domingo, 10 de dezembro de 2017

O Envenenador de Mattoon - Os ataques de um maníaco desconhecido


De uma forma semelhante ao enigma de Jack, o estripador que assombra Londres até os dias atuais, um mistério igualmente instigante surpreendeu os residentes do estado de Illinois, nos Estados Unidos.

A pequena cidade rural de Mattoon foi o palco de acontecimentos bizarros que permanecem sem uma explicação satisfatória passados mais de 70 anos. No ano de 1944 um personagem sombrio aterrorizou a população, infectando casas com uma nuvem de vapor mortal, até desaparecer sem deixar vestígio tão rápido quanto surgiu. Essa figura nefasta ficou conhecida como "O Envenenador Louco de Mattoon", um maníaco que atacava sem aviso e que deixava um rastro de pânico e terror.

A história do Envenenador Louco de Mattoon - também conhecido como "Químico Louco", começa na pequena comunidade rural de Mattoon, Illinois no ano de 1944. Entre as datas de 31 de agosto e 13 de setembro. Segundo os relatos, um sujeito magro, vestido com roupa de borracha e máscara de gás espalhou um reinado de terror e provocou uma série de ataques com gás. Embora a polícia e o FBI tenham tentado refutar a coisa toda como um caso clássico de histeria coletiva, as evidências comprovam que nesse período, uma pessoa não identificada conseguiu se infiltrar na casa de cidadãos locais e disseminou uma substância venenosa - por meios ainda desconhecidos, para incapacitar e ferir inocentes.

Desde o fatídico ano, debates acalorados discutiram a verdadeira identidade do maníaco. Alguns especularam que o Envenenador poderia ser um Cientista maluco, enquanto outros sugeriram que ele fosse um agente do governo testando uma nova e devastadora arma. Outros ainda, teorizavam que ele podia ser um veterano da Grande Guerra, horrivelmente deformado pelos gases lançados nas trincheiras durante o conflito no início do século. Havia ainda a teoria de que os ataques seriam coordenados por um grupo de delinquentes juvenis que teriam colocado as suas mãos em material insalubre abandonado. É claro, havia ainda a teoria de que os incidentes eram parte de uma invasão alienígena e que extraterrestres estariam usando o gás para realizar algum tipo de experimento em seres humanos.


Seja qual for a origem desse enigmático criminoso, os fatos a cerca dessa terrível série de eventos em Mattoon se tornaram assunto para muita discussão e paranoia, sobretudo porque indícios sugerem que ocorrências muito semelhantes teriam ocorrido nos Estados da Florida e Virgínia cerca de 10 anos antes de Mattoon ser vítima de um estado de desespero.

A primeira sequência de eventos teve lugar na área rural do condado de Botetourt, Virginia. Um homem chamado Cal Huffman junto com sua esposa, seis crianças e um amigo da família relataram terem sido vítimas de um estranho ataque nunca até então reportado nos Estados Unidos. 

De acordo com o testemunho dos Huffman, por volta das 10 horas da noite, um vapor não identificado de coloração amarelada encheu a casa deixando a Sra. Huffman imediatamente nauseada. Ela se retirou para o quarto, junto com três crianças que também começavam a sentir os efeitos da forte náusea. Enquanto isso, seu marido saiu para ver de onde vinha aquele cheiro desagradável que empesteava o ar. Ele percebeu a presença de uma figura vestida de preto e com uma máscara de gás escondendo suas feições. O sujeito escapou correndo e sumiu na noite.

Cerca de uma hora depois, Cal descobriu que a casa estava sob ataque uma vez mais. O vapor amarelado estava se insinuando novamente pela casa, provocando uma reação alérgica nas crianças que vomitavam sem parar. Cal não encontrou o sujeito novamente, mesmo revistando a área armado com uma espingarda. Ele, no entanto, se ocupou de retirar a mulher e os filhos da casa e levá-los para a cidade mais próxima. De lá, seguiu de volta acompanhado com a polícia que revistou o local, encontrando indícios de que a casa havia sido fumegada uma terceira vez - já que a concentração de vapor era ainda maior quando retornaram.

Um dos retratos falados da misteriosa figura de preto
Uma das filhas de Cal, Alice de 19 anos perdeu os sentidos no hospital e outras duas crianças sofreram efeitos alérgicos derivados da substância que inalaram. Todos receberam cuidados médicos após o incidente. Os membros da família Huffman sofreram de náusea, dores de cabeça e dores de garganta causadas pela inalação do gás venenoso. Cal foi incapaz de descrever o responsável pelo ataque, mencionando apenas que ele estava vestido dos pés à cabeça com uma roupa de borracha e tinha uma máscara de gás cobrindo o rosto.  

O Dr. W.N. Breckinridge foi trazido pela polícia para ajudar na identificação do gás que foi usado para incapacitar a Família Huffman. Durante o curso da investigação, o Dr. Breckinridge descartou que se tratasse de gás lacrimogêneo ou derivado de clorofórmio, mas não foi capaz de determinar a verdadeira origem do vapor tóxico. De fato, a única pista deixada na cena do ataque foi a pegada de um sapato feminino descoberta sob a janela de onde o gás teria sido aspergido no interior da casa.

O ataque seguinte ocorreu em Cloverdale - que é um Condado vizinho de Botetourt, palco do primeiro incidente. O episódio também teve lugar à noite, na véspera do Natal, quando Clarence Hall, sua esposa e dois filhos retornavam da igreja. Momentos depois de entrar em casa, a Família Hall percebeu um estranho odor pendendo no ar.

Clarence inspecionou a casa e minutos depois começou a sentir os efeitos da névoa amarelada. Quase perdendo a consciência, descobriu que a fonte do vapor nauseante era o porão da casa que havia sido arrombado. Alguém aparentemente havia aspergido a nuvem de vapor tóxico através do porão para dentro da residência. 

A polícia e o Dr. Breckinridge foram novamente chamados para revistar a cena do bizarro e aparentemente sem motivo "ataque de gás", mas quando finalmente chegaram ao local, o vapor já havia se dissipado. O médico atestou que o odor nessa ocasião era sensivelmente diferente e que ao contrário do outro tinha um tom "adocicado", possivelmente um derivado de formaldeído. Infelizmente o distinto químico não foi capaz de discernir do que se tratava a substância. Nenhuma pegada ou pista foi encontrada na entrada do porão, mas um dos oficiais descobriu uma madeira que havia sido usada para arrombar a tranca e permitir o acesso.

"População da Virgínia aterrorizada pelo lançador de Gás que foge na noite depois de fazer vítimas"
Hall enviou sua família para a casa de amigos e recrutou um bando de vizinhos para ficar de guarda o restante da noite procurando por sinais do criminoso. Um dos vizinhos de Hall, um homem chamado Emmett Lee, estava convencido de ter ouvido estranhos sons perto da casa atacada. Ele afirmou ter ouvido um ruído estranho, como uma respiração forçada, o que poderia ser condizente com o uso de uma máscara de gás.

Três dias depois, o Envenenador agiu novamente dispersando uma nuvem de vapor tóxico na casa de 
A.L. Kelly e de sua mãe em Troutville. Dessa vez testemunhas oculares foram capazes de ver uma figura aterrorizante andando pelo local. Kelly percebeu o cheiro e foi até uma janela de onde conseguiu ver uma figura vestida de preto dos pés a cabeça e usando uma máscara andando pelo seu quintal. Ele tinha nas mãos um estranho tubo de onde saía o vapor, este estava conectado por uma mangueira a uma espécie de mochila metálica que ele trazia nas costas. Quando Kelly fez menção de gritar, o homem percebeu sua presença e sacou uma espingarda de cano cortado de dentro de sua capa. A mulher se abaixou e correu para apanhar a mãe e se refugiar em um quarto onde o fedor nocivo não era tão severo. 

Ela contou que o vapor continuou sendo disseminado para dentro da casa por mais 30 minutos. Depois disso, ela ouviu o som de um caminhão sendo ligado e se afastando. Imaginando que fosse o envenenador, ela correu com a mãe para o lado de fora e procurou ajuda de vizinhos. O ataque deixou a mãe de Kelly, uma senhora de 70 anos com sequelas permanentes para respirar.

