domingo, 23 de julho de 2017

Cropsey - A Lenda Urbana de um assassino sem rosto


Quem ou o que é Cropsey?

Cropsey é o sujeito que sua mãe dizia que ia te pegar se você não se comportasse. Cropsey é o bicho papão que assusta crianças e faz com que elas tenham medo de ir ao banheiro de madrugada. Cropsey é o nome sussurrado pelos amantes que invadem uma casa abandonada para namorar. Cropsey é o maníaco armado com um gancho, que mata sem motivo aparente.

Cropsey é um mito, um terror que não se apaga e parece se alimentar do pavor que provoca. 

Ele é a figura central em uma série de Lendas Urbanas da região de Staten Island, interior de Nova York. De acordo com a narrativa mais difundida, Cropsey seria o fugitivo de um manicômio judiciário, um demente extremamente perigoso, isolado do mundo e mantido em uma cela de onde jamais deveria escapar.

O Manicômio de onde ele teria fugido é o Seaview Hospital, em Staten Island, uma enorme instituição para doentes mentais fechada em 1974 depois de sucessivas denúncias de super-lotação e maus tratos. Os internos do Seaview eram mantidos em condições degradantes, com pouca comida, sem roupa e em estado de completo abandono. Muitos deles ficavam confinados em celas dia e noite, mantidos no escuro em cubículos de três metros quadrados.

Mas será que Cropsey realmente existiu ou tudo não passa de história?


É provável que Cropsey não passasse de uma lenda urbana fabricada, o tipo da história criada para assustar as crianças. Ao menos até que ela se cristalizou no mundo real na forma de um homem chamado Andre Rand.

Rand, nasceu como Frank Rushan e pouco se sabia de sua vida além de que era zelador da Escola Estadual Willowbrook, uma instituição para crianças problemáticas a pouco mais de seis quilômetros do Manicômio Seaview. 

Durante os 40 anos em que funcionou, o Willowbrook colecionou histórias desagradáveis envolvendo abuso de menores em suas instalações. Havia rumores sobre surras, agressões e estupros, mas não existiam provas concretas ou pessoas interessadas em investigar as denúncias. É importante diferenciar a Escola Willowbrook do Manicômio Seaview. Muitos acreditavam que os dois eram a mesma coisa, contudo, apesar de estarem próximas e ambas serem famosas pelo tratamento inadequado, eram duas instituições diferentes. As crianças no colégio eram oriundas de programas que as afastava das escolas tradicionais por considerá-las um risco para os outros estudantes. 

Em 1972 o apresentador de televisão Geraldo Rivera se infiltrou em Willowbrook e realizou filmagens que mostravam as condições para o público. A pressão popular foi imensa, sobretudo depois que as filmagens mostraram rapazes sendo algemados e espancados por funcionários. A escola foi fechada, os alunos mandados para outras instituições e dezenas de funcionários afastados ou presos.

Andre Rand, que na época era o zelador pediu permissão para ficar em Willowbrook mesmo depois deste ser desativado. Ele foi admitido como vigia, incumbido de cuidar das instalações, realizar sua manutenção regular e manter as pessoas afastadas. Uma cerca foi erguida ao redor do terreno e Andre passou a cuidar do pátio e do prédio principal que rapidamente caiu em estado de deterioração tornando-se em poucos anos uma ruína.


Alguns acreditam que Rand era um dos funcionários responsáveis pelos maus tratos ocorridos em Willowbrook e que seu lugar era na prisão. Ex-alunos reconheceram o zelador e atribuíam a ele várias ocorrências de violência e crueldade. Até mesmo casos de tortura foram mencionados, ocorridos no barracão em que o zelador vivia.

Verdade ou mentira, Rand jamais foi formalmente acusado pela sua conduta na escola. Ele continuou vivendo no mesmo barracão; sozinho e isolado de todos. Era um homem estranho que não tinha amigos ou parentes próximos. Seu único passatempo era vagar pelos arredores da Escola desativada, recolhendo objetos abandonados. Ele também era visto acampando na densa floresta que cercava a instalação, um lugar ermo chamado Greenbelt. Testemunhas diziam que ele falava sozinho e conversava com pessoas que só ele enxergava. Gargalhava e xingava seus amigos imaginários. Todos preferiam evitar aquele sujeito grande e mau encarado.

A primeira criança a desaparecer nos arredores da Floresta Greenbelt foi Alice Pereira de 5 anos, que sumiu em 1972 enquanto estava brincando com seu irmão. Alice teria se escondido em um antigo túnel que pertencia ao Willowsbrook e sumiu sem deixar vestígio. A população local se reuniu para procurar a criança, mas nada foi encontrado. A polícia chegou a interrogar Rand, mas não o consideraram um suspeito na época.

