sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Lugares Estranhos: A Macabra Ilha das Bonecas no México


Há alguns lugares neste mundo que parecem mergulhados em uma densa névoa quase tangível de mau pressentimento. São lugares que conseguem nos afetar em um nível quase primal e inconsciente. Eles nos prendem como cordas de terror da qual não conseguimos nos desvencilhar, e nos assombram com pesadelos que são difíceis de despertar. Existe um desses lugares genuinamente macabros na Costa do México, uma ilha aterrorizante chamada coloquialmente de "La Isla de las Munecas", a imensamente sinistra e alegadamente fantasmagórica Ilha das Bonecas

La Isla de las Munecas está localizada na área de Xochimilco, uma região dentro do Distrito Federal Mexicano historicamente posicionada no que antigamente era o grande Lago de Xochimilco. Xochimilco é um lugar bastante conhecido pela existência de um sistema de vias fluviais, que constituem uma relíquia dos tempos de colonização do Vale do México, interconectados por uma rede de canais e lagunas navegáveis. 

A ilha em si é o que os nativos chamavam de chinampa, uma ilha artificial construída em áreas mais rasas do lago durante o período de ocupação pré-espanhola como uma forma de aumentar a produção agrícola. As chinampas são montes de terra e lamaremovidos das margens erguidos e conectados com as massas de terra por vias estreitas. Muitas dessas ilhas eram criadas para serem temporárias, afundando em determinadas épocas do ano, contudo, algumas acabavam se juntando criando estruturas maiores e sustentáveis fixadas no fundo do lago. Nessas ilhotas retangulares, os nativos cultivavam  uma variedade de plantações que eram muito importantes para complementar as necessidades da população.


A produção dessas ilhas artificiais eram tão abundantes que elas eram chamadas de "jardins flutuantes" e constituíam um recurso valioso para a economia do Império Asteca. A quantidade de Ilhas formadas, eventualmente, acabou contribuindo para o encolhimento do Lago Xochimilco e na sua transformação em um sistema de canais. 

Em tempos modernos, a maioria das chinampas se deterioraram e caíram em estado de abandono, mas cerca de 5 mil delas ainda existem e são visitadas por turistas, que navegam pelos canais em gondolas chamadas trajineras. De fato, pela sua conexão histórica com o México pré-Espanhol, Xochimilco, com suas ilhotas criadas pelos Astecas é considerada um patrimônio universal. 

La Isla de las Munecas é uma chinampas, um lugar infame em face de sua bizarra origem e da fama como um dos um dos sítios mais assombrados do México. A história começa em 1950 com um eremita chamado Julian Santana Barrera, que decidiu fixar residência em uma chinampa abandonada onde construiu uma rústica cabana. Ele então começou a decorar o lugar de maneira peculiar, não com flores e plantas ornamentais, mas com coisas que pareciam saídas de um pesadelo.


Depois de testemunhar uma criança morrendo afogada em um canal próximo, Barrera se convenceu de que o fantasma da menina passou a assombra-lo. Ele afirmava ouvir o espírito da menina cantando, rindo e chamando por ele. Em mais de uma ocasião disse que viu a forma espectral da menina chamando-o para a água. Outras vezes, era acordado pelo som de batidas e por objetos caindo no chão ou sendo atirados de um lado para o outro de sua habitação. Outras pessoas também viram o fantasma e pescadores evitavam a área. Nas comunidades ribeirinhas circulavam lendas sobre uma menina lamentosa flutuando nas águas ou observando parcialmente oculta atrás das plantas aquáticas.

No entanto, Barrera era a principal vítima da aparição. Ele acreditava que a menina o culpava pelo afogamento e por ele não ter prestado ajuda, algo de que ele se arrependia, embora não soubesse nadar. Perturbado por essas visitas cada vez mais frequentes, o comportamento do eremita se tornou cada vez mais errático.

Certo dia, Barrera viu uma velha boneca ser trazida pela maré e ficar presa nas pedras da praia. Ele retirou a boneca da água e a colocou na frente da porta de sua casa, acreditando que o brinquedo pudesse de alguma forma afastar o fantasma da menina. Ao que tudo indica o plano funcionou e Barrera passou a acreditar que a boneca mantinha o espírito longe de sua casa. Segundo a lenda, o sujeito ficou obcecado com a ideia de espalhar o maior número possível delas pela ilhota. Ele chegava a viajar para o continente e lá trocava os poucos vegetais e frutas que cultivava por brinquedos. Barrera passou a colocar bonecas em todo canto, deixando-as sobre os muros, amarradas aos galhos de árvores e nas pedras da praia. Para mantê-las em posição, as amarrava com arame ou linha de pesca. Eventualmente ele juntou centenas delas e as dispôs pela chinampa como pequenos amuletos de proteção contra o fantasma da menina. Dizem que ele costumava dar nome a cada boneca, que conversava com elas, trocava-as de lugar e até escovava seus cabelos e beijava suas faces. Para a maioria das pessoas, o homem havia enlouquecido.


Os hábitos do excêntrico eremita ganharam fama e a maioria das pessoas passou a evitar ainda mais a ilhota e a sinistra coleção de assustadoras bonecas dispostas em todo canto. É claro, os boatos tomaram forma e histórias passaram a ser contadas pelos vizinhos supersticiosos. Diziam que as bonecas ganhavam vida nas noites de lua cheia e vagavam pela ilha matando todos animais que conseguissem encontrar. Outros afirmavam que o som de risadas infantis podia ser ouvido de longe enquanto elas matavam sem dó nem piedade. Barrera também teria perdido o pouco da razão que ainda lhe restava: vagava pela ilha cantando canções de ninar, embalando seus bebês de plástico como se fossem crianças de verdade. Certa vez, Barrera expulsou o pároco local - chamado às pressas para interceder - dizendo que a ideia de remover as bonecas estava fora de cogitação. 

Algumas pessoas passaram a acreditar que as bonecas de alguma forma eram parte de um ritual maligno criado por Barrera com o intuito de protegê-lo dos fantasmas. Mais ou menos nessa época, passou a circular o rumor de que Barrera não havia sido uma inocente testemunha do afogamento da menina. Ao invés disso, ele teria afogado a criança propositalmente. Estes afirmavam que a aura que pairava sobre a ilhota era tão terrível que pessoas sensíveis desmaiavam apenas de olhar na sua direção.


Os rumores circularam por anos até que um dia Barrera desapareceu. Algumas pessoas se juntaram para procurar o homem, já idoso, mas não encontraram sinal dele. Segundo a lenda, muitas bonecas estavam quebradas ou jogadas no chão, como se alguém tivesse tido um ataque de raiva, descontando suas frustrações nelas. Para outros, era óbvio o que havia acontecido! As bonecas haviam atacado Barrera e ele se defendeu como pode, mas no fim, elas acabaram predominando.

Dias mais tarde, pescadores encontraram o corpo inchado do velho boiando num canal. 

Dizem que o local onde ele foi içado da água era bem próximo de onde a menina havia se afogado. Além disso, as pessoas que resgataram o cadáver ressaltaram dois detalhes perturbadores: a face do velho estava transfigurada em uma máscara de inenarrável terror e que haviam sinais bem evidentes de pequenas mãos em todo seu corpo, como se ele tivesse sido forçado debaixo da água. A causa da morte foi afogamento.


Meses depois dessa trágica descoberta, alguns pescadores afirmaram ter visto o fantasma da menina uma vez mais vagando pela chinampa, dessa vez de mãos dadas com um velho de aspecto amedrontado.

A Ilha das Bonecas continua no mesmo lugar, despertando medo e desconfiança. As tristes bonecas que são as únicas habitantes do lugar continuam espalhadas em todo canto, com seus olhos vidrados mirando sem vida a extensão dos seus domínios. Ao longo dos anos elas se deterioraram, tornando-se coisas sujas e decrépitas, o que contribui para deixá-las ainda mais assustadoras. 

As superstições e o folclore associados com a ilha não demonstraram nenhum sinal de diminuir com a morte de Barrera. Na verdade, sua morte, cercada de incertezas apenas ajudou a sedimentar a má fama do lugar que ele construiu. As pessoas dizem que ao visitar a ilha pela primeira vez, é bom levar uma oferenda; uma boneca para ser deixada na ilha afim de acalmar os espíritos. Assim que uma nova boneca chega, alguns acreditam, é incorporada pela magia da ilhota e se torna parte do lugar. 


As histórias sobre atividade paranormal na Isla de las Munecas capturam a atenção das pessoas, sobretudo daqueles que procuram evidências de que o mundo é um lugar muito mais estranho do que podemos supor. Alguns anos atrás, uma equipe do programa televisivo Destination Truth realizou uma expedição à ilha. O sobrinho de Barrera, que é o mais próximo de um dono da chinampa, os recebeu e mostrou o lugar. Ele explicou ao grupo que as bonecas parecem realmente carregadas com um tipo de energia sobrenatural e que jamais dormiu na cabana que pertenceu ao tio por temer essa aura. 