Após esse ataque, o pânico se espalhou pelas pequenas comunidades como fogo em palheiro e a mídia local ficou em frenesi, publicando todo tipo de especulação a respeito dos ataques e da origem do criminoso chamado de "Invasor do Gás Anestésico", em face de uma declaração de um químico de que o gás usado dessa vez fosse um anestésico usado por veterinários. Pais começaram a ficar alertas para qualquer movimento suspeito na calada da noite, armados com espingardas nas janelas ou alpendres. Mães colocavam algodão nas fechaduras e restos de tecido sob o vão das portas para evitar qualquer acesso do maníaco envenenador. O pânico estava em todo canto e os cidadãos cobravam providências imediatas por parte das autoridades.

Uma das representações ais conhecidas do Envenenador Louco
Uma quantia substancial de 500 dólares foi oferecida para qualquer um que fornecesse informações que levassem à captura do monstro. Mas ninguém sabia de nada!

O Envenenador ficou quieto por cerca de duas semanas quando resolveu atacar novamente. Homer Hylton estava acordado quando ele e a esposa começaram a sentir um estranho odor e ouviram um som seco e em seguida gritos. O barulho vinha do quarto de suas filhas de 10 e 14 anos. Hylton correu para lá e encontrou a menina mais velha gritando enquanto a outra se sacudia incontrolavelmente na cama, revirando os olhos e com espuma escorrendo da boca. Ela estava sofrendo um ataque alérgico que causava convulsões. O cheiro nauseante estava ainda mais forte no andar de baixo da casa.

Hylton apanhou a menina nos braços e correu para o lado de fora para que ela pudesse tomar ar fresco. Mas assim que abriu a porta foi saudado por um disparo de espingarda que passou sobre a sua cabeça. Ele se jogou no chão e mais dois disparos se fizeram ouvir. Diante disso, ele teve que retornar para o interior. A família se refugiou no quarto do casal, o único que tinha fechadura e lá improvisaram proteções para suportar o cheiro que se tornava quase insuportável. Mais dois tiros despedaçaram janelas e fizeram com que todos se protegessem em baixo da cama aterrorizados com o ataque.

Felizmente, o criminoso partiu em seguida quando vizinhos chamaram a polícia após ouvir os disparos. Uma viatura chegou rapidamente, mas não descobriu nada a não ser um pequeno buraco em uma janela que o maníaco usou para enfiar a mangueira e dispersa o vapor no interior da casa.

A escalada de violência nos ataques serviram para aumentar ainda mais o grau de paranoia na região. Um veterano da Grande Guerra que havia combatido nas trincheiras da França foi apontado como um suspeito, sobretudo pelo fato dele ter sido vítima de ataque de armas químicas que desfiguraram parte de seu rosto. O homem, tido com um fazendeiro amargo e violento, chegou a ser interrogado, mas provou ter um álibi para os dias dos ataques. Uma família de agricultores que havia comprado veneno para sua plantação também foi questionado, mas nada contra eles foi descoberto.

Em 21 de janeiro um ataque do Envenenador foi frustrado quando um vizinho percebeu uma estranha movimentação na calada da noite. Vendo que se tratava de um estranho tentando abrir uma janela, ele gritou e deu vários tiros para o ar com sua pistola, o homem vestido de preto se afastou correndo. Perto da janela, foi encontrado um tubo de borracha tipicamente usado em equipamento de dispersão de veneno agrícola.

Mais duas semanas se passaram e um novo ataque ocorreu em uma casa vazia que foi inundada com gás venenoso. A concentração era tão forte que a polícia teve dificuldades em entrar na cena do crime para verificar se não havia ninguém no lugar. Felizmente, os moradores estavam fora visitando um parente. Um químico foi chamado para revistar a casa e ele determinou que o gás usado no ataque era uma variante de um gás usado para plantações com acréscimo de componentes tóxicos. Na opinião dele não havia dúvidas de que o Envenenador tinha conhecimentos básicos sobre química e a respeito de manipulação de substâncias tóxicas, que ele estava tentando potencializar. Segundo o químico, a substância tinha potencial de matar se respirada por um período de pelo menos uma hora. Ele determinou ainda que o maníaco estava tentando manipular o composto e dirimir o odor para que ele passasse indetectável em uma flagrante intenção de matar.

A esse ponto, os jornais locais estampavam a manchete "Moradores da Virgínia aterrorizados com os Ataques do Envevenador que foge na noite depois de fazer vítimas", o New York Times chegou a publicar uma matéria completa a respeito dos incidentes que ganharam a curiosidade e atenção pública. 

Cerca de um mês se passou até que o criminoso agisse novamente, dessa vez usando o gás modificado para atingir uma família de Cloverdale que teve muita sorte. O gás foi dispersado através do porão da casa por uma fresta, mas os residentes perceberam que seu cão de estimação começou a se comportar de maneira estranhar. Perceberam então que a casa estava sob ataque de gás e que este não parecia ser facilmente percebido uma vez que era incolor e inodoro. Um vizinho percebeu um caminhão Ford estacionado perto da casa e esse se afastou em disparada, dirigido por um sujeito magro de cabelos pretos e olhar nervoso. Um retrato falado do motorista foi feito, mas o sujeito não foi reconhecido por ninguém.

Curiosamente depois desse caso, o Envenenador parou abruptamente de atacar na Virgínia. Talvez temendo a aprovação de uma nova lei que equiparava ataques com gás a atentados com explosivos, estipulando punição capital em caso de vítimas fatais.

Por cerca de um ano ninguém ouviu falar a respeito de ataques com gás venenoso, até que a Flórida se tornasse a próxima escala do Envenenador Maluco. Um respeitado biólogo chamado Loren Coleman residente da comunidade de Lake County foi a primeira vítima. Um tipo de vapor com coloração azulada foi dispersado no interior de sua casa através da janela na calada da noite. Coleman acordou sufocando e foi capaz de chegar ao telefone e pedir ajuda à polícia. Felizmente as autoridades chegaram e arrombaram a porta encontrando o biólogo caído ao lado da mesa de onde havia feito a ligação que salvou sua vida.

O tipo de máscara usada pelo maníaco
A concentração de vapor venenoso na casa era intensa, uma mistura de enxofre e cianeto, dois componentes comuns em pesticidas agrícolas, usados em fazendas e plantações. Coleman foi internado em um hospital e sobreviveu, apesar de ter ficado com sequelas no sistema respiratório. O caso trouxe a tona suspeitas de que o Envenenador da Virgínia poderia ter migrado para a Flórida.

As suspeitas se confirmaram quando mais quatro residencias os arredores de Lake County foram atacadas pelo maníaco. O modus operandi era sempre o mesmo, o maníaco usava janelas, portas encostadas e frestas para dispersar a substância que foi finalmente identificada - um derivado de agrotóxicos à base de cianeto, mas modificado para que se tornasse incolor e inodoro. Os especialistas atestaram que apenas alguém com conhecimentos de química poderia criar a fórmula.

Uma descrição do atacante foi feita por uma testemunha que viu o movimento do criminoso em um ataque: um homem de 1,80, esguio, vestindo uma capa preta e uma máscara de borracha que escondia seu rosto totalmente. A máscara era uma peça militar, usada na época da Grande Guerra para proteção pessoal, o que aumentou a suspeita de que o maníaco fosse um veterano. Ele respirava lentamente produzindo um ruído roufenho e elaborado como se sofresse de algum problema respiratório. Mais importante, em uma das cenas de ataque a polícia encontrou uma lata de pesticida que havia sido usada para misturar o componente disseminado numa fazenda.    

Após um total de seis ataques afortunadamente sem vítimas, o insidioso Envenenador resolveu desaparecer uma vez mais.

E isso nos leva a Mattoon, uma pequena comunidade rural localizada na parte Central de Illinois. Os estranhos eventos ocorreram em 1944 e foram bastante significativos deixando um profundo trauma entre os residentes. A forma como ocorreram os ataques levou muitas pessoas a suspeitar que o Envenenador Louco estaria envolvido, uma vez que o sistema usado por ele era incrivelmente similar, além da fórmula e concentração usada.

"Envenenador acrescenta mais seis vítimas!"
Os incidentes tiveram início com um ataque ocorrido nas primeiras horas da madrugada em 31 de agosto de 1944. Um homem de Mattoon foi acordado de um sono profundo reclamando com sua esposa que se sentia sufocado. Ele perguntou a ela se o gás da cozinha havia sido deixado aberto, pois conhecia os sintomas de exposição a gás. A mulher tentou levantar da cama mas imediatamente sentiu uma vertigem e quase perdeu a consciência. Ao abrir a janela o casal percebeu um homem parado no quintal em frente, vestia uma capa preta e máscara de gás e tinha nas mãos uma pistola de dispersão de gás conectado a uma mochila.

