segunda-feira, 28 de março de 2016

Colonização Sangrenta - A Brutal Guerra de Cabo Frio


Essa é a segunda arte de um artigo que foi publicado semana passada a respeito de um sangrento episódio da Colonização brasileira, a Batalha entre Lusitanos contra a "Confederação dos Tamoios". Indico aos interessados que leiam o artigo anterior antes desse, que pode ser acessado através do link a seguir:

Massacre dos Tamoios

Aqui, temos o que veio em seguida, mais um capítulo violento sobre o qual ouvimos muito pouco chamado a Guerra de Cabo Frio.

*          *          *

Cabo Frio, hoje famosa cidade turística do Rio de Janeiro, conforme se dizia na época, trinta léguas ao norte da Baía da Guanabara, tinha uma posição privilegiada para salvaguardar as rotas entre o Rio e as Capitanias do Norte. Além disso, ocupava a entrada da Lagoa de Araruama, outro acidente geográfico estratégico para quem quisesse proteger a cidade.

Com essas qualidades, era lá que os corsários franceses desembarcavam para negociar pau-brasil com a Tribo dos Tamoios. Eles haviam firmado amizade com os nativos e conseguiram ajuda para construir uma pequena posição defensiva, a Feitoria Maison Pierre, que era guarnecida com canhões de pequeno porte. Era natural que os sobreviventes que haviam conseguido escapar da retumbante batalha contra as forças de Estácio de Sá, na notória "Pacificação dos Tamoios", para lá se dirigissem após sua derrota.

Os portugueses entendiam, corretamente, que jamais dominariam a Baía de Guanabara enquanto os Corsários de Villegaignon tivessem livre trânsito naquela posição. Por ali, poderiam sempre escoar seu contrabando e trazer armas, munições e suprimentos. Além disso, poderiam sentir-se tentados a uma nova Invasão. Para acabar com essa ameaça, a única maneira para os Lusos era conquistar aquela região. Mem de Sá desejava atacar Cabo Frio, mas a Guerra havia consumido uma grande quantidade de recursos: material, dinheiro e homens.

Seus planos de erradicar a ameaça dos Tamoios permanentemente teria de aguardar. Muitos homens estavam cansados da matança, enjoados com o sangue e morte que eles mesmos haviam produzido. Exploradores da área, anos depois, ainda traziam relatos sobre a alarmante quantidade de ossos abandonados no campo de batalha. Algumas cruzes demarcavam o local e muitos temiam ir até lá, pois falavam de espíritos vagando entre as campinas.

Em 1571, quatro anos após a Guerra, a Capitania tinha sido autorizada a gastar uma boa soma com batedores que trouxessem informações da região do Cabo Frio. Não haviam mapas confiáveis, de modo que as palavras dos exploradores que se embrenhavam naqueles ermos era tudo que se tinha. O trabalho era extremamente perigoso: o terreno era pontilhado por pântanos, charcos e alagados cobertos de ervas daninhas, cobras peçonhentas, insetos rasteiros e doenças tropicais. Além disso, os nativos, familiarizados com o difícil terreno se moviam através dele com relativa facilidade. Armavam emboscadas, surgindo do nada e disparando saraivadas de setas mortais embebidas em toxina de sapo. Alguns homens retornavam com a pele inchada, tomados de doenças e parasitas, feridos e alquebrados física e mentalmente. O horror estampado em seus olhos, alguns não falavam coisa com coisa.


Logo em seguida, o fidalgo Mem de Sá, já bastante velho e doente acabou sendo substituído por um desembargador de carreira chamado Antonio Salema nomeado como o novo Governador Geral.

Assim que se estabeleceu na cidade, Salema tomou conhecimento dos ataques cada vez mais frequentes de Tamoios a expedições que buscavam explorar Cabo Frio. Uma expedição, composta de 40 canoas havia sido massacrada e os cadáveres dos homens e destroços foram levados pela maré até a enseada da Baia de Guanabara. Pescadores retiraram das águas corpos horrivelmente mutilados, criando pânico na cidade. Os portugueses viram aquilo como um desafio, talvez o início de um novo levante Tamoio.

Durante dois meses Salema inspecionou os preparativos para uma grande expedição, solicitando reforços das Sesmarias do Espírito Santo e de São Vicente. Finalmente, em 28 de agosto de 1575, uma força de 400 portugueses e 700 índios catequizados, a maioria de Temiminós, a tribo de Araribóia, ficou pronta para a missão. Eles contavam com o que na época era equipamento moderno: bússolas, mosquetões de cano longo e canoas com fundo abaulado. Trajavam loricas de couro batido, capacetes de metal e carregavam longas lanças com hastes semelhantes a piques e alabardas. Na frente da companhia seguiam os Padres Capelães Jesuítas, carregando uma cruz de ferro batido e a imagem beatificada de São Vicente padroeiro da Capitania. Depois de rezar e receber as bençãos, partiram parte por terra e parte pelo mar, rumo à Região dos Lagos.

A marcha durou cerca de duas semanas por um terreno traiçoeiro, mas avançou inabalável. Em 12 de setembro as forças da Coroa alcançaram uma grande aldeia dos tamoios. Fortificada e cercada por um fosso triplo, sua tomada era pouco provável. A obra de engenharia tinha sido feita com a assessoria de dois franceses e um inglês, que viviam com os índios. Pensando no que fazer, Salema não atacou a posição de imediato, o que permitiu o reforço vindo de outras localidades, elevando o número de defensores para uma estimativa de 1.000 combatentes usando arcos, tacapes e bordunas, além de um sortimento de arcabuzes, pequenas peças de artilharia, espadas e adagas fornecidas pelos corsários.


Salema desistiu de vez do ataque e preferiu a velha Tática do Assédio: cercar e esperar. O povo nativo não tinha o hábito de estocar mantimentos, eles mal podiam compreender a acumulação de bens e portanto não estavam preparados para a carestia repentina. Resistir a um cerco não era tarefa das mais fáceis e, realmente, bastaram 10 dias para que a falta de água e víveres os deixasse dispostos a buscar uma surtida desesperada para vazar o cerco.

Ao redor da aldeia, Salema ordenou a construção de posições defensivas que se aproveitavam de uma elevação da qual podiam vigiar todo vale. Salema dispôs os homens e os instruiu a disparar contra qualquer um que tentasse deixar a aldeia, homens, mulheres ou crianças. Embora as armas não tivessem precisão, os portugueses conseguiam sucesso em disparos através da paliçada alvejando quem estivesse dentro da aldeia. Eventualmente, um grande grupo de guerreiros tentou romper o cerco, mas foi forçado a retroceder pelos artilheiros ocupando posições estratégicas.

Desconfiado de que os nativos estavam perto da rendição, Salema enviou o jesuíta Baltazar Álvares para negociar seus termos. Graças à boa fama de que a Companhia de Jesus gozava, Álvares foi recebido levando alimentos e água para os que estavam confinados. Inicialmente os portugueses exigiram a entrega do inglês e dos franceses ali refugiados em troca de víveres e do salvo conduto para a saída de mulheres e crianças. O chefe da aldeia, um velho chamado Japuguaçu concordou. Um Pajé acusou Japuguaçu de covardia, ressentido o chefe mandou o sacerdote junto com os brancos e todos acabaram enforcados.

Em seguida, Salema ordenou que parte da cerca fosse derrubada. Mais uma vez o colonizador foi atendido pelos nativos. Ato contínuo, os lusitanos exigiram que lhes fossem entregues 500 índios rebeldes que haviam vindo reforçar as defesas da aldeia. Japuguaçu, em sua ânsia de evitar a batalha, entregou-os aos brancos, que os aprisionaram e amarraram. Em seguida os homens foram escoltados para a mata para uma posição onde seriam mantidos prisioneiros. Lá, segundo alguns relatos alguns tentaram reagir e acabaram chacinados. Todos os quinhentos foram mortos a golpes de porrete ou esfaqueados pelos seus feitores. Os corpos deixados para apodrecer no coração da selva.


Alheio à tudo e acreditando que estava negociando uma saída pacífica satisfazendo as exigências dos portugueses, Japuguaçu finalmente requisitou que deixassem sua gente naquele local.

Antônio Salema, tinha fama de odiar e hostilizar os índios, chamava-os de selvagens e não considerava que fossem sequer humanos. Conta-se que uma de suas táticas para derrotar os Tamoios que habitavam as Terras da Lagoa de Sacopenapan (atual Rodrigo de Freitas) foi espalhar propositalmente varíola entre os nativos que não possuíam imunidade a essa doença. Em outra ocasião ele teria escorraçado indígenas catequizados de um povoado afirmando que ensinar a eles os mandamentos da Igreja era o mesmo que fazer um papagaio repetir os salmos. Ao negociar com Japuguaçu, Salema concordou em conceder a ele e seus parentes salvo conduto, mas avisou que escravizaria o restante da aldeia. Se ele não achasse os termos razoáveis, poderia voltar para seu reduto e lutar.

