sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Lugares Estranhos: O assombroso Monumento de Buzludzha na Bulgária


O caminho até o monumento é extremamente difícil e perigoso.

O Monumento Nacional do Partido Comunista da Bulgária fica na parte mais elevada do Monte Buzludza, a uma altitude de 1441 metros, há 12 quilômetros da Passagem de Shipka. Não há cidades próximas, apenas alguns poucos vilarejos distribuídos nessa paisagem inóspita que no inverno se cobre de neve, e que ao longo do ano todo é varrida por ventos fortes. A temperatura pode cair até -30 graus na madrugada, o vento atravessa roupas e mesmo os casacos mais resistentes oferecem pouca proteção, partículas de gelo são arremessadas e mesmo um fragmento do tamanho de um grão de areia pode causar ferimentos.

Foi nesse lugar isolado da civilização que uma guarnição combinada de 38 mil soldados russos e búlgaros conseguiram repelir o avanço do exército turco em 1877, na épica Batalha da Passagem de Shipka. Uma Batalha que impediu que o Império Otomano conseguisse fixar uma cabeça de ponte na Europa Oriental o que poderia mudar a história de toda região.  

Mesmo durante o verão, acessar o monumento é complicado. As estradas ficam bloqueadas pelos deslizamentos frequentes e a despeito da temperatura mais agradável, o clima pode mudar drasticamente. Uma das formas de escalar a montanha é a partir do vilarejo de Kazanlok, no lado Búlgaro. O lugar é pouco mais do que uma aldeia com mais de 800 anos, habitada por pastores de cabra, filhos e descendentes de pastores de cabra. Felizmente os moradores conhecem bem as montanhas e se oferecem como guias para o perigoso trajeto. Em 2012, um grupo tentando visitar o lugar morreu em um acidente, quatro turistas e um guia despencaram para a morte em uma ravina quando o carro em que estavam perdeu a direção. Dois anos antes outro grupo que pegou uma das trilhas consideradas fáceis, se perdeu. O grupo de quatro não encontrou o caminho de volta e dois morreram de hipotermia.

Apesar das estradas tortuosas, cheias de curvas e despenhadeiros, automóveis ainda são o método preferido de ascender a montanha. A quantidade de placas advertindo do perigo e as cruzes colocadas por parentes onde pessoas morreram são um grave aviso do que o visitante encontra pela frente: ladeiras ingrimes, rochas soltas, cascalho escorregadio...

Mas se o motorista for competente e conhecer o caminho, a visão é surpreendente. O vale abaixo das montanhas oferece uma paisagem grandiosa de um recanto selvagem dos Balcãs. Uma região inóspita que foi preterida por colonizadores ao longo dos séculos, considerada árida, escura e demasiadamente assustadora. O que não faltam nessas Montanhas são lendas e quase todas envolvendo fantasmas, assombrações e horrores que se escondem em grutas e arrastam os desavisados para suas profundezas. Por muito tempo, as pessoas acreditavam que desertores turcos habitavam os recessos subterrâneos e que se tornaram bandidos, saqueadores e segundo alguns, canibais. Teriam se acostumado com a escuridão dos túneis cavados no interior da rocha e regredido a um estado de barbárie extrema.

Não menos assustadores são os relatos dos fantasmas de pessoas mortas na sangrenta Batalha. Gritos em Búlgaro, Russo e e Turco se misturam ao som de canhões e disparos. Muitos falam que eles não passam dos ecos de trovões distantes reverberando pelas gargantas ou o sopro do vento frio. Mas quem sabe? Visões de soldados com medonhos ferimentos andando pela escarpa à noite são comuns em qualquer época do ano. A Batalha deixou seus sinais aqui e ali, crateras produzidas por explosões, marcas nas rochas deixadas pela artilharia e ocasionais ossos humanos insepultos. Os deslizamentos revelam essas coisas - em 1978 um deslizamento revelou a cova de 14 homens mortos em uma mesma trincheira executados por disparos à queima roupa.