O homem ficou observando por alguns instantes e então se afastou calmamente apesar dos gritos do casal.
   
Na noite seguinte, uma mulher chamada Bert Kearney acordou sentindo um odor peculiar em seu quarto. O odor era adocicado e se tornava cada vez mais intenso na cozinha de onde emanava a ponta de um dispersor de gás. Bert percebeu a presença de um homem de preto e mascarado que tinha nas mãos uma espingarda que apontou para a mulher. Ela foi até o telefone e pediu socorro, mas quando a polícia chegou não encontrou sinal do maníaco. Kearney sofreu ferimentos graves nos lábios e na garganta e o gás foi identificado como um derivado de pesticida a base de enxofre e cianeto modificado para se tornar inodoro. A mulher ficou hospitalizada por três semanas e quando liberada apresentava problemas permanentes no sistema respiratório. 

Duas noites depois, o maníaco fez outro ataque, uma das casas vizinhas de Kearney foi fumegada pelo Envenenador que lançou uma cortina de fumaça sobre a casa habitada por uma família de 7 pessoas. Duas crianças sofreram queimaduras intensas na garganta e a esposa passou a sofrer de crises constantes. O maníaco acessou a casa através de uma fresta na porta que dava acesso ao porão, em um ataque extremamente parecido com os realizados na Virgínia. 

A histeria com o Envenenador Louco de Mattoon, como o maníaco ficou conhecido, só aumentou nas semanas seguintes quando mais duas casas vazias, foram fumegadas com uma mistura de gás pesticida. A história foi mau trabalhada pelas autoridades e jornais locais que reportaram os ataques de maneira amplamente sensacionalista. Anos mais tarde, os jornalistas envolvidos nas reportagens seriam acusados de contribuir para a criação da histeria ao redor do caso. Segundo alguns, as matérias inflamaram vários incidentes imaginários que acabaram eliminando evidencias e prejudicando ainda mais as investigações. Para se ter uma ideia do estado de pânico que acometeu a cidade, em apenas um dia houve cinco denúncias de ataques do Envenenador sendo em que nenhum deles ficou provada sua ação.

Na manhã do dia 5 de setembro, o Departamento de polícia recebeu mais quatro informes falsos de ataque. Mais grave, a polícia foi chamada para apartar um linchamento por parte de vigilantes que capturaram um suspeito dos ataques. O homem foi surrado e agredido apenas porque um comerciante local lembrou de ter vendido a ele uma lata de pesticida agrícola. 

"Matton arrepiada pelos Ataques com Gás"
Apesar de todo pânico e vigilância, o Envenenador agiu mais uma vez, deixando dessa vez pistas. Estas foram achadas na propriedade de Carl e Beulah Cordes. A família retornou para casa e detectou imediatamente um odor distinto vindo da cozinha. Em minutos perceberam que algo estava errado e que haviam sido atacados. A polícia foi chamada e revistando o local encontrou um tubo de batom contendo uma chave mestra caída no gramado. O objeto provavelmente estava sendo usado para abrir a porta dos fundos e foi largado quando a família chegou. Encontraram ainda um pedaço de pano embebido no que parecia ser a substância usada pelo envenenador, possivelmente ela havia vazado.

O maníaco atacou novamente na mesma noite, tentando dispersar o veneno através de uma fresta de janela aberta. Um dos ocupantes da casa, Lisa Monroe, acordou e viu o homem do lado de fora, com a capa preta e a máscara de gás, nas mãos! Ele havia retirado a máscara protetora para fazer ajustes e Monroe foi capaz de ver o sujeito claramente: era magro e pálido, a face longa e com olhos esbugalhados, cabelos pretos, compridos e lisos e devia ter entre 40 e 50 anos de idade. A testemunha contou que ele estava tossindo e respirando com dificuldade, o que reforçava a suspeita de que o conteúdo da mochila tinha vazado. Novamente um retrato falado foi feito e cartazes foram espalhados em toda região.

Cidadãos armados tomaram as ruas, organizando patrulhas para frustrar novos ataques, mas eles continuaram acontecendo a despeito da vigilância reforçada. Os ataques se tornaram mais frequentes e o atacante passou a deixar evidências como pegadas e ferramentas usadas para arrombamento. Pouco impressionado com o comitê de vigilância, mais três casas foram atacadas em apenas uma semana. A casa de Violet Driskell foi fumegada no meio da madrugada e a mulher sofreu um colapso nervoso. 

Eventualmente, a polícia chamou o FBI para ajudar nos esforços de captura. O pânico chegou a tal ponto que as pessoas acreditavam nas mais estranhas teorias, inclusive uma que se tornou muito popular dando conta de que o envenenador era um espião nazista tentando se vingar da derrota que a Alemanha estava prestes a sofrer. O equipamento dele seria idêntico ao de soldados alemães na Grande Guerra e o homem estaria completamente obcecado pelo ideal de destruir a América. Os agentes do FBI realizaram diligências, mas as histórias coletadas por eles eram absurdas, o pânico havia pervertido qualquer juízo verdadeiro. Havia relatos falsos, testemunhas errôneas, pessoas querendo participar da investigação e uma série de informações infundadas. Bastava um odor estranho ou o som de gás para que as pessoas gritassem e chamassem a polícia. Para alguns o homem era um doente mental que havia escapado de uma Instituição próxima, para outros era um inventor maluco que pretendia destruir o país. Pessoas eram apontadas como culpadas, mas uma simples entrevista provava que não tinham nada com os acontecimentos. A gota d'água ocorreu quando um agente do FBI foi confundido com o criminoso e agredido violentamente por cidadãos armados com paus e pedras.

"O Envenenador de Mattoon é uma Fraude Histérica"
Este período pareceu marcar uma virada nos ataques que passaram a se afastar cada vez mais do centro de Mattoon. Fazendas mais afastadas passaram a ser vítimas de ataques com gás, sem que nada pudesse ser encontrado. Na mesma época, um oficial de Saúde Pública chamado Thomas V. Wright, deu a seguinte declaração: "Não há dúvida de que nossa comunidade está sofrendo ataques. Mas é inegável que a maioria desses não são nada além de histeria. O medo se tornou o nosso principal inimigo! A mera ameaça e sugestão dessa figura misteriosa, que ninguém até hoje realmente viu, já é suficiente para levar as pessoas ao desespero!

Os jornais, muito criticados pela sua cobertura bombástica diminuíram o tom e as manchetes começaram a perder impacto. Gradualmente as pessoas passaram a acreditar que simplesmente ignorar o problema, poderia ser a solução para a questão. Mais cedo ou mais tarde ele seria capturado ou desapareceria, afinal, por quanto tempo ele continuaria atacando?

Em 12 de setembro, o chefe de polícia de Mattoon reuniu a imprensa para uma declaração impressionante. As autoridades haviam encontrado uma enorme quantidade de latões de carbono tetraclorídrico em um depósito de lixo local. Os tonéis estavam vazando seu conteúdo tóxico o que poderia esta causando envenenamento em várias propriedades que culparam a ação do Envenenador. Ninguém sabia exatamente de onde havia vindo o material e se ele realmente era responsável por contaminação. Depois do material ter sido removido e enterrado em um aterro sanitário distante o que a situação melhorou e as denúncias de ação do Envenenador diminuíram rapidamente. 

Uma explicação oficial dada pelas autoridades afirmava que o Envenenador de Mattoon jamais tinha existido a não ser na imaginação dos moradores da cidade que criaram o personagem, capa negra e máscara de gás, inclusive. Aqueles que manifestaram efeitos nocivos, que supostamente teriam sido causados pelo envenenamento teriam sido sofrido os efeitos dos dejetos que estavam vazando. Por algum tempo circularam boatos de que os ataques foram simplesmente ignorados pela mídia o que fez o criminoso perder o interesse em seus ataques a medida que eles não eram noticiados.


A verdade sobre o que transcorreu naqueles dias de pânico em Mattoon ainda é um mistério e provavelmente nós jamais venhamos a saber ao certo. É correto afirmar, entretanto que algo realmente ocorreu, ainda que motivado pela histeria que tomou conta da comunidade fazendo incidentes verdadeiros e falsos se misturem. Será que o Envenenador de fato atacou em Illinois? Seria ele o mesmo maníaco a fumegar as casas na Virginia e Flórida? É duro ignorar as semelhanças entre os casos, no que diz respeito ao método e procedimento. Tudo se encaixa. Mas novamente, não teriam sido os ataques meramente um efeito da sugestão na mente impressionável das pessoas? Teriam elas imaginado todos os acontecimentos?  