Já cercado por todos os lados, com parte da fortificação voluntariamente arrasada, o Tamoio entregou sua gente aos invasores. Os portugueses entraram em triunfo na aldeia, em 27 de setembro, carregando uma cruz a frente da companhia. No dia seguinte, enforcaram sem piedade os guerreiros remanescentes que ainda se encontravam na aldeia. Mulheres, velhos e crianças foram obrigados a marchar até onde ocorrera o massacre dos guerreiros para testemunhar o destino dos seus entes queridos. A visão daquela clareira maldita: repleta de corpos empilhados, mutilados e cobertos de moscas foi demais para muitos deles.  Algumas fontes dão conta que muitos se renderam a loucura arranhando os próprios olhos, lançando-se nos rios ou consumindo veneno mortal.

Conquistado o principal bastião dos nativos, a expedição começou a planejar como se daria o avanço pelos Sertões que se abriam mais adiante. Alguns prisioneiros foram obrigados a fornecer a localização de aldeias e ajuntamentos na área, bem como a posição da Maison Pierre.

A Marcha prosseguiu sangrenta por caminhos abertos no agreste. Uma vez que os Tamoios haviam perdido seus principais guerreiros, tudo que restava eram jovens inexperientes, incapazes de fazer frente a soldados portugueses fortemente armados e mercenários calejados. Ainda assim, estes esboçaram alguma reação na forma de emboscadas. Alguns franceses, assomando aos Tamoios, tiveram êxito em derrotar uma coluna lusitana. Para intimidar os invasores, corpos degolados foram amarrados a árvores de ponta cabeça. O desafio, entretanto, serviu apenas para enfurecer os homens de Salema que intensificaram sua brutalidade. 


O forte francês foi arrasado pelo fogo de canhões. Os defensores lutaram até o último homem, mas não conseguiram fazer frente a vantagem numéria e armamento dos portugueses. Parte da alvenaria do Forte foi desmantelada e utilizada na construção do Forte de Santo Inácio do Cabo Frio erguido em 1615. Dizem que os ossos dos defensores foi misturado ao cimento e argamassa e por isso o lugar seria assombrado.

Cálculos da época dão conta de que teriam morrido mais de 10.000 indígenas e outros tantos foram escravizados na fase final da Batalha de Cabo Frio. Os números jamais foram corroborados, mas é fato que as Terras ficaram desertas após o genocídio. Os nativos que sobreviveram não desejavam mais viver naquele lugar onde tantos haviam perdido suas vidas. Os Sertões foram então reivindicados pelos jesuítas que montaram lá um mosteiro.

A região ficaria tão abandonada que Tribos de Goitacases teriam empreendido uma tímida ocupação, aventurando-se em expedições de caça e pesca. A ameaça dos corsários franceses foi afastada de vez quando os portugueses instalaram na boca do canal que levava à Lagoa de Araruama o Forte de Santo Inácio. A insatisfação com sua localização, pouco depois, motivou a construção do Forte de São Mateus. De pé até hoje a construção é uma das atrações turísticas do Balneário da Região dos Lagos.

A Batalha de Cabo Frio figura entre um dos mais dramáticos incidentes do Brasil Colônia, uma prova incontestável de que a Invasão portuguesa nada teve de pacífica, muito pelo contrário.


Tão aterrorizante foi o massacre que sobreviventes dispersaram-se a tal ponto que, menos de 100 anos depois, foram encontrados descendentes dos Tamoios da região em plena Amazônia, juntamente com outros nativos da terra, os Tupinambás, fugitivos de campanha similar na Capitania da Bahia. O Horror os impeliu cada vez mais para o interior em uma desabalada fuga.

sábado, 26 de março de 2016

Arquivo X Clássicos - A Verdade lá fora em quadrinhos


Eu lembro com muito carinho da época em que Arquivo X era um verdadeiro acontecimento na televisão. Sexta feira à noite era dia de acompanhar Mulder e Scully em alguma incrível investigação, numa luta para expor fatos em uma cruzada pela verdade. Era um encontro marcado que se tornou um hábito e finalmente virou um vício...

Por muito tempo, a série se manteve no topo. Era indiscutivelmente uma das melhores séries da televisão e até hoje sua influência pode ser percebida nos incontáveis programas em que os protagonistas buscam a verdade oculta no mundo paranormal.

Maso tempo passou e Arquivo X chegou ao seu inevitável fim. 

No começo desse ano, a série foi trazida de volta de seu limbo pelo seu próprio criador Chris Carter. Mais do que atualizar as aventuras de seus personagens consagrados - agora mais experientes e vividos, a produção tinha outro desafio: Apresentar Mulder e Scully a uma geração que os conhecia apenas de nome e reputação.

A "décima temporada", em um formato inusitado, com apenas seis episódios, foi um sucesso e tudo indica, irá ganhar mais episódios em breve. 

Para os fãs, foi a oportunidade de matar a saudade dos seus heróis, para quem não conhecia foi a chance de conhecê-los em primeira mão. Para todos, foi aquele impulso que faltava para tirar a poeira da coleção de DVDs ou buscar no Netflix seus episódios favoritos. O revival de Arquivo X teve como consequência direta reacender aquele interesse pelo mundo das conspirações e paranóia.

Entre os muitos legados deixados por Arquivo X, um dos menos conhecidos é o dos quadrinhos.


Para quem não sabe, ou não lembra, uma revista dedicada a X-Files foi publicada quando o show estava em seu ápice em meados de 1993-94. Os fãs, sedentos de ainda mais estórias acompanhando os intrépidos agentes do FBI, consumiam de tudo. Queriam mais e mais! Eu me recordo de ter comprado uma ou duas edições dessa publicação em inglês. Infelizmente não encontrei outros números e fiquei sem saber o final de uma das estórias que chegava à última página com as terríveis palavras "continua no próximo número".

Lembro contudo que gostei muito da estória...

FINALMENTE vou saber como ela termina! E de quebra, terei a chance de ler outras estórias adaptadas para os quadrinhos.

A Editora New Order se lança no universo das HQ publicando o primeiro volume de uma coleção chamada Arquivo X - Clássicos (que saiu nesse formato encadernado nos EUA em 2013). Nela encontramos 220 páginas contendo nove aventuras estreladas por nossos agentes favoritos. São estórias inspiradas diretamente pela série, no mesmo formato e com a mesma premissa: um mistério atrai Mulder e Scully e eles partem para investigar na esperança de lançar uma luz sobre algum caso enigmático. 

Tão logo a New Order anunciou o lançamento no final do ano passado eu embarquei na pré-venda e reservei meu exemplar (Sem falar que assim garanti meu poster "I want to believe" que em breve vai para a parede). 

Meu livro chegou no começo dessa semana e simplemente devorei o conteúdo do primeiro volume.


Muito mais do que uma agradável sensação de deja-vu, Arquivo X Clássicos foi responsável por colocar um sorriso na minha cara. Ler essas estórias foi como ter acesso a roteiros de episódios que poderiam muito bem ir ao ar. Não foram poucas as vezes em que imaginei como eles poderiam ter sido aproveitados em uma das primeiras temporadas. São excelentes estórias, material brilhante de ficção científica que encontra fácil um lugar no cânon do show. 

O autor Stefan Petrucha consegue traduzir para os quadrinhos toda a aura de mistério paranormal que permeava os episódios da série. As estórias nesse primeiro volume são ótimas, muitas delas estão em perfeita sintonia com os elementos centrais e a mitologia de Arquivo X. A melhor estória na minha opinião é "Pássaro de Fogo", um arco em três partes que consegue a proeza de se colocar lado a lado com alguns roteiros inesquecíveis da série. Chego a pensar que se "Pássaro de Fogo" fosse filmado provavelmente estaria em meu top 10 de melhores episódios.

Sem incidir em SPOILERS, aqui está uma breve sinopse das nove estórias contidas nesse primeiro volume:

Eu coloquei um número de estrelas do lado de cada título que equivale a minha avaliação pessoal que vai de uma a cinco estrelas.


Estória 1: Não Abra até Natal: ★★ 

Um homem morre em uma Igreja do Brooklyn, afirmando que havia ajudado a roubar o segredo da Profecia de Fátima guardada no Vaticano. A investigação da morte leva Mulder e Scully a um colecionador de artefatos sagrados e um grupo de militares que tentam ocultar o segredo da aterrorizante da profecia. Uma boa estória, mas poderia ter tido um desenvolvimento mais trabalhado.

Estórias 2 e 3: O Desmembramento de Coisas Passadas / Um Pequeno Sonho Meu (2 Partes): ★★★

Testemunhas da suposta queda de um disco voador estão sendo assassinadas e a vítima seguinte é um respeitado militar. Mulder e Scully são chamados para investigar. Algumas testemunhas começam a lembrar de detalhes que alguém deseja manter em sigilo. Um influente oficial dentro do governo, também está em busca de respostas. Com a ajuda dos "Pistoleiros Solitário", os agentes tentam identificar o oficial que oferece a Mulder a chance de recuperar sua irmã, Samantha. Scully por sua vez desconfia que nem tudo é o que parece ser.

