sábado, 15 de julho de 2017

Cthulhu X Jaime Lannister - Um pequeno conto por George R.R. Martin



Postado originalmente em 6 de Junho de 2013

A página da internet Suvudu promove lutas entre personagens da ficção em ambientes inesperados. São combates entre personagens como Gandalf, Raistlin Majere, Roland Deschain, Conan, o Bárbaro, Eragon, Harry Dresden, Aslan...

O nome da brincadeira é Cage Match e as lutas são julgadas por um grupo de analistas do blog (nerds de altíssimo nível!!!) que escrevem então um texto de como transcorre a batalha e qual o vencedor mais provável.

No Cage Match 2013, o impetuoso regicida Jamie Lannister, personagem da saga "Game of Thrones" passou com tranquilidade pela sua primeira luta, enfrentando Herminione Granger (de Harry Potter) e acabando com ela de forma rápida e eficiente.

A batalha seguinte não seria tão simples, já que Jamie enfrentaria o Grande Cthulhu em pessoa.

Como era de se esperar, Cthulhu derrotou Jaime, conforme segue no link abaixo: 


Foi quando George R. R. Martin, autor da saga "A Song of Ice and Fire" resolveu entrar na brincadeira escrevendo como seria uma luta entre o regicida e o terrível Grande Antigo.

Essa é a versão escrita por Martin que mostra um desfecho inesperado: 

CTHULHU vs JAIME LANNISTER (round 2)
Por George R.R. Martim


"Livros?" perguntou Jaime. "Como livros vão me ajudar em uma luta?"

"Eles podem contar mais a respeito da coisa que você vai enfrentar." Tyrion jogou o tomo empoeirado sobre a mesa.

"Cthulhu," disse Jaime pensativo. "Parece o som que homens velhos fazem quando puxam o catarro da garganta." Ele passou a mão boa sobre a capa dos livros. Eles tinham títulos estranhos, em línguas que ele desconhecia, embora ele não estivesse surpreso que o irmão conhecesse. "Abdul Alhazared," pronunciou, virando algumas páginas. "Isto é um disparate! Que língua é essa?"

"Uma pergunta justa," reconheceu Tyrion, "para a qual eu não disponho de resposta. Esses volumes vieram das terras sombrias além de Asshai. Mas aqui, veja isso. Essa é uma tradução, de uma tradução de uma tradução, pelo que vejo." O anão folheou as páginas até encontrar o que buscava. "E aqui temos ilustrações. Veja! Este é Cthulhu."

Jaime observou. "Isso?"

"Isso."

"Ele é tão grande quanto Casterly Rock."

"Maior. Se Casterly Rock caísse na sua cabeça ele talvez nem percebesse"

"Maldição dos Sete Infernos." Ainda que tivesse duas mãos, Jaime Lannister não tinha certeza de como poderia enfrentar uma coisa daquelas. "Esses tentáculos... essa coisa parece ter acabado de comer vinte krakens gigantescos, e não teve tempo de engolir tudo." Ele sentou e começou a espiar os livros. "Talvez se eu tivesse um dragão... "

"Talvez se você tivesse uma centena de dragões." Tyrion cruzou as pernas na sua poltrona e começou a revirar as páginas de outro livro chamado Mysteries of the Worm.

"Leia. Eu farei o mesmo. Você não tem muito tempo."

"Creio que não," Jaime admitiu. "O que devo procurar?"

"Fraquezas."

Jaime observou a imagem de Cthulhu novamente. "Ele tem olhos," disse. "Um ponto vulnerável, quem sabe. Uma lança enfiada no olho pode matar um dragão." Mas como diabos ele chegaria até os seus olhos? A coisa era mais alta do que a Muralha. "Uma corda e um gancho... Eu posso tentar escalar a criatura, como se ela fosse uma montanha... mas eu precisaria de duas mãos para subir..."

Ele sabia muito bem que não tinha duas mãos.

"Você poderia ter vinte mãos," comentou Tyrion sem tirar os olhos do livro que lia. "Os tentáculos iriam te pegar e despedaçar seu corpo como um osso de galinha." Ele virou outra página. "É melhor começar a ler, se você quiser trepar com nossa irmã novamente."

Jaime começou a ler. Não era seu passatempo favorito, mas ele sabia que o irmão tinha razão.

Mais ou menos uma hora se passou até ele falar novamente. "Aqui tem algo interessante," disse. "Elder Signs." Ele virou o livro para que Tyrion pudesse ver melhor.

O anão coçou o nariz, e ponderou. "Hmmm. Sim. Símbolos de proteção. Isso pode ser muito útil."

"Posso pintar um desses no meu escudo," considerou o guerreiro.

"Em seu escudo e em toda a sua armadura," sugeriu Tyrion. "Mas pintura pode ser apagada facilmente. Tenha esses Elder Signs gravados no metal."

"De acordo." Jaime se ergueu e chamou seu armeiro para que ele começasse o trabalho. "Quero também na minha espada," disse ao homem. "Dos dois lados."

Tyrion continuou lendo. "Isso é uma pena."

"O que?" Jaime serviu uma taça de vinho. Ler tudo aquilo dava muita sede.