Seja lá quem fosse o Louco Envenenador, se é que ele realmente visitou essas cidades, ele simplesmente escapou impune dos seus crimes.

Em uma nuvem de fumaça, alguns poderiam dizer.  

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Lovecraft e a Religião - A Fé sob a visão do Mythos


Lovecraft e a Religião

Por Maurício R.B. Campos
Link para a publicação original:  Blog Maurício R.B. Campos Escritor

H.P. Lovecraft foi um escritor norte-americano de horror. O criador de um novo tipo de horror, chamado de horror cósmico. Há quem utilize o termo horror lovecraftiano como sinônimo. O horror cósmico é fortemente influenciado pela noção filosófica do niilismo existencial e pela natureza desoladora do mundo natural, principalmente do cosmo em si.

Lovecraft era um astrônomo amador, e se você já se aventurou por esse terreno, provavelmente sabe o quão desolador pode ser a descoberta de nossa insignificância perante o universo. As distâncias em unidades astronômicas, a velocidade da luz mostrando-se por demais pequena para mensurar os valores espaciais e o vazio soturno e melancólico que se propaga pelo espaço e pelo tempo. O físico Stephen Hawking certa vez disse que:

“Quando as pessoas me perguntam se um deus criou o universo, eu respondo que a questão em si não faz sentido. O tempo não existia antes do big bang, então não havia um tempo para deus criar o universo. É como pedir as direções do canto da Terra; a Terra é esférica; não tem canto; procurar por ele é um exercício de futilidade. Cada um é livre para acreditar no que quiser, e é minha visão que a explicação mais simplista é: deus não existe. Ninguém criou o universo e ninguém dirige o nosso destino. Isso me levou a uma conclusão muito profunda; a de que provavelmente não há Paraíso (Céu), e nem vida após a morte. Nós temos esta única vida para apreciar o grande desenho do universo, e por isso eu sou extremamente grato”

Portanto, chegamos à conclusão de que a Igreja estava certa ao condenar Galileu, se não há Ciência, não há dúvidas (estou sendo irônico aqui, se me entendem). Mas o fato é que o conhecimento das dimensões do universo é um conhecimento muito difícil de conciliar com uma religião cristã. Lovecraft abraçou o ateísmo, mas foi vítima de uma grande ironia, quando, tentando negar a religião, criou o Cthulhu Mythos, uma mitologia fantástica que pretendia explicar, ou melhor, não explicar o universo. Nos contos do Mythos conhecimento não é poder, conhecimento é aniquilação.


Na mitologia lovecraftiana o universo foi criado por Azathoth, um deus cego e idiota, que habita o centro do universo. Azathoth teria desencadeado o Big Bang, quem sabe por acidente. Esses deuses primevos, os deuses exteriores (outer gods) seriam entidades, mas não deuses no sentido próprio como entendemos o termo. Um deles representa o tempo, o tecido temporal em si, outro o espaço, a energia da vida, etc. A humanidade não tem contato com esses deuses, exceto com Nyarlathotep, também conhecido como o caos rastejante. As motivações e os desígnios deste último são um mistério dentro de um enigma.

A ideia do autor nunca foi desenvolver um material claro e coerente sobre o que se convencionou chamar de mythos. Ao contrário, há diversas contradições em relação a esses deuses, apenas para deixar claro que a humanidade compreende o cosmos assim como uma formiga compreende os seres humanos.

De qualquer maneira é bem irônico que um autor ateu tenha desenvolvido uma série de explicações para os mistérios que sondam a humanidade. Lovecraft era muito imaginativo e criativo, e suas criações refletem um encantamento com a grandiosidade do universo. Em uma carta que pretende defender suas convicções (mas que na verdade não sai de cima do muro), o gênio Einstein escreveu que “a experiência mais bela e mais profunda que um homem pode ter é o sentido do mistério. É o princípio fundamental da religião, bem como de todo esforço sério na arte e na ciência. Aquele que nunca teve essa experiência parece-me que, se não está morto, então, está pelo menos cego. Perceber que por trás de tudo o que pode ser experimentado há uma coisa que a nossa mente não pode compreender, cuja beleza e magnificência nos alcança apenas indiretamente: isso é religiosidade. Neste sentido, sou religioso. Para mim, basta questionar estes segredos e tentar humildemente entender com a minha mente uma mera imagem da estrutura elevada de tudo que existe”.

Esse foi o mistério de fundo de nossa existência, captado por Lovecraft e transformado nas histórias fantásticas e envolventes sobre criaturas sobrenaturais e seu relacionamento com os humanos.


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Maurício R. B. Campos é autor, escritor e tradutor, participou do premiado álbum "O Rei Amarelo - em quadrinhos" pela editora Draco. Seus lançamentos mais recentes Guerras Cthulhu, O Julgamento de Samuel Stefano e O Distrito Amarelo ficaram entre os principais lançamentos de 2017 segundo o blog Biblioteca do Terror.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Morte Silenciosa - Os Venenos e Toxinas mais famosas da história


Uma vez que as pessoas descobriram que era possível matar umas às outras discretamente usando substâncias tóxicas ao invés da violência, o proverbial ovo da serpente foi chocado. Venenos se tornaram uma arma letal usada com astúcia por assassinos com o intuito de eliminar desafetos, para cumprir contratos de morte e garantir o desaparecimento de oponentes. 

Para o bem ou para o mal, os venenos fazem parte da história humana e nos acompanham literalmente desde que nasceram as intrigas. Em tempos bíblicos, venenos já eram usados para matar reis. Provadores de comida e de vinho tinham um trabalho bastante perigoso. Na Roma e na Grécia, o veneno era empregado tanto por senadores e nobres quanto por concubinas e escravos. Na Idade Média, os venenos se tornaram uma maneira rápida de se livrar de oponentes políticos sem levantar suspeitas. Lucrécia Bórgia se tornou notável pelo seu uso. Em meio a intrigas palacianas, o veneno foi proeminente entre nobres e plebeus que mataram e morreram na Revolução Francesa. Venenos e toxinas se tornaram a arma preferida dos espiões, dos dissimulados e dos covardes que não se importavam com honra ou bravura.   

Em tempos mais recentes as pessoas começaram a compreender como funcionavam os venenos e passaram a desconfiar de seu uso sempre que certas circunstâncias surgiam. Alguns venenos se tornaram pouco práticos e acabaram saindo de moda, mas eles ainda são usados e despertam um misto de medo e horror. 


Substâncias Clássicas: Cicuta e Acônito

Vamos começar pelos Clássicos. Quando as pessoas não sabiam a quem recorrer para se livrar de um problema, a cicuta oferecia uma opção mortal. Ela é famosa por ter sido o veneno usado pelo Filósofo Sócrates que bebeu uma dose letal para cometer suicídio. A morte provocada por cicuta não era uma particularmente agradável. Cronistas do período afirmavam que se tratava de uma morte tranquila, apenas uma leve sensação de sonolência, um leve torpor e tudo estava acabado. Infelizmente não é bem assim! Cicuta age como uma substância paralisante que preserva a mente desperta. Ele atinge os músculos e então começa a atingir o sistema respiratório. A morte vem através de asfixia, e o indivíduo permanece consciente até o fim. Sua respiração vai diminuindo até a falência completa.

Acônitos é um veneno natural extraído de uma planta conhecida como capuz de monge. Ele também é conhecido por ter feito uma vítima famosa: o Imperador Claudius teria sido envenenado por sua esposa que colocou acônito em um prato de cogumelos. Acônito também se tornou conhecido como o "veneno das sogras", talvez por que na Roma antiga ele tenha sido usado mais de uma vez para eliminar genros ou noras problemáticos.

A planta do Acônito
As vítimas de acônito também não partem de maneira silenciosa. Os primeiros efeitos da toxina incluem ânsia de vômito e diarreia severa. O organismo da vítima tenta a todo custo expelir a substância que o arruína por dentro. Mas não há como sobreviver a essa exposição. O veneno causa uma arritmia na função cardíaca que vai se intensificando até o coração literalmente não suportar o esforço. O resultado é um ataque cardíaco fulminante. 
     