Estórias 4 a 6: Pássaro de Fogo: O Lamento de Khobka / Crescit Eundo / Uma Breve Autoridade (3 Partes): ★★★★★ 

Em Tunguska, Siberia, um shaman contempla um Pássaro de Fogo subir aos céus. No Novo Mexico, os restos mortais de um cientista russo, são encontrados em um caminhão sem identificação. Scully e Mulder investigam o mistério, encontrando evidência de que material radioativo usado em um reator nuclear pode ter causado uma estranha reação em cadeia. Os agentes são perseguidos por homens sem face vestidos de preto e tem que lutar pela sua vida e para salvar uma cidade prestes a ser consumida pelo Pássaro de Fogo. Uma excelente estória!

Estória 7: Opera Trepanadora: ★★★★ 

O agente Drake vem caçando um serial killer por cinco anos. O assassino realiza uma trepanação em suas vítimas fazendo comq ue elas morram com um sorriso na face. As últimas vítimas carregam uma mensagem para Mulder e Scully. Grandes chances de eu adaptar essa estória para alguma mesa de RPG no futuro.

Estórias 8 e 9: Cidades Mudas da Mente - Parte um e Dois (2 Partes): ★★★ 

Scully e Mulder investigam um Culto devotado a teoria da Terra Oca sediado no Alasca. O líder da seita está em busca de uma cidade perdida na desolação gelada. Quando o avião em que está viajando sofre uma queda, Mulder é capturado e levado a uma cidade em ruínas chamada Azatlan onde terá a chance de explorar os muitos mistérios de uma civilização desconhecida. Essa estória é simplesmente delirante! Muitas boas sacadas no roteiro que também corre o risco de virar um cenário de Chamado de Cthulhu.


A arte de Charles Adlard e a paleta de cores de George Freeman são adequadas, embora em certos momentos os personagens não se pareçam muito com o Mulder e Scully que estamos acostumados a ver. Não chega a ser um grande problema, sobretudo porque os roteiros são muito bom, mas não vou mentir, isso me incomodou no início. O fato da cor do cabelo de Scully variar de vermelho para laranja e loiro também parece um pouco de desleixo do colorista. Eu adoraria que a arte fosse mais realista, calcada na fantástica ilustração da capa que é simplesmente deslumbrante, mas compreendo que na época em que ela foi lançada esse era o estilo que estava na moda.

Enfim, Arquivo X Clássicos Volume 1, é uma ótima pedida para novos e antigos seguidores. Com certeza ele vai tocar aquele canto da sua memória responsável pela nostalgia e fazer com que você sinta um arrepio como nos tempos em que os acordes iniciais da música de entrada tocavam. 

Para quem estiver interessado, esse livro pode ser adquirido na página da Editora New Order, no link a seguir: 

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Jogo mais Perigoso - O macabro Ritual do Estranho Visitante


O Ritual do Estranho Visitante parece ser uma invenção bem recente; a primeira aparição dele surgiu na página Creepypasta Wiki em 29 de outubro de 2014, enviado por alguém chamado Sylar1610 (um fã da série Heroes, ao que tudo indica).

Semelhante a muitos "jogos de desafio" e "brincadeiras" dessa natureza - O Jogo do Hospede, o Jogo da Batida na Mesa, o Jogo da Meia Noite, e assim por diante, a parte da invocação envolve o uso de uma porta, que representa uma passagem entre nosso mundo e o além. A natureza de quem (ou o que) é invocado através dessa passagem permanece desconhecida. O Ritual do Estranho é uma espécie de jogo de "negociação com o diabo", embora não exista um consenso sobre que tipo de manifestação se está convidando, se é algo diabólico ou espiritual.

Nem eu, nem ninguém em plena consciência, seria capaz de recomendar a realização de um jogo dessa natureza. Sinceramente, me parece apenas uma daquelas creepypastas, criadas para impressionar leitores sensíveis em busca de um arrepio ocasional. 

Mas, é claro, existem boatos na internet de que essa brincadeira macabra possa ter algo mais... "Algo de real"? - alguns perguntariam. Eu não iria tão longe, mas veja isso:

Um artigo de um jornal da cidade de Boston, teria noticiado que em setembro de 2015, um indivíduo afirmando ter conduzido uma brincadeira chamada "Ritual do Estranho" entrou em contato com a Polícia avisando que um tal Brian Houghan estava prestes a sofrer um acidente fatal. O nome e o endereço de Houghan foi citado por essa pessoa que preferiu se manter anônimo. Ele afirmava ter se arrependido de ter feito o Ritual. Segundo o jornal, dois dias depois do telefonema ter sido recebido pela linha direta da Polícia de Boston, um homem chamado Charles Paul Houghan realmente apareceu morto. A causa da morte teria sido acidental, ele escorregou e caiu de uma escadaria no acesso do metrô.

Na ocasião, a imprensa noticiou o acontecido, mas o caso teve pouca repercussão. Três dias depois da publicação no Boston Inquiry, um rapaz chamado Richard Lester, vizinho de Houghan cometeu suicídio atirando-se de uma ponte. No bolso de seu casaco havia uma carta na qual ele se desculpava por ter realizado o mau fadado ritual. Ele se dizia arrependido de ter contatado o "Estranho" e pedido pela morte de Houghan. Segundo testemunhas, os dois não se davam bem e costumavam trocar insultos regularmente. Segundo vizinhos, Lester tinha todos os motivos do mundo para não gostar de Houghan e vice versa.    

Verdade ou mentira? 

Segundo o Tablóide que publicou essa estória Richard Lester, tinha uma folha de papel com o seguinte "ritual" copiado em sua caligrafia. A folha estava nomesmo bolso do casaco.

O Ritual do Estranho Visitante 

Quantas pessoas devem participar:
  • Apenas uma. (Lester escreveu "Eu mesmo" ao lado)
Requerimentos: (ao lado de cada item, havia um check mark)

  • Uma porta, de preferência de madeira. A porta deve ter uma tranca, mas não deve possuir janelas ou olho mágico.
  • Uma vela branca
  • Uma vela preta
  • Um sino pequeno
  • Um isqueiro ou fósforos
  • Um presente. O presente não deve ser algo pessoal, de fato, deve ser algo totalmente impessoal que não tenha significado ou conexão com quem está realizando o Ritual. O ideal é que ele tenha sido comprado no mesmo dia em que o ritual será realizado e que não seja muito manipulado.
  • Algo para escrever que possa ser apagado, de preferência giz.
  • Uma fotografia de uma pessoa que cumpra as seguintes condições: a) A foto tem que ter sido tirada pelo realizador, b) A foto deve ser o mais recente possível, c) A foto não pode ser de alguém de sua família.
Instruções:

O Convite: 
  1. O Ritual deve ter início ao cair da noite. Ele pode começar a qualquer momento desde que o sol já tenha se posto; entretanto, para "melhores resultados", recomenda-se que ele tenha início o mais próximo possível da meia noite.
  2. Assegure-se de que você está sozinho no local escolhido. Feche as janelas, puxe as cortinas, cubra os espelhos e desligue as luzes. Mantenha a fotografia junto com você.
  3. Feche a porta. Com um giz, escreva a palavra "Estranho" na frente da porta, na altura de seus olhos.
  4. Disponha as duas velas, uma em cada lado da porta. A vela negra atrás da porta, a branca de seu lado. Acenda as velas usando o isqueiro ou fósforos.
  5. Coloque o seu presente diante da porta. Se a porta abrir para dentro da sala onde você está, tenha certeza de que o presente não esteja ao alcance de ser tocado pela porta ou derrubado quando ela abrir.
  6. Sobre o presente coloque o sino.
  7. Para dar início ao Ritual vá até a porta destrancada, mas FECHADA e bata nela três vezes.
  8. Volte para uma posição, cerca de três metros da porta e mantenha concentração. Repita mentalmente "venha estranho".
  9. Espere pelo menos uma hora.

Se não houver resposta: Não continue com o ritual! Vá até a porta e apague a palavra escrita na madeira, tranque a porta e assopre a vela do seu lado. ESPERE ATÉ AMANHECER para destrancar a porta. Depois de amanhecer, você pode abrir a porta sem problemas.

Se houver resposta: A resposta será ouvida como três batidas na porta de madeira vindas do outro lado. Vire de costas para a porta e responda com firmeza: "Pode entrar". Nesse momento, se o ritual tiver funcionado, a porta irá se abrir lentamente. NÃO VIRE E NÃO TENTE ESPIAR. É de extrema importância que você permaneça de costas durante todo o Ritual.

