terça-feira, 25 de outubro de 2016

"A mais horrível das Mortes" - A Execução do Cidadão Damiens em Paris


Robert François Damiens tinha 42 anos de idade quando morreu de forma medonha.

Ele foi morto em uma tarde fria em 28 de março de 1757. O tamanho do horror infligido a ele ainda nos assombra. Não apenas em função dos detalhes grotescos e da narrativa das várias testemunhas que estiveram presentes ao suplício encenado na Place de Greve, Centro de Paris, mas por ser um daqueles momentos que desafiam a nossa noção de civilização. Que tipo de pessoa realiza tal coisa? Que tipo de criaturas produzem tamanho horror de forma proposital?

Para muitos, a execução do Cidadão Damiens foi um dos pontos mais baixos da história humana. O equivalente em pequena escala ao Holocausto e aos Campos da Morte. Um momento em que deliberadamente não se matou uma pessoa, mas se vitimou a humanidade como um todo. Eles fizeram o que fizeram, por que podiam, e por que ninguém fez nada para pará-los.

O crime de Damien foi agredir o Rei Luis XV e feri-lo com um canivete. Damiens, era um humilde serviçal doméstico que trabalhava no Colégio Jesuíta de Paris. Até então, contaram as pessoas que o conheciam, ele jamais havia dado sinal de ser um indivíduo violento. Mas o que o levou a atacar o homem mais poderoso da França? Alguns acreditam que ele era membro dos Jansenitas, uma seita cristã tratada como herética e que criticava abertamente a monarquia e seus excessos. Para alguns, ele tinha problemas mentais e interpretou equivocadamente as palavras de um pastor em seu sermão.  Acreditava que matasse o Rei, iria para o paraíso. Seja com for, não há dúvidas de que ele agrediu o monarca, ainda que alguns levantem suspeitas de que sua intenção não era matá-lo. Após o ataque desajeitado, Damiens foi capturado e levado para uma masmorra. Lá foi torturado para que revelasse o nome de possíveis comparsas. Torturado com pinças em brasa, ele jurou que havia agido sozinho e que não era parte de uma conspiração. Terminaram acreditando nele. 

Logo após o ataque houve muitos rumores desencontrados. Alguns acharam que o monarca corria risco de vida em face do ferimento, tanto que um padre foi trazido para dar a Extrema Unção. Médicos foram chamados para tratar de seu ferimento e por alguns dias chegaram a achar que o Rei estava entre a vida e a morte. Na verdade, o ataque produziu apenas um corte superficial em Luis XV. O casaco grosso que ele usava na ocasião serviu para desviar a lâmina e fazer com que ela meramente arranhasse seu peito.

O Parlamento de Paris acusou o réu de "Tentativa de Regicídio", uma transgressão tão ofensiva e grave que, segundo os promotores, merecia uma punição à altura. Não houve julgamento ou inquérito formal, as testemunhas deixaram claro que ele era culpado. E se as testemunhas não fossem suficientes, a versão dada pelo Rei não deixava dúvidas de que o homem preso na Masmorra era responsável pelo ataque.

A sentença foi proferida: Damiens seria levado para a Place de Greve e lá despedaçado por cavalos.

A cerimônia de execução foi cuidadosamente planejada com semanas de antecedência. Os espectadores tiveram a oportunidade até de comprar lugares na primeira fila, bem diante do patíbulo que foi montado no centro da praça. Camponeses dormiam ao relento para garantir o melhor lugar e o vendiam por um valor equivalente a um mês de trabalho. A multidão esperada para assistir ao evento era tão numerosa que as autoridades cogitaram mudar o lugar para que todos pudessem assistir o aguardado suplício. A sede de sangue da população era tamanha que não se falava de outra coisa nos mercados e ruas de Paris. Decidiram manter a Place de Greve por considerar de mau gosto conduzir aquele espetáculo em outro lugar. 

