sábado, 26 de novembro de 2016

Cargo Cult - Quando os "Deuses" presenteiam os mortais


Com base no artigo de Brian Dunning

Era um dia lindo no quarto planeta do Sistema 892 quando Kirk, Spock, e McCoy se materializaram.

McCoy observou os arredores e expressou seu pensamento para os demais: "Apenas uma vez eu gostaria de chegar a um lugar e dizer: "Contemplem, eu sou o Arcanjo Gabriel."

Era uma ótima piada, chegar em um planeta atrasado e pouco desenvolvido tecnologicamente e se apresentar como um emissário de Deus (ou dos Deuses).

Em outro episódio, os mesmos personagens discutiam a respeito de seu encontro com uma entidade com poderes divinos quase ilimitados: 
"Para os simples pastores e aldeões da Grécia antiga, criaturas como essa seriam compreendidos como deuses... Especialmente se eles tivessem o poder de alterar sua forma à vontade e comandar grande energia".
Curiosamente, esses dois momentos extraordinários da série Jornada nas Estrelas clássica, poderiam ser facilmente transportados para o mundo real. De fato, incidentes similares, envolvendo supostos "deuses" tiveram lugar nas Ilhas Tropicais do Pacífico Sul.

O que acontece quando membros de uma civilização mais avançada encontram nativos que vivem em estado tribal primitivo? O que acontece quando esse primeiro contato é estabelecido? De que maneira, as pessoas mais primitivas encaram a modernidade dos outros?

Um "avião" feito de sisal é louvado por nativos em um ritual religioso em honra aos deuses do céu.
Em alguns casos, o que acontece é um curioso fenômeno religioso estudado por antropólogos, chamado "Cargo Cult".

Se você já ouviu falar a respeito de "Cargo Cults" antes - e é bem provável que não tenha - a versão que você conhece, provavelmente é semelhante a seguinte narrativa. Durante a Segunda Guerra Mundial, no Teatro do Pacífico, tropas aliadas se espalharam pelas ilhas, trazendo com eles comida, remédios, veículos, aviões, eletricidade, refrigeração e todo tipo de maravilha da era moderna que as populações nativas desconheciam. Então, quando a Guerra se encerrou e as tropas foram embora, elas deixaram para trás muitos dos objetos trazidos. Os nativos, em uma clara demonstração da terceira lei de Arthur C. Clarke que estabelece "Qualquer tecnologia suficientemente avançada para um determinado povo é indistinguível de magia", concluíram que tudo aquilo só poderia ter vindo de um lugar: dos Deuses. 

Eles temiam que um dia estas divindades quisessem aquelas coisas de volta. Então, fizeram aquilo que parecia lógico pela sua perspectiva da Idade da Pedra: eles começaram a recriar as condições sob as quais os deuses e seus objetos maravilhosos teriam surgido. Eles começaram a limpar as estradas na selva. Prepararam campos onde antes existiam pistas de pouso e decolagem. Começaram a usar restos de uniformes militares com distinção. Fizeram "rifles" de bambu e marcharam como os soldados (ou seriam arautos dos deuses?) faziam. E continuaram observando. Os olhos voltados para os céus, aguardando o retorno dos Deuses, ou ao menos que eles estivessem satisfeitos com seus preparativos. Que talvez Eles viessem logo ou quem sabe os presenteassem com mais artefatos.

Com regalias religiosas, na verdade um uniforme militar, um sacerdote da melanesia comanda um ritual com um megafone (outro objeto sagrado)
Um dos mais estudados e conhecidos casos de Cargo Cult ocorreu em 1930, quando uma tribo primitiva que vivia próximo das Ilhas Hébridas Orientais encontrou seu salvador na figura improvável de um certo John Frum. De acordo com muitas testemunhas, o próprio Frum era um nativo chamado Manehivi que havia cruzado o caminho de marujos ocidentais, aprendido sua língua e adotado muitos dos seus costumes.

Ele teria passado muitos anos viajando em navios mercantes até finalmente retornar para seu local de nascimento, numa isolada ilha no Pacífico Sul. Ao reencontrar seus compatriotas, Frum trouxe consigo uma série de objetos que os missionários haviam entregue aos seus cuidados: comida enlatada, remédios, ferramentas, facas e roupas. Frum (ou melhor, Manehivi) contou aos habitantes da Ilha que havia sido levado em uma longa viagem por Terras Distantes habitada por toda sorte de Deuses e seus mensageiros, um lugar de onde ele havia retornado com presentes magníficos. Imediatamente ele se tornou um tipo de celebridade, o ilustre "homem que viveu entre os Deuses". Para usufruir de sua companhia, o Chefe da Tribo deveria fazer dele seu herdeiro e oficializar seu casamento com as filhas que ele escolhesse desposar.

Em 1940, quando missionários visitaram a ilha novamente, encontraram Frum na posição proeminente de Chefe. Mais do que isso, ele havia se convertido em uma espécie de Deus Vivo para os nativos. Estes, entretanto, ficaram chocados quando os missionários o trataram de modo desrespeitoso e falaram com ele com ar de superioridade. Frum se apressou em ordenar a expulsão dos visitantes, mas os nativos estavam confusos. Por fim, aceitaram as palavras do "Líder" como verdadeiras e se livraram dos missionários. Mas o desaparecimento dos religiosos acabou atraindo autoridades coloniais que visitaram a Ilha. Lá descobriram o que havia acontecido e deram voz de prisão a Frum. Os nativos se mostraram confusos novamente, mas dessa vez eles não conseguiram "se livrar dos forasteiros" com a mesma facilidade. Frum acabou sendo preso e levado à ferros para ser julgado.