Em 1981, uma menina de 7 anos chamada Holly Ann Hughes não voltou para casa depois de visitar um mercado para comprar uma barra de sabão. Andre Rand foi visto naquele mesmo dia andando pela cidade, coisa que ele raramente fazia. Ele foi visto no mesmo mercado onde a menina esteve, aproximadamente 20 minutos antes dela ser vista pela última vez. Após uma busca que se mostrou infrutífera, os pais de Holy Ann espalharam cartazes com a foto da menina e de Rand perguntando se alguém havia visto os dois juntos. Três testemunhas afirmaram ter visto um homem parecido com Rand acompanhado de uma criança, mas dois deles não foram capazes de apontar o zelador em uma linha de reconhecimento. A floresta e as ruínas da Escola abandonada foram revistadas por policiais, mas nada foi encontrado.


Dois anos passaram e Tiahese Jackson de 11 anos foi a próxima a desaparecer enquanto voltava de uma lanchonete. Ela foi vista próxima ao Mariners Harbor Motel em Staten Island em 14 de agosto, apenas 12 dias depois de Rand ter sido liberado da cadeia. O zelador havia sido detido sob suspeita de ser procurado em outro estado, uma acusação que se mostrou errônea. Rand foi questionado, mas não havia nada que apontasse para sua culpa.

Em 1984, Hank Gafforio de 22 anos sumiu nas proximidades do Greenbelt de Staten Island. Hank era descrito como um rapaz "lento" e tinha um QI de 70. Algumas pessoas afirmaram ter visto Hank na companhia de um homem mau encarado que lhe deu carona em um carro preto. Rand, na época havia comprado um automóvel velho azul escuro e costumava andar com ele pelas estradas marginais. Na ocasião, alguns habitantes foram até Willowbrook exigir que Rand contasse o que sabia. A polícia o protegeu e levou até a delegacia onde ele foi interrogado. No barracão foram encontradas roupas de criança escondidas no fundo de um armário, alguns afirmaram que pertenciam a algumas das meninas desaparecidas, nenhuma delas foi reconhecida pelos pais.

A essa altura a má fama de Rand crescia, acompanhando as muitas histórias a respeito de um maníaco chamado Cropsey. Pais e adultos usavam a lenda do maníaco para desencorajar as crianças a sair de casa sozinhas. Cartazes foram espalhados pela área de Staten Island alertando a todos para evitar a floresta de Greenbelt. Em um deles se lia: "CROPSEY ESTÁ À SOLTA! EVITE SAIR SOZINHO!"


Em 1987, Jennifer Schwiger de 12 anos que tinha Síndrome de Down, desapareceu. Um casal contou ter visto uma menina vestindo um agasalho vermelho conversando no acostamento com um homem num carro azul escuro. Jennifer usava um agasalho vermelho na ocasião em que sumiu e o casal reconheceu uma foto do carro e de Rand mostrada pela polícia. Uma busca foi conduzida em toda Floresta Greenbelt com ajuda da Guarda Nacional que enviou mais de 300 homens para auxiliar nos trabalhos.

No terceiro dia de busca, um bombeiro aposentado localizou um acesso a um túnel oculto que pertencia ao sistema de drenagem e esgoto da Escola Willowbrook. Investigando esses túneis, os homens encontraram vários acessos cuidadosamente escondidos e uma série de grafites grotescos desenhados nas paredes internas. Os rabiscos mostravam uma figura ameaçadora armada com facas e ganchos perseguindo e matando crianças. O nome Cropsey havia sido rabiscado nas paredes em garranchos junto com ameaças e palavrões. 

"Cropsey vai matar os moleques", "Cropsey vai estripar os pequenos filhos da p...", "Cropsey vai arrancar os olhos e coração".

As buscas se concentraram nesses túneis que compunham um longo sistema de passagens subterrâneas escuras, muitas delas bloqueadas por detritos. No interior de uma dessas passagens, policiais encontraram uma sacola com objetos pessoais que depois foram reconhecidos como pertencentes a Andre Rand. O suspeito a essa altura havia sido dispensado de seu trabalho como zelador e estava vivendo como indigente num camping. Próximo da sacola o grupo de busca localizou o corpo de Jennifer Schwiger; a menina havia sido estuprada e sufocada até a morte com cadarços. 

Uma caçada humana foi realizada em Staten Island em busca de Andre Rand. Ele foi encontrado vagando por uma estrada e levado para a delegacia que imediatamente foi cercada por populares que queriam linchar o Monstro de Staten Island.
    

Durante o longo interrogatório conduzido, Rand foi confrontado com as acusações e com a informação de que ele havia sido processado em 1969 como suspeito do estupro de uma jovem. Rand negou sua culpa durante toda entrevista, mas reconheceu que era o autor dos rabiscos que cobriam as paredes dos túneis. Ele, no entanto, negava ser Cropsey! Depois de algumas horas de interrogatório insistente, ele começou a contar uma história no mínimo bizarra. Afirmava que Cropsey era um ex-interno do Hospital Seaview, um homem que ele conhecia há mais de 15 anos e que vivia escondido nos túneis. E mais, Cropsey havia sofrido um acidente ainda quando era interno do Seaview e seu rosto havia sido horrivelmente queimado. Andre contava que levava comida para o sujeito por sentir pena dele e que suspeitava que o homem era o responsável pelos crimes, mas que não o denunciava por temer que ninguém acreditasse em seu relato.