Cicuta e acônito eram os venenos favoritos dos gregos e romanos. Contudo, eles raramente usavam esses venenos em sua forma natural, ao invés disso, procuravam mascará-lo na carne de cotovias, que segundo alguns disfarçava o gosto. Vinhos fortes também podiam receber uma pequena quantidade de cicuta que os envenenadores dosavam lentamente para que os efeitos fossem disfarçados. Um assassino talentoso podia matar sua vítima sem que essa sentisse nada além de um mal estar confundido com indigestão. Pequenas doses também podias ser colocadas em poços ou cisternas, matando além da vítima desejada todos os habitantes de uma casa. Manipulado cuidadosamente, esses venenos podiam ser indetectáveis. 

Por que esses povos gostavam tanto de usar essas plantas? Bem, primeiro porque era fácil ter acesso a elas. Os médicos da época utilizavam e prescreviam as duas substâncias para uma série de tratamentos comuns, sempre com o alerta de que uma grande quantidade podia ser letal. Cicuta era administrado para espasmos musculares e como um calmante eficiente. Acônito servia para o tratamento de dores de cabeça e para febres. Eles também eram bastante baratos e fáceis de encontrar em boticários do período. De fato, mesmo que a pessoa vivesse no campo, não era difícil encontrar as plantas na natureza e prepará-las para serem usadas como veneno.

Cicuta em espécie
Meticulosos como podem parecer, envenenadores por vezes usam aquilo que está mais à mão quando precisam matar alguém. Um método muito usado por assassinos era fazer com que as pessoas acreditassem que uma morte havia sido acidental. Uma vez que ambas as substâncias estavam na despensa de qualquer pessoa, era perfeitamente natural que acidentes acontecessem. Um descuido numa medida podia levar à morte. E de fato, mortes acidentais por dosagens erradas aconteciam. Um truque usado por envenenadores era substituir uma dosagem prescrita por um boticário por uma mais forte que levava invariavelmente à morte. Por essa razão, venenos eram sempre mantidos em compartimentos trancados. Nobres e pessoas importantes contavam com seu próprio boticário que preparava as dosagens adequadas no momento de usar.  

Os venenos clássicos começaram a ser preteridos quando os efeitos deles se tornaram muito conhecidos. Logo, médicos eram capazes de diagnosticar o que acometia uma pessoa envenenada apenas observando os efeitos. É claro, com a prática vieram aos métodos de tratar e evitar a morte. Além disso, antídotos começaram a se tornar difundidos e indivíduos que se preocupavam com sua própria segurança, passaram a ter ao seu alcance contra-medidas para uma emergência. É claro, o fato dessas civilizações serem tão cosmopolitas, permitiu a introdução de toxinas trazidas de terras distantes que gradualmente substituíram os venenos clássicos.

Por vezes, cicuta e acônito aparecem como opções para envenenadores, mas como muitos deles descobriram os médicos passaram a identificar e tratar essas substâncias com grande nível de sucesso. Ao que parece, ser um envenenador demanda estar em sintonia com as novidades.  

Venefício Medieval: Beladona e Mandrágora


Belladonna
Beladona ganhou seu nome por ser uma substância utilizada por mulheres que a passavam sob os olhos. Tanto as camponesas quanto as nobres se impressionavam com o fato daquela substância deixar as pupilas dilatadas e os olhos brilhantes, por isso seu nome sugestivo. Ela tembém podia ser usada para passar nas bochechas fazendo com que os vasos sanguíneos se dilatassem criando um rubor desejável. Homens e mulheres adoravam aquilo e logo beladona se tornou uma febre na Europa Medieval.

Mercadores italianos foram os primeiros a descobrir o atrativo da substância para o público feminino, embora aquelas que abusavam do cosmético ganhavam mais do que uma aparência angelical. Beladona foi proibida em várias partes da Europa, considerada perigosa e vã, mas coo sempre, a proibição apenas a tornou mais desejada. Algumas mulheres pagavam verdadeiras fortunas por um pouco de beladona e a raridade da substância acabava tornando-a ainda mais perigosa.

Alguns acreditam que a Beladona foi usada para matar ao menos um papa. Outros dizemq ue Macbeth usou Beladona para assassinar um exército inimigo. Ela se notabilizou como o veneno ideal para assassinas que a utilizavam da maneira mais dissimulada: tornavam-se imunes - ou ao menos resistentes aos seus efeitos pelo uso prolongado, e passavam uma quantidade na face ou nos lábios para que esta fosse transferida para seus amantes. Algumas assassinas especialmente criativas podiam aspergir uma pequena quantidade em partes estratégicas de seu corpo, sobretudo aquelas que teriam contato íntimo com a vítima.

Um de seus usos mais frequentes era como alucinógeno. Segundo o folclore ocidental, as bruxas utilizavam pequenas quantidades em seus sabás e tinham uma sensação de flutuar ou mesmo voar. Em outras ocasiões, sob influência de beladona as mulheres viam figuras sinistras, demônios e diabretes saindo de fogueiras ou do interior de caldeirões. Sob a ação dessas alucinações afirmavam ouvir vozes, falar com seres sobrenaturais e se sentiam imunes ao fogo. Não é de se estranhar que muitas que confessavam essas alucinações, acabavam sendo chamadas de bruxas.

Infelizmente a beladona era uma substância extremamente perigosa. Quando uma dose muito grande é consumida - e uma dose grande demais podia ser apenas uma folha, as pessoas sentiam sua ação quase imediatamente. Efeitos comuns incluem náusea, alucinações sensoriais, suor, salivação, pulsação descompassada e arrepios. Por fim, ela provoca hemorragias, cegueira e taquicardia, a morte vinha logo em seguida.

Mandrágora
Já o uso de Mandrágora se tornou difundido na Europa a partir do século XIII, até então ela estava confinada na região onde o tipo mais potente crescia, Espanha e Portugal. Por muito tempo, Mandrágora foi conhecida como um veneno ibérico e seus utilizadores quase todos vinham dessa parte do continente. 

A Mandrágora Ibérica produz um tipo de fruto comestível muito apreciado para produzir licor, já a raiz, não deve ser consumida. Em estado natural ela já é suficientemente perigosa. Por muito tempo a raiz devidamente tratada foi usada para se livrar de verrugas ou para induzir o vômito quando diluída em água. 

Envenenadores ferviam a raiz produzindo uma bebida perigosa, mas o verdadeiro especialista sabia como tratar o resíduo, secar e produzir uma poeira que potencializava a toxidade da substância. Com isso, a Mandrágora podia ser usada para batizar bebidas, em especial alcoólicas já que ela tinha um sabor agradável ou para dispor sobre alimentos. Nobres podiam ser mortos por uma pequena quantidade de poeira misturada com açúcar, por exemplo. Já camponeses podiam ser envenenados com uma pequena quantidade misturada em seu mingau. 

Quando envenenadores da Europa souberam dos efeitos da Mandrágora a planta foi levada para outras paragens e se tornou bastante difundida na Inglaterra, França e Itália. A raiz foi responsável por renovar toda uma cultura de venefício na Europa. O efeito mais danoso da Mandrágora atua sobre os rins, produzindo uma falência múltipla. A vítima sofre uma morte lenta e dolorosa.   

Mandrágora e Beladona foram usados amplamente até que seus efeitos se tornaram bastante conhecidos entre médicos que podiam identificar facilmente seus efeitos nos pacientes. Com o devido tempo de resposta e o antídoto adequado, a vítima podia ser poupada do pior. A medida que as populações começaram a se deslocar para cidades, tornou-se mais difícil colocar as mãos em Mandrágora da espécie correta ou manter um arbusto de beladona em segredo.

Lucrécia Bórgia que ganhou fama como a maior envenenadora de sua época.
Para aqueles que estão sentindo falta de Digitális, um dos venenos mais conhecidos da literatura medieval, aqui vai uma revelação. Nem de longe ele era tão difundido quanto se imagina, em parte por não ser também muito letal. Envenenadores recorrendo a essa planta tinham que saber como destilar a substância o que demorava e precisavam balancear a fórmula para que ela adquirisse a toxidade desejada. 

Digitalis também era bastante rara de obter e exalava um cheiro característico desagradável que a denunciava. Outro problema é que ela era pouco eficiente, muitas vezes, a vítima sentia os efeitos mas se recuperava após vomitar eliminando assim o perigo. Isso não impediu que digitalis ganhasse uma sinistra fama de ser um veneno empregado para matar crianças, bem mais suscetíveis aos seus efeitos danosos. 