Os óculos de aviadores em uma versão dos nativos que tentam imitar a vestimenta e os trajes dos emissários dos deuses.
Antes de partir, ele afirmou que um dia voltaria, mas jamais retornou! Anos mais tarde, algo extraordinário aconteceu.

A Segunda Guerra Mundial chegou ao Pacífico Sul. As Novas Hébridas foram inundadas com estrangeiros. Comida, remédios, Coca-Cola e dinheiro choveu sobre os nativos. Muitos ilhéus foram recrutados como trabalhadores, recebendo pagamento por seu serviço. Estes se tornaram "ricos" e importantes. A promessa de John Frum parecia ter se cumprido: os Deuses haviam retornado.        

Uma das coisas que os militares descobriram era que a lembrança de John Frum ainda existia na Ilha. Mais do que isso, ela era bem mais do que uma mera superstição, ele fazia parte da religião local. Para conseguir plena contribuição dos nativos, a Marinha americana usou a lembrança de Frum, dizendo que eles eram amigos do "Deus" e que ele havia lhes enviado. Aos olhos dos nativos, a Profecia havia se concretizado, os Deuses estavam de volta. 

Infelizmente, quando a Guerra acabou, também terminaram os presentes e favores dos Deuses e os ilhéus foram deixados mais uma vez sozinhos na ilha. Aguardando o retorno daquelas entidades fantásticas que lhes traziam presentes.

Cargo Cults aparecem em várias outras narrativas, algumas delas, muito anteriores a Segunda Guerra.

Um dos primeiros casos conhecidos ocorreu na Costa de Madang na Ilha de Papua Nova Guiné, quando o pioneiro antropólogo russo Nicholas Miklouho-Maclay visitou o lugar em meados de 1870, trazendo consigo tecidos e ferramentas de metal. Os presentes do visitante foram interpretados como presentes divinos e mesmo depois de sua partida, os nativos continuaram lembrando do encontro como um legítimo contato com uma Divindade.

Guerreiros marcham com rifles de bambu no ombro. As danças tribais influenciadas pelo comportamento dos "Emissários dos Deuses". No peito, o estranho símbolo tonado sagrado, as misteriosas letras USA.
Cem anos mais tarde, um grupo de nativos na Ilha de Nova Hanover, acreditava que o Presidente Norte-Americano Lyndon Johnson - o líder dos visitantes que chegaram ao seu lar, tinha poderes divinos. Eles acreditaram que se fizessem dele seu Rei, receberiam em troca muitos presentes. Eles se rebelaram contra autoridades australianas que governavam a ilha e afirmaram estar formando um novo governo. Apontaram o Presidente Johnson como seu novo líder e ficaram aguardando sua visita, ocasião em que traria muitos presentes. Johnson é claro, jamais aceitou a dúbia honra e nem nunca visitou Nova Hanover. Os visitantes americanos resolveram a questão dizendo que seu líder, o Presidente Johnson, havia instruído os nativos a obedecer aos australianos.

A mistura de Cristianismo e superstições tribais por vezes causava problemas curiosos. Durante a Segunda Guerra, um grupo de militares australianos ficou preocupado em cometer sacrilégio ao permitir que um grupo de nativos considerassem que eles eram deuses. Um nativo da Nova Guiné, chamado Yali, que havia feito amizade com os missionários foi empregado com o objetivo de viajar pelas ilhas e afastar a mitologia do Cargo Cult. Por vezes não era uma tarefa fácil, sobretudo quando ele tinha de explicar que as armas e veículos usados por aqueles visitantes, não eram mágicos, mas objetos criados por homens mortais como eles.

Em pelo menos uma ocasião, Yali quase foi linchado quando tentou explicar aos nativos que os mágicos objetos voadores que sobrevoavam a ilha não eram pássaros gigantes que carregavam em seu interior mensageiros divinos. Os nativos não aceitaram aquela noção e não gostaram quando Yali os informou que as caixas de madeira que por vezes caíam do céu - trazendo mantimentos e objetos, não eram um presente para eles.

Embora Cargo Cults possam parecer, à primeira vista, como ignorância e superstição da Idade da Pedra, eles não são inteiramente irracionais. Eles são certamente ingênuos e baseados em falácias, mas para dar aos nativos algum crédito, eles estão fazendo o seu melhor para lidar com o que receberam e não compreendem. Esse sistema de certa maneira substituiu a necessidade de trabalho árduo para atingir objetivos, pela crença de que a fé irá prover o que quer que seja.

Um avião de carga lança caixotes do Céu, aos olhos de nativos, os Presentes dos Deuses.
Por essa razão, uma das diretrizes principais para todos missionários é jamais se aproveitar de sua condição e instar nos nativos a ideia de que são mensageiros divinos ou algo além de homens cumprindo uma missão. A primeira diretriz de Jornada nas Estrelas, citada lá em cima reflete exatamente esse comprometimento. Ao invés de perverter ou tentar substituir o sistema de crenças existente através de presentes, os nativos recebem a chance de adotar aquilo que desejam sabendo que não há magia a não ser aquela na qual eles querem acreditar.

Enquanto isso, olhe para o céu e espere ansioso pelo próximo presente dos Deuses.

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