segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Clive Barker - Uma pequena biografia de um Gênio do Horror Moderno


Verdade seja dita, ninguém consegue invocar cenas de horror, escatologia e agonia como Clive Barker. Não por acaso, ele é um dos meus autores favoritos.

Barker é um conhecedor de emoções humanas, um explorador de sensações, um sujeito que parece se deliciar com a arte de erguer o véu que oculta situações repletas de degradação, tentação, desejo e uma dose de lirismo. Seus contos e romances são extraordinários, abrem portas para paisagens ao mesmo tempo maravilhosamente belas e para cenas absurdamente perturbadoras. Choque e horror não são sensações passageiras quando você encara os escritos de Barker, essas sensações ficam com você por muito mais tempo.

Quando esse autor britânico começou a chamar a atenção das pessoas no início dos anos 1980, Stephen King, o Papa da literatura de horror fez o seguinte comentário: "Eu vi o futuro  do horror, e seu nome é Clive Barker".

Barker começou a aparecer para o mundo através de contos que formam uma coleção chamada "Livros de Sangue". Quem é "macaco velho de sebo" ou adora o gênero horror deve ter topado com esses livrinhos, possivelmente, pode até ter em sua estante um ou dois dos seis volumes lançados aqui no Brasil pela Editora Civilização Brasileira. São aqueles livros de capa branca, com uma única gota de sangue, que pinga, escorre, forma manchas e poças em cada volume. Uma capa minimalista, mas que sempre me chamou muito a atenção. Livros de Sangue, foi a obra seminal que serviu como cartão de visitas para toda uma geração de fãs de horror que se viram atraídos pela obra de Clive Barker como mariposas são hipnotizadas pela chama da vela.


Eu comprei o primeiro Livros de Sangue quando ainda estava no colégio e foi uma experiência inquietante ler aqueles contos estranhos, chocantes, sanguinolentos tão bem trabalhados. A impressão que ele passa é que as palavras são trabalhadas para atingir o leitor, impactando em cada sentença, chocando em cada parágrafo, deixando fora de ação ao fim de cada capítulo.

Quando me dei conta, já estava fisgado pela prosa perversa, pelas paisagens que se abriam evidenciando horror e danação, pelos personagens maldosos e humanos, salpicado de sangue e restos humanos.

De Livros de Sangue saltei para "O Jogo da Perdição", o primeiro romance do autor e na minha opinião um dos livros mais bizarros, incômodos e perturbadores que eu já tive o prazer de virar as páginas. Sem dúvida esse está na minha lista de preferidos de horror de todos os tempos, um dos títulos que fez com que eu em determinado momento, fechasse o livro e parasse de ler para respirar e tomar fôlego.

"O futuro do terror", de fato! King enxergou longe!

De lá para cá, eu li praticamente tudo dele que foi publicado aqui no Brasil: Raça da Noite, A Trama da Maldade, Sacramento, Desfiladeiro do Medo, Galilee e mais alguns títulos que só saíram lá fora como "The Great and Secret Show", "Imajica" e "Mister B. Gone".

A rica bibliografia de Clive Barker inclui trabalhos de horror em estado visceral, mas ao longo de sua carreira ele enveredou por outros caminhos, sendo especialmente bem sucedido ao escrever sobre fantasia e livros destinados ao público infanto-juvenil (como a série Abarat).

Multi-Mídia, ele se envolveu com uma série de outros projetos além da literatura, sendas variadas que incluíam o trabalho como ilustrador e pintor. Barker também ocupou a cadeira de diretor de cinema. Foi ele o responsável por dirigir o clássico Hellraiser (1986), além de NightBreed (1990) e Senhor das Ilusões (1995), também produziu e escreveu o roteiro para vários filmes de sucesso como Candyman (1992), Book of Blood (2008) e Trem da Carne da Meia Noite (2008).

Mais recentemente escreveu para o selo Razorline de quadrinhos de horror e foi consultor dos games The Undying e Jericho. 

Muitos desses trabalhos podem ser encontrados por fãs brasileiros interessados em mergulhar em sua criatividade, outros, infelizmente ainda aguardam versão em português.

O que nos leva a razão de ser desse artigo e dos posteriores.

Eu sempre achei curioso que uma das obras mais conhecidas de Clive Barker jamais tenha sido apresentada aos fãs brasileiros em seu formato original. A maioria dos entusiastas do horror conhecem o filme Hellraiser (e suas continuações), estão bem familiarizados com o personagem Pinhead e a mitologia que envolve a infame Configuração dos Lamentos, a caixa quebra-cabeças que abre uma passagem para o Inferno.


A maioria, no entanto, não sabem que Clive Barker é o criador desse mundo assustador transbordando sadismo e perversidade. O filme (não por acaso dirigido por ele) é inspirado em uma de suas primeiras novelas, intitulada "The Hellbound Heart", editado no longínquo ano de 1986.