A equipe não ficou desapontada, uma vez que se deparou com acontecimentos no mínimo estranhos durante sua estadia. Eles captaram o som de coisas raspando no teto da cabana de Barrera, bem como ruídos abafados semelhantes a vozes do lado de fora. Os sensores usados para detectar súbitas mudanças de energia também obtiveram leituras incomuns. Finalmente, uma câmera colocada do lado de fora da cabana registrou o momento em que os olhos de uma boneca se abriram e fecharam. Digam o que quiserem a respeito da veracidade da filmagem que pode ou não ter sido forjada, mas a despeito de qualquer coisa ela é realmente perturbadora.


Todas essas histórias sinistras serviram para atrair mais e mais turistas interessados em ver em primeira mão um lugar com fama de assombrado. Não por acaso, de todas as chinampas abertas a visitação, La Isla de las Munecas se converteu na mais famosa da rede de canais de Xochimilco. Anastasio Valasquez, sobrinho de Barrera mantém a ilha aberta a visitação cobrando uma pequena taxa para conhecer o lugar em uma visita guiada. Segundo ele, centenas de pessoas vem conhecer o lugar anualmente. 

Os turistas vem e vão, mas as bonecas continuam no mesmo lugar. Seus corpos retorcidos pendurados nas árvores como frutos medonhos, seus olhos abertos encarando o vazio eternamente. É provável que elas fiquem ali para sempre, ou até que seus corpos se deteriorem e se transformem em poeira. Talvez Barrera ainda esteja ali entre as bonecas que se decompõem lentamente, zelando por elas como se fossem suas filhas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

The Cthulhu Game Room - A Sala de Jogos dos Sonhos (ou pesadelos)



Nem tem muito o que dizer nessa postagem.

O Mundo Tentacular se rende a sua parte "Casa e Decoração" e abre as suas portas para fotos dessa incrível Sala de Jogos.

Como dizem por aí, uma imagem vale mais do que mil palavras, então não vou nem tentar explicar o quanto essa sala de jogos suntuosa decorada por um grupo de Call of Cthulhu na Alemanha é sensacional.

Trata-se da perfeita harmonia entre insanidade e aconchego.

Alte Decór para cultistas e adoradores dos Mythos.

Uma bela decoração de Man Cave, onde Cthulhu espreita no canto escuro.

O perfeito equilíbrio entre Feng-Shui e Nyarlathotep.

Rolar uma aventura à luz de velas, em um ambiente decorado e propício é outra coisa.


Tudo bem, o jacaré empalhado talvez seja meio over, mas caceta, é preciso tirar o chapéu para os malucos que decoraram o lugar, sobretudo, no que diz respeito a esforço.

Um Luxo!


E a coleção de tranqueiras e traquitanas bizarras só valoriza a coisa toda. Agrega valor, como diriam os arquitetos de plantão. Repara nos vidros coloridos com rótulos amarelados, livros que mais parecem tomos de magia, baús de tesouro e velas espalhadas pelo local.


Galhadas de animais, muita madeira morta, laços de enforcamento e é claro, crânios (crânios não poderiam faltar), ajudam a compor o panorama conferindo um ar de tumba maldita, laboratório de necromancia e templo profano, tudo ao mesmo tempo.

A perfeita combinação entre depressão, paranoia e niilismo em cada pequeno detalhe.


O telefone vintage preto dá vontade de ligar para a "Linha de Apoio aos Suicidas"


Os tubos de laboratório e a misteriosa caixinha de madeira no criado mudo com papeis amarrotados. Uau! Pensaram em tudo mesmo!


E é claro, não poderia faltar o ídolo de Cthulhu sobre a mesa, protegendo os preciosos tomos.

E que dizer do pássaro empalhado como uma ave do mau agouro observando sob seu ombro aquele rolamento crucial?


Agora, a pièce de resistance na minha opinião é esse poster com anatomia do esqueleto humano. Se tivesse de destacar alguma coisa e levar para casa, seria isso...

Encarar a própria mortalidade chega a ser reconfortante diante desse detalhe macabro. O supra-sumo da frase "Doom awaits inside".



Não falta vontade de rolar dados com esses caras...

Esses alemães parecem realmente querer deixar você à vontade. Alemães afinal são conhecidos por serem um povo incrivelmente caloroso - seus vizinhos poloneses que o digam.

Só um pequeno problema: se esses caras tem essas coisas na Sala de Jogos, imagina o que eles escondem no porão.

Nah! Melhor ficar aqui e manter o celular com o speed dial pronto... 190!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Algo Lovecraftiano no Peru - A Misteriosa mão de três dedos


Menos de dois meses após a revelação de uma minúscula cabeça humanoide no Peru, surge uma segunda e estranha descoberta que é consideravelmente menos humanoide e mais... er, o que diabos, é isso?

A mão alegadamente descoberta no interior de uma tumba Inca ancestral possui apenas três dedos extremamente longos - sem polegar, mas com estranhas características que tornam o seu reconhecimento difícil. Não há nenhum animal conhecido na natureza cuja anatomia possa ser encaixada nessa peculiar configuração. Nada que seja nem remotamente semelhante. E se ela não pertence a nenhum ser terrestre, bem, por definição ela deveria ser extra-terrestre.

Seria possível que o estranho artefato pertença a algum ser alienígena? Seriam os dedos alongados um indício de que seu crânio também seria alongado como os descobertos no próprio Peru? Quem manteve essa coisa guardada e com qual propósito?


Assim como ocorreu com o crânio encontrado no início de novembro (cuja imagem pode ser vista mais abaixo), os detalhes divulgados a respeito da mão foram escassos. A página Hidden Inca Tours liberou algumas informações e fotografias. O site afirma que a mão foi trazida para eles pela mesma pessoa que lhes forneceu o crânio. O homem que preferiu se manter no anonimato disse apenas que as peças estavam no interior do que ele chamou de um Templo Inca antigo e que até então encontrava-se selado. Ele não deu maiores detalhes a respeito do local, mas disse que ficava nos arredores da cidade de Cuzco, no passado um dos berços da Civilização Inca. É de Cuzco que provém grande parte dos artefatos encontrados, inclusive os mais enigmáticos como os crânios de cristal, peças de artesanato incomuns e crânios alongados.

O homem contou que o Templo contém outros artefatos, mas que esses só seriam entregues mediante pagamentos em espécie. Ainda segundo o sujeito, muitos dos artefatos restantes eram tão incomuns e chocantes que ele mesmo ficou em dúvida sobre removê-los do lugar, temendo a repercussão e a reação das pessoas. Caçadores de Tumbas são relativamente comuns no Peru, um trabalho perigoso e clandestino já que a remoção e venda de artefatos arqueológicos constitui um crime contra o Patrimônio Histórico.

Exames de raios-X na mão mumificada mostraram que os dedos extremamente longos e finos possuem seis ossos e cinco falanges ao invés de duas ou três como ocorre normalmente nos seres humanos. O que deveria ser a palma da mão aparenta ter sido fraturado em pequenos pedaços de osso.


Uma aproximação da extremidade evidencia que ainda há restos de pele e na ponta do dedo existe uma unha bem feita. Infelizmente as unhas dos demais dedos se perderam. Há algo ainda mais curioso e intrigante, pequenos fragmentos de metal foram fixados diretamente no osso.

Seria possível que os fragmentos fossem algum tipo de implante cirúrgico colocado com objetivo ainda ignorados? E se sim, o que eles permitem e quem teria conhecimento suficiente para inserir metal diretamente nos ossos?

Os tais fragmentos metálicos parecem ser de uma liga pura de aço e tem a forma de anéis que se ajustam internamente nas falanges.

Uma vez que o objeto foi obtido ilegalmente, o governo peruano deu início a um processo para reaver a mão e o crânio descobertos recentemente. Essa é uma política procedimental comum em vários países da América Central e do Sul que possuem leis bastante severas contra remoção de artefatos de seus sítios arqueológicos. Até mesmo a análise desses artefatos é proibida pela legislação, tecnicamente para evitar qualquer dano aos artefatos.

Por conta desse inbroglio legal, a mão que se encontra em território Norte-americano não pode ser testada e portanto seu DNA ainda não pode ser realizado.


De um ponto de vista histórico, não se sabe de nenhuma cultura pré-colombiana que praticasse algum tipo de procedimento para alongar os dedos. Sabe-se entretanto de povos que realizavam cirurgias em bebês com o intuito de alongar o crânio usando para isso tornos que modelavam a moleira dos recém nascidos. Os especialistas que tiveram acesso a fotografias determinaram que ainda é cedo para dizer se a mão pertence a um ser humano, ou a algum tipo de mamífero de grande porte.

