terça-feira, 1 de agosto de 2017

Providence #1 - Referências ocultas contidas na história de Alan Moore


Providence é a mais recente obra prima de Alan Moore.

Depois de um bom tempo ruminando entre obras menos iluminadas, o Mago Britânico dos Quadrinhos parece ter retomado a velha forma, produzindo um série de incrível qualidade e cheia de pequenos detalhes. Melhor de tudo, Providence é a respeito do Universo dos Mythos de Cthulhu, inclinando-se sobre a obra de H.P. Lovecraft de uma maneira notável, algo como nunca antes visto. 

Aliás, para ler a resenha feita por Renan Barcelos basta clicar no nome (Resenha Providence)

São tantas as referências ocultas e pequenos detalhes que resolvi fazer um pequeno guia contendo aquelas que encontrei escondidas aqui e ali. Mas é claro, devem haver muitas outras. 

Providence é impressionante. Praticamente em casa linha de texto e cada imagem (de Jacen Burrows), existe algum detalhe menor que se você piscar passa desapercebido. Um enorme cata-piolhos para os fãs mais hard-core de Lovecraft procurarem.

Tudo o que queríamos e esperávamos de Moore desde que ele havia derrapado feio em Neonomicon.

Como são muitas as referências, decidi dedicar um artigo para cada parte da série, com as referências encontradas. Se alguém encontrar outras é bem vindo a postar nos comentários e conforme for, vou incorporando ao texto.

Para se situar melhor vou usar a seguinte terminologia para facilitar:

"P" maiúsculo seguido de um número, se refere a "página" e o número desta.
"p." minúsculo seguido de um número, se refere a "painel" e a ordem dele de cima para baixo.
  
Antes de iniciar, nunca é demais lembrar que adiante teremos SPOILERS.


Sinopse: Nessa primeira edição, os fatos ocorrem em 5 de junho de 1919. Robert Bloch, um jornalista do Herald vaga por Manhattan em busca de uma história interessante, após uma breve conversa com seus colegas do jornal ele decide entrevistar o Dr. Alvarez que pode acrescentar informações a respeito de um misterioso livro de conteúdo esotérico. Ao mesmo tempo, Jonathan (Lillian) Russel, amante de Black comete suicídio.

Capa

O prédio que aparece na capa dessa primeira edição (e também da coleção que reúne os quatro primeiros exemplares de Providence no Brasil) é a morada do Dr. Alvarez, análogo do Dr. Muñoz no conto "Ar Frio" (Cool Air) de H.P. Lovecraft. 

De acordo com a Wikipedia, Lovecraft concebeu "Cool Air" durante sua infeliz estadia em Nova York, período em que ele escreveu três histórias de horror que se passavam na cidade. O prédio em questão é baseado em um prédio de apartamentos localizado na rua 317 Oeste com a Rua 14 onde George Kirk, um dos poucos amigos de Lovecraft em Nova York, viveu brevemente até 1925.

A luz azulada na janela é uma lembrança da máquina do Dr. Alvarez. O tom azul é muito propício já que invoca o frio.


Capa Interna

Um mapa da cidade de Providence, capital do Estado de Rhode Island. A importância dessa cidade (a cidade natal de HP Lovecraft) na história ainda não foi explicada. Lovecraft nasceu e viveu a maior parte de sua vida em Providence, ele se orgulhava de sua descendência a ponto de pedir para que a frase "Eu sou Providence" fosse gravada em sua lápide. O cemitério onde Lovecraft foi enterrado aparece de maneira bem distinta na parte superior do mapa - o Swan Point Cemetary.

P 1

p. 1 - As cartas foram escritas por Robert Black, o protagonista da série, foram endereçadas a Jonathan Russel, também conhecido como Lillian “Lily” Russell. As mãos que rasgam as cartas pertencem a Jonathan. 

Embora as cartas tenham a data de 12 de abril de 1919, o primeiro episódio de Providence tem lugar em 5 de junho de 1919 (ver P 30).

p. 1 a 4 - A página é construída para focar na altura dos olhos do leitor com uma visão do centro das cartas em cada cena. A medida que o zoom se afasta, o leitor consegue ver através do rasgo da carta como se ele fosse uma cortina se abrindo, dando início ao espetáculo.  

