quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Eternal Lies - Resenha da Mega-Campanha para Rastro de Cthulhu


Eu sempre amei a proposta de mega campanhas de Call of Cthulhu.

Desde o início dos anos 1980, uma das grandes sacadas da Chaosium era construir enormes campanhas que lançavam os personagens em alguma missão suicida buscando deter algum culto, frustrar alguma conspiração diabólica ou evitar que algum horror ancestral fosse libertado. As grandes campanhas de Call of Cthulhu, como Shadows of Yog Sothoth, Masks of Nyarlathotep (MoN) e Horror on the Orient Express (HotOE) marcaram época. Eram jogos com uma proposta diferente, no qual os personagens viajavam pelo mundo coletando pistas e derrotando diferentes inimigos a medida que conseguiam informações suficientes que os auxiliariam no confronto final. A conclusão de um trecho da investigação não significava que o problema havia sido solucionado, por vezes ele apenas aprofundava o horror e tornava a tarefa ainda mais perigosa desgastando e enlouquecendo os envolvidos.

Eu joguei várias dessas campanhas e narrei uma série de outras, e posso dizer que foram algumas das experiências mais satisfatórias em minha biografia como mestre e jogador, não apenas em Call of Cthulhu, mas em todos os RPG de que tomei parte, desse ou do outro lado da divisória do mestre. Lembro com enorme saudosismo de nossa desesperada corrida para deter os Cultistas à bordo do Orient Express, da luta obstinada contra a Irmandade da Besta e do confronto final contra Hastur em Tatters of the King. Aventuras One-Shot sem dúvida, são divertidas, dramáticas, perigosas, mas nada se compara ao tom de constante ameaça e a imprevisibilidade de uma campanha de horror. Aquele momento que você se apega ao personagem e sua frio quando ele escapa por um triz.


É por essa razão que o lançamento de Eternal Lies, uma campanha de Rastro de Cthulhu (lançada nos EUA em 2013) chamou tanta atenção. Primeiro por se tratar da primeira mega-campanha inspirada nos contos de H.P. Lovecraft em um sistema que não era o clássico BRP da Chaosium. Segundo, porque assim que a campanha foi anunciada já se falava do grau de ousadia de seus autores e do comprometimento da Pelgrane (editora responsável pelo produto) em criar algo diferente.

Talvez o que mais tenha chamado a atenção dos fãs tenha sido o fato da Pelgrane não apenas conseguir igualar com esse material o apelo das campanhas antigas, mas ela ter conseguido refinar o inconfundível estilo desse tipo de aventura épica e entregar algo notável.

Antes de entrar em detalhes, deixe-me falar do livro em si. Eternal Lies é um volume imenso, com 400+ páginas, um verdadeiro calhamaço lindamente ilustrado e incrivelmente bem escrito que prova de uma vez por todas que Rastro não é apenas "aquele outro sistema" derivado do BRP. Ele é uma homenagem às campanhas clássicas, mas tem dezenas de inovações e excelentes ideias que o tornam único. Eu nunca fiz segredo de minha predileção ao sistema original da Chaosium que atende mais ao meu estilo de jogo, mas nessa campanha o sistema de Rastro funciona perfeitamente. Ela é a prova que o Gunshoe chegou para ficar.



Eternal Lies tem um aproach diferente em seu enredo, algo que me conquistou. Ele coloca os personagens no papel de indivíduos reunidos por um incidente que teve lugar uma década mais cedo, envolvendo outro grupo de investigadores. Na trama, esse grupo, um típico bando de personagens em 1924, tenta deter uma conspiração movida por um culto apocalíptico, mas falha espetacularmente! A capa do livro é uma pista da experiência mal sucedida deles! Esmagados e derrotados, os sobreviventes acabaram confinados em manicômios ou se aposentaram. Cada um foi profundamente afetado e nenhum deles conseguiu superar os horrores experimentados anos atrás.

Dez anos se passam! Em 1934, uma rica femme fatale contrata um grupo de novos personagens para investigar o envolvimento de seu falecido pai nesse misterioso acontecimento. De alguma forma a participação dele naquele traumático incidente mudou sua vida dali em diante. O que a filha deseja é entender exatamente o que aconteceu e dar um ponto final nessa estória.  Como acontece em várias campanhas, o início é tímido, mas uma simples entrevista nas profundezas do Sul acaba revelando que a terrível conspiração continua agindo nas trevas e que se nada for feito ela terá sucesso em seus planos demoníacos. E acredite quando eu digo, esses planos são verdadeiramente sinistros!