As primeiras declarações de especialistas sobre a mão não apontam para qualquer direção.

Não há informações suficientes para dizer do que se trata ou de onde a coisa pode ter vindo. Não há nenhum mamífero de três dedos com uma estrutura óssea semelhante, nem mesmo coalas (que possuem três dedos, mas também tem polegares) e preguiças gigantes (que poderiam se assemelhar, mas que não possuem unhas nem remotamente parecidas com as da mão).


Eliminando-se humanos e também mamíferos, restam poucas opções. Se a mão não passa de uma farsa, como é bem provável, ela é extremamente bem engendrada e suficientemente bem realizada a ponto de confundir especialistas. Se o exame de DNA revelar que ela não possui uma estrutura comum, o que podemos supor além de que ela tem origem extra-terrestre? E se o resultado for esse, será que os responsáveis irão divulgá-lo ao público?

*     *     *

Bom, nunca se sabe...

O mais provável é que essa "mão alienígena" seja um hoax, mas ainda assim é bem curioso.

Mas quem sabe a mão possa pertencer a uma das criaturas do Mythos, talvez um Andarilho Dimensional ou um Servo de Glaaki ferido em algum momento do passado remoto. O membro pode ter sido recolhido, mantido por séculos por alguma civilização como um artefato bizarro, um lembrete da visita de deuses... ou demônios!

Algum teórico de conspirações certo dia disse:

"Na ausência de uma explicação razoável, qualquer explicação, não importa quão absurda, é tão válida quanto as demais". 

Vamos ficar atentos para novas informações sobre esse artefato.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Através das Dimensões - Anatomia dos Andarilhos Dimensionais


Nós olhamos para as estrelas e acreditamos ver inúmeras possibilidades. Horror e beleza entrelaçados entre as distâncias cósmicas e golfos de espaço que separam as estrelas. O potencial de exploração é infinito.

Mas existem certos livros, tratados ancestrais que apontam para uma outra verdade aterrorizante. Eles insinuam que o universo é ainda maior do que podemos imaginar, muito mais vasto que nós podemos conceber, apenas uma faceta de uma joia infinita. Entre os espaços do que chamamos de realidade existem mundos paralelos, dimensões dispostas lado a lado em uma infinita miríade de realidades distintas, cada qual com suas próprias leis naturais.

O cabalístico Livro de Eibon talvez seja o mais respeitado tratado a falar das múltiplas dimensões que acercam o tecido da realidade. Como cortinas diáfanas eles se interpõem consecutivamente, tal como paredes que dividem os planos em camadas. Eibon, o ancestral feiticeiro Hiperbóreo que redigiu o livro que leva seu nome, descreveu algumas dessas dimensões: falou de esferas de céu púrpura, chão de vidro moído e infindáveis mares de mercúrio. Mencionou planos inteiros tomados por ar espesso carregado de eletricidade estática e de miasmas que brotam do solo pantanoso. Falou de mundos preenchidos por névoas cinzentas e indevassáveis, onde espreitam raças de predadores insectóides que vivem da caçada e que podem atingir dimensões colossais. 

Aludiu a respeito de mundos líquidos, sólidos, vaporosos, de lodo primal e com desertos de areia revolta, soprada por vendavais capazes de arrancar carne e limpar ossos. A maioria das dimensões planares são absolutamente insalubres, incapazes de sustentar a permanência humana por mais do que alguns instantes. O calor extremo, o frio absoluto, a pressão esmagadora, os ares nocivos, as substâncias presentes na atmosfera, tudo conspira para a morte. Cada elemento é suficiente para matar os homens que altivos avançam através das passagens dimensionais. O próprio Eibon diz em seu tomo que "tolo é aquele que crê poder explorar as infinitas realidades sem tomar as devidas precauções ou conhecer previamente o que irá encontrar além das passagens". Ele bem sabia dos riscos de transpor o arcabouço de tais latitudes. Atingir os potentados do além, afinal, não é tarefa simples ou para os fracos.

O fato de existirem lugares tão daninhos ao ser humano, no entanto, não significa que estes sejam destituídos de criaturas nativas. É preciso compreender, entretanto, que tais planos, por serem em essência dessemelhantes ao nosso, geram formas de vida exóticas, aberrantes para nossas concepções e padrões. Tais seres são o anátema da natureza terrestre, não havendo termos de comparação capazes de exprimir suas formas. Para todos os efeitos, eles são tão estranhos, tão imensamente alienígenas que em muitos casos, o mero vislumbre de suas formas bizarras é suficiente para fraturar nossa sanidade.


Ao longo da história humana, a vacilante exploração das múltiplas dimensões, empreendida por feiticeiros capazes de romper a barreira dimensional , revelou a existência de habitantes nestes rincões distantes. Pode-se dizer sem receio que na maioria das vezes, o contato com esses seres dimensionais resultou em desastre. Tais criaturas não parecem compreender a natureza humana e julgando que esses visitantes são estranhos à sua realidade, tendem a adotar uma postura hostil. Não é de todo estranho esse comportamento beligerante; é preciso compreender que homens reagiram da mesma maneira. Ao se deparar com seres de outras realidades, buscam simplesmente aniquilar ou afugentá-los. O temor é uma constante recorrente na maioria das experiências pioneiras de contato entre espécies.

Os peregrinos planares cunharam vários termos para nomear as criaturas do outro lado. 

Chamaram-nas de Dançarinos do Véu, na antiga Roma, um termo emprestado dos feiticeiros etruscos, usaram o nome Trôpegos Vacilantes na Babilônia para reportar uma de sua características mais marcante, o andar desajeitado. Os Egípcios os chamaram de Rastejadores Dimensionais, enquanto outros preferiram identificá-los como "Os que vivem além", um termo presente na edições grega do Necronomicon de Philletas. Mas foi com o nome Andarilhos Dimensionais que eles se tornaram mais conhecidos entre os estudiosos da Metafísica e pesquisadores dos Mythos de Cthulhu.

De fato, o termo Andarilho Dimensional é reminiscente dos teóricos iluministas que o cunharam provavelmente no século XVII, sendo utilizado até os dias atuais. Paracelsus, o famoso filósofo alquimista os conhecia por este nome, Ludwig Prinn, assim os anunciava no décimo oitavo capítulo do Vermiis Mysteriis, bem como o célebre Dr. John Dee, um dos copistas responsável por traduzir o Necronomicom, os identificava para o idioma bretão - Ye Dimensional Shambler.

As diversas interpretações, os nomes pelos quais são conhecidos, além da farta documentação em tratados esotéricos, podem sugerir ao leitor que a natureza dessas criaturas é compreendida, contudo, nada poderia estar mais distante da realidade. É frustrante constatar que não se sabe praticamente nada a respeito desses seres, salvo o seu nome e breves descrições sobre sua aparência física. E mesmo estas observações são insuficientes para lançar uma luz assertiva sobre o que eles são. Supõe-se que sejam entidades capazes de caminhar por entre os planos e mundos do universo, vagando entre as dimensões sem se fixar permanentemente a uma.

Não há um consenso de como eles engendram essa façanha, mas fato é que os Andarilhos, simplesmente são capazes de se deslocar entre um plano e outro, meramente avançando em seus passos cambaleantes. Ao cruzar os limites de uma dimensão, o Andarilho cria uma descarga de eletricidade estática que recobre seu corpo e se manifesta na forma de faíscas azuladas que lambem seu corpo produzindo um ruído característico de estalidos. Um cheiro de ozônio tende a permear o ar, momentos antes da barreira ser perfurada. O surgimento de um Andarilho é uma apoteose de centelhas e lampejos elétricos que se espalham, por vezes luzindo como fogo-fátuos ou luzes multi-cromáticas. Em outras instâncias, fala-se de um disco de luz, suspenso no próprio ar, como um portal através do qual a criatura emerge, carregando consigo uma substância plasmática e viscosa. Para alguns seria aliás, essa a real natureza do ectoplasma.


Seja como for, os Andarilhos são capazes de se manifestar fisicamente em diferentes dimensões, e se manter nestas indefinidamente. No momento em que se dá por satisfeito, o Andarilho retorna para seu lugar de origem, ou para um outro plano de sua escolha, simplesmente mergulhando em um novo portal ou se deixando envolver pelas faíscas azuladas. Não se sabe de Andarilhos dispostos a adotar dimensões adjacentes como um novo lar. Inexistem casos em que tais criaturas escolheram se estabelecer permanentemente em nossa realidade. Se tal coisa é viável, ou não, também não se sabe. É provável, entretanto, que os Andarilhos Dimensionais não sejam adaptáveis à nossa dimensão e que uma estadia prolongada seja potencialmente letal. Tentativas de aprisionar ou estudar o comportamento destas criaturas jamais tiveram resultado, dada a óbvia impossibilidade de capturá-los ou mantê-los cativos.

