou um Inferno com uma longa e sórdida história.

6 comentários:

  1. Excelente artigo, Luciano! Infelizmente, a linha que separa o ser humano da barbarie abjeta é muito fina e parece que qualquer tentativa de estabelecer un paraiso na terra vai dar nisso... Abs!

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  2. Como a falta de leis deixa o ser humano exposto a selvageria.

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  3. isso sim um conto digno de hp lovecraft

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  4. Excelente
    E pensávamos que os amotinados encontraram o paraíso e viveram felizes até sempre com as nativas.
    Mais acima,no texto, "finalmente", não "eventualmente". Deve ter sido traduzido do inglês, onde "eventually" não é "eventualmente" mas "finalmente".

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