quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Azathoth - O Deus Idiota, o Caos Primordial, Soberano do Universo


No Universo inclemente dos Mitos Ancestrais existem forças e entidades capazes de desequilibrar a balança de poderes cósmicos a um nível perigoso. São entidades tão inacreditavelmente poderosas e tão inconcebivelmente influentes que um mero movimento poderia aniquilar realidades, partir dimensões e destruir a existência como nós conhecemos.

São seres de tanta potência e capacidade que sua existência reúne princípios da própria natureza. Eles são aquilo que nós aprendemos a aceitar como noções norteadoras do que existe de fato - vida, tempo, espaço, gravidade...

Mas acima deles, acima destas entidades incompreensíveis, existe algo mais... existe, é claro, Azathoth.

Chamar Azathoth de Deus Exterior é simplificar demasiadamente seu conceito.

Ele é mais do que os outros Deuses Exteriores, talvez ele seja mais do que a soma de todos os outros Deuses reunidos. Para alguns filósofos que ousam discutir o papel de Azathoth no contexto cósmico, ele é o Início, o Meio e o Fim de tudo no Universo. Tudo que existiu já foi parte de Azathoth, tudo o que existe é um fragmento dele, tudo o que existirá será gerado por ele. E um dia, o Caos Primordial irá consumir tudo em uma conflagração de aniquilação que terminará de vez com o Universo como conhecemos. Pois ele é o fim de todas as coisas, assim como foi o início.


Não por acaso, os teóricos dos Mitos o chamam em reverência de o Sultão Demoníaco e em temor de o Caos Primordial. O termo Sultão, foi usado provavelmente pela primeira vez pelo célebre árabe louco Abdul Al Hazred. É oriundo de seu compêndio transcendental, o Al Azif, posteriormente batizado de Necronomicom. Em seu tratado, Hazred dispõe o papel de preponderância de Azathoth como o Soberano de Todas as Forças Cósmicas. Ele ocupa o Trono, naquilo que se convencionou chamar de Corte Cósmica, o local no Centro do Universo. Ungido, Glorioso e Imponente, os Deuses Exteriores giram ao seu redor em uma espécie de órbita planetária. Eles jamais se aproximam para que o Caos Derradeiro não os alcance com seus tentáculos. O toque de Azathoth equivale a erradicação de tudo que existe, e nem mesmo os Deuses podem se dar ao luxo de se aproximar dele. Imóvel no Centro da Corte, o Sultão preside sua hoste infinita, com seu séquito de divindades evoluindo, girando, se aproximando e se afastando. Yog-Sothoth, Shub-Nigurath, Nyarlathotep e todos os demais colossos universais rendem a ele homenagem nesse Balé Cósmico. Nenhum deles é seu igual.

Uma procissão de sátrapas laboriosos, seres batráquios multi tentaculares conhecidos apenas como Servos dos Deuses Exteriores são os únicos com permissão de se aproximar. Eles portam grandes flautas metálicas sopradas em notas monótonas que compõem a Canção das Esferas - a "música de ninar" dos Deuses. Seu som monocórdio não pode ser registrado pela percepção humana sem causar a loucura e a danação. Talvez ela sirva para acalmá-lo e contê-lo. O som se propaga pela corte, mesmo ocupando ela um vácuo espacial. Leis convencionais do tempo e espaço nada significam ali. O que é a natureza senão material a ser pervertida por estes seres?


Azathoth raramente abandona seu Trono, a não ser nas poucas ocasiões em que é invocado por rituais complexos que escancaram portais dimensionais ligando o Centro do Universo a algum outro ponto. Os templos dos Insetos de Shagghai permitiam tal evocação, assim como os ritos de alguns seres propensos a venerar o Caos em matéria bruta. Mas mesmo num universo tão vasto, são poucas as espécies dispostas a prestar culto a essa entidade. Azathoth é temível demais, imprevisível demais... há rumores de que planetas inteiros foram incinerados pela invocação intencional ou acidental dele. Num piscar de olhos Sistemas Planetários inteiros foram fulminados pela mera presença de Azathoth. Por esse motivo, as raças superioras, as mais iluminadas do cosmos evitam qualquer contato com o Caos Primordial constituindo tal prática uma blasfêmia. Os Mi-Go, a Grande Raça, a Raça Ancestral, todas elas o conhecem e temem, nenhum se sentindo compelida a louvá-lo, pois nada bom pode vir disso.

A razão para esse temor disseminado entre as espécies preponderantes é que Azathoth não possui consciência de seu real poder. Não por acaso ele é chamado de Deus Cego e Estúpido, uma vez que é incapaz de interagir com qualquer coisa de forma inteligente. Azathoth é apenas reação, não há sequer instinto guiando suas ações. A noção de um ser tão poderoso, incapaz do mais modesto pensamento é terrivelmente assustadora, uma demonstração da natureza indiferente do universo diante das formas de vida que nele habitam. A ironia cósmica de que a mais poderosa entidade no cosmos possui uma mente vazia, levou mais de uma civilização à completa ruína por desesperança. 