Ocasionalmente estas criaturas servem a algum Deus Exterior ou Grande Antigo, mas não se sabe qual a relação estabelecida entre eles e tais divindades. Dada suas faculdades planares, alguns teóricos sugerem que Yog-Sothoth pode ser a divindade mais próxima deles. Embora sejam categorizados como uma Raça Menor Independente, não se pode descartar que eles possam ser uma espécie Serviçal, disposta a auxiliar seus mestres mais poderosos. 

No submundo da magia, ouve-se rumores de Feiticeiros que conseguiram criar poderosos Rituais de Vinculação que permite submeter tais criaturas a vontade e até compeli-los a realizar tarefas simples. Na versão mais conhecida do Ritual de Vinculação, o mago precisa desenhar vários símbolos num círculo designando a Dimensão de onde a criatura será convocada, velas são posicionadas nos limites de um pentagrama invertido e palavras específicas são proferidas. O utilizador precisa ainda de uma adaga de prata pura que ele utiliza para desenhar no ar símbolos de poder. Se todas as formalidades forem cumpridas, o Andarilho surge exatamente sobre o círculo que serve como área limítrofe impedindo a criatura de cruzar seus limites e de se deslocar de volta ao seu plano. Uma nova litania de palavras de poder, entre as quais as Preces de Eibon devem ser entoadas e ao fim destas, se a vontade do Mago prevalecer, o Andarilho ficará sob seu comando por um dia inteiro. Se o feitiço falhar, o Andarilho poderá simplesmente partir, ou se furioso, descontar sua frustração no mago.
  
Uma vez compelido a servir, o Andarilho Dimensional poderá ser enviado em missão de assassinato, para entregar uma mensagem, obter algum objeto ou contatar um aliado. Andarilhos possuem inteligência rudimentar, mas conseguem compreender ordens simples, possivelmente por intermédio de um elo psíquico compartilhado com o mago que o compeliu. A facilidade de se deslocar entre as dimensões permite que eles cumpram suas missões de maneira rápida e plenamente satisfatória.

Magos não acompanham os Andarilhos em viagens planares, embora as criaturas possam carregar pessoas através das dimensões meramente segurando-as em seus braços enquanto fazem a caminhada. Acredita-se que os humanos não estão preparados para essa modalidade de deslocamento planar sendo desintegrados a cada passo do Andarilho entre as dimensões. Inexiste qualquer registro confiável de algum mago que tenha retornado em segurança dessa tentativa. Ainda assim, há lendas sobre Feiticeiros que teriam atingido outros planos nos braços de Andarilhos, embora a maioria dos teóricos julgue tal coisa inviável. Isso conduziu à crença bastante difundida de que aqueles levados pelos Andarilhos Dimensionais jamais retornam, o que torna essas criaturas bastante úteis para quem deseja eliminar um desafeto fazendo-o "desaparecer" permanentemente. O fato de não restar qualquer indício material da vítima, é um enorme bônus. 


Um andarilho dimensional jamais é igual a outro, há diferenças marcantes que tornam cada indivíduo único, horrendo em cada detalhe, medonho em cada particularidade.

Em geral eles são humanoides com dois braços, duas pernas e uma cabeça ainda que possam haver indivíduos com múltiplos membros. Estes são incrivelmente incongruentes, diferenciando-se quando a tamanho e massa, inchados ou estriados. Os braços são especialmente longos, com músculos e tendões esticados até quase o ponto de se rasgarem. As pernas são longas, franzinas e aparentam enorme fragilidade, como se fossem incapazes de sustentar o restante do corpo. O tórax é avantajado e irregular, com manchas que evidenciam diferentes cores e texturas. Não possuem pelos ou cabelos e seus corpos são coberto de tumores e gânglios que lembram cascas de ferida secas. A pele dos Andarilhos tende a ser rugosa e resistente como couro batido, apresentando camadas soltas que parecem retalhos de tecido conjuntivo. A coloração varia entre um amarelo doentio, podendo assumir uma tonalidade alaranjada, marrom ou cor de cobre nas extremidades. Os movimentos do Andarilho são desajeitados, seus passos são vacilantes com um tipo de ginga característico que lembra o andar dos símios terrestres. Em virtude desse movimento peculiar, alguns Andarilhos já foram confundidos com gorilas e outros antropoides de grande porte. Ainda que desajeitados, os Andarilhos são rápidos e quando empreendem perseguição usam os braços para se equilibrar e propelir na direção de seus oponentes.

O comportamento deles tende a ser agressivo, variando para o indiferente em alguns casos. Os andarilhos tem rápidas mudanças de humor, podendo atacar sem qualquer aviso, investindo furiosamente e agredindo repetidas vezes com seus punhos, pés ou com garras. Tanto as mãos quanto os pés dos Andarilhos são dotados de garras compridas e afiadas, no final de três dedos. As garras são feitas de um tecido quitinoso recurvo e somada à força avantajada da criatura, podem causar ferimentos consideráveis. O andarilho não se limita a atacar com os punhos, podendo saltar e rasgar uma presa com as unhas nos pés que mais parecem esporões. Por vezes, eles usam de sua capacidade de deslocamento dimensional para alcançar as presas de forma mais rápida, surgindo diante delas justo quando estas pensam já ter escapado.

Os sentidos do Andarilho são grosseiros, ao menos em nossa dimensão. Sua visão é limitada a alguns poucos metros e seus olhos, pequenos e fundos não parecem adaptados ao nosso espectro luminoso. Eles conseguem ver, mas de forma embaçada e pouco clara. Sua audição e olfato são melhores, e eles se guiam por estes sentidos na maioria das vezes, mantendo-se em total silêncio para captar súbitas mudanças de movimento. Alguns não possuem nem mesmo estes sentidos e é um mistério como as criaturas conseguem perceber seus arredores.

A cabeça dos Andarilhos é um pesadelo que remete a um boneco de barro ou argila semi-derretida. A boca é longa e rasgada de uma extremidade à outra, repleta de dentes grandes, tortos e acavalados. Não possuem língua. Eles possuem lábios grossos e deformados, manchados pela saliva que escorre em profusão. Na cabeça a pele é ainda mais rugosa retorcida com vincos e estrias. A testa é alta e o queixo termina numa papada quase como se não existisse, fundindo-se ao pescoço curto. A cabeça não se move, e ele se limita a inclinar para esquerda e direita ao prestar atenção em algo. Os andarilhos são incapazes de falar, o único som que eles produzem é um tipo de gorgolejar semelhante ao ruído de alguém se afogando. Por todos esses predicados distorcidos, não por acaso, observadores trataram estes seres como os míticos demônios, entidades presentes em várias religiões. É bem possível que muitas estórias sobre criaturas das profundezas e horrores do Hades sejam baseadas no contato com Andarilhos Dimensionais.

Não se sabe praticamente nada a respeito de seu ciclo reprodutivo. Não há uma distinção óbvia de sexos, se é que eles possuem gêneros diferentes, sendo que o mais provável é que eles todos sejam hermafroditas. Nunca foram registradas aparições de jovens ou filhotes. É possível que sejam imortais pela passagem do tempo. Podem, no entanto, cessar de existir. Ferimentos suficientes podem incapacitá-los, ainda que os andarilhos sejam mais vigorosos do que um humano mediano. Ao morrerem em nossa realidade, seus corpos desaparecem, como se puxados de volta para sua dimensão de origem em meio a centelhas elétricas e de um clarão muito forte.

Existem tipos de Andarilhos e o detalhamento de criaturas específicas será matéria de uma futura publicação.

Outras Anatomias do Mythos:






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Então você quer narrar um Cenário Cthulhiano? - Tópicos para entender esse tipo de ambientação


Artigo originalmente publicado em 01/02/2011


O lançamento de Rastro de Cthulhu, além de trazer novos ares ao mercado brasileiro de RPG também incentivará uma nova geração de mestres a narrar suas primeiras aventuras no mundo imaginado por H.P. Lovecraft.

O Livro Básico contém todas as informações para entender "qual é a do jogo", mas talvez seja interessante dedicar algumas palavras aos Guardiões de primeira viagem que em breve devem mergulhar no medonho Universo do Mythos.

Em que uma ambientação tipicamente Cthulhiana se difere de um RPG de aventura medieval, de horror pessoal ou dedicado a super heróis?

Há algumas particularidades que tornam esse jogo diferente dos outros, senão vejamos:

1 - CENÁRIO E NÃO AVENTURAS



Já me perguntaram em mais de uma ocasião porque costumo chamar de "cenários" as aventuras baseadas na obra de Lovecraft. A resposta é simples: os personagens não estão envolvidos em uma aventura, é mais uma luta desesperada contra escuridão e o mal. Um confronto enlouquecedor para deter um mal ancestral, um culto maligno, uma tragédia que se aproxima rapidamente.

