quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Som de Flautas - Anatomia dos Servos dos Deuses Exteriores


Este artigo é uma continuação da postagem sobre Azathoth. Se você não leu a respeito, dê uma lida lá para pegar o fio da meada.

O todo poderoso Azathoth, a entidade conhecida como Sultão Demoníaco que reina absoluta no Centro do Universo não é capaz de agir por conta própria. Destituído de uma mente consciente, é dito que ele não não possui qualquer vestígio de inteligência racional. A ironia de que o mais poderoso ser do universo é incapaz de tomar decisões e existir por conta própria é apenas uma prova da indiferença que rege tudo que existe no cosmos.

Como já foi dito, Nyarlathotep atende aos anseios e desejos prementes de Azathoth. Tratado como a Alma e o Mensageiro dos Deuses Exteriores, é ele quem coordena todos os esforços no sentido de manter Azathoth satisfeito e saciado, do contrário poderiam surgir enormes repercussões. Mas mesmo um ser quase infalível como Nyarlathotep conta com uma entourage de serviçais para auxiliá-lo na árdua tarefa.

Pouco se sabe a respeito dessas criaturas que servem Azathoth, e de fato, todos os Deuses Exteriores. Eles são uma raça única de seres disformes com características batráquias que por vezes se diferem uns dos outros de tal forma que mal parecem ser da mesma espécie. Ainda assim, há elementos suficientes indicando que todos os Servos do Deuses possuem uma origem comum. Infelizmente essa descendência constitui um grande mistério, sobre o qual alguns estudiosos dos mitos ancestrais se debruçaram, tentando esmiuçar fatos, mas dos quais emergiram apenas com mais dúvidas.


Abdul Al-Hazred, o notório árabe louco, cita os Servos brevemente em seu Necronomicon, dedicando a eles apenas alguns breves parágrafos, talvez por considerá-los como seres desprezíveis na Corte Cósmica, já que aos seus olhos atuam como meros servos do Caos Primordial e de seus comensais. Diz o iemenita no seu tratado blasfemo que o Sultão possui um séquito interminável de seres repulsivos, semelhantes a lulas ou polvos terrestres, com traços de anfíbios ou répteis que desempenham várias funções inferiores, cumprindo o papel de subalternos da Corte. Alhazred afirma que a função principal desses servos sem nome é soprar suas flautas e produzir o som malfazejo que ecoa pela corte como uma espécie de canção de ninar enlouquecedora. O árabe falha em explicar o que é a tal música - ou propositalmente não tenta fazê-lo, limitando-se a afirmar que o som é produzido por instrumentos de sopro semelhantes, mas não exatamente iguais a flautas. A natureza dessa ressonância cósmica é matéria de debate, seria ele realmente algo similar aos sons que estamos acostumados a ouvir e produzir ou seria algo inteiramente diverso?

Caius Faber, o tradutor do pérfido Livro de Dzyan menciona em sua versão, intitulada Liber Ivonis, que a "Música das Esferas" como ele a chama é como um monótono ruído produzido por centenas, talvez milhares de flautas tocando em uníssono produzindo uma entoação que não pode ser compreendida como música, e sim uma cacofonia absurda. Faber afirma que esse som afeta a mente humana de tal maneira que alguns poucos segundos de exposição a perversa ária é suficiente para levar à inconsciência, e talvez conduzir à loucura.

Contudo, não foi um escritor, tampouco um ocultista, quem tentou mais ambiciosamente explicar a natureza da música dos Servos, foi muito acertadamente um músico. Benvenutto Chieti Brodighera, um maestro italiano que viveu no século XVIII tentou traduzir a música para um concerto épico que ele chamou de Massa di Requiem per Shuggay. Tida como virtualmente impossível de ser reproduzida de modo fidedigno, Brodighera chegou a criar instrumentos musicais capazes de repetir os ruídos desconexos que ele incluiu na sua ópera. Considerado em sua época um louco, o maestro jamais conseguiu apresentar o espetáculo no qual trabalhou por décadas. Alguns teóricos acreditam que se um dia a Massa di Requiem for executada de maneira correta, Azathoth será invocado para a Terra através de um portal dimensional. Se essa presunção é verdadeira, as poucas partituras sobreviventes da ópera maldita representam uma grave ameaça, sobretudo por que, segundo boatos, algumas folhas com a notação musical foram leiloadas em um concorrido leilão da Casa Christie.


Mas voltemos a discutir a natureza dos enigmáticos Servos dos Outros Deuses.