A Troca dos Presentes:
  1. A porta irá se abrir totalmente. 
  2. Você sentirá uma presença adentrar a sala, essa é a indicação de que o Estranho Visitante respondeu ao seu chamado. NÃO SE VOLTE. Não tente olhar para o Estranho.
  3. Aguarde a Troca de Presentes
Se o Estranho Visitante NÃO aprovar o seu presente: Não continue com o Ritual. Não se volte. Aguarde por uma hora. Ao final desse tempo, diga de maneira firme: "Eu me desculpo". Permaneça onde você está, não fale, não diga nada até ouvir a porta fechar. Mesmo assim, aguarde até amanhecer.

Se o Estranho Visitante aprovar o seu presente: Você ouvirá o ruído do sino sendo movido. Isso confirma que o visitante aprovou a oferta. Ele não tocará no sino se não aceitar o presente. 

Tire a fotografia do bolso e levante-a acima da sua cabeça, com a imagem voltada para trás. Diga o nome da pessoa que aparece na fotografia com clareza.

Espere.

Você ouvirá a porta se fechar e terá a sensação de que a presença se foi.

Espere por mais alguns minutos e verifique se o presente desapareceu.

Vá até a porta, apague a palavra "Visitante" e TRANQUE a porta. Apague a vela de seu lado.

NÃO DESTRANQUE a porta até amanhecer. 

NÃO ABRA a porta até amanhecer.

Tão logo for possível, QUEIME a fotografia. Não esqueça desse passo. Ele é extremamente importante.

Os Resultados

O Realizador do Ritual deve esperar por três dias. Ao fim desse período ele terá a confirmação de que a pessoa na fotografia sofreu um "acidente" que pode ou não ser fatal. Com isso, o Ritual terá sido considerado, um "sucesso".

Notas Adicionais:

Desde que você não vire e não encare o Estranho Visitante, não há o que temer. Ele é seu convidado e como tal, irá se comportar e não tentará machucá-lo. Estretanto, se o Estranho não aprovar seu presente ou você decidir abortar o Ritual depois da chegada do Estranho sem lhe passar um nome, não é recomendado que se tente conduzir o Ritual no futuro - nunca mais! O Estranho não ficará satisfeito com você e não esquecerá de sua falha.

Depois que o Estranho tiver chegado, é imperativo que você não se vire. As consequências de fazê-lo variam de pessoa para pessoa, mas na melhor das hipóteses, isso permite que o Estranho Visitante, permaneça no local indefinidamente.

Você não quer saber o que acontece na pior das hipóteses.

A Respeito da Fotografia: 

NÃO ESQUEÇA DE QUEIMÁ-LA. 

Se a fotografia não tiver sido queimada até a data que o indivíduo sofrer o acidente... bem, digamos que ele saberá quem realizou o Ritual do Visitante Estranho.

E nesse caso você receberá uma visita... de alguém que lhe conhece muito bem!

*          *          *


Claro, nada disso é verdade! Mas eu insisto que não se tente algo assim. Presumo que pessoas com o mínimo de discernimento não o fariam,mas não custa reiterar. Bricandeira ou não, certas coisas às vezes parecem de mau gosto, sobretudo quando envolvem o desejo de ferir outros deliberadamente.

Existem dois dizeres que se encaixam perfeitamente na situação: "Nunca chame algo que você não seja capaz de mandar embora" e "Não deseje a ninguém o mal, pois esse mal retornará para você, em dobro".

Por que então publicar isso no Mundo Tentacular? Ora, simples... esse é um Blog dedicado ao horror e essa "brincadeira" por mais tola que possa parecer tem algo de imensamente bizarro. Algo que me fez sentir um arrepio involuntário quando li pela primeira vez e quando estava traduzindo. 

E não é isso que torna uma Creepypasta algo memorável?

Boa noite... knock, knock, knock...

terça-feira, 15 de março de 2016

Massacre dos Tamoios - Um Capítulo Sangrento da Colonização no Brasil


É uma pena sabermos tão pouco a respeito da nossa própria história. Certos acontecimentos na História do Brasil parecem encobertos por uma espécie de véu responsável por ocultar detalhes e deixar a verdade dos fatos fora de foco.

Eu confesso que foi apenas recentemente que comecei a ter curiosidade a respeito de certos episódios da História do Brasil Colônia. Um incidente que me chamou a atenção em especial foi o notório Massacre dos Tamoios. Eu já havia, é claro, ouvido falar da Confederação dos Tamoios e da mortandade que se seguiu ao levante dos nativos que se uniram para atacar a recém fundada cidade do Rio de Janeiro no século XVI. Mas eu não fazia ideia do tamanho dessa tragédia...

Pensando em escrever um cenário de RPG envolvendo acontecimentos no período, comecei a fazer uma pesquisa mais à fundo que resultou no artigo a seguir. Ao mesmo tempo que é um assunto fascinante, ele não deixa de ser assustador. Ele é um testemunho claro da aterradora violência daquele período. Uma época marcada pela brutalidade, intolerância e horror.

*     *     *    

Era 1567, portugueses e indígenas haviam firmado um delicado acordo intermediado pelos missionários da Companhia de Jesus (jesuítas). Pelo tratado, os nativos não deveriam ser capturados e escravizados pelos homens brancos, não podiam ser forçados a trabalhar em suas lavouras ou perseguidos. As aldeias deveriam ser deixadas em paz, suas mulheres e crianças tratadas com respeito e nenhum homem escravizado. Os jesuítas ansiavam pela catequização, mas os portugueses desejavam riqueza e a maneira mais rápida de desenvolver a colônia era submetendo os nativos ao trabalho.

Com isso em mente, as coisas obviamente não seguiram conforme acordado. Um ano após a assinatura do tratado, havia recomeçado a captura de índios para o trabalho escravo. Os portugueses violavam a trégua com protestos tímidos dos religiosos, ameaçados pelos colonizadores sempre que tentavam interceder.

"Usando os mais requintados processos de crueldade, os portugueses seguem aterrorizando os nativos. Somente em pensar nos castigos inenarráveis que se infligiam aos rebeldes, muitos índios se submetiam ao jugo, vencidos pelo terror” escreveu um observador francês daquela situação.

Na Capitânia de São Vicente, aldeias eram atacadas e desapareciam no turbilhão faminto das chamas. Famílias inteiras eram colocadas em grilhões e forçadas a marchar para os povoados onde seriam apresentados a dura vida de escravidão e abuso. Alguns se defendiam, erguiam lanças e bordunas, mas as armas dos colonizadores falavam mais alto, cuspindo fogo e chumbo.

Os nativos então se reuniram em um Grande Conselho e os líderes das aldeias sentaram em um mesmo círculo para decidir o que fazer. Já que as armas dos invasores eram mais poderosas, teriam de enfrentá-los contando com a única vantagem que dispunham: a maioria. Por fim, os Tamoios resolveram responder à altura, aos ataques dos "peros". Eles iriam à Guerra.


Nessa época os homens do lendário Corsário francês Villegaignon ainda estavam escondidos em São Vicente tentando promover a invasão, mas seus esforços já eram menos expressivos. Com poucos homens, recorriam a uma guerrilha, atacando de surpresa em emboscadas e se embrenhando na mata virgem. Haviam feito acordos com os nativos e já vinham negociando pau brasil em termos amistosos com várias tribos. Os franceses sabiam que não havia como resistir por muito tempo e precisavam desesperadamente da ajuda dos índios. Ofereceram a eles apoio logístico, abastecendo-os com armas e apetrechos para a guerra.

Assim surgiu a Confederação dos Tamoios.

O primeiro enfrentamento em larga escala foi liderado pelo próprio Grande Chefe Tamoio, Aimberê que comandava nada menos que 1500 guerreiros que viajaram em 160 canoas de guerra para o ataque. Tinham arcos longos, tacapes pesados de madeira, bordunas, lanças de arremesso e alguns poucos arcabuzes cedidos pelos aliados. Os guerreiros estavam acostumados às lutas e disputas tribais, muitos deles eram veteranos com experiência em batalha. A surpresa era essencial para que a ofensiva tivesse sucesso, contudo é provável que os portugueses contassem com informantes ou batedores que anteciparam o ataque que viria pela Baia de Guanabara. Com isso, os defensores instalados na recém fundada vila do Rio de Janeiro tiveram tempo de se preparar. Eles instalaram canhões (as temidas bocas de dragão) no alto do forte que se inclinava sobre a faixa da praia. Municiando os obuses com bolas de ferro ou pedras arredondadas, os artilheiros conseguiam afundar várias canoas com um único disparo. Disparavam também fragmentos de ferro fundido, cascalho ou correntes que retalhavam os corpos produzindo ferimentos medonhos.

Dentre a força de ataque tamoio, aqueles que conseguiram desembarcar, chegaram até os portões, escalaram o muro e atacaram os defensores corpo a corpo. Algumas mortes foram provocadas, sobretudo por disparos de setas embebidas em veneno. Mas incapazes de chegar em grande número, estes acabaram dominados. Prevendo a inevitável derrota, Aimberê ordenou que os guerreiros recuassem para a mata. Os portugueses acreditando que haviam afugentado os índios foram em seu encalço, mas os que entraram na floresta, jamais retornaram. Logo perderam o ímpeto da perseguição e voltaram a se entrincheirar no forte onde tinham vantagem.