Homens e mulheres com interesse em crueldade e perversidade, vieram de províncias distantes, viajando dias pelas estradas para chegar a tempo de testemunhar a execução. Era um assunto de estado para os franceses, mas isso não impediu que sádicos de outras nações viessem. Vários nobres e plebeus ingleses fizeram questão de atravessar o Canal da Mancha, entre os quais o baronete George Selwyn, que em suas próprias palavras "não perderia o espetáculo por nada". Selwyn viajou com a esposa, quatro filhos, duas filhas, genros, noras e netos além de uma entourage de criados. Ele era descrito pela filha mais nova como um pai gentil e amoroso. Um famoso Juiz italiano chamado Abruzzo também desejava estar presente e chegou a agendar viagem, mas ficou doente na véspera. Ele enviou uma carta a um primo distante que vivia nos arredores de Paris e pediu a ele que fosse em seu lugar e que tomasse notas de cada procedimento para depois lhe fazer um relato minucioso, "sem esquecer nenhum detalhe, do mais inocente ao mais vil".

Aparentemente, o Rei não estava de acordo com o espetáculo planejado. Ele não queria que Damiens fosse torturado na masmorra e não desejava que o suplício fosse prolongado ou que tivesse a participação do público. Luis XV, não estava satisfeito com nada daquilo, sobretudo por que tudo estava sendo feito em seu nome. Infelizmente as pessoas ao seu redor, nobres, legisladores e clérigos garantiam que aquela era a única maneira de salvaguardar a monarquia contra outros assassinos traiçoeiros. Uma demonstração à altura mostraria a todos que o Rei era inatingível e desencorajaria novas tentativas de assassinato. Até o último momento, o Rei tentou cancelar a realização daquele sangrento evento, mas nos últimos dias a coisa havia atingido uma repercussão tamanha que se fosse cancelado, a população poderia se revoltar. Contrariado, o Rei se trancou em seu palácio e dizem, quando enfim lhe contaram como transcorreu a execução, afundou em profunda depressão.

É interessante imaginar o que se passava na cabeça das pessoas que compunham os três estados que compunham o Ancient Regime. As mentes mais brilhantes do Iluminismo clamavam por uma resposta, bem como os nobres que queriam coibir revoltas. Os Religiosos diziam que era a maneira de proceder contra quem atentava contra o Governante Divino. A população estava faminta e ansiosa por um espetáculo macabro. Todos concordavam em um ponto: o réu deveria sofrer e nada seria considerado cruel demais nesse caso específico.

Escoltado de sua cela até uma carroça, Damiens teria dito assim que viu a saída: "O dia hoje será difícil" - estava certo! Ele foi levado pelos soldados até a Place de Greve sob uma chuva de frutas podres e xingamentos, passando lentamente através da multidão que lotava as ruas. A Gentlemans Magazine, uma publicação da época, descreveu cada momento do suplício em detalhes que fizeram a alegria de seus leitores. A revista em sua edição do mês vendeu como nunca.


O verdugo, um homem pitoresco chamado Charles Henri-Sanson - que no final da carreira contabilizava mais de 3 mil execuções, iniciou os procedimentos usando um instrumento chamado "boots" que comprimia as pernas de modo extremamente doloroso. Mas aquilo era apenas o início. A mão com a qual o agressor atentou o crime recebeu atenção especial: ela foi queimada com enxofre, cera quente, óleo fervente e chumbo derretido. Unhas arrancadas e cada osso das falanges feito em pedaços por marretas. Em seguida, pinças afiadas aquecidas em uma fornalha foram usadas para arrancar pedaços de carne da barriga e das costas de Damiens. A multidão urrava e aplaudia a cada momento do show grotesco, sobretudo quando bocados foram jogados para um grupo de cães de rua. O espetáculo durou mais de quatro horas com o executor deixando a vítima descansar e então recomeçando seu sangrento trabalho.