Cabe novamente a Caius Faber definir as criaturas como uma raça que segundo ele teria sido criada, ou ao menos compelida por Nyarlathotep a se tornar subserviente. Faber supõe que os Servos sem nome pertenceriam a uma raça ancestral, tão antiga quanto o próprio universo, coagida pelo poder do Caos Rastejante a servir por toda eternidade. De onde Faber tirou essas noções é um mistério, mas por muito tempo ele se mostrou como um dos maiores especialistas em tais criaturas, sobre as quais a grande verdade é, sabe-se muito pouco.

Segundo Faber, os Servos dos Deuses Exteriores teriam recebido algum tipo de benção de Nyarlathotep que os tornou extremamente resistentes à insalubre função de servir a Azathoth. Onde outros seres seriam facilmente pulverizados pela radiação que emana do Sultão Demoníaco, os Servos perduram com uma resistência inabalável. Nem o calor e nem o frio extremos parecem surtir qualquer efeito contra eles, o que lhes permite se aproximar de Azathoth e da mesma maneira sobreviver ao gélido vácuo espacial. Talvez essa resistência seja uma dádiva de Nyarlathotep, mas também é possível que seja nada mais do que uma vantagem natural destes estranhos seres. Seja como for, a matéria que compõe os corpos dos Servos os torna imunes às vicissitudes da maioria das forças do universo. Os Servos podem suportar colossais impactos, quedas, choques e poderosas descargas de energia, nada disso parece vilipendiar seus corpos. A pele limosa e a carne esponjosa absorvem todas essas agressões sem demonstrar sinal de ferimento. De fato, quando invocados, alguns destes seres despencam do céu, chocando-se com o solo sem que sejam afetados pela queda. Da mesma forma, se convocados da Corte, adentram nossa realidade com o corpo em temperatura tão alta que constituem um perigo a quem estiver próximo.

São provavelmente imortais por idade, não envelhecem ou contraem doenças degenerativas. Igualmente não carecem de respirar, excretar ou se alimentar, funções básicas à maioria dos seres vivos. Faber insiste que o presente de Nyarlathotep os tornou imunes a tudo, menos a distância de seu Senhor. Ele sugere que tais seres se alimentam das emanações radioativas de Azathoth, estabelecendo com ele uma relação de mutualismo. Eles servem seu amo e senhor, recebendo como recompensa um sustento que só ele pode prover. Se isso é verdade ou não, ninguém sabe. Da mesma maneira, aqueles que acompanham outros Deuses Exteriores também estabelecem com estes uma simbiose ou parasitismo de onde extraem sustento. 

Apesar de incrivelmente robustos, os Servos dos Deuses Exteriores podem ser feridos ou mesmo destruídos.

Magia e objetos imbuídos com capacidades mágicas surtem efeito nessas criaturas e são capazes de matá-los. É no mínimo peculiar que nenhuma arma concebida pelo homem, mesmo as mais letais, sejam capazes de causar ferimentos nos Servos, contudo uma simples lâmina propriamente encantada é capaz de cortar e lacerar sua carne esponjosa com relativa facilidade. Poeiras místicas e símbolos de poder, como o famoso Símbolo Ancestral (Elder Sign), também podem ferir essa aberração deixando queimaduras quando em contato com ele. Feiticeiros e invocadores preparam um estoque de tais itens encantados quando precisam lidar com Servos. O mago real John Dee supostamente jamais os invocava sem trazer em volta do pescoço os 21 amuletos consagrados com o Símbolo Ancestral. Não obstante sua vulnerabilidade à magia e encantos, os Servos possuem uma notável capacidade regenerativa que lhes permite superar danos sofridos em poucos minutos.

Engana-se também aquele que julga os Servos como seres mentalmente inferiores ou ineptos. Os Servos são dotados de uma apurada inteligência que os coloca em grau de igualdade com os seres humanos medianos. Eles são perfeitamente capazes de negociar, racionalizar e se preciso bajular e servir outros mestres. Muitos Servos são adeptos das Ciências Ocultas e capazes de organizar Cultos visando a adoração aos seus Mestres. Não se sabe de seres como estes que possuam seus próprios cultos, contudo a possibilidade não pode ser afastada. Alguns Sectos possuem Servos dos Deuses Exteriores como parte da congregação, membros valiosos que participam de Rituais religiosos ativamente. São ainda Guardiões de Templos, Protetores de Cofres contendo Tesouros ou importantes realizadores de prodígios místicos uma vez que conhecem feitiços e encantos. O Culto de Cthulhu na Louisiana e os seguidores de Nephrem Ka, no Egito Antigo, por exemplo, contaram com Servos em suas fileiras.