Toxinas Industriais: Cianeto, Estricnina e Arsênico   



Pode parecer absurdo, mas cianeto está em todo canto. Ele é usado como conservante na maioria das comidas que ingerimos. Ele está presente também em muitos produtos químicos que utilizamos no dia a dia. Embora substâncias contendo traços de cianeto possam ser traçadas ao longo da história, não foi antes de 1782, quando um químico sueco chamado Scheele destilou hidrogênio cianídrico, que seu potencial tóxico foi compreendido. Ele foi usado primeiro em tinturas e pigmentos muito apreciados pela sua coloração azulada (daí o nome "ciano"). Infelizmente logo descobriu-se que pessoas que usavam essa substância terminavam envenenadas e muitas morriam - geralmente de forma rápida.

Militares começaram a fazer uso de cianeto ainda nas Guerras Napoleônicas quando a substância era usada em prisioneiros de guerra. Espiões famosos carregavam capsulas de cianeto para serem usadas em caso de captura. Os oficiais nazistas possuíam pílulas semelhantes e muitos dos figurões do alto escalão do Terceiro Reich morreram consumindo uma dose fatal de cianeto. Gangsters em Chicago mergulhavam suas balas em cianeto para torná-las ainda mais mortais. 

Este foi o veneno usado para matar o Monge louco Rasputin - embora ele tenha sobrevivido ao envenenamento e morto de outras formas. A famosa assassina Lizzie Borden poderia te sido condenada se o juri recebesse a informação de que ela estava perguntando à farmacêuticos sobre "Ácido da Prússia" (um dos nomes do veneno). Isso pouco antes da suspeita morte de seu pai e madrasta à machadadas. Há um persistente rumor de que os primeiros astronautas da NASA carregavam duas cápsulas em suas viagens espaciais, para o caso de necessidade.

O cianeto causa inconsciência quase imediata, seguido de convulsões e da impossibilidade da absorção de oxigênio pelas células, o que leva à morte. Uma das características que tornam o cianeto um veneno muito popular entre suicidas é a noção de que ele é relativamente indolor. A inconsciência faz com que os efeitos sejam pouco sentidos e mesmo durante os espasmos finais, a vítima permanece desacordada. Por isso ele tinha o apelido de "sono azulado". 

Cianeto era usado amplamente na medicina até o início do século XX, para dores de cabeça, insônia e distúrbios nervosos. Farmácias vendiam a substância no balcão e raramente se preocupavam em fazer perguntas a respeito de seu uso. Era também um veneno presente em fazendas e áreas rurais, para lidar com pestes típicas do campo. Frascos de Cianeto, na forma de um pó refinado de cor azulada, estavam presentes na maioria dos armários de banheiro, e por algum tempo ele foi uma droga muito popular. 


Estricnina levou algum tempo para chegar ao ocidente. Antes disso, ela era bastante conhecida e usada como veneno (e possivelmente remédio) na China e na India. Por séculos foi utilizada por médicos, farmacêuticos e, é claro, assassinos que se valiam de suas propriedades tóxicas. A substância foi apresentada aos europeus no final de 1700 e estes levaram para o continente mudas da árvore Strychnos nux-vomica de onde ela é extraída.

O preparo do veneno exige uma procedimento bastante complicado de isolamento, destilação e coagem. Mesmo químicos experientes consideram a produção dele - sem equipamento próprio, um grande risco já que sua toxidade é alta. Uma vez pronto ela se tornava um veneno que nas plantações afastava pássaros e nas cidades matava os ratos. Os chineses lançavam a substância nos esgotos para eliminar milhões de ratos o que ajudou a conter pestes e epidemias. 

Estricnina, no entanto, é um veneno potente e bastante cruel. Ele causa espasmos musculares incontroláveis, espuma na boca e severas câimbras, eventualmente vem a asfixia quando os músculos tensionam e se tornam incapazes de permitir a respiração. Não por acaso, estricnina era reservada na India aos traidores, prisioneiros condenados por crimes graves e desertores. Era a morte ideal para dar exemplo e "fazer justiça", tanto que haviam execuções públicas através de envenenamento.

O primeiro caso de envenenamento por estricnina registrado na Inglaterra envolveu o Dr. William Palmer, que assassinou seus credores de jogo em 1856. Mas foi o infame caso de Thomas Neil Cream que tornou o veneno famoso. Cream foi condenado por envenenar várias prostitutas, e se gabava de ter matado mais mulheres do que Jack, o estripador, ao menos até ser capturado e enforcado. Agatha Christie ajudou a popularizar esse veneno em suas histórias, como no famoso mistério "The Mysterious Affair at Styles". Ainda que a morte por estricnina seja rápida e dramática, é difícil os efeitos do veneno não serem identificados por um médico. Isso torna a substância um recurso utilizado por indivíduos que querem vingança e pretendem fazer sua vítima sofrer. Atualmente pequenas quantidades de estricnina são usadas na produção industrial, para tingimento e até para realçar sabores de alimentos. 


E chegamos ao topo de nossa lista com aquele que provavelmente é o veneno mais usado de todos os tempos, o Arsênico. Sem dúvida ele é o que está há mais tempo em atividade. Tecnicamente seu uso pode ser traçado até o tempo dos romanos, tendo sido usado fartamente na antiguidade clássica. Encontrado na natureza na forma de metal, ele é bastante similar ao mercúrio. Nãopor acaso, ele já foi chamado de Rei dos Venenos, e caiu nas graças dos Bórgias, que o tinham como seu instrumento favorito para remover oponentes de seu caminho. Há rumores de que Napoleão, George III e Simon Bolivar teriam sido envenenados com arsênico, bem como um bom número de Prelados, Bispos, Cardeais e, é claro, Pontífices. Arsênico era líquido e certo, uma dose bem calculada matava sem risco e deixando relativamente poucos indícios de sua ação letal. 

Mas foi apenas na Era Victoriana que ele ganhou popularidade. Essa perigosa toxina foi descoberta e usada primeiro como um cosmético que tinha o efeito inverso da beladona, comprimindo as veias e concedendo uma face pálida, branca como a neve. As mulheres aprendiam a respeito das propriedades e perigos do arsênico e carregavam o veneno em pequenos frascos cujo conteúdo era diluído em água quente antes do banho. A substância não deixava gosto, cheiro ou alterava a cor da água. Entretanto, era preciso ter cuidado, alguns poucos grãos poderiam matar e de fato, muitas moças da época morriam para ter a palidez que tanto desejavam.

Não demorou para que muitas mulheres vitorianas descobrissem que a substância poderia ser muito útil. O arsênico se tornou um veneno feminino: as mulheres matavam usando arsênico! Algumas poucos grãos eram o bastante para se livrar de um marido tirânico, de um amante indesejado ou de um déspota cruel. 

O caso mais infame de envenenamento por arsênico aconteceu em 1857 e envolveu Madeleine Smith. Ela era uma dama da sociedade que escolheu o amante errado, um homem que começou a fazer chantagem e exigir uma fortuna para não divulgar cartas comprometedoras. Quando ele ameaçou entregar a correspondência indiscreta ao pai de Madeleine, ela decidiu agir. Convidou o sujeito para um chocolate quente e sem perceber, ele bebeu 17 grãos de arsênico. O único azar de Madeleine é que a polícia realizou uma autópsia e encontrou no estômago do casanova o veneno e em seu bolso uma das cartas indecorosas. Juntando as pistas foi fácil apontar o culpado. Mas surpreendentemente Madeleine acabou inocentada das acusações por uma série de tecnicalidades bem exploradas pelos seus advogados. Depois do julgamento ela imigrou para os Estados Unidos levando consigo a fama de ser uma mulher perigosa - apelidada de Lady Arsenic.

"Arsênico Seguro" para senhoras que querem uma compleição pálida. 
Para ser honesto, não só mulheres faziam uso dele. O explorador britânico Charles Francis Hall, famoso pelo tratamento severo - quase desumano, que reservava aos seus subordinados foi morto por uma dose de 40 grãos colocados em seu café. Os responsáveis? Seus próprios homens irritados com a rotina desumana. Na América ele ganhou fama entre golpistas que atraíam mulheres mais velhas e as eliminavam depois destas os incluírem em testamentos.

O caso Smith e o fato da ciência médica ter avançado a ponto de ser possível contar quantos grãos de arsênico uma vítima havia consumido, um exame chamado Teste Marsh, marcaram o fim de uma era. Ainda assim, o arsênico continuou sendo utilizado, mesmo depois da Era Vitoriana. Até o início do século XX ele era fácil de ser comprado em qualquer farmácia ou boticário, bastava pedir. Seus usos justificavam o fácil comércio, médicos prescreviam para uma infinidade de tratamentos que iam de cólicas, dores crônicas até enjoo matutino causado pela gravidez (!). Os farmacêuticos prescreviam a quantidade mais adequada para cada caso e as pessoas tinham de tomar muito cuidado para não exceder. 