A aparição da fonte e da ponte revela que a paisagem que surge ao fundo é do Parque Bryant, na cidade de Nova York. De acordo com as anotações finais no livro, Russel e Black costumavam frequentar essa parte do parque onde fica uma biblioteca famosa na época.

p.4 - As palavras são de Ephraim Posey, que continuam na P 2. Posey descreve a relação da imprensa com o público, mas as palavras também se aplicam a situação de Russell descrita no painel através das imagens. Russell está desesperado pelo fim de seu relacionamento com Robert Black (a causa do rompimento pode ser vista na P 22, p. 2 e p. 4). Black figurativamente "jogou fora" o relacionamento que tinha com Russel e em contrapartida este está jogando fora as cartas escritas por Black. Os dois estavam "em uma posição de confiança" mas deixaram "tudo se esvair".

P 2

p 1 - A cena se abre no escritório da redação do New York Herald, um jornal que realmente existia na época em que se passa a história, ele foi fundado em 1835 e encerrou suas atividades em 1924.

Na primeira cena temos Ephraim Posey (esquerda), Prissy Turner (centro), Freddy Dix (centro-direita) e Robert Black (direita).

Aparentemente existe uma espécie de triângulo amoroso entre Dix que tem interesse em Turner, e Turner que sinaliza com interesse em Black.

O cabeçalho no texto na máquina de escrever diz "Será que o Tratado terminará em Problemas" (Will Treaty Spell Trouble), ele se refere ao Tratado de Versalhes (assinado em 28 de junho de 1919), que marcou o fim da Grande Guerra na Europa e deu início a uma série de pesadas sanções e obrigações para as nações derrotadas.

O texto é assinado por Robert Black. De acordo com uma entrevista de Alan Moore, Robert Black é o protagonista da série, um judeu gay. Robert Black ao que tudo indica é baseado em alguns personagens incluindo o fictício Robert Blake (que por sua vez é baseado no autor Robert Bloch) e no amigo de Lovecraft Samuel Loveman.

Robert Black, o protagonista de Providence
"Hearst" se refere a William Randolph Hearst, um magnata das comunicações do início do século conhecido por notícias sensacionalistas e por criar a chamada "imprensa marrom" , com exageros e rompantes para atrair os leitores e vender jornais. Em inglês, o termo para imprensa sensacionalista é "Yellow Page" (página amarela) que se refere a uma estratégia de venda de Hearst que imprimia a primeira página de seus jornais na cor amarela para chamar a atenção dos leitores. 

O título do capítulo "O Signo Amarelo" (que deveria ser "O Símbolo Amarelo") se refere ao Mito criado por Robert W. Chambers em seu livro O rei Amarelo (The King in Yellow - 1895), mais tarde adaptado como parte integrante dos Cthulhu Mythos por H. P. Lovecraft e outros. O Símbolo Amarelo é um glifo que torna a mente das pessoas suscetível ao controle e influência nefasta do Rei Amarelo. As histórias assinadas por Chambers pressupõem que o símbolo veio de uma dimensão alternativa onde existe uma velha cidade chamada Carcosa, que se torna o Lar do Rei Amarelo. 

P 3

"O Demônio de Jersey"  (The Jersey Devil) é parte do folclore americano com uma origem obscura. Ele ganhou popularidade no início do século XX, quando muitas pessoas afirmaram testemunhar sua existência O auge dos avistamentos ocorreu em 1909, atraindo a atenção da mídia e de vários jornais interessados em explorar a história.

Uma representação do Demônio de Jersey
p. 1 - "O livro que fez todo mundo enlouquecer" - Um importante aspecto dos tomos que relatam o conhecimento dos Mythos de Cthulhu é que a leitura desse material faz com que as pessoas enlouqueçam. No RPG Call of Cthulhu, por exemplo, ler os livros acaba deixando os personagens suscetíveis à verdade dos Mythos, causando sua rápida degeneração mental, que em termos de jogo é representado pela perda de "sanidade". 