Os jogadores sem dúvida ficarão impressionados pelo tamanho e profundidade dessa campanha que demandará que eles viagem pelo mundo e superem desafios em novas e inesperadas maneiras. Não demora muito até a trama engrenar e logo os investigadores serão lançados em uma exploração ao redor do mundo. O grupo terá de vasculhar o submundo de Los Angeles, visitar o Sudeste Asiático (em uma aventura na misteriosa Bangcoc que me lembrou "O Grande Dragão Branco"), explorar os perigosos desertos etíopes do Vale do Rift, na África, se embrenhar nas inóspitas selvas da Península de Yucatán, nos segredos da Ilha de Malta e finalmente até ao topo do mundo no Tibet.

Para muitos Masks of Nyarlathotep é a maior e mais rica campanha de Call of Ctulhu (pessoalmente eu prefiro Horror on the Orient Express), mas aqui, senhoras e senhores, temos um sério concorrente a esse posto. Se MoN e HotOE trouxeram um sentido épico para o gênero horror investigativo, Eternal Lies se propõe a manter essa chama acesa como descendente e sucessor em vários aspectos.

Temos um novo e muito bem montado Culto lançando desafios e concorrendo diretamente com os investigadores. Os vilões são ótimos e cheios de carisma, o tipo de personagem que os jogadores irão adorar odiar e dos quais se lembrarão por muito tempo. Mais importante, a maneira como cada localidade é descrita oferece inúmeras possibilidades para o Keeper e torna cada capítulo monumental. Além disso, os investigadores podem escolher seu destino em qualquer ordem, obtendo as pistas nos primeiros cenários, eles poderão traçar seus planos e agir na ordem que bem entenderem, algo que acontecia também em Masks of Nyarlathotep.      


O grande tema que permeia cada capítulo de Eternal Lies é Corrupção, a campanha faz um tremendo trabalho moendo a estabilidade dos personagens e ruindo sua sanidade. Os personagens obviamente correm perigo de vida, mas não é apenas sua integridade física que será constantemente ameaçada. A corrupção incide sobre a mente, a alma e é claro, seus corpos. Não causará surpresa se um ou mais personagens terminarem essa massiva campanha em um asilo, incapazes de viver em sociedade em decorrência dos traumas acumulados. Outros poderão se ver forçados a se esconder dos olhos das pessoas comuns confinados em mosteiros distantes, enquanto outros ainda poderão sofrer as agruras de maldições e horríveis transformações. Eternal Lies muito provavelmente não trará um final feliz, mas talvez seja isso que torne as campanhas inspiradas em Lovecraft tão memoráveis e inesquecíveis. Um grupo de indivíduos normais colocados frente a frente com o impossível com uma ínfima chance de sucesso. O que pode ser mais emblemático?

O Guardião pode esperar um número considerável de mortes, mas a estrutura da campanha permite que novos investigadores sejam integrados ao grupo em pontos chave. Não que a alta rotatividade de personagens e a contagem elevada de vítimas seja um fator desejado, mas sejamos francos, em campanhas de Cthulhu, elas tendem a acontecer e aqui não será diferente.  

É preciso salientar, no entanto, que Eternal Lies é uma Campanha difícil de ser conduzida e que demanda um Guardião experiente. O narrador terá de se familiarizar com dezenas de acontecimentos, fatos e personagens coadjuvantes. O livro faz um excelente trabalho ao definir o papel de cada personagem, mas o Guardião terá de fazer muitas anotações, diagramas e esquemas para não perder o fio da meada. Os autores fizeram um ótimo trabalho inserindo notas de rodapé e detalhes extraídos das sessões de playtest ao longo do texto, mas mesmo assim, espere uma quantidade assombrosa de detalhes. A trama em determinado momento se torna tão densa que será necessário recorrer a notas e voltar aos capítulos anteriores para entender a motivação e o significado de certas reviravoltas. Isso também torna quase uma necessidade que Eternal Lies seja jogado regularmente, sem pausas muito longas, para que ninguém esqueça dos detalhes essenciais.


Apesar de tudo, a campanha não é confusa, ainda que delirantemente detalhista. Felizmente, ela conta com alguns trunfos: Além de um texto primoroso, Eternal Lies possui um esmerado trabalho dos autores no sentido de auxiliar o Guardião através de valiosas sugestões que permitem estruturar as descobertas, organizar as pistas e manter a fluidez da narrativa entre os capítulos. 