Mais do que fantasmas, há o medo palpável do Ugri uma espécie de bicho papão do folclore búlgaro que pode ter sido a inspiração para os "ogres". Essas criaturas são grandes seres corpulentos com músculos e propensos à violência. Seus corpos são cobertos de cabelos pretos e compridos que mais parecem crinas de cavalo. Eles vestem peles curtidas e usam porretes para subjugar seus inimigos. Não são espertos, mas quando famintos empregam de furtividade para conseguir capturar suas presas. Durante o governo comunista, foi "proibido" acreditar na existência dos Ugri, como se fosse possível apagar de um momento para o outro um folclore enraizado nas tradições camponesas. Avistamentos de Ugris e outras criaturas feiosas continuam sendo comuns entre os povos que habitam as montanhas e o costume de se deixar sangue de cabra com intuito de afastá-los ou guiá-los para longe das aldeias ainda é seguido.     

Após a perigosa escalada, o visitante enfim é saudado pelo grandioso - megalomaníaco, talvez fosse uma palavra mais adequada, monumento no topo da montanha. A bizarra construção em forma de disco, surge de uma forma tão repentina que é como se ela simplesmente brotasse em meio às rochas, surgindo como algo completamente estranho na paisagem natural. O tamanho do monumento é a primeira coisa que choca o observador. Combinado com a arquitetura moderna e os contornos em ângulos dramáticos, a obra inteira em concreto armado transmite uma sensação de absurda estranheza, como se essa monstruosidade pertencesse a uma outra civilização, talvez até a uma espécie alienígena.

O monumento coroa uma escadaria de pedra com degraus irregulares e com estranhos padrões talhados na rocha crispada. Do alto da escadaria é possível ver um enorme pátio onde os convidados para as celebrações políticas se reuniam para ouvir os discursos dos líderes que os endereçavam do alto. A acústica é assombrosa e o menor sussurro pode ser escutado claramente por todos que estão abaixo. As escadas são guarnecidas de esculturas de pedra na forma de mãos portando chamas. Durante as celebrações, estas esculturas eram acesas com óleo e queimavam na noite podendo ser vistas de longe. Hoje, resta bem pouco delas, muitas foram desgastadas pelo vento ou arrancadas de suas bases após anos sem manutenção.   


A entrada principal permanece aberta, as portas arrombadas muito tempo atrás. No entrada do salão abobadado alguém escreveu em letras vermelhas as palavras "FORGET YOUR PAST" (Esqueça seu Passado), cobrindo símbolos e dizeres socialistas gravados ali com letras do alfabeto cirílico búlgaro. Muitas dessas letras foram roubadas por visitantes que conseguiram soltá-las da parede onde estão fixadas com rebites. As frases que um dia resplandeciam em dourado perderam seu brilho e desapareceram na obscuridade. O que restou foram as frases de efeito talhadas na parede, "De pé?" e "Sim, sempre de pé", palavras usadas como saudações nos tempos do regime.

Há apenas um acesso ao interior do Disco, as outras foram lacradas com tijolos quando o Monumento foi fechado. Atravessar o portão com mais de 8 metros de largura e quase o mesmo de altura é como atravessar o portão do Hades. A primeira impressão é de que a escuridão esconde sombras mais escuras. Ao longo de todo inverno, Buzludzha fica inacessível, quase enterrada na neve, então quando chega a primavera o gelo derrete e corre como um rio pelas escadarias ou despenca do teto com uma cascata. A impressão é que o monumento se ergueu de um mar profundo, rumo à superfície. Mesmo após o inverno, ainda há crostas de gelo e estalactites cristalinas se projetando do teto. Os guias chamam a atenção dos visitantes pois todo cuidado é pouco. Sons podem causar a precipitação dessas estruturas que constituem um grave perigo se atingirem alguém. O ambiente se assemelha ao interior de um congelador, preservado pelo granito presente no teto, nas paredes e no chão.


Três escadarias ascendem para o pavimento interior. A partir desse ponto, as coisas começam a ficar ainda mais perigosas. Os largos degraus de concreto se tornaram escorregadios com as camadas de gelo depositadas sobre eles. O gelo é tão antigo que se tornou escuro, com cristais azulados moldados pelo vento em formas bizarras. No escuro, ou contando apenas com a luz das lanternas, é como se deparar com fósseis congelados em uma caverna no Ártico. Uma corredeira congelada saúda o visitante.

As escadarias levam para o segundo andar dominado por um colossal auditório que serve como o centro dramático da estrutura, algo de tirar o fôlego. A vasta sala de conferência circular é cercada de janelas de ferro batido constantemente bloqueadas pela neve acumulada. O piso de madeira lustrosa foi destruído há muito tempo pelo frio restando apenas um esqueleto de metal enferrujado onde os ladrilhos eram encaixados elegantemente. Os assentos se foram, sobrando apenas a estrutura de ferro onde eles eram fixados. O símbolo comunista da foice e do martelo ainda pode ser visto em um mosaico no teto que tem impressionantes 107 metros de altura. A arena possui uma aparência sobrenatural, como um imenso rinque de patinação fantasmagórico.