No livro de Chambers, a peça "O Rei Amarelo", quando encenada causa uma reação imediata no público despertando uma onda de loucura irrefreável. É possível que tenha sido com base nessa noção, que Sandy Petersen (criador do RPG Call of Cthulhu) adotou o princípio de que a leitura ou a proximidade das obras literárias com conteúdo dos Mythos ocasiona a perda de sanidade. 

p. 2 -  "Sous le Monde" é uma frase em francês que significa "Sob o Mundo" (ou ainda "Escondido do Mundo"). Esse é um livro fictício criado por Moore e que serve como análogo da peça "O Rei Amarelo", também uma obra fictícia criada por Chambers. 

A frase pode ter sido "emprestada" do prefácio de Victor Hugo em "Odes et Ballades" (1822): 

"Sous le monde réel, il existe un monde idéal, qui se montre resplendissant à l’œil de ceux que des méditations graves ont accoutumés à voir dans les choses plus que les choses.” 

(Sob o Mundo existe o Mundo real, um mundo ideal, que se apresenta resplandecente aos olhos daqueles em séria meditação acostumados a ver nas coisas, mais do que apenas coisas.)

"Por volta dos oitenta" se refere ao período entre 1880 e 1890 marcado pelo Movimento Decadente na arte e literatura, particularmente na França e na Inglaterra, onde expoentes como Oscar Wilde criaram os Livros Amarelos que deu margem a criação do termo "Yellow Nineties."

Os Livros Amarelos em sua cor degenerada e doentia
[Sobre isso, Carlos Orsi, escreveu uma excelente Introdução no livro "O Rei de Amarelo" da Editora Intrinseca].

"Não, era um livro de verdade", mostra um certo grau de xenofobia a respeito de livros escritos em outro idioma além do inglês. Turner cita o título "Frei Amarelo" erroneamente, confundindo o "Souls le Monde" que em Providence é real, com a obra fictícia "O rei Amarelo" de Chambers já que aparentemente ambos causam o mesmo efeito enlouquecedor em seus leitores.

p. 3 - O Rei Amarelo (1895) é uma obra prima escrita por Robert W. Chambers. Ele apresenta uma série de contos interconectados que combinam fantasia, ficção científica, ficção experimental, e realismo baseados nas experiências de Chambers em Paris. Os trechos chave envolvem a peça "O Rei Amarelo". o Símbolo Amarelo, a localização da Cidade de Carcosa e do Lago de Hali que estão associadas intimamente a figura macabra do Rei como uma entidade divina. 

Ao escrever o livro, Chambers usou referências da obra de outro autor norte-americano Ambrose Bierce. O trabalho de Chambers teve grande influência sobre Lovecraft e foi assimilado para os Mythos de Cthulhu. Eles também influenciaram vários outros autores a utilizar os elementos de decadência em suas obras, sendo o uso mais recente e popular, o visto na série de Televisão True Detective.

P 4

Cool Air em quadrinhos
p. 1 - “DoutorAlvarez” é o equivalente em Providence do Dr. Muñoz criado por Lovecraft para o conto "Vento Frio" (Cool Air).

Rua 14 Oeste é o endereço do Dr. Muñoz em Vento Frio.

p. 2 - "Se a Providência assim permitir" – Uma brincadeira de Moore com o título da série. Prissy fica chateada com a brincadeira de Dix a respeito de Black planejar escrever um romance. Na época autores ansiavam por escrever grandes romances pois estes eram respeitados por essa realização. Lovecraft ansiava por escrever um romance, mas jamais conseguiu escrever algo nesse sentido.

p. 3 - "aparentemente alguns leitores perderam o juízo e até cometeram suicídio" – Uma referência direta a primeira história da coleção O Rei Amarelo chamada "O Reparador de Reputações" ("The Repairer of Reputations.")