Num primeiro momento as características sandbox do roteiro me incomodaram um bocado, mas logo compreendi que essa é a melhor maneira de apresentar uma campanha grandiosa como Eternal Lies. Talvez se Beyond the Mountains of Madness, a maior e mais brutal campanha de Call of Cthulhu em todos os tempos que quase me enlouqueceu, tivesse uma apresentação semelhante ela poderia ser narrada do início ao fim.

A estrutura de Eternal Lies é dividida em três grandes blocos (intitulados "O Início", "O Meio" e "O Fim"). A trama permite ao mestre modular os acontecimentos e graduar a quantidade de pistas obtidas em cada etapa para facilitar ou dificultar seu confronto final. De muitas maneiras, o roteiro dessa campanha me lembrou uma partida de Eldrich Horror, o boardgame em que os jogadores, personificando investigadores viajam ao redor do mundo tentando obter as pistas que lhes permitirá banir o horror que ameaça o globo. Aqui a proposta é bem semelhante, o que torna essa campanha uma boa pedida para jogadores advindos do tabuleiro. 


Há uma ligação entre cada capítulo e eles se complementam de tal forma que não há um cenário com mais ou menos destaque, cada um tem sua parcela de importância no conjunto geral, outro ponto favorável. Uma coisa que me irrita em algumas campanhas é que certas aventuras não são necessárias para a resolução do mistério, constituindo meros contratempos, que, não obstante, resultam na morte de personagens. Aqui cada aventura tem sua importância e sua função.

Eu não vou estragar a diversão e revelar qual é a entidade e horror lovecraftiano que motiva o Culto, nem discutir elementos centrais da trama. A identidade do "Mentiroso do Além" (The Liar from Beyond), o objeto de adoração do Culto, é um dos mistérios centrais da campanha. Há todo um contexto que carece de uma certa dose de maturidade da parte do narrador e dos jogadores uma vez que drogas, sexo e violência figuram em várias cenas. O final oferece uma série de surpresas e reviravoltas que só podem ser compreendidos nas últimas sessões. Imagino que uma campanha como essa será memorável para um grupo especialmente empolgado. Eu fiquei satisfeito com a conclusão e muito interessado em narrar essa campanha do início ao fim, quisera até poder jogá-la, não tivesse lido...


Eternal Lies é uma campanha verdadeiramente épica, dividida em 9 cenários separados. Jogando uma vez por semana, ela deve cobrir entre 6 e 8 meses de jogo. Talvez mais, pois há espaço para sidequests e opções individuais em vários momentos. Fisicamente o livro é intimidador: pesado e com muitas páginas, mas de uma beleza surpreendente. Muitos jogadores se acostumaram com livros inteiramente coloridos e por isso torcem o nariz para páginas com arte preta e branca, mas aqui ela é simplesmente deslumbrante. Não há do que reclamar! Com nomes como Jerome Huguenin, Phil Reeves, Alessandro Alaia, entre os artistas responsáveis pelas ilustrações, não tem como dar errado. A qualidade gráfica da Pelgrane já é bem conhecida dos fãs e eles continuam acertando na mosca. Ao preço de US $ 49,95, Eternal Lies vale cada centavo pois oferecerá dias e mais dias de diversão aos jogadores.


Trata-se de uma excelente opção de campanha. Tanto para os fãs declarados do sistema Gunshoe (o engine de Rastro de Cthulhu), quanto para os fiéis seguidores do BRP. Eternal Lies oferece acima de tudo uma estória complexa e bem engendrada o que agradará os mais exigentes narradores. Suponho que uma conversão para Call of Cthulhu seja perfeitamente viável (sobretudo agora que a sétima edição introduziu os backgrounds - que podem fazer as vezes dos Drives), mas mesmo os que não simpatizam com o Gunshoe vão achar a proposta no mínimo intrigante.

Se tiver possibilidade de pegar esse livro, considere-o como uma opção para seu grupo.


Mentiras Eternas o aguardam.

Exponha o Mal.

Confronte a Corrupção.

Tudo depende de você!

2 comentários:

  1. Bem que a Retropunk poderia trazer esse suplemento, mas ainda estou aguardando o Detetive Tales, então acho que não rola...

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