Um mensageiro foi enviado para informar o fidalgo e Administrador Colonial Mem de Sá do ocorrido. Ele então se deslocou para o Rio de Janeiro conduzindo um carregamento de armas e munições. A pressa era justificável, os Tamoios continuavam a realizar ataques diários, testando as defesas do muro. Se a reserva de pólvora ficasse comprometida, seria questão de tempo até a cidade cair. 


O comboio chegou em 18 de janeiro de 1567, e foi saudado pelos defensores do forte, já esgotados pelos sucessivos ataques e perigosamente quase sem recursos. A armada contava com três galeões vindos de Lisboa comandados por Cristóvão de Barros, dois navios de guerra e seis caravelas abarrotadas de pólvora e munição. A primeira ordem de Mem de Sá foi dispor canhões extras nas amuradas, ele mandou guarnecer cada estação com equipes de disparo e instruiu os homens a atirar contra qualquer canoa à caminho da praia. Homens também foram dispostos em posições estratégias de onde podiam alvejar alvos com maior precisão. A medida funcionou e os ataques começaram a cessar.

Dias depois, Estácio de Sá, sobrinho do administrador desembarcou na Baía de Guanabara com cerca de 1.500 soldados e um reforço de Índios Temiminós, que seu aliado Araribóia trouxera do Espírito Santo. Tanto Estácio quanto Mem, conheciam a capacidade de Aimberê e sabiam que se os Tamoios tomassem o forte a cidade cairia em seguida. Um levante era seu maior temor e para enfrentar essa possibilidade, haviam preparado um plano de emergência anos antes, no qual estocaram comida e água potável para um cerco duradouro. Com os reforços os danos causados ao forte foram reparados. Os nativos percebiam que o levante havia perdido sua grande chance de sucesso e muitos desertaram da Confederação.

Foi então o momento do contra-ataque. Estácio liderou as primeiras incursões pela mata e os portugueses tiveram sucesso em destruir aldeias que abasteciam os guerreiros e forneciam abrigo. Os Temiminós eram especialmente violentos, e usavam uma tática dissimulada: se misturavam aos outros nativos, ganhavam sua confiança e os massacravam à noite. Pouco a pouco, eles avançaram e os tamoios embora resistissem não eram páreo para a marcha organizada dos portugueses.

Aimberê, sentindo a gravidade da situação, mandou reunir seu conselho e disse aos franceses para partirem e salvar suas vidas, inclusive seu genro, Ernesto um dos homens de confiança de Vilegagnion. Os aliados se recusaram a partir e decidiram ficar e lutar até a morte. Eles foram abraçados pela tribo e adotados como irmãos de combate.

Por fim, centenas de portugueses e Temiminos, comandados por Araribóia, foram ao encontro dos Tamoios em seu último baluarte de resistência. As embarcações dispararam de longe e arrasaram as paliçadas de defesa. Em resposta, milhares de flechas cruzavam o céu, ao rimbombar dos canhões e tiros de mosquetão. Os combates corpo a corpo foram brutais: espadas estripavam, tacapes arrebentavam crânios e balas varavam os corpos. Nas águas rasas, canoas que transportavam homens viravam e a luta se tornava desesperada a medida que muitos se afogavam. As águas da Guanabara ficaram tingidas de sangue. Na praia, jaziam corpos de índios e portugueses que as ondas teimavam em trazer de volta.


O Padre José de Anchieta na sua “DE GESTIS A MEM DE SÁ”, narrou em tom épico o desenrolar da sangrenta batalha, cantando glórias à vitória portuguesa:

“As hordas selvagens contra-atacam de cima do monte, levantam o grito de guerra que reboa na altura e vibram fremindo os arcos: furor guerreiro os sacode e logo despejam do alto uma chuva de flechas, cobrindo os cumes verdejantes como uma nuvem.

Assim, quando o vento sul flagela, às vezes, os campos, o granizo despoja dos seus belos cachos as vides e denso saltita sobre os tetos tragicamente soando.


Há um frêmito de horror nas matas. Os inimigos resistem com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes, mas aos esquadrões de Cristo nem flechas sem pedras conseguem parar; o soldado, em fileiras cerradas, se arroja teimoso, vence as escarpas, despede certeiro dardos de arremesso. Chegam às mãos: fogem os selvagens. Persegue-o, alcança-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito. A uns a lança de ponta aguda atravessa a ilharga, abrindo à luz do sol, as profundas cavernas da vida e levando à morte aos membros pela larga ferida.


Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada, a outros trespassa o coração a seta ligeira".

Anchieta não poupa elogios aos soldados da Coroa, enaltecendo o que chama de "gesto heróico", referindo-se ao massacre de mulheres e crianças no incêndio que fez arder 160 aldeias, queimadas à margem da Guanabara. Ele escreve:


“Pelo solo, escorre negro sangue, as matas se encharcam da muita sangueira. Aqui e ali, corpos nus e sem vida jazem nos caminhos e fundos recessos dos bosques”.


Em meio ao massacre atos de vingança se alternam com momentos de piedade. Enquanto alguns soldados matam, estupram e incendeiam indiscriminadamente, outros enojados pelo sangue e morte se colocam de joelhos pedindo a Deus que dê um fim naquele horror. Homens tentam conter o massacre e garantem a fuga das mulheres agarradas aos seus curumins.  Mas a essa altura,  a "guerra" já saiu do controle e a barbárie assumiu seu lugar, com a mortandade indiscriminada. Tamanha a sede de sangue que até mesmo alguns aliados Temiminós acabam sendo alvejados, mortos e feridos. Os padres que pediam o cessar fogo também eram trespassados.

Enquanto ardem as aldeias, se desfazendo em fumaça, os sobreviventes fogem para o abrigo da floresta com as crianças a segui-los. O horror chega a tal ponto que os próprios pais matam os filhos afogados antes que o choro deles atraia os inimigos.

O terror se estende por dias e dias... uma a uma as aldeias são destruídas e execuções se sucedem, com corpos sendo empilhados em montes que apodrecem cobertos de moscas e fuligem. Os líderes da Confederação são encontrados e suas cabeças cortadas e espetadas em estacas pois "Daquela raça maldita de Tamoios nada haveria de subsistir nas terras conquistadas pelos portugueses".


Os que sobreviveram foram feitos prisioneiros, amarrados e presos com correntes. Eles marcham envergonhados para a vila onde sofreriam mais humilhação e escárnio. Quando não havia mais corda ou corrente, os prisioneiros foram mortos com facas e porretes, para não gastar balas ou pólvora no extermínio.

Na fase final da campanha, os poucos tamoios que ainda lutavam retrocederam para o Morro do Lery, onde hoje fica o Outeiro da Glória. Lá, com a ajuda de trinta franceses ficaram entrincheirados numa fortaleza de madeira conhecida como Biraoaçu-Mirim. Nesse esforço para arrasar o reduto, acredita-se que Estácio de Sá tenha sido ferido. Uma flecha lhe atingiu a face e penetrou no osso. Ele morreria um mês depois em decorrência de uma infecção. A fortaleza não chegou a ser tomada, e sim devastada pelos canhões que transformaram o lugar em uma pilha fumegante de destroços.

Com a vitória conquistada, o Governador Geral, Mem de Sá, resolveu realocar a cidade para um ponto mais protegido e alto para facilitar sua defesa. O ponto escolhido foi o Morro de São Januário, derrubado nos anos 1920, mais para dentro da baía. Ainda assim, a estratégica entrada da baía de Guanabara nunca estaria segura enquanto não se pacificasse a região de Cabo Frio.

Mas esse é outro capítulo sangrento da colonização portuguesa que nós muitas vezes, também ignoramos...

sábado, 12 de março de 2016

Missão Eliminar o Avatar - Um alvo para possíveis viajantes do tempo


Ok... a postagem anterior foi meio que estranha. Alguns diriam até meio exagerada e alarmista. 

Afinal, relacionamos Donald Trump, o concorrente na frente das primárias partidárias dos Estados Unidos e provável candidato à Presidência pelo Partido Republicano com ninguém menos que o Deus Exterior Nyarlathotep.

Em um primeiro momento fiquei com um pé atrás a respeito de postar ou não a notícia, mas hoje me deparei com outro artigo que pode estar ligado diretamente ao caso e que claro, chamou minha atenção.

Eu havia "cobrado" a ação de Investigadores dos Mitos Ancestrais para descobrir se haveria algum fundo de verdade nessas alegações... quem melhor do que um grupo de investigadores para revelar uma conspiração dessa magnitude? Talvez eles pudessem descobrir se as alegações são reais ou não passam de exagero. Fato é, que alguém parece ter respondido ao chamado. Na verdade, mais de uma pessoa vinda do... futuro.