Fisicamente os Servos dos Deuses Exteriores são uma visão abominável. Seu corpo parece uma massa de pele e carne pustulenta de coloração verde acinzentada, ou cor de cobre em alguns casos. Essa massa pulsa e se move constantemente com dezenas de longos tentáculos esticando e se recolhendo ao mesmo tempo. Estes tentáculos são extremamente sensíveis e cada um é capaz de desempenhar funções táteis simultâneas. Além de hábeis, eles são muito fortes, sendo que um tentáculo é capaz de facilmente equiparar a força física de um homem adulto. Quando mais de um tentáculo agarra uma presa, eles são capazes de apertar com força suficiente para despedaçá-la membro por membro. Vítimas de Servos frequentemente são encontradas com ossos pulverizados por constrição, membros arrancados e partes do corpo irremediavelmente estraçalhadas. Os tentáculos também são usados na importante tarefa de tocar as "flautas" que estes seres sempre carregam consigo.

Servos se deslocam rolando sobre a base de seu próprio corpo em um movimento que imita um rastejar. Ao fazê-lo deixam um rastro de uma substância lodosa que facilita sua progressão reduzindo o atrito com o solo. Há testemunhos, entretanto, de Servos saltando grandes distâncias impulsionados por seus musculosos tentáculos. Também não é estranha a noção de que tais seres são capazes de alçar voo, ainda que essa modalidade de movimento seja vista mais raramente.


Acima dos tentáculos que se concentram na parte posterior, os Servos possuem uma espécie de tórax fundido a uma cabeça bulbosa e sólida. Nessa grande cabeça se destacam três pares de olhos baços e possivelmente cegos e quatro fossas auriculares que fornecem a eles uma audição muito apurada usada como principal meio sensorial. A boca dessas criaturas é estreita e ovalada, se encaixando perfeitamente na embocadura da flauta que é soprada. A potência desse sopro não pode ser medida por nenhum padrão humano, em termos de tempo um Servo pode executar a mesma música por dias sem precisar tomar novo fôlego. A boca dos Servos não é usada para falar, e embora eles possam aprender diferentes idiomas preferem se comunicar através de sons produzidos pelas suas flautas.

As flautas são uma parte importante dos Servos e até onde se sabe eles jamais são vistos sem carregar esses formidáveis instrumentos. Feitos de uma liga metálica desconhecida e virtualmente indestrutível, as flautas não podem ser avariadas nem mesmo por encantamentos que afetam seus portadores. Uma informação vital a respeito desses objetos é que eles não podem ser reclamados como tesouros por aqueles que por ventura as retiram de um Servo. Nos raros casos em que tal coisa ocorre, os portadores foram encontrados mortos, vítimas de outros Servos que os rastrearam e reclamaram o artefato das mãos de quem o usurpou. John Dee supostamente conseguiu sobreviver a essa "visita", mas teve de abrir mão da Flauta que tinha em seu poder sabendo que não teria descanso se a mantivesse consigo.

As flautas não foram feitas para serem sopradas por seres humanos. Aqueles que tentam fazê-lo são incapazes de produzir qualquer som. Especula-se que terríveis maldições e toda sorte de doença transmissível recai sobre aqueles que tentam soprar esses objetos pestilentos.

Servos dos Deuses Exteriores são seres incomuns e difíceis de serem descritos em termos humanos. São escravos de Azathoth e só isso diz o bastante sobre sua natureza. Aqueles que lidaram com tais criaturas, ao menos os sábios, o fizeram com extrema cautela e mesmo estes sabiam do risco inerente.


A palavra final recai sobre Faber que no feitiço de invocação desses seres dispõe o seguinte: 

"Jamais lhes dê as costas, jamais confie neles, jamais ouse pensar que você está no controle quando lidar com os Servos dos Deuses Exteriores. Tenha em mente o que eles são e o que representam. Tais seres são tão antigos como o Universo e servem entidades colossais. Jamais cometa a arrogância de acreditar que por se sujeitarem a estas forças cósmicas, eles também se sujeitarão a você."

4 comentários:

  1. Adoro quando o Luciano faz vários artigos sobre um mesma tema, ajuda muito com idéias e tira duvidas q viriam a surgir. Puta texto como sempre e essa série sobre o chefão cósmico está melhor ainda q o normal

    ResponderExcluir
  2. E pensar que um autor criativo e inteligente não mais será representado no troféu do "World Fantasy Award". O Politicamente Correto conseguiu fazer das suas novamente.

    ResponderExcluir
  3. vc é foda............muito bom.........

    ResponderExcluir