Segundo a história o conteúdo blasfemo do livro se espalha a medida que as pessoas leem seu conteúdo, de cidade para cidade, de continente para continente. Os volumes do livro são confiscados pelas autoridades e destruídos, taxados como literatura anarquista.

p.4 - "Calafrios" (no original "Ghoulish") é um dos adjetivos preferidos usados por Lovecraft em suas estórias para se referir a situações medonhas. Também se refere diretamente ao que Black irá encontrar ao visitar o Dr. Alvares. 

P 5

p. 2 - A história retorna para Russel que segue pelo parque Bryant se dirigindo para um jardim onde se localiza uma Câmara Letal onde são realizados Suicídios com a ajuda de funcionários públicos. Essas câmaras letais, jamais existiram no mundo real, sendo citadas na história de Chambers "The Repairer of Reputations". Lá elas são descritas da seguinte forma:

"Pelo que me lembro era 13 de abril de 1920, quando inauguraram a primeira Câmara Letal do governo ao sul da Washington Square, entre a Wooster Street e a Quinta Avenida. O quarteirão antes formado por vários prédios velhos e decrépitos, usados como cafés e restaurantes por estrangeiros tinha sido adquirido pelo governo no inverno de 1898. (...) No centro do jardim, havia uma pequena construção branca, de arquitetura clássica e austera, cercada por arbustos densos e floridos. Seis colunas iônicas sustentavam o teto, e sua única porta era feita de bronze. Diante da entrada, havia um grupo esplêndido de estátuas em mármore das parcas, obra de um jovem escultor americano, Boris Yvain, que morrera em Paris com apenas 23 anos"

A Câmara Letal imaginada por Chambers
Os painéis nessa página mostram exatamente esse prédio detalhado nos mínimos detalhes.

p.2, p.3 e p.4 - Podemos ver uma borboleta branca voando a medida que Russel se aproxima do prédio.

P 6

p. 2 - Ao longo da série, as ilustrações em sépia se referem a flashbacks.

A imagem mostra o jovem Robert Black sentado à mesa com seus pais em Milwaukee.

"Casado com uma bela garota" - Os pais de Robert acreditam erroneamente que ele é heterosexual.

A ênfase em estabelecer uma carreira como médico aponta para uma tradicional ocupação de judeus no início do século.

P 7

p. 2 - O personagem Charles, assim como Black, também é gay e sabe a respeito de seu relacionamento secreto com Lillian (Jonathan) Russell. Nomes falsos, de mulheres no caso de homens, eram usados pelos homossexuais da época para não causar estranheza caso alguma pessoa ouvisse a conversa entre eles.

p. 3 - Vera é aparentemente o nome adotado pelo interesse romântico de Charles. 

O personagem adota várias gírias usadas pelos gays dos anos 1920.

P 8

p. 3 - na esquerda do painél é possível ver uma concentração de pessoas da Liga da Temperança e um cartaz onde se lê – "Bebida, o Demônio que assombra a América". Membros dessa liga conseguiram estabelecer uma Lei que levou a Proibição de Bebidas Alcoólicas em boa parte do país. A Lei Seca, como ficou conhecida deu início a um período conturbado em que o Crime se organizou e criminosos concentraram enormes fortunas baseadas no contrabando de bebidas.
A Bebida degenera e destrói a humanidade
P 9

Black circula pelas ruas de Manhattan enquanto se dirige para o prédio do Dr. Alvarez, no caminho ele vai lembrando de alguns acontecimentos de seu passado recente.

p. 1 - Johnathan Russell (visto na P1 e P5) aparece aqui pela primeira vez em um flashback lembrado por Robert.

"Ariston" – A Casa de Banhos Ariston, embaixo do Hotel de mesmo nome era um local de encontros para gays em Nova York. Houve uma batida no local em 1903, organizada por policiais membros de um movimento anti-gay.

p. 2 - A esquina mostrada no painel era uma popular área da comunidade gay enrustida de Nova York, considerada um santuário por oferecer certo grau de tolerância. É provável que as mulheres vistas nessa imagem, sejam homens trajando vestidos, o que era considerado comum nessa pate da cidade.

p. 3 - Black verifica os livros na estante e cita o nome de alguns autores:

"Swinburne" é Algernon Charles Swinburne, um poeta britânico.