"Hellbound" foi a primeira obra a tratar do personagem Pinhead, sobre a Caixa Maldita, o submundo da magia e a respeito da particular visão de inferno segundo Clive Barker.

Um livro imperdível!

Finalmente depois de muita espera, a terrível lacuna deixada pela ausência desse livro foi sanada em 2015 pela Editora Darkside.


Nos últimos tempos, os fãs brasileiros de horror tem muito à comemorar, e sua alegria está intimamente ligada ao estabelecimento da Darkside. Desde que essa Editora Carioca surgiu, ela se estabeleceu como a Editora número um de obras de literatura obscura e sombria. Não é exagero dizer que eles conquistaram um lugar no coração de todos os fãs brasileiros do gênero que até então estavam órfãos de uma editora inteiramente dedicada ao gênero horror e fantasia. O respeito, o capricho e acima de tudo, a competência da Darkside arregimentaram uma legião de seguidores fiéis. Livros de qualidade irretocável, trabalho gráfico deslumbrante e edições de luxo que são um prazer folhear e ler finalmente estão ao nosso alcance.

Esse artigo é a introdução para a resenha de dois livros específicos editados pela Darkside: Hellraiser e Evangelho de Sangue, ambos de Clive Barker. 

Espero que gostem...

Mas para aquecer, que tal começarmos com um resumo dos principais livros de Clive Barker? Aqueles que saíram aqui no Brasil e podem ser encontrados em sebos.

Livros de Sangue (Books of Blood)


A Coleção de Contos marcou a estréia de Clive Barker no mundo da literatura é celebrada e tida como um marco no gênero que consolidou o seu nome como um dos escritores de horror mais conhecidos.

Aqui no Brasil, a coleção foi editada pela Civilização Brasileira em seis volumes que reúnem contos clássicos como Trem da Carne da Meia Noite, Pavor, A Pele dos Pais, A Cabeça Descarnada, Na Carne, O Proibido (o conto que originou Candyman), A Última Ilusão (que deu  origem ao filme de mesmo nome).

Caras, essa coleção é sensacional, um trabalho magistral com algumas das melhores estórias curtas das últimas décadas e vale a pena ser procurado. 

Alô Darkside, que tal uma reedição desse material!

O Jogo da Perdição (The Damnation Game)


Eu falei um pouco a respeito ali em cima. Esse livro é para quem tem sangue frio, estômago de ferro e nervos de aço. Um dos melhores romances de horror que eu já li.

O Jogo da Perdição conta a história de um sujeito viciado em jogo que vai trabalhar coo guarda costas para um velho milionário em sua mansão. Aos poucos começa a descobrir os segredos e mistérios do sujeito e de sua estranha família. Pactos com as Trevas, acordos escusos feitos durante a Segunda Guerra, envolvimento com o sobrenatural e um acerto de contas estão na ordem do dia. 

Eu preciso ler esse livro de novo! É uma daquelas narrativas que a gente fica alucinado querendo saber como vai terminar.   

A Trama da Maldade (Weaveworld)



Trama foi a primeira experiência de Barker no universo da fantasia, o que resultou em um livro interessante e incomum. Francamente, quando li pela primeira vez, influenciado pelo autor (e pelo título) esperava encontrar horror e fiquei um pouco decepcionado. Mas quando li pela segunda vez, gostei muito! É uma clássica estória de magia, fantasia e encantamento.

A trama envolve um grupo de pessoas especiais que são capazes de invocar magia e que se mantém escondidos do restante da humanidade por temer que eles descubram suas capacidades especiais. Eles criam um mundo fechado para onde planejam migrar, "A Fuga", uma realidade mágica encerrada na tecitura de um tapete mágico. Lá eles também planejam uma maneira de enfrentar seu inimigo, o Scourge uma força de destruição primal.

Raça da Noite (Cabal)


De volta ao universo do Horror, Barker entrou de cabeça na mitologia dos monstros e criaturas assustadoras.

Na trama, acompanhamos os percalços de Aarom Boone um sujeito que sofre de sérios distúrbios mentais e que tenta fugir de seu passado de violência. Mas por mais que Boone tente, ele não consegue escapar de uma única certeza, ele é um monstro. Em diferentes instituições mentais, ele fica sabendo da existência de Midian, uma cidade lendária para onde os monstros vão para viver em paz com os membros de sua espécie - a Raça da Noite. A chegada de Boone vai atrair a atenção de outros monstros e causar a destruição e o renascimento da sociedade dos Monstros sob uma nova liderança.

Cabal se tornou o filme Nightbreed e a série de quadrinhos Raça das Trevas. Eu gosto muito desse livro e sempre esperei por uma continuação já que ele nos deixa no meio do caminho e não explica qual o destino da Raça.

Sacramento (Sacrament)


Barker mais uma vez em um romance de Horror com toques de fantasia.