Os efeitos diretos do arsênico incluem suor, confusão mental, severas câimbras musculares e dores de estômago que muitas vezes podiam ser confundidos com indigestão. A medida que o arsênico começou a se popularizar em todos os continentes, nenhum médico, por mais inexperiente seria capaz de deixar de perceber os efeitos e atestar seu uso. 

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Quando o objetivo é matar, a história humana atesta que existe muita criatividade nos métodos e meios empregados pelos envenenadores de plantão.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Os Limites da Ciência - Verdadeiros Cientistas loucos que inspiraram Frankenstein


A clássica obra Frankenstein ou o Moderno Prometheus foi publicada em 1818.

Em suas páginas, a autora, Mary Shelley fazia um alerta a respeito dos perigos contidos na ciência quando praticada por cientistas obcecados a respeito da vida e da morte. Até hoje, certas atividades científicas, consideradas limítrofes de um ponto de vista moral e ético, constituem uma preocupação que vêm à superfície, sobretudo quando avanços e descobertas são realizadas.

Algumas perguntas se tornaram frequentes: Até onde a Ciência deve chegar? Até que ponto os avanços científicos devem conduzir o ser humano? E principalmente, quais os limites de "Brincar de Deus"?

Nas últimas décadas, avanços significativos no campo da ciência biomédicas, demonstraram que a obra de Shelley era profética. Pesquisadores conseguiram realizar a fertilização in vitro e a manipulação genética para obter melhores resultados em espécimes produzidos em laboratório. Em breve, úteros artificiais poderão realizar a gestação de bebês. A descoberta dos diferentes tipos sanguíneos permitiu em um primeiro momento realizar transplantes de sangue, em seguida vieram os transplantes de órgãos e hoje se fala em transplantes de cabeça ou do cérebro. O mapeamento do código genético, através do Projeto Genoma, nos permitiu conhecer aquilo que somos de uma maneira incrível. O uso de células tronco podem ser a resposta para a regeneração de órgãos inclusive de neurônios. Cientistas já mencionam que a medicina possibilitará que homens e mulheres vivam dentro em breve até os 150 anos. Isso sem falar em clonagem... todos lembram das implicações quanto a reprodução de animais, como a Ovelha Dolly, e dos questionamentos a respeito de experimentos semelhantes com seres humanos.


Quando Shelly escreveu sua obra provavelmente ela jamais imaginasse como o avanço da ciência transformaria o mundo. Entretanto, no momento em que pousou a pena sobre o papel, para escrever o primeiro esboço de Frankenstein, ela  compreendia estar diante de uma questão existencial que assombraria as gerações futuras. Não foi por acaso que seu romance se tornou uma das obras pioneiras em um novo e aterrorizante estilo de Horror Gótiu , um que recorria a Ciência para nos assustar.

Mesmo antes da publicação da novela de Shelley, cientistas e pesquisadores já mergulhavam em experiências bizarras envolvendo conceitos de vida e morte. E depois de Frankenstein, eles continuaram experimentando. Aqui estão quatro histórias de cientistas que ousaram se equiparar ao fictício Dr. Victor Frankenstein, mas no mundo real.

ANDREW CROSSE


Andrew Crosse estava envolvido com o estudo da eletricidade em meados de 1837 e para alguns sua carreira serviu de inspiração para o Dr. Frankenstein. O laboratório de Crosse nos arredores de Sommerset, na Inglaterra era cercado de instalações com fios de cobre que concentravam eletricidade usada em seus experimentos. As pessoas se maravilhavam ao visitar o lugar e sentir a forte eletricidade estática que ele conseguia gerar. 

O cientista ficou conhecido pela criação do que ele chamou "o Perfeito Inseto". A teoria de Crosse era que a vida poderia ser criada através do uso de uma sopa primordial cuidadosamente preparada com uma série de extratos naturais e substâncias químicas. Para iniciar a vida, esse material, que ele chamou de "Sopa Primordial", tinha de receber descargas elétricas que ativavam a criação de formas de vida a partir da mistura. Depois de conduzir eletricidade em um vidro contendo sua fórmula, ele passou a observar pequenas criaturas semelhantes a insetos se formarem. Em experiências sucessivas ele se surpreendeu ao perceber que doses de eletricidade faziam com que os pequenos animais se desenvolvessem até se transformarem nos tais "perfeitos insetos".


Embora a explicação mais razoável para o ocorrido seja algum tipo de contaminação, Crosse publicou suas descobertas em revistas científicas e ganhou fama internacional. Ironicamente, seu trabalho acabou vazando e o público encarou suas experiências como uma tentativa de "criar vida" e "brincar de Deus". Crosse foi perseguido e ameaçado de morte por teístas que o consideravam um herege. Ele chegou a ser ameaçado por sacerdotes que afirmavam categoricamente que as experiências de Crosse acabariam com o mundo. Seu laboratório foi depredado e incendiado por uma turba de fanáticos. O cientista conseguiu escapar por pouco e se radicou em Londres, para onde levou seus espécimes de Insetos únicos. 

Crosse acreditava não apenas ter criado uma nova forma de vida através de seu experimento com eletricidade, mas que seus insetos poderiam se tornar com o tempo maiores e mais inteligentes. Ele realizou pesquisas nesse sentido por muitos anos, mas os animais - provavelmente um tipo de pulgão, jamais cresceram ou ficaram inteligentes como ele esperava. 

JOHAN CONRAD DIPPEL


Já que estamos falando de cientistas que inspiraram Mary Shelley, este aqui provavelmente ajudou a construir a imagem de maluco do Doutor. Johann Conrad Dippel era suíço, parte da nobreza local e vivia em uma propriedade isolada chamada... Castelo Frankenstein. E as coincidências não param por aí.

Ele foi um estudante brilhante, treinado por um renomado instrutor chamado Emmanuel Swedenborg que se impressionou com o dom do pupilo ainda na Universidade Giessen. Anos mais tarde, Swedenborg passou a se referir a Dippel da seguinte maneira: "O mais vilanesco, anti-ético e imoral dos praticantes da medicina! Um verdadeiro demônio em seu ofício blasfemo! Eu gostaria de jamais tê-lo conhecido ou ensinado o que ele sabe a respeito de ciência"

A razão para tanto desgosto decorre das muitas experiências controversas conduzidas por Dippel nos porões do Castelo Frankenstein. Segundo rumores, ele mantinha um enorme laboratório onde praticava alquimia e onde perseguia a mítica fórmula mágica do "Elixir Vitae" (que permitia a vida eterna). Dippel teve acesso a livros antigos e tratados versando sobre Alquimia, inclusive alguns volumes raros censurados pela Inquisição. Seu conhecimento de outros idiomas, inclusive árabe, permitia que ele lesse tomos escritos por sábios do Oriente Médio. 


O cientista realizava incontáveis testes em animais, sobretudo porcos, cães e cabras que eram devidamente dissecadas por ele após cada experimento. Dippel aproveitava todos os órgãos de seus espécimes e mantinha uma coleção de carcaças e restos de animais preservados em frascos de vidro e barris de cedro. Os criados reclamavam do fedor nauseante que o castelo exalava e do horror que era visitar o laboratório de seu patrão, com uma camada de sangue e vísceras acumulado no piso de pedra. Uma das teorias de Dippel era que os ossos e o sangue de certos animais, quando tratados e misturados com outros ingredientes, poderiam resultar em um elixir prolongador da vida.

Posteriormente ele começou a estudar os efeitos de suas fórmulas em cadáveres, acreditando que sua fórmula poderia trazer animais mortos de volta à vida. Para seus testes, ele drenava o sangue dos espécimes, e injetava nelas sua fórmula diretamente nas veias, tencionando assim fazê-los voltar a viver. Dippel nunca teve sucesso em seus intentos, mas o caráter profano de suas experiências fez com que ele fosse denunciado por heresia e condenado a sete anos de prisão.