"De l’Isle Adam" é uma obra de Auguste Villiers, um simbolista francês cuja coleção "Contes cruels" (Contos Cruéis - 1883) deu nome a um gênero de ficção de horror.

"Eu serei Venus, e você será Tannhäuser" – Uma referência a novela erótica de Aubrey Beardsley, "A História de Vênus e Tannhäuser" (1907). Beardsley era um infame artista dos Yellow Nineties, associado de Oscar Wilde e Arthur Machen.

P 10

Black chega ao prédio do Dr. Muñoz. Percebe-se as janelas abertas na época do ano, verão, exceto as habitadas pelo Dr. Muñoz que estão fechadas para conservar o ar frio do aparelho de ar-condicionado. 

P 11

p. 2 - Primeira aparição da Sra. Ortega, o equivalente de Providence a locatária espanhola, a Sra. Herrero do conto "Vento Frio".

P 12

Curta metragem de Cool Air (Vento Frio)
p. 1 - Primeira aparição do Dr. Alvarez, o equivalente ao Dr. Muñoz do conto "Vento Frio"

p. 2 - É possível perceber o contraste da pele de Black e Alvarez. Black, que normalmente é bastante pálido em comparação aos demais personagens na cena da redação do jornal, parece perfeitamente saudável quando comparado ao Dr. Alvarez (cuja pele é cinzenta).

p. 3 - O frio no prédio, a doença do Dr. Alvarez, e o cheiro persistente de amônia, supostamente do sistema de refrigeração fazem referência direta ao conto "Vento Frio".

Black deixa escapar uma fumaça causada pela condensação de seu hálito no ar, quando o Dr. Alvarez fala entretanto, não há fumaça visível.

P 13

p. 1 - "Claude Guillot" é um autor fictício criado por Moore. Guillot parece ser uma brincadeira com a palavra Guilhotina. 

Há vários quadros espalhados pelo aposento, inclusive um com um coração em destaque. Isso representa o histórico médico do personagem.

p. 2 - No conto Vento Frio, Lovecraft não faz qualquer insinuação de que Muñoz e a Sra. Herrero poderiam ter uma ligação amorosa. Moore deixa bastante claro a situação quando Alvarez se abaixa para pegar uma peça de roupa feminina caída no chão.

Na esquerda é possível ver uma série de compostos químicos usados pelo médico.

p. 3  - "Sfarda" é uma referência a Judeus Sefárdicos, uma etnia antiga na Espanha.

P 14

A cena é cortada abruptamente retornando ao personagem de Jonathan/Lillian Russell.

Fonógrafo dos anos 1920
O fonógrafo é um antigo reprodutor sonoro usado para tocar discos em vinil. Neste período os fonógrafos ainda eram mecânicos (por isso a alavanca giratória), eles tocavam a uma velocidade de 78 RPM.

O disco escolhido por Russel é a música Pullman Porter’s Parade, cantada por Al Jolson.

P 15

p. 3 - "Vento Frio" menciona o interesse do Dr. Muñoz por livros antigos e preciosos: "O pouco convencional e fantástico se apresentavam em volumes antigos nas prateleiras".

"Kitab Al-Hikmah Al-Najmiyya" é árabe para "Livro da Sabedoria das Estrelas".

Esse livro é o equivalente em Providence ao Necronomicon de Lovecraft.

Muitos livros árabes dedicados a alquimia, filosofia, medicina e ocultismo chegaram a Europa durante a Idade Média e foram assimilados pelos acadêmicos europeus formando a base de seu conhecimento. O Necronomicon tem como base mais antiga um tratado em árabe chamado Al Azif (algumas vezes referido como Kitab Al-Azif).

p. 4 - "Khalid Ibn Yazid" é o equivalente de Moore para "o árabe louco" Abdul Alhazred autor do tenebroso Necronomicon.

P 16

p. 1 - "Dr. Estes" é a contraparte do Dr. Torres em "Vento Frio".

"Reviver os Cadáveres" é uma referência clara a "Herbert West—Reanimator".