"Bem, aqui diz que o mero vislumbre desse Cthulhu deixa as pessoas loucas de terror."

Jaime gargalhou. "Não eu." Ele deu um gole de vinho. "Às vezes um pouco de terror faz um homem lutar melhor."

"Estamos falando de muito terror," explicou o anão. "Não o tipo que faz lutar melhor. Está mais para aquele terror que faz você sujar as calças e ficar no chão babando, entendeu?"

Aquilo realmente complicava a situação. Mesmo coberto de Elder Signs, como ele lutaria com a maldita coisa se não pudesse sequer olhar para ela? "Eu terei de lutar vendado?" ele perguntou ao irmão. "Symeon Olhos de Estrela lutava assim, é verdade, mas ele treinou por anos lutar sem o benefício da visão. Como eu vou encontrar a coisa, para começo de conversa?"

"Bem, imagino que ele tenha um cheiro," disse Tyrion com uma expressão pensativa. "Mas parece que não é possível matá-lo também."

"Um ataque bem executado no olho... " insistiu Jaime, apegando-se a esperança.

"... não causará nada além de um mero inconveniente, o problema é que a coisa já está morta, ou é morta-viva, ou... Escute isso:

"Não está morto o que pode eternamente jazer.
E em estranhas eras mesmo a morte pode morrer."

"Duvido que eu possa esperar por eras," considerou Jaime. "Então a coisa é um deus, é isso?"

"Praticamente." Carrancudo, Tyrion virou mais algumas páginas. E então sorriu. "Oh, espere um instante. Aqui está!"

"O que é agora?" perguntou Jaime.

"Ele está dormindo." Tyrion apontou a página. "Aqui está bem claro. E também no outro tomo. Cthulhu está dormindo em R'yleh no fundo do mar."

"E como isso nos ajuda?" perguntou Jaime.

"Bem," ponderou Tyrion, "não vamos acordá-lo. Se Cthulhu não aparecer, você vence por desistência. Um camarada grande como esse precisa dormir. Eu detestaria perturbar seus sonhos, você não?"

"Nós todos precisamos sonhar," disse Jaime, com um sorriso amarelo. "Mas temo que alguém irá despertá-lo."

"Um monte de gente!" o anão confessou. "Estão apostando fortunas no grandalhão."

Era a mais pura verdade. Quando Jaime caminhou até o campo de batalha designado, próximo do mar, ele encontrou mais de vinte sacerdotes; acólitos com olhos grandes e redondos, mãos com dedos vestigiais, barrigas brancas de peixe, e até uma guelra ou duas. No momento que eles o viram, começaram a cantar em uníssono, "Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn" dançando em círculo, com seus membros pálidos erguidos para o céu. Os olhos voltados para as ondas. Nenhum deles prestava atenção em Jaime... até que ele removeu o manto, revelando a armadura dourada coberta dos pés a cabeça de Elder Signs.

Então eles começaram a gritar. Satisfeito, Jaime vestiu o elmo e sacou a espada da bainha.

Os sacerdotes eram lentos e desajeitados, ao menos em terra. Nenhum deles estava armado, e sua lâmina penetrou na pele macia deles como uma faca de pescador, os Elder Signs na lâmina afiada brilhando a cada morte. Sangue verde espirrou para todo lado. O chão ficou escorregadio com escamas e tripas fedorentas de peixe. Logo não havia mais ninguém cantando.

Cthulhu jamais apareceu. Jaime esperou sinceramente que ele estivesse tendo bons sonhos. Quem sabe ele tivesse uma bela irmã também.

"Creio que você venceu esta," disse Tyrion, quando o sol despontou no horizonte. Não havia mais ninguém para contestar.

"Vamos reclamar nosso prêmio. Você não vai acreditar em quanto vou ganhar por ter apostado em você irmão."

10 comentários:

  1. Caramba, como assim?!?!? Que bizarro.

    ResponderExcluir
  2. Sinistro, né? E foi o Martin que Escreveu!

    ResponderExcluir
  3. Mal perdedor, rss... Mas muito bem sacado. Se Cthulhu realmente aparecesse, poderia dizer adeus aos fóquis com a irmãzinha, rss...

    ResponderExcluir
  4. Eu gostei muito desse texto. Imaginar uma maneira de evitar que Cthulhu aparecesse para a luta é bem típico dos Lannister. Genial!

    ResponderExcluir
  5. Espetacular. Sou fã dos dois personagens e é claro do pai de todos eles :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pai de todos rles? Cthulhu n é do Martin, é Lovecraft

      Excluir
  6. Por que será que todo mundo adora um Crossover?

    ResponderExcluir
  7. Gostei muito do conto, que bela saída Martin arrumou.

    ResponderExcluir
  8. Um cenário unindo Game of Thrones e Mitos de Cthulhu não seria irado para uma campanha ?

    ResponderExcluir
  9. Só mesmo impedindo a invocação do Cthulhu,um tampinha como o Jamie Lannister poderia vencer esse duelo!Porém usar de um golpe baixo é típico de alguém como ele.
    Eu também já fiz um conto similar,mostrando o encontro entre a turma do Scooby Doo e Shub Niggurath.

    ResponderExcluir