Ao deixar a prisão, imediatamente retornou aos seus experimentos, alegando que não tinha tempo a perder. Dippel trabalhou na criação de reagentes e supostamente fez experimentos com nitroglicerina. Em uma de suas experiências explodiu uma das torres do Castelo Frankenstein chamando a atenção de nobres locais que viram na substância o potencial para uma arma poderosa. Contando com patronos influentes, Dippel dividia seu tempo entre os estudos de explosivos e a preservação de cadáveres. Assim como Frankenstein, ele recorreu ao cemitério local para encontrar espécimes humanos frescos para seus experimentos e chegou a pagar bandidos locais para exumar corpos que iam parar em sua mesa de dissecação.

No fim de sua vida, Dippel começou a se valer da fama de feiticeiro que havia conquistado, incentivando os rumores de que ele havia feito um acordo com o Diabo. Ele também passou a se comportar de maneira sinistra, assumindo o papel que muitos o atribuíam, vestindo capa e chapéu preto pontudo. Isso, segundo ele mesmo, servia para manter os curiosos e supersticiosos afastados de seus assuntos. Johann Dippel morreu em seu laboratório, provavelmente vítima de colapso, mas alguns suspeitam que ele possa ter sido envenenado. Curiosamente, as últimas anotações de seu diário davam conta de que ele estava muito próximo de ter sucesso na criação de um elixir que prolongaria sua vida até os 140 anos.

GIOVANI ALDINI




Outro candidato a Frankenstein que aprendeu a utilizar o poder da eletricidade em experimentos incomuns. Aldini era filho de um importante político de Bolonha e sobrinho de Luigi Galvani, um renomado médico que escreveu um tratado sobre eletricidade muscular.

A formação de Aldini incluía conhecimentos em física, química, biologia, galvanismo e anatomia. Combinando vários dessas disciplinas ele começou a aperfeiçoar métodos que, segundo suas controversas teorias, permitiriam devolver o movimento, e com o devido tempo, talvez até a própria vida à pessoas mortas. Ao contrário de muitos cientistas do período que tentavam ocultar seus experimentos dos olhos do público e das autoridades, Aldini fazia questão de realizar seus experimentos diante de plateias formadas por médicos, estudantes e curiosos. Em certa ocasião ele ligou uma corrente elétrica diretamente no cérebro de um boi que havia acabado de ser abatido com o objetivo de fazer a face do animal se contorcer. A experiência causou enorme controvérsia, alguns o acusaram até de bruxaria, mas o apelo do espetáculo fez com que ele fosse isentado de qualquer punição.

A seguir, Aldini recebeu permissão para realizar o mesmo experimento em prisioneiros executados, aplicando eletrodos através dos canais auriculares. Certa vez ele teria eletrocutado um cadáver fazendo com que os olhos deste abrissem e fechassem sem parar, em uma descrição que guarda semelhança com um trecho presente em Frankenstein. Os experimentos eram realizados em praça pública, diante de multidões que vinham de longe para ver o "espetáculo". Segundo o prefeito de Bolonha, o show servia para desencorajar bandidos e criminosos que atuavam na cidade e que poderiam ter o mesmo destino daqueles homens. O médico também transmitia cargas elétricas na coluna vertebral de cadáveres, fazendo com que os corpos sofressem espasmos.


Aldini se tornou diretor da cadeia e do manicômio de Bolonha onde segundo rumores recebeu permissão oficial para conduzir experimentos com prisioneiros e internos. Ele acreditava ser capaz de reanimar indivíduos afogados ou vítimas de sufocamento através de aplicação de cargas de eletricidade no cérebro. Boatos davam conta de que Aldini mantinha no porão das instituições em que era diretor, aparelhos usados na Era Medieval para simular afogamento e asfixia. As vítimas sujeitas a esse procedimento eram a seguir reanimadas através de eletrodos que direcionavam pulsos elétricos nas suas têmporas. Os supostos experimentos na maioria das vezes falhavam e as cobaias morriam no processo.

É um fato real que Aldini promovia seus "espetáculos" como um artista circense. Ele se gabava de comandar os "poderes vitais" e de exercer domínio sobre a "eletricidade que concede a vida". Além disso, seus estudos enveredaram por caminhos bizarros que incluíam experimentos para tornar pessoas imune ao fogo. Nas ocasiões em que pretendia fazer um experimento, as pessoas viajavam e pagavam algumas moedas para sentar na frente e assistir de perto os milagres e portentos realizados pelo cientista showman. O público, no entanto, não deve ter achado muita graça quando certa vez o cientista calculou mal a voltagem de uma carga elétrica e literalmente explodiu a cabeça de um espécime. Em outra ocasião, ele teria fulminado um cadáver com um choque que fez ele se incendiar.

Cansado de sua auto-promoção, Aldini decidiu que precisava seguir adiante em seus experimentos ao invés de realizar espetáculos. Ele eventualmente viajou para a Austria, onde apesar de não produzir maiores descobertas em sua área, foi sagrado cavaleiro e alçado a posição de nobre. Diferente da maioria dos cientistas nessa lista, e certamento bem diferente de Frankenstein, Aldini morreu rico e bem sucedido.    

VLADIMIR DEMIKHOV  



Na primeira metade do século XX, animais sofriam horrores nas mãos de cientistas. Na União Soviética, cientistas realizavam experimentos controversos usando cães como cobaia dos experimentos mais bizarros do período.


Alguns destes experimentos, ainda que desagradáveis, ao menos tinham serventia para pesquisas médicas e acabaram ajudando a salvar vidas. Vladimir Demikhov, entretanto, se contentava em conduzir as experiências mais estranhas em suas instalações nos arredores de Moscou. Apelidado de Dr. Frankenstein da União Soviética, Demikhov especializou-se em uma prática médica chamada "transplantologia". Em suas experiências, ele acreditava que para compensar órgãos que estavam apresentando falhas, o ideal seria transplantar órgãos duplos que gradualmente assumiriam as funções dos originais até estes apresentarem falência.

O médico começou sua carreira fazendo testes em ratos, mas logo passou a utilizar cães trazidos de todos os cantos da URSS para suas experiências. Ele tentou implantar pulmões, rins, fígado e até corações com enxertos duplos para os animais, sendo que a maioria morria durante o procedimento cirúrgico. Simultaneamente ele fabricou máquinas que duplicavam a função de coração e pulmão e permitia que animais ficassem vivos por algumas horas.

Uma de suas experiências mais bizarras incluiu a construção de um corpo artificial, composto de órgãos transplantados que eram conectados a cabeça de um pastor alemão. O experimento chamou a atenção de autoridades soviéticas que acreditavam que o Camarada Demikhov estava no caminho certo para reconstruir soldados gravemente feridos. Alguns planos do cientista em ainda mais ambiciosos e visavam a criação de soldados com ossos de metal, pele de borracha vulcanizada e força de 10 homens. Ele chegou a receber uma comenda especial das mãos de Stalin e foi chamado de um dos mais brilhantes cientistas da Mãe Rússia. 


O sucesso permitiu ao Cientista realizar várias outras experiências que parecem ter saído de um filme de horror barato. A mais incomum, sem dúvida, envolvia o transplante de cabeça para criar cães bicéfalos. Nenhum desses experimentos moralmente reprováveis teve sucesso e as cobaias que passaram pelo procedimento viveram no máximo um mês.

Rumores davam conta de que o Departamento de Transplantologia do Dr. Demikhov chegou a conduzir experiências em seres humanos no pós guerra. Centenas de prisioneiros alemães, búlgaros e 
iugoslavos, além de dissidentes russos teriam sido trancafiados nas instalações para servirem de cobaias para testes moralmente reprováveis. Em 1962, o médico norte-americano Christian Barnard, responsável pelo primeiro transplante cardíaco bem sucedido em um ser humano, visitou o Centro Médico mantido por seu colega soviético em um intercâmbio até então sem precedente. O Dr. Barnard ficou impressionado com as instalações e com os avanços realizados pelos soviéticos e incorporou algumas de suas técnicas para aprimorar seu próprio procedimento. Entretanto, ele reconheceu que muitas das técnicas desenvolvidas só poderiam ter sido criadas com a utilização de espécimes humanos. Vladimir Dhemikov morreu em 1998 e sempre negou os boatos a respeito de seus testes em seres humanos.

Diários médicos (cuja autenticidade ainda é questionada) foram encontrados em 2010 em instalações médicas desativadas próximas de Moscou. Estes documentos confirmavam as suspeitas do uso de cobaias humanas pelo Departamento de Transplantologia entre os anos de 1946 e 1957. Entre os diversos procedimentos realizados estavam inclusive o infame transplante de duas cabeças no mesmo corpo.