"O Transplante de Almas" por sua vez se refere a A Coisa na Soleira da Porta ("The Thing on the Doorstep").

As demais maneiras de reviver os mortos são apresentadas no próximo capítulo.

p. 2 - "Sr. Suydam de Flatbush" é uma referência a Robert Suydam do conto de Lovecraft "O Horror em Red Hook", personagem que é apresentado no volume 2 de Providence.

p. 3 - "O Reparador de Reputações" faz parte do ciclo do Rei Amarelo e se passa em uma realidade alternativa numa Nova York em 1920, onde Câmaras de Suicídio são legalizadas e onde uma Guerra contra a Alemanha terminou tendo os Estados Unidos como vencedores. Isso reforça a possibilidade de que Providence se passe em um mundo idealizado por Chambers e não em nosso mundo real. 

p. 4 - O Jornal de Black, o New York Herald enviou o reporter Henry Morton Stanley em uma viagem pela África para encontrar o Dr. David Livingstone em 1869; em 1871, Stanley teve sucesso em sua empreitada.

P 17

p. 2 - As falas de Alvarez deixam claro a natureza peculiar de seus experimentos e dos procedimentos estranhos realizados para manter sua existência. O trecho final em que ele comenta "A Vida não me importuna", deixa claro que sua condição atual é de fato "a morte".

p. 4 -  “…ela é uma terra afundada há muitas braças de profundidade" - parece uma clara referência a Ilha afundada de R’lyeh, onde Cthulhu dormes.

P 18

De volta a Câmara Letal o atendente público espera pelo efeito do veneno se dissipar e ele poder constatar a morte da pessoa no interior.

p.1 - À esquerda, é possível ver o aparelho que bombeia gás venenoso para o interior da sala e uma seleção de discos de vinil.

p. 4 - O painel reproduz a câmara do suicídio mostrada na P 5, p. 2-4. Parece claro que já está escurecendo. A borboleta branca vista anteriormente aparece caída no chão.

P 19

p. 4 - "Eu cairia aos pedaços" descreve como se dá a morte do Dr. Muñoz no final de "Vento Frio."

Revista Terre di Confine - A tragédia do Dr. Muñoz
"Nossa prosa foi muito vívida" é uma forma irônica de descrever, já que Alvarez está morto.

P 20

p. 1 - Black olha para sua mão depois de cumprimentar o Dr. Alvarez, provavelmente por ela estar fria pelo contato. 

p. 4 -  "O dia em que eu for conscientemente desonesto com uma matéria será o dia em que desistirei do jornalismo" é uma profecia da mentira que Black está prestes a contar a respeito do suicídio de Russel.


P 21


A medida que retorna para o Jornal, Black começa a se lembrar dos fatos a respeito de seu rompimento com Jonathan/Lillian Russell.

As duas cenas de flashback são interessantes mostrando Russel publicamente e em uma esfera pessoal acompanhado de Black. As unhas na segunda imagem estão pintadas, mostrando que na intimidade ele assume  apostura feminina, enquanto que no primeiro flashback no restaurante suas unhas estão limpas como um cavalheiro deveria mantê-las. 

P 22

Black finalmente chega ao Jornal The Herald (O Arauto). O nome do jornal terá grande importância no decorrer da trama, sendo uma sacada genial confundir seu nome com a provável condição de Black como Arauto/Mensageiro.

p. 1 - A fachada do prédio, com estátuas de Minerva e suas corujas com olhos elétricos. O prédio foi demolido em 1921 fica na 6th Avenue com a Broadway, onde hoje existe a Herald Square.

A fachada do Herald em Nova York em 1908
P 23

p. 1 - Dix e Posey estão discutindo o sucesso do Movimento de Temperança que pede a Proibição do álcool. 

p. 2 - "The Bowery" é uma vizinhança decadente de Manhattan, associada ao declínio urbano e presença de imigrantes. Lovecraft tinha rejeição por tudo que vinha do Bowery e em especial pelos seus moradores, em sua maioria imigrantes.

P 24

p. 4 - Robert de costas para seus colegas não consegue acreditar no destino de Russel. Sem saber do significado da notícia para seu colega, eles continuam falando a respeito.