Na parede oposta é possível discernir as faces dos camaradas responsáveis pela Revolução. Nesse mosaico com pedras coloridas predominando a cor vermelha, vemos da direita para esquerda Engels, Marx e, é claro, Lenin. Enquanto isso, orgulhoso atrás dos assentos reservados para conselheiros e comissários, encontram-se outras duas figuras importantes da história nacional. A imagem de Todor Zhivkov – presidente comunista da República Popular da Bulgaria de 1954 até 1989. No final de sua longa carreira, Zhivkov foi criticado por ter permitido que a crise econômica dominasse o país; para muitos ele era apenas um fantoche dos soviéticos e um corrupto. Assim que o URSS desmoronou e o apoio aos aliados minguou a população da Bulgária exigiu mudanças.

O rosto de Zhivkov foi duramente danificado e coberto de símbolos e xingamentos. Na fase final de seu governo, dizem ele chegou a cogitar lutar para preservar o poder e não disse que não cederia a pressão popular. Há boatos que ele chegou a ordenar toques de recolher para debandar o povo e consultar a junta militar. O exército entretanto não acatou sua ordem. Isolado ele foi destituído e se exilou na Albânia.


Dimitar Blagoev, um filósofo considerado o pai do socialismo búlgaro também é lembrado num mural que foi danificado pelos visitantes. A base foi avariada por golpes de marreta. A cabeça e a mão foram arranhados e os ladrilhos quebrados. Os outros murais também se perderam, a tinta foi apagando até desaparecer quase por inteiro, mas ainda é possível perceber imagens como a das mulheres camponesas trabalhando nos campos.

O teto em formato arredondado se encontra em grave risco de desabamento. As nevascas se acumulam no topo e a falta de reparos fez pedaços inteiros de argamassa e concreto se desprender. Engenheiros chegaram a afirmar que é questão de tempo até o lugar ser soterrado pelas toneladas de concreto do teto.

Abandonado desde 1990, o local se tornou uma espécie de Meca para exploradores urbanos na Bulgaria: entretanto a despeito dos desafios, o Monumento não atrai muitas pessoas dado o difícil acesso. Explorar câmara por câmara é perigoso, o risco de ferimentos sempre existe e com o socorro tão distante é um risco considerável se aventurar no interior.


A pergunta que não quer calar é: Por que o Monumento teria sido erguido em um lugar tão distante e isolado?

A construção se iniciou em 1974, como uma obra coordenada pelo Governo, pelas Forças Armadas e por "operários voluntários". O Local escolhido deveria refletir o passado da região e servir como um Tributo à importante Batalha contra os Turcos e como símbolo da resistência dos Búlgaros diante da Ocupação Nazista. O objetivo principal era fazer com que o Monumento servisse como Quartel General do Partido Comunista, para que delegados e comissários do Partido viessem para participar de festividades e eventos. Um dos objetivos do governo era transformar o monumento em um lugar de peregrinação para a população.

A construção da grandiosa obra teve um custo elevado, mais de 16 milhões de Levs, algo em torno de 7 milhões de libras. A maior parte do dinheiro teria vindo de "doações", coletadas pelos oficiais do partido junto da população. Na verdade, a construção sempre foi criticada pelo povo que via nela uma demonstração absurda e desnecessária. Além disso, muitos operários envolvidos na construção passavam por extrema necessidade, lançados em trabalho quase escravo. A construção consumiu muitas vidas, sobretudo nos meses mais rigorosos do inverno. Doença e fome também era algo corriqueiro e centenas de trabalhadores não sobreviveram para ver a obra concluída. Lendas sobre cadáveres sendo lançados nos misturadores de cimento e usados como argamassa nas paredes eram bem conhecidos. As obras foram concluídas em 1981. 

É preciso compreender que o Partido Comunista da Bulgária era um tanto... peculiar.