Impossibilitado de fazer qualquer coisa por conta própria, Azathoth carece da intromissão de sua entourage de Servos batráquios flautistas para as tarefas servis e daquele que exerce a função de Arauto e Mensageiro, ninguém menos do que o Caos Rastejante, Nyarlathotep. Ele que é chamado de Coração e Alma dos Deuses Exteriores, é incumbido de cumprir missões em nome do Sultão, de satisfazer suas necessidades e executar seus menores desígnios. É dito que apenas Nyarlathotep é capaz de interpretar as vontades obtusas de Azathoth e agir imediatamente, preservando assim o Trono da cólera do Sultão Demoníaco. Se Nyarlathotep não cumprisse esse importante papel, acreditam alguns, o universo já teria sido aniquilado pela agitação desvairada de Azathoth contrariado diante da menor situação.


As lendas dizem que foi Azathoth quem deu a luz ao Universo. Em seus espasmos nucleares, teria sido ele quem deflagrou a Explosão do Início dos Tempos, a força detonadora que os físicos chamam de Big Bang cujo ensurdecedor estrépito pode ser ouvido até os dias de hoje. Como e porque Azathoth teria feito isso, ninguém sabe.

Pensadores e filósofos relacionam Mitos da Criação de vários povos humanos da antiguidade com a noção de que a Criação decorreu da vontade de Azathoth. Os gregos e os nórdicos acreditavam que o universo foi criado a partir do Caos Primordial. Os hindus também tem uma compreensão do papel de Azathoth e o relacionam com Shiva, o destruidor. Encontra-se paralelo na crença Judaico-Cristã que diz que no início não havia nada a não ser as Trevas e que estas foram banidas pela frase "Que se faça a Luz" dita por Deus. Chamar Azathoth de Deus seria viável? Muitos povos reputam a uma imensa explosão e ao brilho de uma luz purificadora o início dos tempos, e eles podem muito bem estar certos. 

Alguns acadêmicos traçaram uma conexão entre Azathoth e o Deus Gnóstico Achamoth, a mãe do Demiurgo que gerou o Universo. Da mesma forma, o Culto egípcio de Aten que reverencia o Disco de Luz pode ser uma representação de Azathoth. Contudo, cultos devotados ao Deus são praticamente incipientes na Terra e sempre o foram. Loucos desvairados e eremitas parecem ser os únicos que se voltam para Azathoth como seu redentor. Isso deve ao fato de Azathoth não garantir qualquer benefício ou proteção aos seus cultistas. É um mistério o que levou os Insetos de Shaggai a louvá-lo em seus templos piramidais onde ele assume a forma de um avatar bivalve chamado Xada-Hgla. Os ritos devotados a Azathoth presididos pelos Insetos são tidos como abomináveis.


Alguns textos apócrifos afirmam que nem sempre Azathoth foi um Deus mentalmente incapaz. Ele teria perdido sua consciência no momento em que o Universo nasceu. Contemplando a extensão de sua Criação, o Caos Primordial teria sido obliterado. Essa interpretação é encontrada em poucos livros, mas a repercussão dela é aterrorizante. Os textos afirmam que quando Azathoth recuperar um fiapo de sua consciência, o que pode acontecer a qualquer momento, ele irá pôr fim a sua criação fazendo-a retroceder em um onda de aniquilação, varrendo o cosmos de canto a canto. Se daí surgirá um novo universo, e que forma terá, ninguém é capaz de dizer. Tal preceito parece encontrar eco em inúmeros trabalhos metafísicos que afirmam categoricamente que o Fim dos Tempos será deflagrado por Azathoth.

Durante a história humana presume-se que Azathoth tenha sido perigosamente invocado em algumas ocasiões. Para alguns estudiosos ele teria sido o causador de grandes desastres registrados como ocorrências misteriosas em nosso passado mítico - a Grande Enchente Bíblica e a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, por exemplo. O Cataclismo que pôs fim a Chamada Era Hiboriana também pode ter sido causado pela convocação de Azathoth. Em tempos recentes a misteriosa Explosão de Tunguska, ocorrida na Rússia em 1908 pode ter sido efeito de uma breve aparição de Azathoth, ainda que muitos cientistas reputem esse evento destrutivo ao impacto de um asteroide. Alguns Videntes e Profetas que previram a destruição da Terra podem ter tido na verdade um vislumbre de Azathoth.

A aparição do Deus ainda que por poucos segundos é suficiente para deflagrar todo tipo de efeito colateral. Quilômetros quadrados de terra são devastados a partir do epicentro em que ele toca o chão. Azathoth representa a personificação da Entropia e sua visita deixa cicatrizes profundas na natureza revoltada pelo seu toque. Montanhas são rachadas e pulverizadas, tremores de terra são sentidos, rios mudam de curso, florestas inteiras são transformadas em clareiras com galhos mortos, destroçados e calcinados, lagoas são reduzidas a poças de água alcalina.

O Sultão Demoníaco está relacionado a radioatividade e a mera exposição à sua luz é suficiente para causar envenenamento em tecidos biológicos, cegueira e uma variedade infindável de cânceres em seres vivos. Além disso, o calor do corpo de Azathoth é equiparável a uma fornalha nuclear, capaz de derreter pedras e transformar areia em vidro. O sopro nuclear irradiado pela forma de Azathoth incendeia e crema tudo o que entra em contato com ele.