Esse é um dos artigos, leiam e tirem suas conclusões:


VIAJANTES DO TEMPO ALEGAM TER "MISSÃO" EM 2016

Instituições psiquiátricas em todos os Estados Unidos estão comunicando o recolhimento de um número elevado de indivíduos alegando terem sido enviados do futuro.  Até aí nada demais. Esse é o tipo de delírio que se espera encontrar em pacientes em tais instituições, contudo, muitos desses pacientes afirmam terem sido mandados para o passado em uma missão importante: parar Donald Trump antes que ele seja eleito presidente. 

O número de indivíduos apresentando esse tipo de alucinação atingiu uma proporção alarmante. Quase epidêmica!

As pesquisas apontam para um número crescente de alegados "viajantes do tempo"capturados e levados a instituições para triagem psiquiátrica. Eles afirmam terem vindo de datas em um futuro próximo, entre 2022 e 2024, quando a tecnologia para viajar no tempo será desenvolvida. Sua missão é evitar que Trump seja eleito, pois é nesse momento que "as coisas começam a dar errado".   
"Costumava ser Napoleão, mas as coisas mudam" disse o Dr. Simon Wells do Instituto Psiquiátrico de Maryland. 

"Dizer que você veio do futuro para eliminar Donald Trump é uma ilusão bastante específica, e é curioso que várias pessoas apresentem manifestações similares". complementou.

Todos os pacientes contam estórias parecidas, afirmam que no futuro haverá tumultos, guerra, fome e o colapso da civilização. Todos esses acontecimentos estariam ligados a eleição de Trump, um evento que resultará indiretamente em uma Guerra Mundial. Os alegados "viajantes do tempo" planejam "fazer o que é certo". 

Segundo os especialistas esse tipo de alucinação em massa ocorre em tempos de grande agitação social como por exemplo, a aproximação de uma disputa presidencial acirrada.

Ontem em um comício marcado em Chicago, manifestantes contrário e favoráveis a Trump se enfrentaram. Cerca de 200 pessoas interromperam o discurso de Trump e ele teve de ser removido às pressas. Um ativista inclusive conseguiu subir no palco, antes de ser removido pelos seguranças. O comício foi cancelado em Chicago alegando-se falta de segurança, a polícia temia a possibilidade de haver distúrbios graves nas ruas.

Entre os presos e feridos, não havia nenhum "viajante do tempo", ou ao menos ninguém se identificou dessa maneira...

O FBI está investigando os casos, em um país com tradição em atentados a celebridades, esse tipo de ameaça é levado muito à sério. Responsáveis pela Campanha Eleitoral do Candidato Donald Trump não quiseram se manifestar a respeito desses estranhos rumores.


*     *     *

Só tenho dois comentários a respeito:

1) Se os viajantes estão vindo em cabines telefônicas azuis, eu acredito no que eles quiserem.

2) Eu vi "Os Doze Macacos" (12 Monkeys), eu sei como esse filme termina... não é um final feliz.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Algo Lovecraftiano na Campanha Eleitoral Americana - Trump, o avatar de Nyarlathotep

Notícias das prévias partidárias na Corrida presidencial dos Estados Unidos. Normalmente esse tema não encontraria muito espaço no Mundo Tentacular, contudo, essa notícia parece mais do que adequada para o Blog...


Indivíduos próximos do candidato (na verdade, candidato a se tornar candidato) à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, garantem que ele esconde um terrível segredo. Um de proporções Lovecraftianas, que nós podemos apenas esperar que não seja real. Contudo, se houver alguma verdade nas alegações, a raça humana tem muito a temer. 

Até onde sabemos, a maioria das Entidades dos Mitos Ancestrais foram banidas para as estrelas, mas algumas permanecem entre nós, sendo veneradas por cultistas e seitas abomináveis. Um dos mais temidos Deuses Exteriores continua andando sobre a Terra, respondendo sempre que é invocado, ao contrário dos Grandes Antigos que dormem, sonham e esperam pacientemente. Ele prefere a loucura ao sofrimento e morte, porque é mais divertido levar um homem à insanidade do que simplesmente matá-lo. Ele é conhecido como o Grande Enganador: utiliza propaganda, dissimulação e subterfúgio para iludir a humanidade e submetê-la aos seus jogos.

Além disso, Nyarlathotep é capaz de assumir inúmeras formas, a maioria delas tenebrosas e apavorantes demais para serem descritas. Mas ele pode também, tomar a forma de um homem se assim desejar. 

Pois bem... alguns supõem que ele assumiu o disfarce de um mortal em 14 de junho de 1946, o dia de nascimento do candidato Donald Trump e desde então vem preparando sua mais cruel brincadeira.


Venerado por um numeroso séquito de fanáticos perigosos, Nyarlathotep é incrivelmente poderoso e absurdamente maligno. Diferente dos outros deuses e entidades, ele tem uma estranha fixação e uma mórbida curiosidade com a raça humana. Teria sido ele quem introduziu o uso do dinheiro, o sentimento da inveja, o fanatismo religioso institucionalizado, as mais poderosas armas desde a besta até o míssil balístico intercontinental, além de ter fomentado guerras e pragas desde a Idade da Pedra. 

A relação íntima de Nyarlathotep com a humanidade é antiga. Ele estava assistindo quando o primeiro macaco pegou um osso e arrebentou a cabeça de seu irmão para roubar-lhe uma fruta. Estava sussurrando no ouvido de Judas Iscariotes, dizendo que 30 moedas de prata eram uma bela recompensa. Ele produziu a chama que consumiu Roma na noite em que a Cidade Eterna queimou. Plantou palavras de ódio no discurso do Papa que conclamou as Cruzadas. Cavalgou com os hunos pisoteando o solo manchado de sangue da Europa. Contaminou milhões com uma cepa de peste. Fomentou o extermínio de nativos ao redor do mundo. Impeliu descobertas e progresso, que foram usados de modo letal em guerras que fizeram o planeta chegar perto de sua aniquilação. Pois Nyarlathotep é o próprio Caos que rasteja sob a superfície da Terra.

Na última vez que ele tentou uma estratégia semelhante, o Egito era a Nação mais poderosa da Terra e ele assumiu o papel de Faraó... bem, digamos que a coisa não terminou bem.

Mas voltando a Campanha de Donald Trump, alguém percebeu que seus partidários parecem confusos, incapazes de diferenciar a realidade de um tipo de alucinação coletiva? Outros alertam para o fato de que pessoas que até recentemente chamavam Trump de "idiota", de repente se converteram em ardorosos apoiadores de sua causa. Seriam esses os efeitos de magias de controle mental empregadas pelo terrível avatar e seus feiticeiros? Será possível que uma conspiração de proporções cósmicas está em curso? Onde estão os investigadores para descobrir as pistas? 

Se isso parece fazer sentido e você está com medo, bom. Deveria realmente temer o que está por vir. A ideia de um Avatar Maligno manipulando o eleitorado, convencendo-o que é capaz de trazer mudanças e benefícios, soa como uma ameaça tão grande quanto a mudança do clima, a ruína da economia, a ameaça nuclear ou o terrorismo...

trump

E nós sabemos de tudo que o velho Nyarlathotep é capaz.

Quem pode dizer que a agenda política de Trump não se assemelha a algo que o Caos Rastejante teria planejado?

Nós iremos monitorar o desenrolar dessa estória a medida que as prévias eleitorais prosseguirem, mas é preciso deixar claro que a humanidade está diante de uma enorme ameaça, a nação mais poderosa do mundo sendo governada por um avatar cujo único propósito de sua existência é disseminar o Caos. 

Não parece que vai terminar bem...

terça-feira, 8 de março de 2016

Aventureira sem Limites - A vida da intrépida arqueóloga e exploradora Jane Dieulafoy


A vida de Jane Dieulafoy poderia facilmente ser transformada em um romance de aventura. De fato, ela parece ter saído de alguma estória de ficção. Uma mulher vibrante, corajosa, nascida durante a Era Victoriana, uma época em que as mulheres não tinham oportunidades e não deviam aspirar nada além de constituir família. Mas Jane decidiu desde cedo que sua vida seria diferente e que apenas uma pessoa controlaria seu destino: ela mesma!

Jane Henriette Magre nasceu em 29 de julho de 1851 na cidade de Toulouse, França. Seu pai o aventureiro e oficial do exército francês Remy Magre morreu em um acidente de caça, poucas horas após o nascimento de Jane, sua quinta filha. Com isso, ela, suas quatro irmãs e sua mãe, ficaram sozinha. Felizmente, a família Magre havia conquistado uma considerável fortuna negociando armas e munições nas guerras que varriam a Europa naquela época. Jane foi enviada para estudar com as Irmãs do Convento da Divina Assunção em Auteuil, uma cidade não muito distante de Paris. Desde cedo ela demonstrou ser uma aluna brilhante, aprendendo várias línguas e aperfeiçoando suas habilidades artísticas, sobretudo em desenho e pintura, atividades que mais tarde se mostrariam muito úteis na sua carreira.