Nele acompanhamos um fotógrafo da vida selvagem que é atacado e gravemente ferido por um urso no Alasca. Enquanto luta para sobreviver, o sujeito acaba formando uma espécie de comunhão com a natureza e um sexto sentido sobrenatural para captar as ações de seres que planejam a destruição da humanidade e de todas formas de vida.

Interessante, esquisito, cheio de ideias extravagantes e descrições pra lá de bizarras. Sacramento não é para todos os gostos, mas é um baita romance.

Galilee (Galilee)


De volta ao gênero fantasia, Barker escreve uma saga riquíssima a respeito de duas famílias, verdadeiras Dinastias que ao longo da história humana combatem uma a outra. Os Geary são muito parecidos com os Kennedy na vida real, ricos, charmosos e com ambições políticas, dinheiro e influência quase ilimitadas. Já os Barbarosa são uma Família composta de estranhos seres imortais que não são inteiramente humanos e que possuem uma centelha divina. Em comum o fato deles se valerem de poderes mágicos e capacidades sobrenaturais para perpetuar sua importância. 

Ao longo da história são revelados os muitos mistérios dos dois clãs ancestrais, como se deu o início de sua desavença e sua contante inimizade que permeia ao longo dos séculos. No trecho final, temos uma trama de Romeu e Julieta, na qual um membro dos Barbarosa acaba se apaixonando por uma Geary criando uma situação que coloca em risco o equilíbrio e as convicções dos membros da Família.

Eu gostei de Galilee, mas me parece ser um dos livros mais subestimados de Barker. Ainda assim, vale a pena ser lido, pela trama e pelas ideias contidas na trama central. Ele sabe contar uma estória de família como poucos.

O Desfiladeiro do Medo (Coldheart Canyon: A Hollywood Ghost Story)


Horror de novo! E de ótima qualidade. Aqui temos um roteiro envolvendo o poder e glamour de Hollywood com astros capazes de comprar o que bem entendem e das repercussões de seus atos.

A estória se passa em duas épocas: 

Nos anos 1920 temos um empresário que adquire um castelo gótico na Romênia e dá um jeito de transportar um mosaico, pedra por pedra para a Califórnia afim de agradar sua cliente, Katia Lupi uma atriz de enorme sucesso. Mal sabe ele que está transportando uma terrível maldição junto com as pedras e que esta irá desencadear uma trama de tragédias, horrores e consequências inesperadas.

Na segunda parte, temos um ator de sucesso que acaba acidentalmente desfigurado. Para superar a tragédia, ele decide comprar a Mansão que pertenceu a Katia Lupi ignorando as estórias de que o lugar é assombrado e habitado por estranhas forças sobrenaturais ligadas aos seus antigos habitantes.

Desfiladeiro do Medo é um excelente romance de Horror que mistura sexo, bizarrice, personagens estranhos, morte, escatologia e satanismo no mesmo caldeirão aquecido por uma fogueira de vaidades do show business. Muito bom mesmo!

Bem, fiquem conosco... ainda há muito de Clive Barker e principalmente cenobitas nos próximos artigos.

7 comentários:

  1. Ótimo artigo, só um toque pro uso excessivo da palavra "estória". Praticamente não é mais usada na língua portuguesa.

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  2. Valeu. Eu adoro diferenciar estória de história. Mas confesso que às vezes exagero. ;-)

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  3. Adorei Coldheart Canyon, infelizmente perdi minha edição e não posso relê-lo.

    A edição de couro de Hellboud Heart que você mostrou, ganhei recente mente de aniversário. É maravilhosa, não só o conto (que eu achei ter sido bem fielmente reproduzido no filme, embora falte uma cena genial do começo do livro), mas as pequenas ilustrações do Cubo entre os capítulos, que vão se abrindo à medida que se avança pelo livro, o fato de ter um marcador embutido... Para quem é fã do Pinhead, esse livro é obrigatório na estante (de preferência ao lado daquela encadernação de contos do Lovecraft "Necronomicon", gigantesca e com capa preta de couro também, com uma ilustração de um Cthulhu em relevo dourado, linda :3 )

    E você agora me deixou curioso quanto aos Livros de Sangue, preciso ir num sebo atrás deles...

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  4. Prefiro "Hellraiser", embora a coleção "Livros de Sangue" tenha alguns contos EXCELENTES.

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  5. Fiquei muito interessado em ler esses livros, principalmente os de Sangue, pena que não acho em nenhum canto para comprar/ler online

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  6. Boa tarde, Gabriel.
    Eu procurei no Google pelos termos "Livros de sangue pdf", e apareceram diversos links. Baixei e estou lendo, enquanto as peregrinaçoes em sebos físicos e virtuais não rendem frutos...
    Boa sorte e Boa leitura!

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  7. Gabriel,
    Achei alguns links onde baixar os Livros de Sangue em formato pdf. Dê uma olhada no Google, com os termos "livros de sangue pdf".
    Boa leitura+

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