Cada cenário, mesmo aquele com inclinação para o Pulp, é uma estória sobre pessoas enfrentando um horror supremo, forças esmagadoras e inumanas.

Uma "aventura" em Rastro de Cthulhu não sobre obter tesouros, matar monstros, salvar donzelas, explorar terras exóticas e colher os louros dessas conquistas. Ele envolve sobreviver, salvaguardar valores humanos e descobrir um perigoso conhecimento. Não há recompensas imediatas e sejamos francos, nem a longo prazo.

Não há glória. Não há agradecimentos. Não há tesouros. No final, os personagens terão feito o melhor possível, provavelmente terão sofrido física e espiritualmente, e estarão tão desgastados que possivelmente jamais irão se recuperar. Chamar isso de aventura, chega a ser piada!

Um cenário tipicamente lovecraftiano envolve um mistério que serve de isca, uma investigação que os leva cada vez mais perto de uma verdade horrenda: "O que pretende o maníaco que vem matando e arrancando a cabeça das vítimas?", "Quem - ou o que - matou o professor de Arqueologia que havia desenterrado aquele templo egípcio?", "O que aconteceu com a tripulação do navio encontrado à deriva?", "O que essas pessoas fazem nas noites de lua cheia, cantando e dançando em volta de uma estátua medonha?".

Coletar evidências, analisar pistas, entrevistar testemunhas, relacionar fatos e então, munido desse arcabouço confrontar a ameaça - é disso que trata um Cenário Cthulhiano. O trabalho é na maioria das vezes mental e quando as coisas se tornam físicas, os personagens desejam jamais ter saído de casa.

As recompensas, quando estas surgem, são artefatos sobre os quais sabe-se muito pouco. Livros contendo conhecimento antigo, objetos amaldiçoados e magias que podem lançar uma luz sobre a natureza do Mythos, mas aprender esses segredos leva o mais sensato dos homens à ruína da insanidade. Nunca é fácil! Nunca mesmo...

É impossível chamar uma jornada dessas, rumo às profundezas da loucura e do terror, de aventura, ela é ao invés disso, uma experiência demolidora.

2 - Investigadores e não Aventureiros


Assim como não há aventura, os protagonistas não são aventureiros.

Quase todos os jogadores e mestres de RPG estão acostumados a criar personagens cheios de coragem e virtude. Eles são heróis capazes de realizar façanhas incríveis. Seja enfrentar e matar dragões gigantescos e monstros medonhos, participar de batalhas épicas, destruir exércitos com magias ou invadir masmorras inexpugnáveis. são heróis no melhor sentido da palavra!

Em um Cenário Cthulhiano os personagens dos jogadores são pessoas absolutamente comuns. Gente que tem trabalho, família, sua para ganhar salários, pagar contas e progredir na vida. São, contudo, homens e mulheres que em algum momento da sua existência, esbarraram em uma inconveniente verdade e que agora não podem fugir a essa revelação. Eles descobriram que o mundo é um lugar muito mais perigoso do que se pode imaginar. Dessa forma eles se tornaram Investigadores do Mythos, aquela que talvez seja a mais perigosa ocupação do mundo.

Em lugares proibidos e isolados existem coisas muito mais terríveis do que imaginamos e essas coisas não ficarão confinadas na escuridão para sempre. Pior, eles estão prestes a escapar, motivados pela cobiça, pelo fanatismo, pela loucura. Eles sempre voltam e nós sempre sofremos. Diante dessa descoberta, os investigadores decidem se erguer contra o mal e fazer o que for preciso para salvar o mundo de arder nas chamas.

De certa forma, esses personagens, muitas vezes sem acesso a armas, magia ou recursos são mais heróicos do que os aventureiros e super-seres das outras ambientações. Eles são a última linha de defesa contra aquilo que ameaça varrer a humanidade da existência e se colocarão no caminho da obliteração de olhos abertos para o horror supremo.

3 - Horror Cósmico


Dentro do Gênero Horror existem subdivisões.


Um cenário que, por exemplo, envolve vampiros aprendendo a enfrentar a dura realidade de sua nova existência se difere de uma ambientação que versa sobre humanos caçando monstros e fantasmas, embora as duas possam ser encaradas pela ótica do Horror.

Rastro de Cthulhu faz parte de um subgênero talhado por autores como Lovecraft, que costuma ser chamado de Horror Cósmico.

Nos Cenários de Horror Cósmico as coisas são especialmente dramáticas e aterrorizantes para os personagens. O medo que permeia esse subgênero é muito maior, muito mais dantesco que aquele representado por um fantasma, uma múmia ou mesmo uma horda de vampiros sedentos de sangue.

O Horror das criaturas do Mythos é totalmente inumano. Por mais bestial que seja um lobisomem ele ainda guarda similaridades com o seu lado humano, já em cenários lovecraftianos, as coisas que habitam a escuridão - e que são o grande inimigo - não são e nem nunca foram humanas. Eles são verdadeiros titãs de maldade insondável. O mero vislumbrar dessas entidades é o bastante para causar histeria e loucura.

Em cenários de Horror Cósmico sempre há uma ameaça oculta espreitando e as consequências do despertar desse mal serão catastróficas. Essa força maligna espalha seus tentáculos pelo mundo pervertendo tudo que toca. Ela vem do espaço, de além do tempo, de além das esferas, do espaço entre as dimensões, ou de lugares ainda mais distantes. O fato é que elas existem e que elas são como radiação para a mente humana, a hora que você for tocado, pode apostar, você não vai escapar ileso.

O cenário se concentra em descobrir a extensão dessas ameaça e tentar de todas as maneiras contê-la pelo tempo que for possível, pois esse mal jamais será extinto. No máximo será possível ganhar tempo!

4 - Um Mundo Cinzento


A ação de Rastro de Cthulhu acontece no mundo real, ou ao menos como ele era nos anos 30. Porque essa época em especial? Porque não trazer os cenários para os dias atuais e fixar em elementos do nosso dia a dia? Não seria mais acessível jogar em nossos dias atuais?

Alguns respondem a essa pergunta dizendo que os contos de H.P Lovecraft se passavam nessa época e nada mais natural que os cenários se desenvolvam no mesmo período. 

Eu prefiro outra resposta.

Os anos 30 são um momento muito interessante na história humana. O período em que o homem acreditava piamente que o Universo girava ao seu redor e que explorar os seus confins era seu Direito. O Homem havia retirado Deus do pedestal e orgulhoso havia assumido seu lugar. Ciência era o novo dogma, curiosidade a nova moda, ambição estava na ordem do dia.

De certa forma essa é a época que definiu os rumos da nossa civilização para os dias futuros. Nada mais justo que essa época de realizações, quando o homem começou a domar a natureza, gerar energia em quantidade nunca vista, cruzar distâncias inimagináveis e conquistar o ar, fosse a escolhida para confrontar nossa raça com a grande verdade: que nós somos um mero acidente e que existem forças muito mais poderosas no Universo. Forças estas que desafiam nossa razão e nossa compreensão e que poderiam nos extirpar da face da Terra em instantes.

Um dos elementos mais interessantes em um cenário de horror cósmico é a descoberta da Insignificância Humana. O pessimismo de saber que o universo é tão incrivelmente vasto e tão inconcebivelmente hostil diante de nossa inerente fragilidade.

Contrapor o progresso humano, sua inventividade e suas conquistas com a crueza de uma realidade em que esses valores nada representam, torna a ambientação ainda mais assustadora.

Na maioria dos mundos de RPG sempre há uma esperança, não importa o quão negras sejam as coisas. Mesmo quando Orcs marcham de Mordor, quando Dragões voam nos céus ou quando alienígenas invadem as cidades, lá está ela... a esperança de que dias melhores virão! E essa esperança repousa nos ombros dos heróis que lá estão para lutar até o último sopro de vida. Eles podem fazer a diferença (e em geral fazem!). E\

Já nos cenários assolados pela mácula do Horror Cósmico, nada pode ser feito, além de ganhar tempo e olhar para as estrelas temendo o pior.

5 - Segredos negros e insondáveis


Vou dar um conselho a quem está prestes a mestrar pela primeira vez um cenário cthulhiano para um grupo de jogadores que não sabe absolutamente nada a respeito da ambientação (exceto que ela tem um nome quase impronunciável).

Deixe os seus jogadores no escuro. Muito provavelmente eles sabem que se trata de um jogo de terror, mas não o tipo de horror que os personagens vão enfrentar.

Mantenha as coisas desse jeito. 