Dona de um espírito irrequieto, Jane era vista como estranha pelas colegas e severamente punida pelas freiras que a apelidaram de "pequena demônio". Ela costumava escapar do internato à noite, vestindo roupas de criada ou disfarçada como uma das religiosas, ganhando as ruas e se misturando às pessoas simples. Sua imensa curiosidade do mundo exterior a levava a visitar lugares de má reputação: tavernas e bordéis onde entrava escondida ou disfarçada. Em certa ocasião, aceitou uma aposta que a levou a passar a noite em um cemitério considerado assombrado. Ela não apenas cumpriu o desafio, como escavou a entrada para uma cripta antiga - seu primeiro contato com os mistérios do "mundo antigo".   

Jane jamais demonstrou interesse em trabalhos caseiros ou em tarefas consideradas mais adequadas ao sexo feminino. Depois de ser capturada em Paris, trajando roupas masculinas, Jane foi conduzida de volta ao convento para ser punida com dez chibatadas desferidas pela Madre Superiora diante de todas as alunas. Por volta da quinta chibatada, todos ficaram surpresos, pois Jane não produzia nem um gemido de dor. A Madre mandou a jovem dizer como aquilo era possível, ela apenas sorriu e sussurrou entredentes: "Ora Madre, será que não sabe que eu sou um pequeno demônio"?

Depois disso, ela foi mandada de volta para Toulose, expulsa do internato.


Jane dizia que jamais iria se casar e que gostaria de viajar pelo mundo e conhecer diferentes povos e civilizações. Aspirava ser a primeira mulher a cruzar o Saara no lombo de um camelo, descobrir cidades perdidas no coração da selva africana e resgatar tesouros valiosos dignos das Mil e uma Noites, esquecidos nas tumbas de Reis e Imperadores. Tudo isso seria impossível para uma mulher, quanto mais, casada! Ela prometeu a si mesma que nunca cometeria esse erro: "Provavelmente vou estrangular meu marido na noite de núpcias" disse certa vez chocando as irmãs que não queriam outra coisa além de desposar o mais rápido possível.  

Houve, entretanto, uma pessoa na vida de Jane que acabou a tentando com o matrimônio. Marcel Dieulafoy provavelmente era o único homem que poderia ter se casado com a indomável Jane Magre. Marcel era um homem de ação e aventura, culto e agitado, ao seu modo, era também um rebelde. 

Jane tinha 19 anos quando conheceu Dieulafoy e como fazia com todos seus pretendentes, planejava chocá-lo para que ele desistisse de cortejá-la. Mas Marcel não era como os demais! Jane o convidou para cavalgar pela propriedade, pois já tinha ouvido falar de suas habilidades como cavaleiro. Pensou em humilhá-lo derrotando-o em uma corrida, mas para sua surpresa, Marcel ficou animado com a brincadeira. Os dois cavalgaram pelo campo, pararam em um recanto onde o aventureiro relatou a ela algumas de suas experiências como Mercenário no Oriente. Ela deixou escapar que invejava aquela vida excitante e que faria qualquer coisa para ter uma vida como a dele. Marcel sorriu enigmático e não disse mais nenhuma palavra. Os dois retornaram a Mansão dos Magre, e lá ele formalizou seu pedido de casamento à mãe de Jane. Chocada, ela pediu para conversar com seu pretendente e disse que de modo algum aceitaria a monótona vida de esposa. Marcel explicou que tampouco queria uma mulher que baixasse a cabeça para ele e fosse submissa - "nada mais tedioso do que uma esposa sem sangue nas veias", explicou. Os dois então concordaram em um casamento fora do convencional, no qual seriam iguais em tudo.

O primeiro desafio para seus votos foi o início da Guerra Franco Prussiana em 1870. Os invasores germânicos iniciaram um cerco a Paris e Marcel se juntou ao Corpo de Engenharia com a missão de reforçar os muros da cidade e organizar a resistência. Marcel estava casado fazia apenas um ano e a vida com Jane era uma constante aventura, os dois haviam passado a Lua de Mel no Marrocos, onde ele ensinou a esposa a atirar com rifle e pistola. Quando Marcel contou que havia sido alistado para uma importante missão militar, Jane teve uma reação categórica: "Quando partimos"?

Para acompanhar Marcel, Jane cortou o cabelo bem curto, mandou confeccionar uma roupa adequada e assumiu o papel de ajudante de campo do Capitão Dieulafoy. Logo ela/ele ganhou fama como um exímio atirador, tendo abatido três inimigos com um rifle durante uma emboscada. Jane esteve presente em todas as missões oficiais, mesmo as mais arriscadas em território inimigo e seu segredo nunca foi descoberto.

Com o fim da Guerra, Marcel deu baixa no serviço militar e foi contratado para um trabalho na Ferrovia Midi que construía linhas de trens no Norte da África e no Oriente Médio. Ele era responsável pela verificação geológica e pelo exame da topografia do terreno onde seria construída  a estrada de ferro. Jane como não poderia deixar de ser, o acompanhava em todas suas viagens, muitas vezes, usando disfarce masculino para ter livre acesso a todos os lugares. Juntos, estiveram no Egito, Marrocos, Arábia e Turquia. Essas viagens fizeram com que os Dieulafoy se interessassem cada vez mais pela cultura e arquitetura oriental, e eventualmente, os conduziu ao estudo da Arqueologia.   
Fazia um bom tempo que Jane e Marcel planejavam uma viagem completa pelo Oriente Médio para estudar a arquitetura da Pérsia. Eles partiram de Marselha em 1880 rumo a Constantinopla em um navio russo, cruzaram o Mar Negro, atravessaram as Montanhas do Cáucaso até atingir o Azerbaidjão. De lá seguiram para Tehran onde ficaram por seis meses. À despeito da árdua jornada e de uma série de dificuldades enfrentadas, eles se apaixonaram pela cultura oriental.    

De Tehran, decidiram seguir para Esfahan e Shiraz, cidades mais afastadas e de difícil acesso para estrangeiros que eram normalmente expulsos. Para não chamar mais atenção do que o necessário, Jane passou a se vestir com roupas masculinas e usar nomes falsos. Jane registrava toda a jornada em desenhos e ilustrações incrivelmente detalhadas. Em 1882, ela adquiriu uma câmera e passou a fotografar as paisagens da Pérsia. Algumas de suas fotografias se tornaram efetivamente os primeiros registros fotográficos de muitos lugares dessa parte do mundo. Os dois se concentravam na arquitetura oriental, mas também registravam antigas ruínas e tesouros arqueológicos. Receberam a permissão de governantes para adentrar palácios e fotografar o Xá da Pérsia e a Família Real em pessoa.

Os Dieulafoy realizaram explorações que resultaram na descoberta de valiosos artefatos nas ruínas de Susa. Com o aval do Xá, Marcel e Jane puderam escavar as ruínas da antiga cidade e recuperar uma infinidade de artefatos que foram despachados para o Museu do Louvre. Essa foi uma das primeiras expedições ocidentais devidamente autorizadas pelo governo local. Como reconhecimento pela notável contribuição ao Campo da Arqueologia, duas salas no Museu, abarrotadas pelos artefatos encontrados, receberam os nomes do casal.
  
Jane mantinha um diário de suas aventuras no qual anotava todos os acontecimentos ocorridos em sua jornada. Isso foi bastante útil quando retornaram para a França em 1883. Enquanto se recuperava de uma febre contraída na viagem de volta, ela deu início a sua carreira como escritora. Jane publicou um livro intitulado "Le Tour du Monde" a respeito de suas viagens, no qual descrevia a exploração da cidade perdida de Susa. O trabalho foi muito bem recebido e ela se tornou uma espécie de celebridade. Em 1885, no auge de sua fama, o Presidente da República Francesa concedeu a Jane a Legião de Honra e o título de Chevalier, tornando-a a primeira mulher a receber essa honra.

Quando um crítico disse que conceder tal honraria a uma mulher era absurdo, Jane não se fez de rogada. Retirou sua luva e esbofeteou o rosto do sujeito desafiando-o para um duelo com pistolas. Seu desafeto disse que não atiraria em uma mulher, mas Jane deixou claro que se o encontrasse, dispararia contra ele. Dois anos depois, ela cumpriu a promessa ferindo o sujeito na nádega. O episódio serviu para aumentar ainda mais a aura quase mítica a respeito dela.         

Jane seguiu em frente em sua carreira como escritora. Ela era uma historiadora, arqueóloga, socióloga e comentarista política autodidata, convidada para presidir palestras em Universidades influentes na Grã-Bretanha. Os leitores vitorianos adoravam seus comentários cheios de ironia e ela se converteu em uma famosa autora que incentivava outras mulheres a escrever e publicar seus trabalhos.

Mas a vida na Europa acabou trazendo a tão temida monotonia... Jane e Marcel ansiavam por retornar ao Oriente e seguir adiante com seus trabalhos de campo. O breve vislumbre de Susa anos antes fazia com que os dois desejassem novas escavações. Graças a fama conquistada por Jane, não foi difícil conseguir patrocínio para uma nova expedição que partiu de Marselha na Primavera de 1885.