É razoável supor que a mera aparição Dele, por segundos que seja, representa uma ameaça concreta de aniquilação ecológica numa área considerável. Uma exposição prolongada pode resultar em uma hecatombe: com a destruição da Camada de Ozônio, derretimento de pólos e outras consequências em grau planetário. Há uma teoria de que o Cinturão de Asteroides existente entre Marte e Júpiter foi formado quando Azathoth destroçou o planeta que existia previamente nesta órbita.

Quando o Caos Primordial se manifesta através de uma invocação, ele surge acompanhado de uma legião de seus flautistas que se dispõem ao redor dele tocando sua música e evoluindo como uma nuvem viva. Deuses Exteriores Menores também podem ser arrastados pelos portais dimensionais responsáveis pela materialização de Azathoth.

O Sultão reage irritado quando transportado de seu Trono no Centro do Universo. O tamanho dele varia no momento de sua chegada, em geral ele tem alguns poucos metros de diâmetro, mas a cada segundo sua massa expande geometricamente, podendo atingir dimensões inacreditáveis em poucos instantes. Com tempo suficiente, sobretudo se estiver furioso, o Sultão pode crescer sem parar, a ponto de engolir todo um planeta e mais. Não se sabe qual a taxa de progressão e o limite de seu crescimento, e sequer se tal limitação se aplica a uma entidade como esta. Em todo caso, nas oportunidades em que ele foi invocado, continuava a crescendo até ser dispersado e retornado ao seu lugar original.

Não é fácil enxergar Azathoth em meio a conflagração de radiação e calor que emana de seu corpo. Aqueles que tentam fazê-lo, geralmente morrem ou ficam permanentemente cegos. Muitos dos que tem um lampejo dele, citam o chamado Olho de Azathoth um imenso disco flutuante de luz branca. Esta talvez seja a sua forma mais clemente e comparativamente menos letal do Deus. Trata-se afinal de uma maneira dele observar nossa realidade, sem que seja trazido em pessoa.

Nas ocasiões em que o Sultão Demoníaco se manifesta em toda sua glória profana, a visão é simplesmente indescritível, algo que causa loucura nas mentes mais racionais. Azathoth é uma entidade amorfa, uma massa caótica de fúria nuclear em eterna fissão. Ele expande imensos tentáculos feitos de luz pulsante e calor que derrete e reforma seu próprio corpo a todo momento. Esses pseudópodes estão sempre se esticando, aumentando de tamanho e alcance, atingido várias jardas em instantes. O toque deles é letal para tudo que existe no universo, seres vivos se desmancham desintegrados com seus átomos dispersos pela corrosão entrópica. Nada está à salvo deles.

A massa principal que compõe seu "corpo" tem uma coloração branca imaculada e está em constante transformação, irradiando miríades de luz e radiação cegante através de espaços que se rasgam como feridas ou estouram como bolhas. Não há carne, ossos, fluidos ou matéria para se concentrar, ele é luz e nada mais. A incapacidade de conceber a forma de Azathoth torna a visão dele ainda mais impactante. Contemplá-lo é como contemplar a face do Sol, de Deus, da Criação e da Destruição. Tudo isso em uma mesma forma crepitando com uma voragem de selvageria primal.

Grandioso no topo, imponderável em cada detalhe, não há como explicar o que é Azathoth, não importa quantos adjetivos sejam utilizados e quantas frases sejam proferidas. Seria preciso inventar palavras para descrever algo como o Caos Primordial. Não há nada nem remotamente similar na experiência humana para estabelecer uma base comparativa.

No Centro do Universo, impassível, contemplando a dança cósmica de Sua corte, Azathoth aguarda, e o cosmos prende a respiração cada vez que ele se acomoda.

11 comentários:

  1. Mais um excelente texto!
    Esse é um dos mais espantosos horrores cósmicos.

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  2. Muitos detalhes que eu desconheci do grande Azathoth. Com certeza minha parte favorita dos Mythos.

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  3. Olá amigo, primeiro de tudo, parabens pelo blog, estou conhecendo hoje. Segundo, estou com uma duvida em uma publicação antiga de um livro do Lovecraft que saiu aqui no Brasil, posso perguntar por aqui mesmo?

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  4. Parabéns, excelente matéria! O que mais define o horror cósmico de H.P. Lovecraft é a AUSÊNCIA de propósito ou sentido para a origem do universo, e o papel da humanidade. A maioria das mitologias/religiões atribui a origem do universo a um Deus central ou pessoal, que se importa com os seres humanos. Lovecraft, ao atribuir a criação ao demiurgo cego e idiota tira qualquer sentido. Qualquer papel especial para a humanidade. Somos apenas um acidente transitório num cosmos cego, frio e indiferente.

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  5. Muito bom o texto Luciano , Parabéns ! Você tem um talento na escrita louvável , mais de uma vez lendo seus textos eu me prendia em suas descrições minunciosas... Parabéns !

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  6. muito bom,meu segundo outer god favorito

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