Finalmente o especialista decidiu que era o suficiente, temia que mesmo com todo seu conhecimento de anatomia, continuar seria perigoso e frustraria a platéia. Ele ordenou que quatro cavalos fossem trazidos junto com as cordas para serem amarradas nos pulsos e tornozelos da vítima. Uma grande ovação se seguiu a entrada dos grandes cavalos, cedidos por uma popular estrebaria de Paris. Sanson verificou se as cordas estavam bem presas e ordenou que os animais começassem a puxar em quatro direções diferentes. Os animais puxaram e puxaram, mas eles não conseguiram separar os membros do corpo, provavelmente porque os cavalos estavam muito assustados com os gritos da multidão.

Finalmente depois de quatro tentativas infrutíferas, o assistente de Sanson, um rapaz de 17 anos, sobrinho do executor, sugeriu cortar os tendões para facilitar o serviço.

"Está bem!" teria dito Sanson e mandou o rapaz ir buscar um machado. Um espectador que por acaso estava nas primeiras filas era um cirurgião e pediu permissão para se aproximar e demonstrar onde seria melhor fazer as incisões para desalojar os membros com maior facilidade. O cirurgião chegou a ser aplaudido pela turba enquanto mostrava como deveriam proceder. Fez inclusive uma propaganda de seu consultório na Rua de Liddy. Finalmente, através desse método eles tiveram sucesso. Os cavalos devidamente chicoteados puxaram com força e desmembraram braços e pernas que foram devidamente secionados. Um rugido pode ser ouvido em meio a multidão comemorando a "justiça"!

Alguns afirmam que Damiens ainda estava vivo, mesmo reduzido a torso e cabeça. E que ficou vivo enquanto se acendia uma pira onde onde o que havia restado dele seria queimado. Dizem até que ele demonstrou curiosidade ao ver a turba disputando braços e pernas arrancados pelos cavalos como troféus: "Aquela é minha perna? Aquele é meu braço?" teria perguntado.

Finalmente o espetáculo foi concluído, quase sete horas depois de se iniciar, quando o que havia restado enfim foi lançado em uma pira acesa para se transformar em cinzas dispersas pelo vento.


Diante de tudo que aconteceu, o famoso amante veneziano Giácomo Casanova, que assistiu a execução em um lugar privilegiado, escreveu em seu diário:

 "Todos pareciam enfeitiçados pelo espetáculo e assistiam por horas e horas (...) Em diversas ocasiões fui obrigado a olhar para o outro lado, fechar meus olhos e tampar meus ouvidos para não ver ou ouvir o que estava acontecendo. Não podia deixar meu lugar, pois a multidão não se movia um centímetro, alguns riram quando eu tentei evitar aquela visão infernal. Mesmo com metade do corpo de Damiens despedaçado, as pessoas pediam mais, mais, mais (...) Lambertini e Madame XXX, no entanto não moviam um músculo. Será que seus corações haviam endurecido de tal forma? Eles me contaram mais tarde, e eu fingi acreditar, que o seu horror era tamanho que eles não conseguiam dar vazão ao seu desejo de implorar pelo fim daquele tormento".

Outra coisa que chocou Casanova foi a presença de mulheres e crianças na platéia: "elas gritavam mais do que qualquer um, a cada corte e golpe desferido vibravam em satisfação". Segundo ele, algumas senhoras lançavam seus lenços sobre o patíbulo para que eles ficassem empapados de sangue, tornando-se assim itens valiosos, ligados diretamente à mais famosa execução que Paris jamais assistira.

Finalmente, terminado o espetáculo macabro, uma grande turba marchou até a casa de Demiens com intuito de saquear, destruir e finalmente incendiar o lugar até o chão. Na loucura, roubaram e incendiaram também as casas dos vizinhos. Os familiares de Demiens foram perseguidos, mas aparentemente conseguiram escapar, alertados de que a multidão poderia vir atrás deles. A maioria teve o bom senso de mudar de nome e deixar Paris. Distúrbios e quebra quebras se seguiram nos dias posteriores com assassinatos, estupros e agressões sendo cometidos impunemente. Qualquer um que dissesse estar comemorando a execução parecia ter um "salvo conduto moral" para participar da baderna. Um homem que tinha o sobrenome Damien - e que aparentemente não era parente do réu, quase foi linchado nas ruas alguns dias mais tarde. Um estrangeiro que chamou os franceses de bárbaros foi agredido e por pouco não morreu com o crânio despedaçado por uma garrafada. Paris estava alucinada pela violência e nada parecia ser capaz de saciá-la.