O Universo do Mythos é bizarro, estranho e incompreensível. Os jogadores não precisam saber que ghouls habitam as entranhas das cidades se alimentando dos mortos. Eles não precisam saber que Azathoth habita o centro do Universo e que suas convulsões provavelmente deram origem a tudo que existe. Eles não carecem saber que Nyarlathotep possui 1000 faces e que adora brincar com os humanos. Eles não precisam saber que Cthulhu mora no fundo do mar e que seus pesadelos evidenciam seu retorno.

Hush-Hush! Shhhhh....

Uma das coisas mais interessantes sobre uma ambientação cthulhiana é que ninguém, nem mesmo o Guardião conhece todos os segredos. Porque então os jogadores deveriam saber de algum detalhe?

Em Rastro de Cthulhu, a própria noção do que são os Deuses e Entidades Ancestrais, os monstros e as criaturas nos escapa. O livro é genial ao oferecer diferentes pontos de vista sem jamais afirmar qual deles, se é que um deles é real. Tem-se teorias, conjecturas e suposições metafísicas, sendo que estas por vezes não podem ser sequer compreendidas.

Lembre-se, o choque de uma revelação é muito mais dramático quando acontece de forma inesperada. Se você acabou de receber seu exemplar de Rastro de Cthulhu, mantenha-o longe dos olhos dos seus jogadores, eles não precisam saber o que esse livro inocente encerra nas suas páginas.

Bem é isso...

O Horror dos Mythos, o Horros Lovecraftiano, os cenários cthulhianos estão ao alcance de suas mãos. Como mestre, você tem uma enorme responsabilidade, a de guiar seus amigos pelas veredas do horror, pelos caminhos pavimentados com medo e paranoia, em uma jornada que será igualmente fantástica e assustadora.

O que existe atrás dessas páginas?

Loucura, esquecimento, temores, e muita diversão!

Bem vindo ao mundo do Horror Cósmico.

E não custa lembrar:

https://www.catarse.me/rastro_de_cthulhu

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Tem alguém aí"? - O dia que brinquei com Ouija


A respeito de Tabuleiro Ouija, vou contar um caso que eu testemunhei muitos anos atrás, quando eu era moleque e que pode ser considerado como minha primeira exploração do oculto - ou nem tanto.


Não estou pedindo para que acreditem, para falar a verdade, nem eu lembro de todos os detalhes  e alguns vou suprir com algumas invenções, mas no geral, foi como aconteceu e enquanto escrevia fui lembrando de mais algumas coisas. Na época o acontecimento me deixou uma grande impressão, que é uma forma educada de dizer, "quase me borrei todo".



Eu devia ter uns 12-13 anos, e nessa época foram lançados os livros da Coleção Ciências Proibidas.



Não sei se os mais novos vão saber do que se trata, mas quem está na casa dos 35-40 anos deve se recordar que essa coleção em fascículos quinzenais marcou época. Ela se propunha a ser uma Coleção sobre Ocultismo, uma verdadeira Enciclopédia do Sobrenatural que cobria em cada volume um tema diferente com assuntos espinhosos tais como Bruxaria e Satanismo, misturado a outros mais inofensivos como Interpretação de Sonhos, Civilizações Antigas e até O Fenômeno OVNI. Muito do que estava ali não passava de papo furado, mas, não obstante, esses livros ficaram famosos.



Ter esses volumes de capa dura, encadernados em preto, era o mesmo que ter algo proibido, assustador, quase profano na estante... ou assim parecia aos olhos de um moleque curioso como eu. Francamente, eu nem cogitava a possibilidade de comprar e menos ainda guardar isso em casa. Sério, minha mãe simplesmente iria me matar se descobrisse uma coisa dessas em meu poder.




Contudo, um amigo do colégio era mais "corajoso" que eu, ou ao menos, seus pais não se importavam com onde ele decidia gastar sua mesada. Vou chamar ele de Guilherme. 


Guilherme era o tipo do garoto que a gente sabia, não deveria andar junto: pra começar, ele parecia entender bem demais as piadas sujas que contava, tinha má fama entre os pais ("Não quero você andando com ele"), já tinha sido suspenso duas vezes uma delas por xingar uma professora e epetiu de ano. E agora, suprema transgressão, tinha em seu poder um volume de Ciências Proibidas. 

O primeiro volume da Coleção, tinha o sugestivo título "Iniciação ao Espiritismo" e trazia uma capa absurdamente sinistra na qual despontava a face de um ser demoníaco de olhos brancos, pele amarelada e chifres. Nunca vou saber porque escolheram uma capa dessas, mas provavelmente tinha a ver com chocar e assim atrair público. Como acontece hoje em dia, a primeira edição trazia um chamariz, um brinde para motivar a compra dele e das edições futuras, no caso, o brinde era tentador demais: um Tabuleiro Ouija.

Até aquela época eu acho que nunca tinha ouvido falar dessas coisas. Sem dúvida já conhecia a tal brincadeira do copo, aquela história de colocar um copo sobre a mesa, os dedos pousados sobre ele e espalhar um monte de pedaços de papel com as letras do alfabeto. Movido pela força de vontade dos espíritos - ou por algum engraçadinho que queria manipular a coisa, o copo deveria avançar por conta própria e soletrar palavras que respondessem as perguntas feitas. É claro, jamais funcionou, para frustração e alívio de todos.

Mas o Ouija era diferente!


Primeiro por que ele parecia algo autêntico e não uma brincadeira de algum fulano que queria contar vantagem e que "conhecia um primo que tinha feito a tal brincadeira e o copo havia se mexido de verdade". E segundo, por que ele vinha em um livro como Ciências Proibidas. 

"Ciência" soava como verdade.

Enfim, num belo dia, o Guilherme levou seu tabuleiro Ouija no Colégio e propôs fazer uma experiência (ele chamou de "experiência" e não brincadeira, o que já soava diferente), após a aula. A ideia era reunir uns cinco ou seis moleques, seguir as instruções contidas no livro e assim tentar (insira aqui o som de trovões) falar com os espíritos!

Tan-tan-tan!!!!!!

Não sei o que pensei a respeito, mas tenho certeza de que me digladiei sobre o dilema moral de participar ou não, sobretudo porque naquela época eu tinha medo de toda e qualquer coisa desse tipo. Sobrenatural pra mim era assistir filmes de Jason e Freddy Kruger. Mas na mesma proporção que me apavorava, sentia aquela vontade de participar e ver o que ia acontecer, sem falar que não queria ser chamado de covarde pelos outros, um sentimento que provavelmente era compartilhado pelos demais, e convenientemente mantido em segredo.

Seja como for, lá pelas tantas, topei aparecer na casa desse colega transgressor que morava surpreendentemente pertinho dos meus pais. 

A primeira surpresa é que dos seis que tinham sido convidados para a "experiência" (Tan-tan-tan!) aparecemos só eu e mais um. Por um momento pensei que na ausência de outros, a coisa ia ser cancelada, afinal reconhecer cagaço diante de outros dois não era tão ruim, além do que, sempre era possível fingir que tínhamos feito a brincadeira e acusar os demais de amarelar. 

[Um dia alguém deveria escrever um longo tratado sobre os protocolos de coragem e covardia do que era ser criança nos anos 80. É quase um "Four Feathers" de conduta social].

Para meu desalento, Guilherme simplesmente disse que podíamos seguir adiante, de fato, segundo ele explicou com ares de autoridade, com menos gente podia funcionar melhor. "Que bom", devo ter murmurado, como quem é informado que vão servir brócolis no almoço e você terá de comer um prato cheio.

Enfim, é preciso tirar o chapéu para Guilherme que a essa altura eu já considerava o próprio ocultista. O Aleister Crowley imberbe (se eu soubesse quem era Crowley na época), o próprio mago do primeiro ano do Colégio de Freiras onde estudávamos... o sujeito tinha preparado uma mesa na sala de jantar, toalha branca, com velas, cortina fechada, luz difusa e uma aura que me pareceu incrivelmente sinistra. Complementando o cenário havia uma carranca daquelas que se compra quando se viaja para a Bahia num canto. Era uma daquelas carrancas enormes talhada na madeira, disposta na sala como se fosse um cão de guarda, ao lado de um bufet. Olhei aquele troço e lembro ter pensado com meus botões: "Quem diabos tem um negócio desses em casa?".

Era oficial, a coisa ia acontecer ali, já que os pais do Guiga (ele pediu para chamar ele desse jeito) não estavam em casa. Repousando sobre a mesa, estava o Ciências Proibidas, como se fosse um tomo de magia, o equivalente ao Necronomicon dos pobres - embora a honra de ser chamado assim fosse reservada para o Livro de São Cipriano, outro "proibidaço da época", que eu descobriria anos mais tarde (mas isso é uma outra história).