Existia uma espécie de devoção que beirava a religiosidade entre seus líderes, se é que tal coisa pode ser dita de uma filosofia política que prega o ateísmo. As celebrações do partido eram realizadas de uma maneira quase ritualística, com uma série de observâncias e regras de conduta. Os hinos, os símbolos, a indumentária, tudo era extremamente teatral, com muitos elementos copiados da ortodoxia. O objetivo era causar o máximo de efeito em quem assistia essas celebrações. Tradições culturais camponesas completavam os procedimentos. Os companheiros soviéticos não gostavam do que viam, mas aceitavam a escolha dos búlgaros quanto a maneira como o comunismo era apresentado em seu país. O culto extremo à personalidade chegava ao ponto que o Comissário de cada localidade ser ligado aos recém nascidos, transformado em uma espécie de padrinho e assim membro da família. Todas as famílias eram obrigadas a ter a foto do presidente em um lugar de destaque de suas casas. As crianças ganhavam brinquedos com o símbolo do partido, soldadinhos, bonecas e carrinhos. Mesmo a comida era entregue em caixas e latas com estes símbolos. Antes das refeições era obrigatório fazer uma espécie de homenagem aos heróis, e se tal coisa fosse esquecida, havia multas pesadas. Aos domingos, reuniões e palestras de doutrinação ocorriam com comissários trajando roupas de celebração como sacerdotes. Curiosamente, esses encontros ocorriam em antigas igrejas, com o dobrar de sinos conclamando as pessoas a vir. Havia todos elementos de uma religião, ou ao menos de um culto bem estruturado.

O Monumento de Buzludza deveria ser uma espécie de Catedral. Ainda hoje é possível ver uma torre semelhante a um minarete com uma estrela vermelha três vezes maior do que a que existe na Praça do Kremlin. Dessa estrutura podiam ser ouvidos hinos várias vezes ao dia graças a um potente equipamento de rádio. Buzludza deveria arrastar multidões, e se pensava em construir estradas e pistas, para que as pessoas viessem mais facilmente. Entretanto, os custos com a extravagante obra foram tão elevados que os projetos acessórios nunca saíram do papel. A distância fazia com que ele fosse pouco usado pelo partido. A estrutura até chegou a comportar eventos e festividades importantes, a inauguração foi um acontecimento, mas a distância incomodava demais aos dignatários que precisavam fazer o longo caminho. As instalações também não estimulavam a visita pois havia pouco conforto e acomodações satisfatórias.

Com o tempo, o Monumento foi caindo em desuso, convertendo-se em um gigantesco "elefante branco" cuja manutenção era caríssima.

Em 1989, o partido comunista da Bulgária foi destituído do poder e em 1991, o novo governo decretou que Buzludzha fosse definitivamente fechado para o público. Desde 1996 o governo parou de realizar a manutenção e o local, um símbolo de outra época foi definitivamente abandonado.

É claro, um lugar desses continua causando controvérsia.


Fala-se de salas secretas, depósitos e compartimentos lacrados abaixo da estrutura. Alguns cogitam que o Governo mantinha um sistema de bunkers subterrâneos para serem usados no caso de uma guerra ou revolta popular. Como membro do Pacto de Varsóvia, búlgaros estavam obrigados a apoiar os soviéticos. Acredita-se que os russos tinham permissão de estocar armamento e munições em salas secretas sob o monumento. Há boatos de que até mesmo silos de armas nucleares e material radioativo seriam guardados nos compartimentos mais profundos que foram cimentados. Outros falam de laboratórios para produção de armas químicas e biológicas. Ninguém entretanto viu esses lugares ou encontrou indício de sua existência.

Fala-se ainda de porões usados para manter presos políticos e dissidentes. Algumas câmaras estranhas foram encontradas, mas não se sabe se serviam ao propósito de manter prisioneiros. Alguns comentam que no ocaso do partido, um grande número de prisioneiros teriam sido executado e enterrados em covas rasas nos arredores do Monumento. Nenhum desses cemitérios foi encontrado, mas é claro, essas estórias ajudaram a criar a imagem de que a região é assombrada também por estes espíritos inquietos.

Hoje em dia, não existe nenhum interesse do governo em renovar o lugar ou dar alguma finalidade a estrutura. Simplesmente não vale a pena fazer qualquer coisa, dada a distância e o significado ligado ao passado recente do qual a maioria não sente falta. Buzludza parece fadado a desaparecer em um futuro próximo, mas as memórias e lendas sobre esse estranho lugar devem permanecer vivas por muito tempo.

Um comentário:

  1. Muito interessante, e realmente o estilo tem algo de bizarro, alienígena.

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