"Com um chicote na cintura e um rifle no ombro" - Uma famosa foto de Jane Dieulafoy

Havia um problema, o Xá da Pérsia havia tomado conhecimento que um dos Arqueólogos a quem ele havia sido apresentado era uma mulher. Sentindo-se enganado o Governante disse que Jane não seria bem recebida em sua nação. Para burlar esse problema, Jane se disfarçou mais uma vez de homem e entrou no país por uma outra rota usando papéis que a identificavam como um empresário italiano. Viajando sozinha, ela enfrentou um ataque de bandoleiros e disparou contra os bandidos com seu Rifle Henry-Martini modificado para seu uso pessoal. Jane se juntou ao resto da equipe e começaram a coordenar os trabalhos de mais de 300 escavadores pertencentes a várias tribos de nômades. Em meio a presença de tantas etnias diferentes, disputas e contendas entre os nativos eram frequentes. Jane resolveu o problema negociando com diferentes chefes tribais e criando cronogramas de escavação no qual os escavadores de cada etnias e revezavam criando uma saudável disputa. 

Os trabalhadores tinham grande respeito por "aquele peculiar estrangeiro de rosto delicado e muito bem barbeado, que falava diversos dialetos, desde Farsi, até Urdu". Jane supervisionava a escavação das trincheiras, catalogava artefatos e registrava os progressos com fotografias e ilustrações. Seus métodos inovadores de administrar o trabalhos dos escavadores foram usados posteriormente por outros arqueólogos, sobretudo no Egito. O famoso egiptólogo Howard Carter, responsável pela descoberta da Tumba de Tutankhamen escreveu que os métodos de Jane Dieulafoy revolucionaram o trabalho de escavação.  

Foi nessa segunda expedição que a equipe desenterrou o monumental Palácio de Ataxerxes II e recuperou as famosas Frisas do Leão. Jane meticulosamente desenhou a posição de cada um dos milhares de tijolos que compunham a obra que foi cuidadosamente desmontada, transportada de navio para a França e remontada para exposição no Louvre. 

Durante as escavações em Susa, a expedição sofreu com constantes tempestades de areia que impediam os trabalhadores de deixar as tendas. O tempo estava tão ruim que o grupo teve de refazer seus planos e se concentarr no Palácio Real. Os Dieulafoy fizeram então uma incrível descoberta ao verificar uma descoloração no piso do palácio que indicava a existência de um segundo piso abaixo da estrutura. Escavando naquele ponto, eles se depararam com os restos do Palácio original erigido por Dario I e destruído em um incêndio séculos antes de Ataxerxes ordenar sua reconstrução. Escavando nesse ponto, encontraram câmaras subterrâneas contendo artefatos ainda mais antigos, incluindo um mosaico onde se via uma parada militar em homenagem a um poderoso Rei. O objeto ficou conhecido como "Frisa dos Imortais" e é considerado até hoje um dos artefatos mais importantes da História Antiga da Pérsia.

A habilidade de Jane de lidar com qualquer tipo de situação se tornou lendária. Uma de suas mais famosas estórias demonstra claramente sua postura diante do perigo. Enquanto estava em Susa, durante o transporte de suprimentos e artefatos através de um rio caudaloso, Jane foi forçada a cruzar sozinha em uma jangada pois os carregadores ficaram com medo de que a frágil embarcação não seria capaz de completar a travessia. Depois de atravessar para o outro lado ela sinalizou para os carregadores e só então estes aceitaram repetir sua façanha.

Em outro incidente, Jane estava acompanhando uma caravana que levava artefatos para um porto quando o grupo surgiram oito nômades montados em camelos e armados com rifles e cimitarras. Os homens exigiam inspecionar os objetos e ficar com parte da carga como uma espécie de tributo. Pensando rápido, Jane sacou as duas pistolas que levava no coldre e apontou para os bandoleiros, dizendo a eles: "Eu tenho 14 balas para usar em vocês, vão agora e chamem mais seis dos seus amigos". Os nômades ficaram tão impressionados pela ameaça que partiram sem cobrar o pedágio.


"Eu tenho 14 balas para lidar com vocês, vão agora e busquem mais seis de seus amigos"

Após dois anos escavando em Susa, os Dieulafoy decidiram retornar para Paris com os tesouros que haviam coletado. Um navio maior teve de ser fretado para levar todos os artefatos encontrados pela expedição. Na chegada a Paris, o casal foi recebido por dignatários e milhares de curiosos que aplaudiam e acenavam.

Foi depois de sua chegada a Paris que Jane decidiu abolir permanentemente os trajes femininos e adotar seu próprio código de vestimenta. Ela cortou seus cabelos bem curtos e passou a vestir calças largas, casaca caqui e sapatos. Ela sempre recorreu a esses trajes para ganhar liberdade e segurança durante as viagens ao Oriente, mas aquela era a primeira vez que decidia usar na Europa, ao menos em tempos de paz. Ela afirmava que os trajes femininos da época eram absurdos, complicados e apertados e que nenhuma mulher deveria se sujeitar a usar invenções ridículas como espartilhos.

Infelizmente, os Dieulafoy jamais voltariam à Pérsia. O sucesso da segunda expedição e a notícia de que Jane havia participado ativamente da escavação fez com que o Xá barrasse todos os pedidos seguintes feitos por escavações francesas de entrar no seu país. O boicote se estendeu até a década de 1970.

Mesmo assim, o casal continuou trabalhando em campo. Os Dieulafoy se mudaram para a Espanha onde trabalharam em escavações de antigas cidades mouriscas em toda costa e no Marrocos. Esse trabalho resultou em importantes descobertas sobre a presença muçulmana na Península Ibérica e a influência árabe na arquitetura medieval, um conhecimento que permitiu a construção de Catedrais e Igrejas. De posse da sua fiel câmera, Jane visitou o Marrocos em 1914 e registrou movimentações de tropas da Grande Guerra, convertendo-se em uma das primeiras correspondentes internacionais.
    

Com a Guerra se espalhando pela Europa, Jane retornou para a França e discursou para mulheres incentivando-as para que ajudassem no esforço de guerra. Ela chegou a fazer campanha para que as forças armadas aceitassem mulheres em suas fileiras, mas suas ideias foram muito combatidas pelos comandantes militares que afirmavam categoricamente que "durante a guerra, as mulheres devem meramente esperar seus maridos retornarem". 

Marcel foi alistado em 1914 e enviado para o Marrocos. Jane, é claro, o acompanhou em sua viagem como Oficial do Corpo de Engenharia, vestida como um oficial francês. Na ocasião, os dois chegaram a receber permissão para conduzir escavações no Mosteiro de Hassan e no sentamento romano de Volubilis

Foi nessa época que Jane começou a demonstrar um cansaço cada vez maior. Alternando dias de trabalho na escavação e no hospital de campo tratando dos feridos, ela acabou contraído disenteria amebiana e teve de ser transferida para um hospital em Casablanca. Apesar de muito debilitada, ela insistiu em ficar no Marrocos ao menos até concluir seus trabalhos em Volubilis. Em 1916, Marcel decidiu levar a esposa de volta para a França para que ela pudesse se recuperar melhor. Se ela tivesse ficado de resguardo, talvez tivesse se recuperado, mas nem ela e nem Marcel conseguiram ficar longe do esforço de guerra. Os dois viajaram para o fronte afim de registrar em fotografias a vida dos soldados nas trincheiras. Quando retornou a Paris, Jane estava muito fraca, mas ainda resistiu por seis meses. Ela morreu no Hospital Militar de Pompertuzat nos braços de seu companheiro de aventuras aos 64 anos de idade.      

Seu enterro teve muita pompa e ela recebeu honras militares. Marcel deu a ela o crédito por várias descobertas arqueológicas e ela foi reconhecida como uma das maiores especialistas em história antiga da Pérsia.  Marcel viveu apenas mais oito meses. Os dois foram enterrados juntos no Cemitério de Peré-Lachaise.


Há muito que pode ser dito a respeito da vida de Jane Dieulafoy. Vários de seus diários, anotações, correspondência e fotografias sobreviveram e ajudaram a preservar sua história. Ela foi uma das mais competentes e intrépidas arqueólogas de seu tempo. A despeito de sua postura feminista, ela sempre defendeu alguns pontos conservadores, sendo contrária ao divórcio. Ela nunca abriu mão de seu sexo, à despeito de se vestir com roupas masculinas. Ela foi uma defensora ferrenha dos direitos das mulheres, instituindo premiações para mulheres escritoras e incentivando a produção literária feminina. Até o fim de sua vida, ela foi muito ativa, explorando e escavando.

Talvez a maior honra recebida tenha sido póstuma. Em seu funeral, sua contribuição foi reconhecida e ela foi comparada a Joana d'Arc pelos seus compatriotas. Na frente ocidental, os franceses fizeram uma salva de 21 tiros com canhões, que foi prontamente respondida pelos alemães em reconhecimento à vida de uma aventureira sem limites.