"Quer dar uma olhada?" ele perguntou quando eu disfarçadamente estiquei os olhos na direção do livro.

Claro que não queria! Aquela capa era sinistra além da conta! Eu não queria tocar naquela coisa, não queria ver de perto, achava que poderia congelar meus dedos meramente tocar nele, o que dizer de folhear as suas malditas páginas e ver o que estava ali dentro. Tudo me dizia para não fazer, toda minha educação católica de missa finais de semana e aula de catecismo me mandava dizer 'Não".

"Claro que quero!" respondi tentando esconder o receio.

Abri o livro, e sabe quando você olha mas tenta não ver? Quem tinha medo de Trem fantasma sabe do que estou falando. Folheei uma ou outra página e me dei por satisfeito, fechei o livro e pousei sobre a mesa.

"Foda!" disse saboreando o teor proibido do palavrão recém descoberto, tinha gosto de bala de menta na boca. Deixava um gosto bom quando terminava.

Demos início então aos preparativos, Guiga pediu que eu e o outro amigo, de quem não lembro o nome, mas vou chamar de Fabiano, tirássemos as cadeiras e deixasse-mos quatro ao redor da mesa. Lembro dele ter comentado: "Uma delas é para o espírito sentar".

Foda! 

Gosto de bala de menta.

Arrumamos tudo conforme sugerido no livro. Para me assegurar do que íamos fazer, achei que valia a pena ler as instruções que explicavam o que era uma Experiência com Tabuleiro Ouija. Elas eram descritas em uma folha que vinha dobrada dentro do tabuleiro. Era simples, talvez simples demais, tinha inclusive alguns desenhos descrevendo como era o procedimento e como a gente deveria fazer. Na falta de uma ponteira - o livro trazia apenas o tabuleiro, podíamos usar um copo de cristal. Guiga produziu de dentro do bufet uma taça de cristal daquelas de servir licor que os pais dele provavelmente tinham surrupiado durante um voo da Varig. No papel dizia que a taça tinha que ser quebrada depois de usar, mas duvidei que ele faria isso - EU não faria!

Sentamos ao redor da mesa, Guiga acendeu as velas, Fabiano respirou fundo, claramente incomodado e eu sentei entre os dois, ainda mais incomodado. Antes de começar, Guiga, o nosso "realizador" disse num tom solene que traia a voz que já começava a se tornar mais grossa, culpa da pré-adolescência: 

"Isso não é brincadeira, pessoal. Vamos ficar sérios! Sem piadas e sem bobagem, a gente vai chamar um espírito".

"Foda-se, vamos logo!" disse Fabiano, com um sorriso de quem se achava fodão.

Guiga disse que era melhor a gente dar as mãos para se concentrar. Na mentalidade de moleque dos anos 80 aquilo parecia "viadagem" (ou viadaji, como a gente gostava de enfatizar), mas ele devia saber o que fazia. Estendi as mãos e instintivamente pensei em rezar uma Ave Maria, dar as mãos a estranhos quando muito lembrava esse tipo de coisa. Fiquei satisfeito que Fabiano estava com as mãos tão geladas quanto as minhas.


Nisso, tocou a campainha!

"Puta que Pariu"! Guiga levantou abriu a porta e voltou uns segundos depois acompanhado por outro o colega que havia chegado atrasado. Junto dele vinha de arrasto a da irmã que tinha uns 11 anos e que queria "brincar" também.

"Porra, Bruno, tu tá de sacanagem, trouxe sua irmã? Não disse que ia ser uma coisa séria?" reclamou o ocultista mirim e nós fizemos coro de indignação.

Bruno se defendeu dizendo que se a irmã não viesse ia contar pra mãe dele e que ia melar a coisa toda. A menina, Giulia - lembro que era com "G", fez uma cara de "tô nem aí" e foi sentando na cadeira vaga:

"Essa aí não sua burra, essa é pro espírito sentar!" disse Fabiano e eu não consegui segurar a risada.

"Puxa outras cadeiras ali, senta e cala a boca se quiser participar. Mas eu não me responsabilizo pelo que venha a acontecer". 

Todos se entreolharam, Guiga mandou que déssemos as mãos de novo e que a gente se concentrasse.  Aí abriu os olhos e comentou:

"Uma coisa importante! A gente não deve perguntar quem vai morrer primeiro ou quando alguém aqui vai morrer!"

Bruno acenou com a cabeça como se concordasse e eu lembrei que quando tinha participado de uma brincadeira do copo com meus primos mais velhos, eles disseram a mesma coisa. Parecia ser um consenso que fazer esse tipo de pergunta atraía as piores coisas, a própria desgraça. Todos de acordo.


Ficamos de olhos fechados nos concentrando, tentando "limpar a mente" (seja lá o que isso significa para quem tem 13 anos). Finalmente, Guiga falou com um tom mais estridente do que desejava:

"Nós estamos tentando entrar em contato com um espírito amigo que queira falar conosco". A frase não era dele, estava nas instruções dizer isso e ele deve ter decorado.


Silêncio.

"Luciano, você, eu e o Fabiano colocamos o dedo em cima do copo, mas de leve! Não pode forçar, não é para empurrar". 

Fizemos conforme ele disse. Pousei o dedo no corpo e senti aquela sensação ao mesmo tempo desagradável e indescritível de prazer proibido.

"Muito bem, quem vai perguntar?" disse Guiga, respirando fundo e olhando para os outros com uma expressão que dizia "eu vim até aqui, agora é a vez de vocês. Façam alguma coisa".

Ninguém disse nada, ficou um silêncio constrangedor, como se ninguém tivesse certeza de que queria perguntar alguma coisa, pois... vai que tivesse resposta, né.

Quem quebrou o silêncio foi a pessoa menos provável ali na sala. Giulia perguntou: "Qual o seu nome"?

Nada! O copo não se moveu.

Eu repeti a pergunta e acrescentei um "tem alguém aqui". Não vou levar os louros pela pergunta, ela também estava entre as perguntas que se poderia fazer para iniciar a comunicação, conforme tinha acabado de ler nas instruções. 



Dois, três minutos se passaram... e aí o copo deslizou lentamente. Eu tenho quase certeza que o Fabiano (que era meio palhaço e cheio de ansiedade) começou a forçar o copo só porque queria que alguma coisa acontecesse de uma vez. A taça deslizou bem devagar até o "J". Guilherme balançou a cabeça e olhou feio para meu colega:

"Para com isso, cara! Você tá empurrando o copo!" Mandou ele tirar o dedo e sinalizou para o Bruno assumir o lugar dele. Bruno fez uma careta, pensou um instante e lembrou que não colocasse o dedo em cima, seria acusado de covardia. Acho que até ali ele achava que ia só observar: "Tá bom!", concordou resignado.


Passou mais uns instantes e repetimos as mesmas perguntas.

E novamente, o copo se moveu lentamente na direção do "J". Dessa vez eu não tinha certeza de quem estava conduzindo o copo, mas com certeza alguém deveria estar empurrando, pois do contrário só podia haver uma explicação e ela não me agradava em absoluto. Apesar de tudo, eu não acreditava que iria acontecer alguma coisa e esperava de coração que não acontecesse. Era o sentimento que corrobora o ditado "chegar pouco importa, o bacana é a viagem", pois bem, o legal era participar, ter resultado era algo completamente diferente, totalmente desnecessário.

Seja como for, o copo parou no "J", e então estacou. Passaram alguns minutos e a gente ficou em dúvida sobre o que fazer. Fabiano rompeu o silêncio e perguntou o que deveríamos fazer, Guiga ficou meio perdido e pensei que ele fosse abrir o livro e procurar alguma explicação, mas aí o copo se moveu mais alguns centímetros e parou ao lado do P.

Não parecia ter ninguém empurrando e a seriedade tomou conta de todos. 

"Vai ver são as iniciais de alguém" sugeri depois de pensar um pouco e me vi revisando na mente quem eu conhecia com as iniciais J.P, excluindo quem estava vivo. Felizmente quando temos 13 anos, não conhecemos tanta gente que tenha morrido e portanto não me veio ninguém à cabeça. Os outros também não conseguiram sugerir nada.

Nisso, o copo andou mais um pouco. 

E percebam, não peço para acreditarem nessa narrativa, mas estou sendo o mais fidedigno possível, com base no que me recordo. O copo deslizou milímetro por milímetro até a base do tabuleiro, passou pelas letras, parou no "6" por alguns instantes, e dali se dirigiu para o "até logo" que ficava na borda inferior.

Eu tinha lido que quando isso acontecia, o espírito simplesmente tinha desistido do contato, ou que ele não queria mais se comunicar. Nesse caso, era preciso parar e esperar um pouco.