Buscas foram realizadas no interior dos túneis, várias câmaras ocultas foram descobertas contendo objetos aparentemente retirados das ruínas do Manicômio Seaview e da Escola Willowbrook. Entre os objetos estavam muitas roupas, sapatos, bandejas de alumínio e até camisas de força. Um aposento havia sido revestido com bandejas presas na parede como uma grande sala metálica. Em outro aposento, correntes haviam sido rebitadas nas paredes, lá havia um colchão imundo removido das ruínas e desenhos pornográficos. Não havia, no entanto, sinal de um habitante clandestino como Rand havia relatado. 

As paredes do túnel eram um mosaico de desenhos horripilantes mostrando um personagem recorrente, um homem grande e assustador perseguindo e matando crianças. As cenas eram tão medonhas que alguns detetives chegaram a passar mal apenas em vê-las. Infelizmente nenhum sinal das crianças desaparecidas foi encontrado, como muitos esperavam.

Apesar dos fortes indícios, a promotoria sabia que não tinha um caso forte contra Rand. Eles optaram por processá-lo apenas pelo assassinato de Jennifer Schweiger. Durante o julgamento, o advogado de Rand afirmou que havia uma figura que atendia pelo nome de Cropsey à solta em Staten Island e que ele era de fato o responsável pelos crimes, não o seu cliente. A defesa mandou fazer um cartaz com o retrato falado de Cropsey conforme uma descrição de Rand e esta imagem se tornou famosa em toda nação. Cropsey era descrito como um homem com quase dois metros de altura, pálido, calvo e com o rosto marcado por queimaduras. Ele andava arrastando uma perna e tinha dificuldade ao falar. Cropsey, nas palavras de Rand, odiava as crianças pois quando era jovem havia sofrido nas mãos delas que caçoavam de seu jeito de falar. Ele não sentia remorsos em matá-las, para isso, usava as próprias mãos, as estrangulava e depois enterrava em covas na Floresta Greenbelt próximas das saídas dos túneis.

Rand passou por detectores de mentira com resultados inconclusivos. A perícia do corpo da menina Schweiger não resultou em evidências que apontassem para o suspeito. Ele aceitou também ser hipnotizado e segundo especialistas durante o transe relatou detalhes sobre suas conversas com Cropsey. Alguns sugeriram que o maníaco seria uma personalidade criada por Rand e que o advogado cogitava declarar insanidade. 


Em 1988, o julgamento enfim se encerrou. Rand foi condenado por sequestro em primeiro grau e sentenciado a 25 anos de prisão. O juri foi incapaz de determinar se ele era o responsável pelo assassinato da menina. Na cadeia, Rand se tornou um prisioneiro de comportamento exemplar que jurava inocência e pedia anulação de seu caso por ausência de provas. Seus pedidos foram sistematicamente negados.

Em 2004, a apenas quatro anos dele se torna apto para condicional, Rand foi levado a julgamento uma vez mais, dessa vez pelo assassinato de Holly Ann Hughes, a segunda vítima desaparecida 23 anos antes. A promotoria apresentou novas provas no processo e o juri se convenceu de que Rand era o responsável por sequestrar a menina. Ele foi sentenciado a mais 25 anos de cadeia e poderá pedir condicional em 2037, quando terá 93 anos de idade.

Os casos de Tiahease Jackson, Alice Pereira, e Hank Gafforio permanecem sem solução. Em todos eles, Rand permanece como o principal suspeito, mas não há provas contra ele. Os corpos continuam desaparecidos, eles permanecem como jovens que se tornaram para sempre, vítimas da Lenda de Cropsey.

Ainda hoje, Staten Island é considerada assombrada por uma presença invisível que impõe um véu de paranoia e terror sobre seus habitantes. Essa é a zona de caça de Cropsey e seu nome ainda causa muito medo em todos que vivem na região.

3 comentários:

  1. Muito bom o post. Caras, estou narrando um campanha pathfinder com elementos lovecraftianos, estou usando raças "menores" para introduzir Tsathoggua como um deus esquecido despertando da sua hibernação. Queria mais informações sobre o Povo Serpente que um dia o serviu, teria como publicar algo a respeito?

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    1. Povo Serpente é uma das Raças Independentes com mais assunto. MUITA coisa mesmo para falar a respeito, por isso sempre foi meio que intimidador.

      Mas vamos tentar ora dessas.

      No que tange a D&D, eu aconselho olhar com carinho para os Yuan-Ti que são uma espécie de "homenagem" do D&D aos Serpent People. O "Volo's Guide to Monster", lançado em 2016, oferece uma boa análise deles e de várias de suas tribos e sub-espécies.

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  2. Adoro essas postagens! Bom texto e conteúdo

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