A sede de sangue continuava forte, era como se o rumor ainda pudesse ser ouvido: "Mais, mais, mais".

Por décadas a lembrança daquele dia sangrento e da bruma escarlate que desceu sobre a população, enlouquecendo a todos, continuou fresca na memória dos parisienses. Boatos sobre o fantasma desmembrado atravessaram as décadas, com rumores de que ele assombrava a Place de Greve. Até os cavalos usados na execução dizem, se tornaram amaldiçoados, tendo posteriormente provocado a morte de todos os seus donos em acidentes inexplicáveis. As cordas usadas para despedaçar o corpo de Damiens teriam sido usadas à bordo de um navio que afundou matando toda tripulação. O poderoso Robespierre que teria estado presente à execução de Demiens e que perdeu a cabeça na guilhotina, teria sonhado com o martírio do primeiro na noite anterior ao seu encontro com a "Mademoiselle Guilhotine".

Décadas se passaram e o pesadelo da execução continuava reverberando.


Contudo, a morte infernal de Demiens foi apenas o prelúdio do que estaria por vir na França depois de 1789. Morte, Sangue e Caos lavariam as ruas de Paris em uma torrente que resultaria na Revolução que derrubou o Regime e mudou o futuro da Nação para sempre. No fogo da revolta, o nome de Demians seria gritado pelos sans-culottes, enaltecido como de um revolucionário pioneiro que tentou assassinar o tirano. O primeiro revolucionário, alguns assim o chamaram. Curiosamente, a mesma população que vibrou com sua morte no patíbulo, alçaria seu nome à constelação dos Heróis da Revolução. 

O terrível acontecimento, chamado de "A mais terrível das mortes" inspirou teóricos e filósofos a escrever tratados condenando a tortura e a pena de morte de modo veemente. Até hoje, a execução é um líbelo contra a pena capital citado por juristas. De Cesare Beccaria a Michel Foucault, vários pensadores redigiram importantes trabalhos que ajudaram a ecoar o sentimento de repúdio diante das execuções públicas, tratadas doravante como um espetáculo cruel e despótico.

Mas quando cai a noite, o som ainda é ouvido nas ruas assombradas da Cidade Luz. O rugido de uma população que se entregou ao desejo de vingança no mais bizarro espetáculo lá encenado.

Mais, mais, mais...

7 comentários:

  1. O maior monstro é sempre o ser humano.

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  2. Curiosidade: A guilhotina foi inventada pelos revolucionários de 1789 para que a morte fosse rápida e não mais um espetáculo como na época do "Antigo Regime", como no caso do cidadão Damiens. Pois o Estado inaugurado pelos revolucionários não deveria ser tão cruel em suas execuções quanto as perpetradas pelo regime dos Reis. Entre ter suas quatros partes arrancadas por cavalos e a cabeça separada do pescoço em segundos, a escolha é fácil...

    Outra curiosidade relacionada: O Reino era considerado um corpo, sendo o Rei a cabeça. Logo, tentativas de separa-lo era punido com a "separação" das partes do corpo do criminoso. Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), por exemplo, teve seu corpo retalhado e espalhado pela cidade pelo crime de "lesa majestade", pois tentou dividir o Reino de Portugal.

    Outro criminoso "famoso" de lesa majestade, foi Tupac Amaru II(1781), que foi condenado a ser mutilado por quatro cavalos como Cidadão Damiens, por tentar tornar independente o Vice-Reinado do Peru.

    Notem que era um punição muita ligada aos crimes contra a majestade, seja o reino ou o próprio Rei.

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  3. Luciano, você foi bondoso na descrição da tortura. Na verdade eles atenazaram o cara e depois jogaram piche e cera quente dentro das feridas e não só sobre a mão... Coisa muito humana e civilizada...

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