P 25

p. 1 - "não tinha problemas com mulheres" deixa claro que a verdade a respeito de Russel era desconhecida pela sociedade em geral que o considerava um heterosexual. A notícia de seu suicídio soa estranha para todos que o desconhecem. 

p. 2 a 4 - Os painéis mostram a expressão de Black diante da notícia e a maneira como ele tenta se controlar diante da notícia da morte de seu amante.

No fim Black reconhece que o suicídio poderia ter sido causado pela leitura do "Sous Le Monde" uma mentira conveniente que mascara o real motivo para ele ter praticado o suicídio.

P 26

p. 1 - A Sra. Ortega retorna para o apartamento conforme havia sido requisitado pelo Dr. Alvarez. A relação amorosa entre o homem morto e a locatária espanhola sem dúvida deixaria Lovecraft incomodado, sobretudo para seus padrões puritanos. 

P 27

Lovecraft mantinha vários desses pequenos livros de notas para registrar suas ideias que poderiam ser convertidas em material para suas histórias. August Derleth teve acesso a vários desses livros após a morte de Lovecraft, e os utilizou como base para vários contos póstumos feitos em "colaboração".

P 28

O ex-libris mostra a figura do Deus grego Hermes, diante de um caduceu. Hermes era o responsável por levar as mensagens para os deuses – a semelhança dos jornalistas – ele também foi considerado o patrono da Magia Ocidental agindo como elemento sincrético do Deus Egípcio Thoth na forma de Hermes Trismegistus.

Os números em romanos "MCMXIX" se traduzem em "1919." O ano em que se passa a história.

P 29

Anotação no Livro de Notas de Black

A caligrafia é a mesma que vimos nas cartas rasgadas na primeira página, evidenciando que se tratam de anotações feitas por Robert Black.

A data é 5 de junho de 1919, o que coloca as anotações algumas semanas antes do início da história, o que pode ser um erro ou significar que Black escreveu a data, colocou o livro de lado e só depois deu início a sua escrita. 

"O grande Jack London" se refere ao famoso autor americano Jack London, cujos trabalhos tiveram enorme influência sobre H. P. Lovecraft e Robert E. Howard.

P 30

"...tudo isso após eu casualmente ter mencionado ambos os livros, em algum momento lá na Primavera , enquanto ela ficava de pé, catando fiapos imaginários no meu ombro e fingindo estar ouvindo o que eu dizia na ocasião". A hostilidade de Black para com Prissy Turner deixa claro so pouco interesse que ele tem na sua colega de trabalho que lhe dispensa atenções e por ele parece nutrir algum sentimento romântico. 


P 31

"Sr. Valdemar de Poe" se refere ao conto de 1845 assinado por  Edgar Allan Poe "Fatos sobre o Caso do Sr. Valdemar" (The Facts in the Case of M. Valdemar). Na história, um homem é hipnotizado para sobreviver após sua morte, o conto segundo Lovecraft foi a maior influência para "Cool Air."

P 32

"metáfora para o assunto que eu realmente desejo abordar" – Nesse ponto Moore, demonstra qual a real intenção de Providence, ele usa o cenário dos Mythos de Cthulhu para escrever a respeito de diferentes formas de preconceito, seja este social, racial, religioso e sexual, sob o verniz de contar uma história de horror lovecraftiano.

*     *     *

Pessoal, esse foi apenas o primeiro episódio.

Providence está sendo editado no Brasil pela Panini Books e o primeiro exemplar contém as quatro primeiras partes. A série tem um total de 12 edições.

Fiquem conosco para a continuação.

2 comentários:

  1. Eu li a serie toda.

    Pra quem curto curiosidade recomendo tb acompanhar o blog Gibiscuits

    http://gibiscuits.blogspot.com.br/search/label/Providence

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  2. Ótimo artigo como sempre (embora eu tenha lido apenas a introdução kkk). Estou esperando a chegada do meu exemplar. Depois de ler quero verificar quantas referências captei e quantos "pontos" que fiz na lista.

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