Tirar o dedo do copo foi um alívio e todos estavam igualmente nervosos, se acusando de ter ou não empurrado o copo embora nós três tenhamos jurado que não o fizemos - eu sei que não o fiz, mas reconheço que o próprio Guilherme possa ter inconscientemente feito isso, quem sabe para chamar a atenção, quem sabe para justificar a experiência.

Verdade é que nunca vou saber.

Tentamos depois de novo, até a Giulia colocou o dedo no copo e nos revezamos em perguntas e tentativas, mas o copo não andou mais. Não importava quantas vezes tentássemos, nada aconteceu e nos demos por satisfeitos compartilhando do sentimento de alivio diante daquela imobilidade reconfortante.

Antes de nos despedirmos, comentei com o Bruno que a gente não devia comentar nada daquilo com os outros no colégio. Eu tinha a certeza de que se as Freiras do Colégio ficassem sabendo sem dúvida iriam nos expulsar ou pior, contariam aos meus pais o que a gente tinha feito. Os outros concordaram, mas é claro, na hora do recreio no dia seguinte, todo mundo já estava sabendo de nossa experiência sobrenatural.

Não sei quem foi, mas é claro que alguém tinha dado com a língua nos dentes e a história já se tornara uma saga de medo e horror envolvendo espíritos sentados em cadeiras vagas e copos que deslizavam sem parar. Não vou mentir, claro que gostei da fama repentina e dos olhares de admiração, até mesmo quando os outros nos acusavam incrédulos de mentir descaradamente.

Combinamos de fazer de novo, sobretudo por que alguns outros queriam participar da experiência e que seria bom contar com a presença de quem já havia feito. Guiga concordou, disse que segunda seus pais não estariam em casa e que  a gente poderia usar o apartamento dele de novo. Eu não estava especialmente feliz de reprisar aquilo, mas acabei topando torcendo para que até a semana seguinte esquecessem do combinado, coisa que não raramente acontece quando tem essa idade.

O fim de semana passou. 

Na segunda, Guilherme chegou no Colégio e estava com uma cara meio séria. Só consegui falar com ele no recreio e percebi que ele parecia evitar os demais que haviam planejado fazer a experiência naquela tarde. Finalmente quando estava com ele perguntei o que era e ele pareceu meio preocupado como se não quisesse contar uma coisa por temer que eu gozasse da sua cara ou contasse aos demais que ele estava sendo bundão. Tive que esperar até o final da aula para que ele muito sem jeito dissesse que não ia ter experiência na tarde. Ele pediu que eu avisasse os outros. Não disse nada, apenas aceitei aquilo com certa satisfação por não ter de passar pela coisa novamente.

Levou uns dias para que eu conseguisse falar com o Guilherme de novo e ele enfim topasse contar o que o estava incomodando. Na época a gente não era exatamente amigo, estávamos muito mais para colegas de classe que se veem obrigatoriamente cinco dias por semana e que nem mesmo conheciam a casa um do outro - o dia da experiência tinha sido a primeira vez que eu fui na casa dele e até então ele nem sabia onde eu morava.

Mas enfim, quando o Guiga resolveu me contar o que tinha acontecido eu acreditei de imediato não porque eu era um moleque crédulo e impressionável, mas porque algo no jeito que ele contou pareceu real. Era o tipo da coisa que não se inventava e o tipo da coisa que a gente não mente a respeito. Seja o que for, eu acreditei naquele momento, e ainda hoje, passados tantos anos, ainda acredito.

O Guilherme contou que no dia seguinte a experiência a mãe dele o chamou na sala e perguntou se ele havia chamado gente de fora e se haviam feito bagunça na sala. Até aí, nada de mais, mães tem um sexto sentido para pequenas coisas, a minha sabia exatamente quando entravamos na sala e mexíamos nos vasos de cristal e cinzeiros proibidos. O Guilherme é claro, com o mecanismo de defesa no máximo, mentiu e disse que ninguém tinha ido lá. Aí a mãe dele perguntou algo que o deixou pasmo:

"Se ninguém veio aqui, quem foi então que rachou a carranca da sala?"

Na hora eu não entendi o que tinha a ver. Eu não sabia, mas o Guilherme fez o favor de explicar que a carranca era um tipo de objeto de proteção, para quem acreditava nessas coisas, que servia para afugentar os maus espíritos e proteger uma casa da presença de coisas que pudessem fazer mal aos seus donos. Era por isso que marinheiros pintavam carrancas na proa de seus barcos, pois no entender deles não havia nada mais perigoso do que singrar mares desconhecidos que podiam estar repletos de espíritos malignos. A carranca representava um tipo de proteção, afugentando aquilo que não se queria ter em casa.


Eu fiquei sem palavras e a única coisa que consegui dizer, recorrendo ao manto protetor do ceticismo foi repetir: "Vai se foder! Que mentira!". 

Nada de bala de menta dessa vez. Gosto de cinza e zimbro.

Eu não queria acreditar! O problema é que a cara do Guilherme e a maneira como ele contou a história pareciam perfeitamente verdadeiras, como quando você é criança e conta como um parente morreu em um acidente rodoviário. É algo sobre, nessa idade, não se mente por achar absurdo inventar sobre algo tão sério. Guilherme tinha a cara de alguém que perdeu metade da família numa colisão frontal!

Ele pediu para que eu não contasse a ninguém, e até onde lembro mantive minha promessa por muitos anos. Só fui comentar isso muito depois com colegas do Ginásio, quando já tinha perdido o contato com todos.  

Eu gosto de pensar que sei guardar segredos e que levo a sério quando alguém pede sigilo sobre alguma coisa. Mas acho que nesse caso, meu silêncio se devia a outra coisa...

Ainda desconfiado, ou desejosamente cético da história, aceitei o convite do Guilherme de ir até sua casa e ver a carranca que estava na mesma sala onde tínhamos feito a Experiência com o Ouija naquela tarde. 

Gostaria de dizer que era brincadeira dele ou exagero, mas não.

A carranca de madeira estava rachada de lado a lado, bem na face medonha pintada de branco e vermelho. Era como se ela tivesse caído ou recebido um belo de um golpe com uma lâmina, um machado ou uma faca quem sabe. A rachadura não era funda, outrossim, longa, tinha talvez uns 25-30 centímetros e se estendia verticalmente de forma que era impossível não perceber só de olhar para ela. Começava no topo e ia deslizando até a abertura da bocarra cheia de dentes.

Guilherme disse que a mãe tinha ficado chateada, mas que não se importou muito no fim das contas. A coisa pertencia ao pai dele que a comprou numa viagem a Ilhéus ou algo assim, a mãe achava que era de mau gosto, mas acabou aceitando a presença dela ali dando de ombros quando o pai insistiu. Alguns compram berimbaus, outros compram carrancas quando visitam a Bahia. Ainda bem que a família do Guiga era fã de carrancas.

O que eu posso dizer dessa história que se estendeu por mais linhas do que eu planejava?

Que as vezes, coisas estranhas acontecem e que nem sempre a gente sabe explicar ou mesmo, precisa explicar. As vezes é melhor deixar pra lá e somente contar de vez em quando, apenas para não esquecer. Eu sei no entanto, e lembro bem que quando olhei para aquela carranca feiosa na sala ("quem tem um negócio desses") a coisa não estava rachada.

Dizer que ela nos protegeu de um "espirito maligno" é meio demais, mesmo porque eu não acredito nessas coisas faz tempo, mas naquela ocasião parecia perfeitamente aceitável. E tenho certeza o Guilherme também acreditava. 

Se a carranca não estivesse na sala, alguma coisa diferente aconteceria? Se sim, quem seria o tal J.P. se é que não passava de alguém empurrando o copinho de vidro forçando seu deslize pelo tabuleiro?
Eu me perguntei essas coisas por algum tempo até perderem importância e não me incomodarem mais.

Da minha parte continuei interessado em histórias desse tipo, não por acreditar nelas, mas por me considerar um Cético com um forte Senso de Curiosidade. Em algum momento, até cheguei a comprar volumes do Ciências Proibidas em sebos pela cidade. Descobri depois de ler que os livros não eram nem de longe tão macabros quanto imaginava naquela época. Tenho inclusive a primeira edição, aquela com a capa demoníaca que a despeito de minhas descrenças continua, aos meus olhos, extremamente assustadora. Entretanto, nunca achei uma edição que viesse com o Tabuleiro Ouija, acho que quem tem não vende. Talvez, ninguém mais tenha hoje em dia.

Eu me pergunto se achasse uma edição completa, tabuleiro e tudo, se faria uso dele. Talvez em nome dos velhos tempos. Quem sabe J.P. decidisse dizer um olá e até logo...

É com esse espírito (trocadilho intencional) que estou abrindo uma janela de busca no site Estante Virtual aqui na aba do computador. 

Quem sabe o que encontro aqui.

Desejem-me boa sorte.